Paco y Veva

pacoyveva00Esta foi a primeira série espanhola que vi na vida. Sozinha, recém-chegada na Espanha, liguei a televisão e comecei a ver um povo falando um espanhol rapidíssimo e com palavras que papai não me ensinou. Curiosa, continuei assistindo – e adquirindo vocabulário do espanhol coloquial jovem. Não foi a melhor série que já vi na vida, nem diria que é uma série, digamos, assim tão boa. É divertida, sem dúvida. Também, é comédia, ao menos divertida tem que ser.

A série foi transmitida pela TVE, também conhecida pelo povão como La Primera. Foi ao ar no ano de 2004 e teve apenas duas temporadas de 9 episódios cada uma. Foi a primeira série totalmente produzida pela TVE. Teve em sua estréia a melhor audiência de uma série de televisão na Espanha, mas a concorrência e o horário acabaram por fazer com que a série perdesse audiência. Para piorar a situação, e levá-la a ser retirada do ar definitivamente, o estúdio onde era gravada sofreu um incêndio que destruiu-o quase que por completo, entre a primeira e segunda temporadas.

Paco e Veva (lê-se beba) é uma comédia-musical voltada para o público juvenil, que conta a história de um casal, Paco (Hugo Silva) e Veva (Elena Ballesteros). Eles são de classes sociais diferentes e têm, o tempo todo, que enfrentar as artimanhas de suas famílias e amigos para separá-los. Pode-se dizer que é uma, mais uma, versão moderna do clássico Romeu e Julieta. As histórias apresentadas na série eram simples, corriqueiras, entrelaçadas com musicais, que ilustravam alguns dos momentos românticos ou engraçados vividos pelos personagens.

É dificílimo encontrar qualquer informação sobre esta série pela internet. Tudo bem que ela não foi nenhuma maravilha, mas tinha lá seus momentos engraçados. Fique com duas cenas, das raras que se pode achar na internet, com momentos de tensão cômica. Não tem legenda.

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Para saber mais sobre a série veja: Paco y Veva

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Hospital Central

hospitalcentral00Há algo que acontece na televisão espanhola que é fazer versões próprias de séries de sucesso, com sotaque espanhol, considerando a realidade e mentalidade espanholas. Estas “cópias” às vezes são tão boas que ganham personalidade própria, e podem ser tão boas ou melhores que as originais. Nos princípios do cinema espanhol passou-se a mesma coisa, sendo regravados clássicos de Hollywood em uma versão espanhola. Então, como no Brasil esta faceta da Espanha é desconhecida, vamos apresentar este mês somente séries espanholas. Começamos com a nossa série favorita, Hospital Central. Advinha de que série é clone? O nome já entrega. Plantão Médico (E.R.).

Mas Hospital Central, apesar de algumas histórias em comum com a já clássica Plantão Médico, tem, como já disse, personalidade própria. Seus personagens, que a princípio são cópias espanholadas dos personagens de Plantão Médico, com o desenrolar da série e seu sucesso com o público, ganham vida própria, histórias que somente a mente de um espanhol poderia produzir, não copiar de um gringo. Na Espanha passa na TeleCinco. Em Portugal é transmitida pelo AXN. No Brasil passa? Sei não. Mas se quiser dar uma olhadela procura aí uns episódios que legenda em português existe, em português de Portugal. Hospital Central é uma série produzida por Videomedia para a TeleCinco que estreou no ano 2000. É a série a mais tempo no ar na televisão espanhola. Conta com 18 temporadas. É que a série tem duas temporadas por ano, tendo um intervalo no meio do ano, para férias.

Tudo gira em torno da vida dos personagens que trabalham no Hospital Central, um fictício hospital de Madri. As ações dividem-se entre o hospital, as saídas do pessoal do SAMU, e algumas histórias de pacientes que são previamente apresentadas antes de que parem no hospital, ou dos próprios trabalhadores em momentos fora do trabalho. Sim, mas não há tédio não. Ao longo da série os personagens tem suas histórias de amor, de tragédia, seus momentos cômicos explorados, algumas doenças comuns e outras raras são apresentadas aos telespectadores (televisão também é cultura), além de acidentes em massa que tornam o hospital um verdadeiro inferno na terra.

Dr. Hector (Roberto Drago) à esquerda, e o assistente social Carlos (Jesús Olmedo) à direita.

Dr. Hector (Roberto Drago) à esquerda, e o assistente social Carlos (Jesús Olmedo) à direita.

Na 14ª temporada, a série completou 200 episódios, indo ao ar um especial no qual participaram atores que já tinham participado da série mas saíram ao longo dela. Entre os personagens mais marcantes está Teresa (Marisol Rolandi), recepcionista e fofoqueira de plantão do Hospital, além de conselheira, mãe substituta, etc. É uma das personagens que está na série desde o primeiro capítulo. Um outro que passou pela série e foi muito popular foi Rusty (Ángel Pardo), auxiliar de enfermagem, faz tudo, piadista de plantão que acabou por sair da série. Entre os médicos um dos mais marcantes foi o Dr. Rodolfo Vilches (Jordi Rebellón), com um gênio terrível, mal humorado, antipático, mas muito profissional, que acaba saindo de cena por uns tempos por ser perseguido por um mafioso na série. Dr. Javier Sotomayor (Antonio Zabálburu) é outro que está na série desde o princípio, sendo um personagem que faz com que o telespectador permaneça em uma dúvida eterna se é bom ou mau rapaz. Em certa altura também aparece o médico argentino Héctor (Roberto Drago), muito simpático, divertido, que passa a série na busca de uma estabilidade afetiva, por algum tempo serve de saco de pancadas do Dr. Vilches, que na realidade o adora. Mas há médicas também, como a Dra. Cruz (Alicia Borrachero) que casa com Vilches, separa, chega a dirigir o Pronto Socorro do Hospital e a dada altura cheia de problemas, vai embora. A atriz Alicia Borrachero faz um personagem do filme As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian, interpretando a rainha Prunaprismia. Outra médica que se destaca é a Dra. Maca (Patricia Vico) – o nome do personagem é Macarena, mas é chamada de Maca. Ela rivaliza na ascensão profissional com Javier por toda a série, e tem um relacionamento com a enfermeira Esther (Fátima Baeza), com quem casa e tem um filho. Não se esqueçam que na Espanha o Matrimonio entre pessoas do mesmo sexo é legal desde 2005. Há inúmeros personagens encantadores ao longo da série mas se formos falar de todos este post vira um livro.

