Salada de Pimentões e Anchovas

Verão é época de comer saladas. Estou aqui em pleno verão portuga e pensei que uma saladinha cairia bem para o calorzinho que anda fazendo. Para falar a verdade não anda fazendo tanto calor assim! Desde que estou aqui foi o verão menos quente que passei por terras de Florbela Espanca, e consequentemente o melhor! Porque calor de 40ºC e secura total é horrível! Que saudades de uma chuvinha de verão. Aliás, até teve chuva de verão este ano! Mas estava gelada! Encerrando a seção “reclamações inconseqüentes de imigrante rebelde”, vamos à receita.

Não é receita tuguesa não! É da Tierruca! Mas dá para fazer por cá e também no Brasil, já que os ingredientes existem tanto de um lado como do outro do oceano.

Para quem não sabe, Cantábria é uma terra muito boa de pesca. Desde o tempo em que os animais falavam, esta região espanhola sempre esteve voltada para o mar irremediavelmente, graças a sua geografia. Alguns dos melhores navegadores daquela época em que espanhóis e portugueses foram rumo à América eram cantábricos. Lembram das três naus com as quais Colombo chegou à América? A Pita, Niña e Santa María? A Santa María na verdade era propriedade de Juan de la Cosa, um navegador e cartógrafo cantábrico nascido em Santoña. Juan de la Cosa foi responsável pela elaboração do primeiro Mapa Mundi, em 1500, onde apareciam as então novas terras descobertas com as viagens de Colombo (inclui-se aí uma boa porção do que hoje é o Brasil, visto que os espanhóis chegaram até a foz do atual Rio São Francisco antes de Cabral).

Mas vamos deixar esta parte de lado já que vamos falar de receita hoje. Como eu disse, Cantábria é uma terra boa de pesca, melhor seria dizer, tem um litoral rico para a pesca. E um dos principais produtos destas águas são as Anchovas (Engraulis encrasicolus). Coloco o nome científico para que saibam qual o peixe chamado de Anchova aqui, já que existem outros peixes que são vendidos como anchovas em conserva mas não são o mesmo peixe. Aliás, também pode ser chamada de Aliche no Brasil. Encontramos este peixe em conserva, bem salgadinho, mergulhado em azeite ou óleo vegetal, sendo assim que é usado nesta receita.

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SALADA DE PIMENTÕES E ANCHOVAS

Ingredientes:

12 filés de anchovas
1 cebola
azeitonas pretas
2 pimentões vermelhos
vinagre de vinho branco
1 colher (sopa) de azeite de oliva
sal à gosto

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Modo de Preparo:

Antes de mais nada, deve-se assar os pimentões. Há várias maneiras de se fazer isto. Pode-se colocá-los sobre a chama do fogão cobertos com sal e deixar queimando sua pele levemente, virando-os, até que fiquem pretas. Depois tira-se esta pele e tem-se o pimentão totalmente sem pele e pronto para usar. Outra forma, que faz menos sujeira, é colocá-los no forno embrulhados em papel alumínio (a parte brilhante para dentro). Deixe uns 20 minutos no forno quente e retire. A pele do pimentão deve ser removida com ele ainda um pouco quente, caso contrário ela não sai facilmente.

Passado este primeiro passo, corte o pimentão sem a pele em tiras, coloque em uma travessa e tempere com sal e azeite. Corte a cebola em tirinhas bem fininhas e reserve. Sobre as tirinhas de pimentão coloque os filés de anchovas e as tiras de cebola de forma harmoniosa. Tire os caroços das azeitonas e corte-as em rodelas fininhas e coloque-as sobre a travessa onde está montando a salada.

Com o azeite, sal e vinagre prepare um molho mexendo muito bem para que misture os ingredientes o melhor possível. Regue a salada com este molho e sirva a seguir.

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Muito cuidado com o sal, pois as anchovas já vem com bastante sal, é aconselhável provar antes de colocar o molho para não exagerar.

Se quiser acrescentar alface, aspargos, tomates, nesta salada, tudo bem, a salada é sua!

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Pudim de Maçãs “Pasiego”

Mais uma receita para dar cabo aos carregamentos de maçãs! É, às vezes elas aparecem aos montes, já comentei isto aqui. Então a solução, na falta de ter condições materiais de abrir uma pequena fábrica de sidra, é fazer algo com tantas maçãs. Este pudim é lá da terra de meu pai, onde aliás, há grande produção de maçãs, e sidra. É uma daquelas receitas de outros tempos, que dá um certo trabalho para preparar mas que fica maravilhosa.

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PUDIM DE MAÇÃS “PASIEGO”

Ingredientes:

1 kg a 1,5 kg de maçãs
suco de meio limão
3 ovos inteiros batidos
1 xícara (chá) de açúcar
6 bolachas champanhe desfeitas
frutas ou chantili para decorar
um pouco de margarina
farinha de rosca
caramelo

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Modo de Preparo:

Para fazer o Purê de Maçãs:

1ª opção:

Coloque as maçãs lavadas e secas em uma assadeira e leve ao forno. Assim que estejam moles retire do forno, deixe amornar e retire as cascas e sementes. A massa resultante das maçãs assadas passa-se por um espremedor ou peneira grossa, até que vire um purê, acrescentando o suco do limão e o açúcar e misturando muito bem. Deixe esfriar.

2ª opção:

Descasque e corte as maçãs, retirando as sementes, em cubinhos pequenos. Coloque as maçãs em uma panela e regue com o suco de limão. Acrescente 1 colher (chá) de margarina ou manteiga, tampe a panela e deixe cozinhar por cerca de 6 minutos. Após estes minutinhos, acrescente o açúcar, deixe cozinhar mais um pouco, desfazendo-as até que virem um purê. Deixe esfriar.

O Pudim:

Desmanche as bolachas champanhe até que virem um pó, e junte-as ao purê de maçãs já frio. Neste processo deve-se bater muito bem para que não fiquem pedacinhos das bolachas. Junte os ovos previamente batidos. Assim que esteja tudo bem misturado, leve esta mistura ao fogo baixo, mexendo sem parar, para que a massa adquira consistência. Este processo não leva muito tempo, apenas o necessário para que os ovos acrescentados à massa cozinhem um pouco.

Pegue uma fôrma de pudim, unte com a margarina e enfarinhe com a farinha de rosca. Coloque caramelo apenas no fundo da fôrma. Despeje a massa ainda quente. Leve ao forno pré-aquecido, em temperatura média, deixando assar em banho-maria por cerca de 30 minutos ou até que ao enfiar um palito este saia limpo, e a superfície esteja levemente dourada.

Espere esfriar e leve à geladeira sem desenformar. Desenforme apenas quando esteja gelado, mergulhando a fôrma em água quente para soltar mais facilmente. Enfeite com frutas em calda, maçãs assadas, chantili ou como bem entender.

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Não é qualquer maçã que dá um bom pudim. As melhores são aquelas com mais massa e secas, menos arenosas e suculentas. O Pudim fica mais durinho, correndo-se menos risco que ele “desabe”.

Pescada com Molho de Sidra

Não gosto de comer peixe, já disse isto aqui. Mas… às vezes temos que fazer o sacrifício de comer, pois é saudável, faz bem à saúde, etc. Então fica hoje uma sugestão de peixe que eu consigo comer!

A pescada é um dos raros peixes que consigo comer, gosto do sabor, da consistência. Primeiro conheci este peixe como Merluza, e só depois aprendi que também diz-se Pescada em português. Como sou uma cozinheira preguiçosa assumida, costumo fazer de formas pouco saudáveis. Mas esta que se segue é até saudável e não é trabalhosa.