Imagens do episódio do acidente aéreo

Imagens do episódio do acidente aéreo

Como dissemos antes, são criados na série alguns acidentes em massa mostrando o hospital sobrecarregado em situações como esta. Um dos acidentes criados pela série tem uma história meio sinistra. Para a estréia da 16ª temporada foi gravado um acidente de avião em Barajas, aeroporto de Madri. Neste acidente, a maioria dos passageiros morriam, e um dos personagens centrais, o médico Javier, tinha parte do braço decepado que depois era reimplantado. Dias antes da estréia da temporada aconteceu realmente um acidente no aeroporto de Barajas muito semelhante ao que já estava gravado havia meses. As semelhanças entre os dois acidentes (o real e o da série) eram tantas que o capítulo acabou por não ir ao ar na estréia da série, indo um segundo capítulo e sendo este apresentado tempos depois (veja link no final do post).

No momento está no ar a 18ª temporada. Recomendo para quem sabe espanhol visitar o site oficial da série. Nele pode-se ver os episódios inteirinhos (somente de algumas temporadas), sem legendas claro. Aliás, fica a dica para os professores de espanhol. Bom programinha para passar um trecho em uma aula. Digo um trecho porque os episódios costumam ter entre 80 e 90 minutos de duração.

Fique com um pequeno vídeo que é um resumo do capítulo 200 da série, onde se apresenta um pouco da história que vai se desenrolar no capítulo assim como podemos ver alguns dos personagens que estão na série neste momento, como outros que já saíram.

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Site oficial: Hospital Central.

Blogs dos roteiristas da série.

Guillermo Zapata – Casiopea

Antonio Cuevas – Zeroneuronas

Notícia: No habrá accidente de avión en “Hospital Central”.

O Cavaleiro de Motos

Vista do pueblo de Motos.

Vista do pueblo de Motos.

Motos é um pequeno povoado com pouco mais de duas dezenas de habitantes, em uma zona montanhosa, no sudeste da província de Guadalajara, na Comunidade Autônoma de Castilha La Mancha, praticamente junto à província de Teruel. Está a 1419 m de altitude junto ao monte da Abadía ou del Castillo. Próximo encontra-se o rio Gallo, que por muito tempo funcionou como um limite natural deste pueblo. Motos pertenceu por longo tempo ao Real Senhorio de Molina. O Real Senhorio de Molina foi um senhorio jurisdicional, no período medieval, estabelecido ao redor da vila de Molina de Aragón, dentro da atual província de Guadalajara. Foi fundado no século XII, como um senhorio independente dos reinos cristãos que o cercavam, sendo o fundador e primeiro senhor Manrique de Lara. Era nesta época uma zona de fronteira entre reinos cristãos e as taifas andaluzas.

Em 1129 a taifa de Molina foi conquistada pelos cristãos, sob o comando do Reino de Aragão, mas o repovoamento (ocupação da área conquistada por famílias cristãs) foi empreendido pelo Reino de Castilha. As duas coroas acabaram por disputar a posse destas terras. Manrique de Lara, era conde e senhor de Lara, tendo influência nos dois reinos cristãos. Fez-se mediador em um encontro conhecido como Concórdia de Carrión, em 1137, e justamente aí consegue a posse das terras de Molina mantendo a zona independente dos dois reinos, mas aliada de ambos. Em 1138 nasceu o Senhorio que foi independente das duas coroas durante mais de 150 anos. Com o passar do tempo, os senhores de Molina vão aparentando-se com a nobreza de ambos os reinos cristãos, até que o senhorio passa a estar ligado, ou a uma coroa ou à outra, deixando de ter um senhor independente dos reis. Quando há a união dos reinos, com o casamento dos Reis Católicos, conhece-se na região uma certa tranqüilidade, já que não houve por longo tempo disputas militares entre reinos cristãos. É então que a economia local tem um considerável desenvolvimento, tornando-se a capital do senhorio, Molina de Aragón, uma rica cidade.

Neste contexto de dispustas fronteiriças, surge uma figura de caráter suspeito: o Cavaleiro de Motos. Conhecido como Beltran de Oreja, era natural de Hita, um povoado um pouco distante de Motos, mas também na atual província de Guadalajara. Teve seu auge enquanto cavaleiro indesejado no reinado de Enrique IV de Castilha (1425-1474), que além de nada de concreto fazer para deter o cavaleiro, ainda piorou mais a situação quando tentou impor como senhor de Molina, a um nobre de nome Beltrán de la Cueva, que foi totalmente rejeitado pela população do Senhorio de Molina. O Cavaleiro de Motos, já aposentado de suas façanhas de fora-da-lei, acabou por integrar as forças na luta contra o senhor de Molina rejeitado pelo povo.

Não se sabe ao certo o que é verdade ou mentira sobre o Cavaleiro de Motos, mas ao que consta, existiu de verdade, não sendo apenas mera lenda. O que o torna lendário são suas façanhas, e as incertezas que ainda perduram sobre o que é verdade ou inventado em relação a este cavaleiro medieval fora-da-lei.