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PESCADA COM MOLHO DE SIDRA

Ingredientes:

4 postas grossas e grandes de pescada
1 cebola grande cortada em cubinhos
2 dentes de alho picados
2 colheres (sopa) de salsinha picada
2 cenouras
1 pimentão vermelho
1 pimentão verde
200 g de camarões-rosa ou lagostins sem a casca
4 colheres (sopa) de azeite
1 copo de sidra
1 colher (sopa) de farinha de trigo
pimenta-do-reino à gosto
sal à gosto

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Modo de Preparo:

Corte a cebola e os dentes de alho. Raspe as cenouras e corte-as em palitinhos. Corte os pimentões em tiras. Aqueça o azeite e refogue o alho e a cebola até que a cebola fique transparente. Acrescente a farinha, mexa rapidamente para que incorpore o azeite e não crie pelotinhas. Junte a sidra aos poucos, sem deixar de mexer. Tempere com o sal e a pimenta, junte a salsinha e deixe cozinhar por cerca de 7 minutos. Caso empelote este molho, passe-o por uma peneira metálica grossa para desfazer qualquer pelotinha que tenha se formado.

Em uma travessa que possa ir ao forno, coloque as cenouras, os pimentões e as postas de pescada e cubra-as com o molho feito previamente. Leve ao forno quente em temperatura alta por cerca de 10 minutos ou até que as postas e os legumes estejam devidamente cozidos. Após estes minutos, retire do forno, junte os camarões e leve novamente ao forno até que estes fiquem também cozidos.

Sirva em seguida, guarnecido com ervilhas e acompanhado de batatas ou arroz branco.

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Não sabe onde achar sidra? Eu também não ando sabendo onde achar por aqui onde vivo. Pode usar vinho branco, não é a mesma coisa mas serve.

Caso goste, pode acrescentar outros seres marinhos à mistura, como ameijoas ou vieiras.

As famosas batatas ao murro são um bom acompanhamento para este peixinho.

Lentilhas com Bacon

lentilhasLentilhas eu gosto muito! E como há tempos não posso comer feijão porque passo mal, elas substituiram-no na minha alimentação. Desde que provei as lentilhas com morcela da prima lá em Torrelavega, sempre quis fazer umas tão boas quanto as dela, mas creio que me faltou muita prática e algum talento para que ficassem tão boas como as da prima.

Assim sendo, depois de cansar de fazer a mesma receita sem conseguir o mesmo resultado (ficaram comíveis, eu que sou exigente demais), resolvi ir à caça de alguma outra receita da Tierruca para fazer lentilhas saborosas. Encontrei esta que deixo hoje, que garanto é muito boa! Mas, espera um minutinho. Não sabe o que são lentilhas? Dá uma olhada ali do lado na foto.

É isto aí! Já deve, talvez, ter comido em final de ano, pois as lentilhas, por seu formato que lembra moedas, é considerada uma semente que traz fortuna, e final de ano é momento de sonhar com a fortuna que não se conseguiu entre outras coisas, e é comum comer lentilhas em fim de ano. Outra curiosidade sobre lentilhas é que a palavra lentes derivaria de lentilha. Em espanhol lentilla (lê-se lentilha) é o nome usado para designar as lentes de contato e não o legume, sendo este chamado de lentejas.

Ao que parece, este legume é originário da Ásia, sendo consumida pelo ser humano a cerca de 8 mil anos, já que foi um dos primeiros alimentos a ser cultivado ainda na Pré-História. Dos tempos pré-históricos, onde existia apenas na Ásia Central, foi espalhando-se conforme o ser humano migrava, e chegou à África e Europa.

Existem dezenas de variedades de lentilhas, com diferentes cores e tamanhos. As lentilhas, comparadas com outros legumes, é de rápido cozimento, sendo as verdes e castanhas as que após cozidas melhor mantém a forma original. Dão excelentes purês, são perfeitas para saladas e cozidos. Devido ao sabor suave são um bom acompanhamento para pratos com sabor mais acentuado que se queira manter em destaque, e se cozidas com algum outro legume ou carnes absorvem o sabor dos demais temperos e ingredientes com os quais são preparadas.