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O CAVALEIRO DE MOTOS

Local onde provavelmente, lá no alto, existiu o castelo do Cavaleiro de Motos (foto de Alustante)

Local onde provavelmente, lá no alto, existiu o castelo do Cavaleiro de Motos (foto Alustante)

No século XV houve em Motos um castelo. Este castelo só existiu porque um dia Motos teve um cavaleiro. Este cavaleiro era mais bandido que cavaleiro. Chamava-se Beltran de Oreja e era de Hita. Uma certa vez, teve atritos com um Procurador do Reino de Castilha, nas Cortes celebradas em Madri por Enrique IV. Esta desavença acabou por culminar com o tal cavaleiro dando uma violenta bofetada no procurador. Por causa desta briga desapareceu, não se sabe se por ter sido desterrado pelo rei ou por crer que poderia ser executado, fugindo e escondendo-se por um bom tempo, até que um dia voltou a Hita.

Mas ao que parece não acreditava que estaria seguro em Hita. Escreveu para o rei de Aragão oferecendo-lhe seus serviços. O rei de Aragão aceitaria seus serviços, desde que o rei de Castilha desse seu concentimento. Nem fora contratado nem dispensado dos serviços para os quais se candidatou. Ainda assim, achou prudente aproximar-se mais ao reino de Aragão por uma questão de segurança, coisa que fez por volta de 1458, rumando para o Senhorio de Molina.

Foi então que chegou a Motos, acompanhado de sua família, fazendo muita ostentação, apesar de estar praticamente falido. Outros no entanto, dizem que sua chegada foi bem mais modesta, trazendo não a família, mas seu cavalo e alguns poucos homens que o acompanhavam e serviam.

Trocou de nome para Alvaro de Hita e solicitou uma vaga de cavaleiro, que era o ofício de pobres fidalgos na defesa do gado e das fronteiras de um senhorio, além de participação em possíveis guerras. A cada 100 cabeças de gado colocadas sob sua proteção, recebia uma gratificação. Conseguiu a vaga de cavaleiro e com este ofício reunir um bom dinheiro. Mas a maior fortuna que alcançou com este ofício foi conhecer palmo a palmo todas as terras da redondeza, seus esconderijos, possíveis rotas de fuga, e tudo o mais que lhe permitiriam exercer um novo ofício. Preparou-se muito bem e tornou-se um cavaleiro brigante, um refinado sinônimo de ladrão.

Foi então que construiu em Motos uma casa fortificada, ou pequeno castelo. Aproveitando-se da confusão que reinava, do desgoverno e indisciplina social nos tempos do reinado de Enrique IV, o Impotente, começou a fazer suas andanças, roubando aqui e ali. Motos era zona de fronteira entre os reinos de Castilha e Aragão, e para piorar a situação – e facilitar a vida do Cavaleiro de Motos – era também um nó fronteiriço entre jurisdições eclesiásticas e civis. Existiam muitos senhores dividindo o poder, e assim, diminuindo-o na hora de tomar medidas drásticas contra o temível cavaleiro. Os locais nada podiam fazer, as autoridades também nada faziam de concreto, e o Cavaleiro de Motos conseguiu reunir um considerável grupo de homens, soldados desertores e facínoras. Comandava-os com mão de ferro mantendo-os sob seu controle e exigindo o melhor de cada um.

Graças a muitas façanhas malignas em seu ofício de nobre ladrão, sua fortuna foi aumentando mais e mais, e dizem que com esta fortuna construiu – outros dizem que ocupou – um castelo dentro de Aragão, próximo a Ródenas, atual província de Teruel, chamado de San Ginés. Segundo algumas versões é nesta época que traz sua família de Hita, mulher e irmãos para viver neste castelo.

No senhorio de Molina foram edificados vários fortes para defenderem-se deste temível cavaleiro. O desespero era tal que conseguiram erguer uma fortificação em apenas 80 dias, sem janela alguma, na localidade de Orea. Mas nem todos o temiam, sendo que entre os populares angariou muitos admiradores. Estes admiradores ocupavam-se em espalhar aos quatro ventos suas façanhas, às vezes aumentando o feito do herói bandido. Além de vítimas nas redondezas também estabeleceu amizades com senhores locais, conseguindo a tranqüilidade necessária para viver recolhido por uns tempos em suas terras. Já rico, o Cavaleiro de Motos deixou de praticar seus ataques crimonosos, tornando-se um homem respeitável ao prestar seus serviços de experimentado cavaleiro às famílias nobres da região.

Em certo momento, o rei Enrique IV de Castilha resolveu que o Real Senhorio de Molina seria dado a um nobre chamado Don Beltrán de la Cueva. Muitos locais do senhorio não desejavam tal nobre ocupando esta posição. Havia outro candidato para o posto, Don Diego Hurtado de Mendoza, senhor de Castilnuevo, do qual o Cavaleiro de Motos tomou partido.

Em meio a toda esta disputa pelo Senhorio de Molina, dizem alguns, mas não há certeza, que o Cavaleiro de Motos caiu em um embuste muitas vezes por ele mesmo utilizado. Don Alvaro de Hita foi atraído a um encontro, foi preso e encarcerado em uma fortaleza de Toledo, no castelo de Almonacid. O que lhe aconteceu depois ninguém sabe. Não se sabe se um dia recuperou sua liberdade, se morreu na prisão ou se foi executado. Há outra versão que diz que o temível cavaleiro teve um final certo. Um dia em seu castelo de San Ginés, teria ficado muito doente, e percebendo a proximidade da morte, exigiu que o levassem a Motos, onde tinha sua casa principal. Ali teria morrido, sendo que em seu enterro foram muitas pessoas importantes da redondeza.

Não sabemos qual a versão verdadeira do fim deste temível cavaleiro. Mas o fim de seu castelo em Motos é mais certo. Ao que se sabe, Fernando II de Aragão em 1479, a pedido dos camponeses prejudicados pelos assaltos do Cavaleiro de Motos, teria ordenado a demolição total do castelo, que foi derrubado com a ajuda dos locais, restando até os dias atuais apenas quase imperceptíveis vestígios.

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Fontes:

Alustante

Asociación Cultural Amigos de Motos

InfoMolina

Leyenda del Caballero de Motos

A flor da gruta

hada-aguaHá na Mitologia da Cantábria, Espanha, um ser conhecido como Anjana, nome derivado de Jana que era usado na Idade Média para designar as feiticeiras. Mas na verdade, nada têm de feiticeira uma Anjana. São seres bondosos que protegem as pessoas honradas, aos apaixonados e aos que se perdem nos bosques ou caminhos. São belas mulheres, com longos e finos cabelos, enfeitados com flores e laços de seda. Vestem-se delicadamente, com túnicas de seda branca. Usam sandálias e carregam um cajado com poderes mágicos, com o qual amansam as feras do campo com um simples toque. Também é com este cajado que realizam suas magias e curas milagrosas. Ninguém sabe ao certo a origem das Anjanas, mas dizem alguns que seriam espíritos das árvores que se encarregam de cuidar dos bosques. Alimentam-se de mel, morangos, caldas adocicadas e outros frutos que o bosque lhes proporcionam. Vivem em grutas secretas que dizem ter o piso forrado de ouro e prata, nas quais ficam guardadas riquezas que acumulam para as pessoas necessitadas.

Passam o dia andando pelas trilhas dos bosques, sentando-se para descansarem nas margens das fontes. Os riachos parecem ganhar vida com a passagem das Anjanas. Nas fontes, conversam com as águas, que parecem emergir mais alegres e cristalinas. Também ajudam aos viajantes perdidos, aos pastores, aos animais feridos e às árvores atormentadas pelo vento ou quebradas pelo Ojáncano. Durante a noite passeiam pelos povoados, deixando presentes nas portas das casas daqueles que o fizeram por merecer, graças a suas boas ações. Dizem que as Anjanas reunem-se no início da primavera nos altos pastos dos montes para dançar até o amanhecer, de mãos dadas ao redor de um monte de rosas que, mais tarde, espalham pelos caminhos. Quem encontra uma destas rosas de pétalas vermelhas, verdes e amarelas será feliz até o fim da vida.

Existem diversas lendas, e contos, sobre as Anjanas – e muitas pessoas, até os dias de hoje, juram que viram uma Anjana. Eu vi uma Anjana, rindo-se e dançando pelo campo, enquanto seguia até Altamira, lá na Cantábria. Estava divertindo-se com alegria de criança entre as pequenas flores brancas que cobriam as margens do caminho. Que bela visão eu tive! Fiz-lhe um pedido e ela me atendeu! Ela nunca nega um pedido quando feito com sincera bondade! ;)

Aqui deixamos uma destas muitas lendas, onde um dos personagens principais é uma bela Anjana.

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A FLOR DA GRUTA

Monte Ucieda, Cantábria

Monte Ucieda, Cantábria

Próximo ao desfiladeiro de Santa Lucía, na Cantábria, vivia um rapaz que trabalhava como lenhador chamado Antonio. Ele estava apaixonado por Rosaura, bela jovem de sua aldeia com a qual casaria em breve. Antonio teve que subir ao cume do monte Ucieda para cortar algumas árvores, saindo de casa ao amanhecer, mas chegou ao alto do monte já tarde. Começou a dar machadadas no tronco de uma árvore, porém ouviu uns lamurios que pareciam sair da própria árvore, deixando-o pálido de medo. Horrorizado, parou com o que fazia. Quando recomeçou, voltou a ouvir que ela queixava-se como se fosse uma pessoa. Já ia começar a correr desesperado, quando ouviu uma voz que saía da árvore e dizia:

“Eu sou uma donzela encantada. Dar-te-ei incontáveis riquezas, se for ao remanso do rio e golpear a água com uma vara, até que saia a Anjana. Ela dir-te-á o que deves fazer para desencantar-me.”

O moço correu até o povoado para contar a sua namorada o que havia acontecido. Rosaura aconselhou-o que deveria desencantar a donzela, pois assim poderiam viver ricos e felizes. O lenhador dirigiu-se até o remanso do rio no desfiladeiro de Santa Lucía, e com uma vara golpeou as águas. As águas abriram-se no mesmo instante, emergindo delas uma belíssima Anjana de grande e sonhadores olhos azuis. O rapaz, perturbado diante de tanta beleza, contou-lhe o que havia acontecido no monte, e a Anjana, que estava sentada sobre as águas, depois de escutá-lo, respondeu:

Entra na gruta do Monte Ucieda, busque uma flor muito brilhante e traga-a para mim. Eu lhe direi o que deves fazer com ela para desencantar a donzela.”

soplao

Caverna El Soplao, a cerca de 25 km de Ucieda, Cantábria.

Em quatro pernadas chegou à entrada da gruta, conhecida de todos os aldeões. Todos sabiam de sua grande profundidade, que chega até Bárcena Mayor. Antonio penetrou decidido, buscando a flor brilhante. Na medida em que se distanciava da entrada, aumentava a escuridão, chegando ao ponto de ver-se envolvido pelas trevas e desorientado. Sem saber para onde ir, tateando, seguiu caminhando em busca da flor que não aparecia. Até que sentiu-se rendido pelo cansaço e deixou-se cair ao solo, sem ver a mais pequena luz.