As lentilhas são altamente nutritivas, ricas em proteínas e sem gordura alguma. São ricas em vitamina B e ácido fólico, fósforo e potássio. É um alimento que auxilia na diminuição do colesterol e diminui o excesso de açúcar no sangue. Para quem tem problemas digestivos também é uma boa pedida, já que suas fibras insolúveis contribuem para um bom trânsito intestinal.

Já lhe convenci a comer lentilhas? Então vamos à receita.

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LENTILHAS COM BACON

Ingredientes:

350 g de lentilhas
100 g de bacon
1 cebola
2 dentes de alho
1 folha de louro
3 colheres (sopa) de azeite
1 colher (sopa) de vinagre de vinho branco
sal à gosto
páprica doce

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Modo de Preparo:

Deixe as lentilhas de molho por cerca de 4 horas.

Escorra-as e coloque-as em uma panela com água fria, a folha de louro e sal. Tampe a panela e cozinhe em fogo baixo até que fiquem macias. Pique a cebola em cubinhos, corte o bacon em cubinhos. Em uma frigideira, coloque o azeite e frite o alho até que fique dourado, retire e reserve. Frite o bacon até que fique também dourado. Junte a cebola e refogue até que fique ligeiramente dourada. Pegue o alho frito reservado e em um pilãozinho, desmanche-o com sal e páprica, juntando por último o vinagre para diluir a mistura. Acrescente esta mistura às lentilhas. Quando as lentilhas estiverem no ponto junte o bacon e cebola fritos, juntamente com o azeite. Deixe cozinhando mais 5 minutinhos e sirva ainda quente.

Pode acrescentar um arroz branco ou batatas cozidas para acompanhar. E como é receita espanhola, não esqueça de pão, ou pão frito se não estiver de regime.

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Para saber mais sobre lentilhas veja:

Portal São Francisco

Cozido Montanhês

Desde que me entendo por gente sempre ouvi falar deste bendito Cozido Montanhês. É mais uma receita da verdíssima Cantábria. Lá chove muito, no inverno faz mesmo frio, e este cozido é uma boa pedida para dias frios. Sempre o encarei como uma espécie de feijoada de feijão branco, mas não chamem de feijoada por favor. É Cozido, Montanhês. Montanhês é como os naturais de Cantábria eram chamados há muito tempo atrás, pois Cantábria era chamada de La Montaña. Mas caso não queira confundir as montanhas, até pode se atrever a chamá-lo de Cozido Cantábrico, mas não de feijoada!

É altamente calórico, não sendo recomendado para quem está de regime. E quem não tem paciência para esperar mais de 1 hora para que fique pronto nem arrisque.

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COZIDO MONTANHÊS

Ingredientes:

cocidomontanes400 g de feijão branco
300 g de costela defumada
100 g de bacon
100 g de toucinho
100 g de linguiça defumada
100 g de morcela
1 kg de couve (pode variar com repolho ou acelga)
100 g de orelha de porco
1 cebola
1 dente de alho
páprica doce
azeite para refogar
sal à gosto

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Modo de Preparo:

Deixe o feijão de molho um dia antes.

Corte as carnes em pedaços grandes, exceto a morcela que deve ser deixada inteira. Corte a couve em tiras grossas.

Cozinhe o feijão com o toucinho, em fogo baixo. Conforme for cozinhando acrescente mais água se se fizer necessário, deixando até que o caldo engrosse. Na metade do cozimento do feijão, junte a costela e a orelha. À parte, cozinhe a couve em bastante água, também em fogo baixo, junto com o bacon, a morcela e a linguiça.

Em outra panela coloque o azeite e doure a cebola e o alho. Assim que a cebola esteja transparente, tempere com sal e páprica. Despeje esta mistura sobre a couve.

Agora você tem duas opções. Misture tudo na mesma panela e sirva ainda quente. Ou misture a couve com o feijão, separe as carnes e sirva o feijão e a couve em um prato de sopa, acompanhado das carnes em outro prato.