Perdida a esperança de encontrar a flor, decidiu sair e voltou sobre seus próprios passos. Mas encontrou o caminho bifurcado e não sabia qual rumo seguir. Entrou em um deles sem encontrar a saída. Logo deu-se conta de que estava perdido em um complicado labirinto. Enlouquecido, quis gritar e pedir ajuda, mas só lhe respondia o eco de sua voz lastimosa. Novamente buscou com desespero pela flor que, talvez, lhe ajudasse a encontrar a saída. Mas nada brilhava a sua volta. Notou que suas barbas e cabelos cresceram e suas roupas estavam desfeitas. Teve que tirar seus velhos calçados e caminhar descalço, até ferir os pés. Contudo, não sentia nem fome nem sede, e continuava buscando a entrada ou saída da fatídica gruta. Vencido pelo sono dormiu, e sonhou que sua namorada havia se casado com um moço de Ruente que a desejava fazia tempo. Ao acordar sentiu ciúmes e um desejo mais ardente de sair daqueles caminhos subterrâneos, mas sem conseguir. A barba e os cabelos continuavam crescendo e passavam já dos joelhos. Suas forças estavam esgotadas, mas ele continuava buscando a flor.

Finalmente, quando seus cabelos já alcançavam o chão, encontrou-a. Com ela na mão, achou imediatamente a saída. Dirigiu-se à casa de seus pais e chamou, mas quem lhe atendeu era um desconhecido, que ao ouvi-lo dizer que era sua casa pensou que Antonio estava louco, expulsando-o e fechando bem a porta. Foi então à casa de sua namorada e abriu-lhe a porta uma velhinha. Ele achando que fosse sua sogra disse:

“Quero ver a Rosaura, minha noiva. Diga que venha.”

Ucieda de Arriba, Cantábria.

Vista de Ucieda, pueblo pertencente ao município de Ruente, Cantábria.

Mas aquela velhinha era Rosaura que, achando que Antonio não passava de um bêbado, despachou-o de forma pouco educada. Antonio começou a achar que estava enlouquecendo e começou a correr pelas ruas da aldeia, mas caiu no meio de uma ruela. Viu-lhe cair uma velhinha que correu ajudá-lo. Levou-o para casa e deixou-o dormir em seu palheiro. No dia seguinte, foi tratar de Antonio o filho da anciã, cortou-lhe os cabelos e arranjou-lhe umas roupas.

Já mais aliviado, Antonio voltou ao remanso do rio, golpeando as águas até que a Anjana saísse. Entregou-lhe a flor brilhante e disse-lhe a Anjana

“Justo castigo recebeste pelo dano que fizeste àquela moça a quem desonraste.”

E desapareceu a Anjana. Então, lembrou-se com muito pesar que, antes de Rosaura tivera uma namorada chamada Mercedes, a quem havia abandonado depois de desonrá-la. Compreendeu que a Anjana havia lhe castigado evitando, com seu engano, seu casamento com Rosaura. Encheu-se de remorsos, voltou à aldeia e perguntou à velhinha que lhe havia acolhido onde vivia Mercedes, que quando jovem era muito bela. Aquela velhinha era Mercedes! Ele revelou-lhe que era Antonio, e a anciã, cheia de emoção, começou a gritar:

“Carpio, meu filho, vem abraçar seu pai.”

Os três se abraçaram e viveram contentes, protegidos pela Anjana, que o havia castigado a permanecer cinqüenta anos na gruta, apesar de que para ele parecera apenas um mês.

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Fontes:

García de Diego, Vicente – Antología de Leyendas de la Literatura Universal – Editora Labor, Barcelona, 1953.

Llano, Manuel – Mitos y Leyendas de Cantabria – Librería Estudio, Santander, 2001.

Santillana del Mar – o “pueblo” mais belo da Espanha

Trecho da estrada próximo a Santillana.

Trecho da estrada próximo a Santillana.

Já imaginou perder-se por entre altas montanhas recortadas por vales verdes como esmeraldas, e de repente, encontrar-se à beira de uma estrada normal, com uma entrada para um povoado que parece perdido no tempo? Já imaginou seguir por esta entrada e descobrir-se cercado por velhas casas que parecem congeladas através dos séculos, só à sua espera para retornarem à vida, com flores nas varandas, separadas por pequenas ruas calçadas de antigas pedras, por onde já caminharam tantas pessoas de outros tempos? Isto não é impossível. Vivi esta pequena fantasia ao visitar Santillana del Mar, o pueblo das três mentiras. É que dizem que Santillana nem é Santa, nem llana (plana) e nem tem mar. Mas isto é um pouco questionável!

Rua de Santillana, ao fundo a Colegiata.

Rua de Santillana, ao fundo a Colegiata.

Sair da estrada asfaltada, descendo de um ônibus, e caminhando do asfalto para as velhas pedras do calçamento, seguir adiante e ver-me entrar por uma rua que fazia as vezes de túnel do tempo, foi uma sensação única que não me esqueço jamais. E quando as casas começaram a aparecer, de um lado e outro da ruazinha, feitas de pedras que mostravam em sua cor e desgaste quantos séculos se passaram… que mágico! Mais mágico ainda foi caminhar lentamente, apreciando os muitos anos que aquelas casas carregavam e, quando me dei conta, cheguei ao fim da vilinha, atravessando um pequeno rio, na calle del Río. Mas este fim foi grandioso, pois terminava em uma magnífica construção de cerca de 900 anos. A Colegiata Romanica de Santillana del Mar, um mosteiro construído para abrigar os restos mortais de Santa Juliana, conclui a visão do passado em pleno presente nesta bela vila cantábrica. Tirando meus delírios fantasiosos de filha da terra que nunca nela havia pisado, vamos à parte histórica. Ah, e não é Santa mas tem santa.