Mas seja qual for a opção que escolha para servir, sirva sempre acompanhado de pão, que não pode faltar em uma refeição tipicamente espanhola.

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A morcela só deve ser cortada depois de cozida, pois caso contrário corre o risco de desmanchar-se durante o cozimento.

Caso não encontre morcela pode substituir por outro embutido ou fazer sem ela.

Não tente fazer este cozido em fogo alto, precisa mesmo ser em fogo baixo, para que o caldo fique com a textura certa. Nada de panela de pressão para cozinhar o feijão!

Detalhe importante: na receita original cantábrica faz-se com couve, porém pode-se encontrar cozidos semelhantes levando acelga ou mesmo repolho, por isto a sugestão deixada acima.

Gaspacho Clássico

Sábado falamos do filme Mulheres à beira de um ataque de nervos, e deixamos um vídeo da cena em que os personagens tomam um gaspacho. Resolvemos então matar a curiosidade de quem nunca ouviu falar de ou provou gaspacho e deixar uma receitinha clássica, que encontramos em El Blog Alternativo, e do qual fizemos uma mera tradução para quem não entende a língua de Calderón de la Barca.

Mas antes vamos explicar o que é o Gaspacho. É uma sopa fria feita com vegetais e legumes, muito comum no sul da Península Ibérica. No Brasil a receita é associada à culinária espanhola, apesar de existir em Portugal também. Como sopa fria é alimento para ser consumido no Verão, inclusive podendo-se adicionar cubinhos de gelo para que fique mais gelado ainda. Existem algumas versões diferentes do Gaspacho, em que ele pode ser totalmente batido, transformando-se em um creme que pode ser bebido como um suco, ou pode ser feito com os ingredientes apenas cortados em pedaços bem pequeninos e consumido em prato de sopa, acompanhado de pão ou torrada. A versão totalmente batida é a mais popular na Espanha, enquanto a outra é típica do sul de Portugal. O tempero também pode variar bastante, existindo versões bem apimentadas como outras de sabor suave.

A versão que deixamos é um Gaspacho clássico da culinária espanhola, sendo chamado aqui por Portugal de Gaspacho Andaluz. Você do Brasil, anote para quando chegar o Verão.

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GASPACHO CLÁSSICO

(traduzido e adaptado de El Blog Alternativo)

Ingredientes:

gazpacho001 kg de tomates maduros bem vermelhinhos, de preferência para os que tem mais suco
1 cebola
1 dente grande de alho
1 pimentão verde
1 pepino sem a casca
100 ml de azeite
50 ml de vinagre de vinho branco
sal à gosto
água o suficiente

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Modo de Preparo:

Lavar os legumes, descascá-los e cortá-los em pedaços bem pequenos. Bater tudo no liquidificador, juntando um pouco de água para liquefazer a mistura e bater melhor. Mas sem exageros, pois não deve ficar muito líquido, e sim com a consistência de um creme. Depois de batido, coe em uma peneira grossa, caso não queira consumir como um suco. Guarde na geladeira em uma sopeira ou mesmo em uma jarra. Sirva bem gelado, em copos, cuias, pratos, como bem entender.

Caso queira beber como um suco, acrescente mais água. Se quiser tomá-lo como uma sopa, deixe mais grosso, e não esqueça de pedacinhos de pão ou torrada para acompanhar.

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Há versões em que o Gaspacho é engrossado com pão velho para ficar mais cremoso e consistente. Nesta em particular não leva, mas deixamos a dica para quem quiser arriscar.

Lunes de Aguas

Vista de Salamanca, com o rio Tormes à frente.

Vista de Salamanca, com o rio Tormes à frente.

Hoje é El Lunes de Aguas em Salamanca. A primeira segunda-feira (lunes) depois da Páscoa é celebrada de modo bem original nesta cidade. Quando ouvi falar a primeira vez em Lunes de Aguas, achei que era um festa de origem pagã relacionada com as águas do Rio Tormes. Quanta inocência de minha parte! Que tinha a ver com o rio tinha, mas não pelas razões que eu achava.