A Santillana que podemos ver ainda hoje encravada em um belo vale cantábrico, tem um início mesclado entre lenda e História. Dizem, mas não há certeza, que um mosteiro foi fundado por volta do século IX, por monges que escolheram este lugar para guardar os restos mortais de Santa Juliana. O próprio nome Santillana deriva do nome da santa, que em latim era Sancta Illana, depois Sant Iuliana, e com o tempo, virou Santillana.

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Túmulo onde se encontram os restos mortais de Santa Juliana.

Santa Juliana, ao que parece, foi martirizada na Ásia Menor, onde hoje é a Turquia, na época das perseguições aos cristãos feitas pelo imperador Diocleciano, em fins do século III. Os monges, que guardavam os restos de Santa Juliana, eram peregrinos, e acabaram por desembarcar na costa cantábrica, próximo da localidade hoje chamada de Santillana del Mar. Teriam construído uma Capela e um Mosteiro, onde os restos mortais de Santa Juliana poderiam ser venerados.

Já a versão histórica da fundação da localidade, atribui suas origens a uma corrente de repovoamento cristão da região, impulsionada pelos sucessores do rei Afonso I de Astúrias. A consolidação do poder cristão na região deu-se pelo século X, quando esta zona era conhecida como Astúrias de Santillana – nome pelo qual boa parte da atual Cantábria era denominada nesta época. No reinado de Fernando I de Castilha, o abade deste mosteiro ganhou importantes privilégios, no ano de 1045, tornando-o senhor da vila e suas possessões, ou seja, um homem rico, visto que a vila era passagem para os peregrinos que seguiam para Santiago de Compostela, e por aí passavam para venerar Santa Juliana.

Caminhando lentamente, deparei-me com este monumento do românico.

Caminhando lentamente, deparei-me com este monumento do românico: a Colegiata de Santa Juliana.

O templo primitivo foi substituído pelo que conhecemos hoje. Anexos foram construídos posteriormente, sendo que as partes mais antigas da construção que pode ser vista ainda hoje, datam do século XII. No início o mosteiro pertencia à ordem beneditina, mas no século XI, o mosteiro transformou-se em abadia, passando à tutela de uma comunidade de cônegos da ordem de santo Agostinho. No século XII, com o apoio da nobreza, a abadia tornou-se a mais importante da Cantábria medieval.

Em 1209, no reinado de Afonso VIII de Castilha, a vila de Santillana tornou-se a capital das Astúrias de Santillana. Na mesma época o mosteiro entra em decadência, mas é então que a vila passa por um desenvolvimento urbano, ao redor da Plaza Mayor, conhecida atualmente como Ramón Pelayo, e a Torre del Merino.

Vista do alto, tem-se uma idéia melhor da monumentalidade desta construção.

Vista do alto, tem-se uma idéia melhor da monumentalidade desta construção.

Em 1445, o rei Juan II de Castilha deu o senhorio da vila ao primeiro Marquês de Santillana e seus sucessores. Iñigo Lopez de Mendoza, o primeiro marquês, era pai de um dos maiores escritores em língua castelhana, Garci Lasso de la Vega (mais conhecido como Garcilaso de la Vega). Em 1475, os reis católicos concedem o título à família do Marquês de Santillana, de Duques do Infantado, continuando eles com a posse de Santillana.

A vila que conhecemos em um simples passeio é justamente o testemunho deste período de desenvolvimento urbano finalizado pelo século XVIII. No século XIX, era uma vila quase fantasma, mas como fica próximo a Comillas, local de veraneio da família real na época, era passagem obrigatória para visitantes tanto da nobreza madrilenha como catalã.

Bisão pintado, mas na Neo-Cueva, cópia perfeita da velha Cova de Altamira que encontra-se fechada ao público.

Bisão pintado, mas na Neo-Cueva, cópia perfeita da velha Cova de Altamira que encontra-se fechada ao público.

Santillana vira tema literário, sendo citada por autores como Benito Pérez de Galdós. Torna-se ainda no século XIX Monumento Histórico-Artístico Nacional, em 1889. Poucos anos antes, um morador local descobre, melhor seria dizer redescobre, uma caverna com desenhos que por muito tempo tiveram sua autenticidade contestada. Um caçador, ao tentar soltar um cachorro que ficou preso em umas pedras, ao perseguir uma presa, descobre a entrada de uma caverna, em 1868. No princípio, ninguém deu crédito, pois a região é rica em cavernas, sendo que esta era apenas mais uma. Marcelino Sanz de Sautuola acompanhado de sua filha de 9 anos, em 1879, visita a localidade. Ele era um erudito em paleontologia, e tinha como objetivo apenas encontrar alguns restos de esqueletos e peças feitas por homens primitivos. No final das contas, acabou por descobrir a Capela Sixtina da Pré-História, um nome que é dado à Cova de Altamira. Por muitos anos sua descoberta foi contestada, já que naquela época não se acreditava que o homem pré-histórico fosse capaz de fazer desenhos tão realísticos. Somente anos depois, com a descoberta de uma caverna com desenhos de igual qualidade na França, é que a descoberta de Sautuola foi reconhecida.

Praia de Santa Justa, a única do município de Santillana del Mar, na localidade de Ubiarco.

Praia de Santa Justa, a única do município de Santillana del Mar, na localidade de Ubiarco.

Como disse no começo, dizem que Santillana é o pueblo das três mentiras. Nem é Santa, nem llana (plana) e nem tem mar. Na verdade, santa pode até não ser, mas há lá o sepulcro que guarda os restos da Santa Juliana, ao menos teoricamente. Plana, de fato, não se pode dizer que seja, digamos que é ondulada, devido a seu relevo montanhoso. Já o mar, bem, ele não está muito distante… mas… não se vê o mar da vila. Para chegar até a única praia do município de Santillana del Mar, é preciso descer uma estradinha quase vertical que leva a uma pequena e aconchegante praia, a praia de Santa Justa, que fica em um pueblo chamado Ubiarco, pertencente ao município de Santillana, a 5 km da vila histórica. Nesta única praia do município podemos encontrar uma capela provavelmente do século XVI, construída encravada na falha de uma rocha, mesmo à direita da praia. Mas o mar está lá, a 5 quilômetros mas está!

Somando o patrimônio arquitetônico da vila de Santillana, com as preciosas pinturas rupestres de Altamira, que fica a 2 km da vila, temos um recanto cheio de encanto (rimei propositadamente), encravado em um dos muitos vales cor de esmeralda da bela Cantábria. E parafraseando Benito Pérez Galdós:

Ninguém poderá dizer: Vi Santillana de passagem. Para vê-la é preciso visitá-la.

Panorâmica da Plaza Mayor de Santillana.

Panorâmica da Plaza Mayor de Santillana.

E quem a conhece sabe perfeitamente o que isto quer dizer.

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Este é um post de um conjunto que farei sobre Santillana. Digamos que acabam de ficar com uma pequena introdução sobre o Pueblo más bello de España.

O Candeeiro do Rei Mouro

Durante longos séculos a Península Ibérica (Portugal e Espanha atuais) estiveram ocupados por muçulmanos, que dominaram a maior parte da península, divididos em Califados e Taifas (estas eram subdivisões de um califado que entrara em decadência).

Deste período que durou cerca de 800 anos, surgiram inúmeras lendas por toda a península, falando de riquezas, de grandes batalhas, de amores impossíveis. A lenda contada a seguir é simples, mas provavelmente repetiu-se na realidade inúmeras vezes, com finais mais ou menos tristes. Era comum na época chamarem a muçulmanos de mouros (ou moro em espanhol), que deriva da palavra moreno. Hoje em dia é uma palavra pejorativa, servindo mais para ofensa do que propriamente para identificação. Mas nas lendas ainda permanece a palavra como forma de identificação dos personagens. Outra denominação comum era de infiéis, já que não compartilhavam da mesma religião que os habitantes locais. O Cristianismo foi devidamente usado como estímulo para angariar soldados na luta pela expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica. E era depois, aos santos católicos, que se agradecia a graça de sobreviver, ou que se pedia a salvação da alma dos que não sobreviveram.

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O CANDEEIRO DO REI MOURO

candil

Havia uma família próximo a Coba (Orense, Galícia) que tinha muitos filhos, como era comum naqueles tempos. Três dos irmãos foram para terras de Castilha com a intenção de lutar na guerra contra os muçulmanos e regressarem ricos a sua terra. Como ninguém sabe o que há na página seguinte do livro do destino, somente dois dos irmãos regressaram, pois um morreu devido às feridas sofridas na batalha.

Ao saírem da Galícia , dirigiram-se a uma cidade castelhana de poderosas muralhas (talvez Ávila), e ali reuniram-se a um poderoso exército cristão que preparava-se para iniciar uma expedição ou saque por terras mouras. Viajaram com este exército até o sul e chegaram próximo à cidade de Córdoba.

Estava quase anoitecendo quando os cristãos atacaram aos muçulmanos de surpresa, encontrando-os desprevinidos, inclusive seu rei fugiu ferido gravemente. Rapidamente dividiram o saque.

Um dos irmãos ficou com os guardas no acampamento, enquanto os outros dois lutaram na batalha, na qual o mais novo acabou ferido. Mesmo ferido, conseguiu participar da divisão do riquíssimo saque conseguido com esta batalha.

Durante a longa viagem de volta para o Reino da Galícia, o irmão ferido piorou e morreu.

Com as riquezas conseguidas carregadas em uma mula, e sem o irmão, os dois irmãos restantes regressaram às Terras Altas. Mandaram rezar inúmeras missas pela alma do irmão falecido. Presentearam a Virgem com uma lâmpada de azeite, toda em ouro, para que iluminasse permanentemente ao Santíssimo em memória do irmão que foi e não regressou.

Esta lâmpada esteve durante gerações na igreja da aldeia, e todos a conheciam como o Candeeiro do Rei Mouro.

Tradução livre da versão encontrada em Coba Leyendas, El Candil del Rey Moro.

Lenda do Cão da Morte

Vista do casario de Casteligo, nas Terras Altas galegas.

Vista do casario de Casteligo, nas Terras Altas galegas.

As chamadas Terras Altas da Galícia, Espanha, espalham-se ao redor das Montanhas de Manzaneda, na província de Orense, bem junto à fronteira de Portugal. Aqui pode-se encontrar (em espanhol) os nomes dos pueblos que pertencem a esta área denominada de Terras Altas, assim como um mapa que dá uma localização aproximada. A ocupação da região é antiga, mas as primeira referências a esta área são dos tempos do Império Romano. Os habitantes locais de então se auto-denominavam Tiburos. Eram terras ricas em ouro que foi explorado pelos romanos, que inclusive, desviaram o curso de um rio – fazendo um túnel através de uma montanha – para explorar o ouro que continha estas terras. O próprio nome da província, Orense em espanhol e Ourense em galego, é uma referência a esta presença do ouro nestas terras, significando Dourado, e originário da palavra Auriense (cidade do ouro).

Mas sempre foi uma região pouco povoada, por esta razão, existem poucas referências sobre ela ao longo da História. Orense durante a Idade Média pertenceu ao Conde de Monforte e à Igreja, e a riqueza do patrimônio histórico do município de Manzaneda revela uma beleza singular. A área que hoje ocupa o município de Manzaneda sempre foi voltada à atividade pastoril, agricultura (vinho e castanhas) assim como no inverno é uma área que atrai praticantes de esportes de inverno, ficando nas proximidades a única estação de esqui da Galícia.