Tudo começou ainda no século XVI, quando no reinado de Felipe II, no dia 12 de novembro de 1543, o jovem rei com apenas 16 anos chega a Salamanca para seu casamento com a princesa Maria de Portugal. Felipe II, nos dias que permanece em Salamanca fica chocado com a mistura que percebe reinar na cidade. Uma cidade sóbria, sede do saber e do cristianismo, estava lotada com cerca de 8000 estudantes, que eram acompanhados de criados, taberneiros, amas, lavadeiras, e outros que lhes serviam, além de prostitutas. O jovem rei não se conforma com isto e resolve baixar um decreto que, com certeza, não agradou aos 8000 estudantes. A proibição de se comer carne na Quaresma foi extendida a todos os sentidos possíveis e imagináveis, incluindo também as prostitutas. A razão deste decreto era impedir que, durante a Quaresma, os homens da cidade caíssem no terrível pecado da luxúria.

Local tradicional da festividade, as margens do rio Tormes (com a ponte romana ao fundo).

Local tradicional da festividade, as margens do rio Tormes (com a ponte romana ao fundo).

Assim, durante a Quaresma foi proibida a presença das mulheres públicas na cidade. As prostitutas que viviam na chamada Casa de Mancebía (Bordel), deveriam retirar-se, indo para o outro lado do Rio Tormes, rio que passa pela cidade de Salamanca. Na quarta-feira de Cinzas, estas senhoras atravessavam o Tormes, acompanhadas do Padre de Mancebía ou Padre Putas. O Padre, que ganhou este apelido popular curioso – mas com uma certa lógica – deveria atender estas almas cristãs durante o período da Quaresma, enquanto padre, além de vigiá-las para que não cometessem o pecado da Luxúria. As senhoras de vida alegre estavam proibidas de se aproximarem da cidade, tendo que manter uma distância de pelo menos uma légua dos limites de Salamanca, sob pena de sofrerem grande castigo (100 chicotadas). O senhor padre também era responsável pelo fornecimento de alimentos, medicamentos, médicos, mobiliário para as ditas senhoras nos dias em que estivessem impedidas de exercerem sua profissão.

Cena típica das tardes do Lunes de Aguas, famílias reunidas nos campos para comemorar a data.

Cena típica das tardes do Lunes de Aguas, famílias reunidas nos campos para comemorar a data.

Durante toda a Quaresma elas ficavam fora da cidade, até que, com a segunda-feira depois da Páscoa, eram liberadas para voltarem a Salamanca. Neste dia, a segunda-feira que ficou conhecida como El Lunes de Aguas, o Padre Putas conduzia as senhoras até a cidade, em uma curiosa “procissão”. Uma multidão de estudantes festejava a volta das prostitutas, não poupando em hornazo, bebidas e bailes, junto às margens do Rio Tormes ou em barcas espalhadas pelo rio. Os demais habitantes da cidade, não ficavam de fora, assistindo das margens do rio o grande espetáculo do retorno glorioso das prostitutas que voltavam de seu forçado desterro e eram conduzidas vitoriosas até a Casa de Mancebía – claro, com algumas paradas pelo caminho.

Até os dias de hoje esta data é comemorada, apesar de as prostitutas não serem mais expulsas da cidade durante a Quaresma. Mas na falta de prostitutas para receberem no rio, é feita uma encenação, com atrizes no papel das mulheres públicas, e de um homem representando o já citado Padre Putas. O Padre Putas, além de ser representado por um ator na encenação do retorno das prostitutas, também é representado por um cabeçudo (um boneco) que faz parte de várias festas salmantinas. Porém, o cabeçudo ganhou o singelo nome de Padre Lucas.

O tradicional hornazo, cortado.

O tradicional hornazo, cortado.