Destas terras, vem a lenda do Cão da Morte. Mesmo em pleno século XX os cães foram utilizados como arma de guerra, e anteriormente tiveram uma utilização mais vasta. Raças como os Mastins, Galgos e Alanos espanhóis foram utilizados na conquista da América em práticas que foram repetidas no Novo Mundo mas aprendidas no Velho Mundo. A arma de guerra ou de contenção foi transportada para lendas, como a que contamos a seguir. É uma lenda trágica, de sede de vingança, que mostra um jovem que busca pagar na mesma moeda uma perda sofrida.

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LENDA DO CÃO DA MORTE

alanoespanhol

Alano Espanhol, animal que teve utilizações pouco nobres ao longo da História.

Nas Terras Altas da Galícia, havia um conde que mantinha seus patrícios temerosos, com um cão treinado para matar. Era um cão daqueles que são chamados de Cães de Guerra ou Cães da Morte, usados em guerras para combates. Este cão era chamado de Demo (demônio em galego). Era um grande animal, mas não tanto como os que guardavam e protegiam os rebanhos dos povoados contra os lobos. Mas este cão foi treinado para matar pessoas na guerra. Dizia-se que ele matou muitos inimigos nas batalhas, mas agora o Conde utilizava-o para amedrontar e submeter seus vassalos.

Um dia, apareceu o Conde em um dos povoados das Terras Altas, e convocou seus habitantes no ponto de reunião do Concelho. Ameaçou-os, exigindo que pagassem mais impostos, mas como os moradores negaram-se, mandou preparar o cão. As pessoas fugiram em pânico e esconderam-se em suas casas. O Conde escolheu uma casa e ordenou a seus soldados que arrombassem a porta, soltando o cão para que entrasse. O feroz animal matou a todos que encontrou dentro da casa, inclusive as crianças. Aterrorizados com tamanha brutalidade, todos os demais apressaram-se em cumprir os desejos do infame Conde.

Entre os mortos estava uma bela jovem, prometida em casamento a um primo que vivia no mesmo lugarejo. Este rapaz estava tão desolado que recolheu todos os cães que guardavam os rebanhos, por serem os maiores. Mas o que fez foi por impulso, não pensou muito no que iria fazer e nem nas conseqüências. Treinou os cães como bem entendeu para que se defendessem uns aos outros e matassem a Demo. Foi em vão, Demo matou a todos. Os moradores locais voltaram-se contra o jovem porque deixou todos os rebanhos sem cães que os defendessem dos lobos.

O Conde ao saber do ocorrido mandou prendê-lo, mas o jovem conseguiu fugir a tempo por Verin até terras de Portugal, onde inclusive esteve lutando contra os mouros. Durante este tempo, aprendeu com um judeu as artes para adestrar os cães usados na guerra, e com este saber regressou às Terras Altas com sede de vingança. Não avisou a ninguém de sua chegada, exceto sua mãe. Graças a sua mãe encontrou uma cadela grande no cio, e com ela foi até a fortaleza do Conde.

Em uma noite escura, o rapaz preparou uma emboscada, amarrando a cadela no cio de forma a que o vento levasse o odor até onde estava Demo. Quando Demo sentiu o odor da cadela no cio, ficou enlouquecido. O criado do Conde que cuidava do cão, tirou-o de seu canil, e saiu com ele para ver o que lhe causava tanta perturbação. Quando chegou próximo à cadela percebeu o que estava acontecendo e soltou-o. Demo foi de encontro à cadela e, neste momento, o rapaz aproveitou-se e matou o criado que conduzira Demo até ali. Demo estava entretido, atendendo ao chamado da Natureza, e o rapaz preparou-se. Já tinha previamente lavado-se minuciosamente, e untou o corpo com um óleo que dera-lhe o judeu para disfarçar seu próprio odor. Vestiu-se com as surradas roupas do criado assassinado, assim o cão não o reconheceria nem pela vista e principalmente pelo olfato. Antes que Demo terminasse com a cadela, atou-o novamente.

Armadura para cachorro do século XVII, Instituo Ricardo Brennand.

Armadura para cachorro do século XVII, Instituto Ricardo Brennand.

Voltou o rapaz com Demo para o canil. Colocou-lhe a armadura de couro com placas de ferro, que se coloca aos cães de guerra antes de entrarem em combate, que também servia de proteção contra as flechas e espadas inimigas. Esperou até que todos na fortaleza adormecessem e, depois de passar pelos guardas sem problemas, foi até a torre onde o Conde e sua família dormiam. Quando encontrou-se na torre atiçou e soltou a Demo. Imediatamente ouviu-se os gritos de pavor do Conde pedindo ajuda a seus guardas. Mas o rapaz havia trancado a sólida porta por dentro, para que ninguém pudesse entrar. Todos os membros da família do Conde morreram, inclusive um dos filhos que se jogou de uma janela para não ser devorado pela fera. Enquanto o cão completava sua incrível e cruel chacina, o rapaz ateava fogo à torre. Quando enfim os soldados do Conde conseguiram arrombar a sólida porta e entrar nos aposentos, o cão de novo atiçado pelo rapaz atacou-os também, e o rapaz aproveitou a confusão para escapulir em meio ao banho de sangue gerado pela fera, até que conseguiram matar a Demo.

Sob a luz do incêndio da torre conseguiu o rapaz escapar, e a partir de uma montanha próxima pos-se a dar brados de vitória aos quatro ventos.

Tradução livre da lenda El Perro de la Muerte, encontrada em Coba Leyendas.