Esta representação da volta das profissionais é feita desde os anos de 1980, sendo feriado na segunda à tarde. Hoje em dia, as famílias se reúnem pela tarde e saem para o campo, parques ou para as margens do rio e fazem um pique-nique familiar, comendo, claro, o famoso hornazo de Salamanca. O Ayuntamiento (prefeitura) de Salamanca, disponibiliza divertimento extra nos parques para alegrar a data. E as lojas, padarias, confeitarias ou quaisquer comércios do ramo alimentar, enchem-se de hornazos dias antes para abastecer a procura desenfreada do tradicional prato do dia. A cidade transforma-se, e há um sorriso maroto na cara dos jovens. Devem sentir uma pontinha de inveja dos jovens de antigamente que participavam da volta das prostitutas. A festa do Lunes de Aguas – hoje, festa familiar – acabou por se espalhar para localidades próximas, não sendo mais exclusiva da cidade de Salamanca. Até do lado português da fronteira há festividades em algumas localidades relacionadas a este evento.

Apenas como curiosidade, deixo a receita do famoso hornazo que se come nesta data. Prato rico em carne, gordo, inapropriado para pessoas que estejam de regime ou com restrições alimentares – além de caro. Mas ficou na História com o retorno triunfal das damas que alegravam os estudantes salmantinos de outros tempos.

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HORNAZO

hornazo00Ingredientes:
Massa:
1 kg de farinha de trigo, aproximadamente
250 ml de azeite de oliva
250 ml de vinho branco seco
250 ml de água
2 ovos inteiros
50 g de manteiga ou banha de porco
1 pitada de açúcar
sal à gosto
Recheio:
300 g de lombo defumado em fatias grossas
150 g de lingüiça defumada em rodelas grossas
150 g de presunto defumado em fatias grossas
2 ovos cozidos
1 ovo batido para pincelar o hornazo

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Modo de Preparo:

Recheio:

Em uma frigideira, coloque azeite e as fatias do lombo, vire algumas vezes e junte a lingüiça. Mexa mais um pouco, abaixe o fogo e deixe mais uns 5 minutos. Reserve. Cozinhe os ovos e, quando prontos, corte-os em rodelas.

Massa:

Em uma bacia, coloque metade da farinha, faça um buraco no meio e coloque a manteiga derretida, o azeite, o vinho e a água. Misture tudo muito bem e acrescente o sal e o açúcar, além dos dois ovos. Amasse com as mãos até conseguir uma massa homogênea. A massa estará no ponto quando começar a soltar das mãos. Caso seja necessário acrescente mais farinha. Muita farinha pode deixar a massa dura e difícil de abrir. Deixe descansar por 30 minutos em local seco e quente, coberta com um pano.

Divida a massa em duas partes. Unte o rolo de massa com óleo ou azeite e abra a massa, sobre uma superfície limpa e enfarinhada, até conseguir o tamanho desejado. Unte e enfarinhe uma forma e coloque esta massa, de forma que a massa cubra não apenas o fundo mas as bordas da forma e ainda sobre um pouco da massa para fora.

Montagem:

Espalhe o recheio frito, os ovos e o presunto defumado. Cubra com a outra parte da massa, já estendida também como a primeira. Com a ponta dos dedos, feche as bordas da massa, dobrando a borda da base para cima da cobertura, deixando-as bem unidas. Se sobrar alguma massa, pode-se fazer tiras e colocar por cima do hornazo formando desenhos a gosto.

Sobre o hornazo, ainda antes de levar ao forno, passe um ovo batido para que fique brilhante. Fure com um garfo a superfície do hornazo para que saia o ar durante o cozimento. Leve ao forno a 180ºC, colocando a forma na parte central da altura do forno. Deixe cerca de 30 minutos no forno, ou até que fique dourado.

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Quando vivi em Salamanca, fiz como todo bom salmantino, enfrentei fila e comprei um pronto. Mas uns tempos depois fiz esta receita e ficou quase igual ao comprado pronto. Muito gordo, mas imperdível.