Lenda da Noite de São Silvestre

São Silvestre

São Silvestre

Todo mundo já ouviu falar de São Silvestre, pode até não saber quem é o santo mas já ouviu ao menos falar da Corrida Internacional de São Silvestre que acontece todo dia 31 de dezembro pelas ruas de São Paulo, sendo a mais famosa do Brasil.

Agora, o santo existiu sim! Ele foi o Papa Silvestre I, entre 31 de janeiro de 314 a 31 de dezembro de 335. Foi em seu papado, durante o reinado do Imperador Constantino I que teve início a Paz na Igreja, ou seja, o fim da perseguição aos cristãos na época do Império Romano.

Mas além do santo histórico, com existência concreta e fatos na medida do possível comprováveis, também existe o santo das lendas, das histórias ficcionadas para explicar fatos inexplicáveis. Existe uma lenda, originária da Madeira, que tem como uma das figuras centrais São Silvestre. É uma forma de explicar a origem dos fogos de artifício nas festas da virada do ano. Confira a versão abaixo.

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NOITE DE SÃO SILVESTRE

Há muito tempo atrás, muito tempo mesmo, existia uma ilha no Oceano Atlântico. Esta ilha era chamada de Atlântida, e o povo que nela vivia era a civilização mais avançada em seu tempo. Alguns dizem mesmo que era a mais avançada que já existiu! Mas este povo avançado tornou-se muito arrogante, achando que podia conquistar o mundo inteiro. A ousadia era tanta que o rei desta civilização atraveu-se a desafiar os céus. Os deuses avisaram-no que ele nada podia diante do poder deles. O rei não se abalou com o aviso, seguindo até a Grécia e atacando Atenas. Durante a batalha, o rei foi novamente avisado pelos deuses que nada podia diante do poder deles, e que a vitória seria de Atenas. E assim foi, além de perder a guerra o rei foi castigado duramente, pois terríveis tempestades, terremotos e maremotos destruíram por completo Atlântida. Séculos e mais séculos se passaram sem que alguém pudesse localizar o local onde um dia existira Atlantida.

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Fogos de Artifício na virada do ano, Funchal, Madeira.

Um dia, a Virgem Maria estava debruçada nos céus, sobre o oceano, sentada em uma nuvem. São Silvestre aproximou-se para falar com ela. Era a última noite do ano e São Silvestre achava que deveria ser uma noite especial, com um significado diferente para os homens, marcando uma fronteira entre passado e futuro, um momento propício para o arrependimento do que fizeram de errado e de esperança por um futuro melhor. Ao ouvir o que pensava São Silvestre, A Virgem Maria achou a idéia muito boa. Foi então que revelou a ele o que fazia ali sentada observando o oceano, com certa tristeza. Estava lembrando da bela Atlântida, que fora destruída pelos erros e pecados de seus habitantes. Conforme falava de Atlântida, a Virgem Maria deixou cair lágrimas de profunda tristeza e misericórdia. É que apesar do castigo ao povo da Atlântida a humanidade não havia aprendido a lição, e continuava cometendo os mesmos erros. São Silvestre estava comovido com as palavras e a tristeza da Virgem Maria. Observando-a percebeu que suas lágrimas não eram simples lágrimas, eram na verdade pérolas que caíam dos olhos da Virgem. Um destas pérolas-lágrimas, caiu exatamente no local onde antes, no vasto oceano, existiu a Atlântida. Esta pérola acabou por dar origem à Ilha da Madeira, que é conhecida como Pérola do Atlântico.

Dizem os mais velhos que por muito tempo, nas noites de fim de ano, ao dar a meia noite, surgia nos céus um verdadeiro espetáculo de luzes e cores fantásticas, que perfumavam o ar com um aroma estonteante. O tempo foi passando, e estas luzes e cores deixaram de aparecer. Mas os homens, para recordar este fenômeno passaram a usar os fogos de artifício para celebrar a Noite de São Silvestre.

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A Lenda dos Sete Ais

Palácio de Seteais, Sintra.

Palácio de Seteais, Sintra.

Esta lenda de nome curioso deu origem ao nome de um lugar do concelho de Sintra, distrito de Lisboa. No local fica um palácio conhecido como Palácio de Seteais, que hoje é um hotel de luxo e restaurante, pertencente à Sociedade Hotel Tivoli. O Palácio foi construído no século XVIII para o cônsul holandês Daniel Gildemeester, em uma parcela de terra cedida pelo Marquês de Pombal. Do Palácio pode-se ver tanto o mar quanto o alto da Serra de Sintra, ficando ele em um terreno irregular. Este palácio já foi citado em um livro chamado Os Maias, de Eça de Queirós.

A lenda no entanto, não se passa neste palácio, sendo bem anterior a ele. Ela teve origem ainda nos tempos da Reconquista, por volta de 1147 quando D. Afonso Henriques conquistou Lisboa. Fala de uma história de amor mesclada a crenças incompreensíveis para os dias de hoje, que levam a um final trágico. Encontramos pela internet afora, e em livros sobre o tema algumas versões diferentes. Por simpatizarmos mais com a que se segue, a escolhemos para compartilhar com vocês.

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Conta a lenda que quando Sintra ainda pertencia aos mouros, um dos primeiros cavaleiros cristãos a subir a serra de Xentra (como os mouros chamavam a Sintra) foi D. Mendo de Paiva. No meio da confusão da debandada de uns e chegada de outros, encontrou-se junto a uma pequena porta secreta por onde fugiram vários mouros da fortaleza. Entre eles viu uma moura muito bonita, acompanhada pela velha aia.
Ao dar com os olhos no cristão, a moura suspirou por se sentir descoberta, e a velha, que ainda não reparara no cavaleiro, apressou-se a pedir-lhe que não suspirasse. Porém, reparando no olhar da ama, fixo num ponto determinado, seguiu-o e viu finalmente o inimigo, que sorridente lhe disse:

– Acaba o que ias dizendo!

Mas a velha, de sobrolho carregado, respondeu-lhe:

– O que tenho para dizer não serve para ouvires, cáfir! Os cristãos já têm tudo quanto queriam: os nossos bens, as nossas terras, o castelo. Vai-te! Vai-te e deixa-nos em paz, conforme o combinado.

– Vai-te tu, velha! A rapariga é minha prisioneira!

A moura, ao ouvir tal coisa, suspirou novamente, de medo e comoção. A velha, ao ouvir aquele novo ai, achou que era melhor confessar o seu segredo ao cristão:

– Não digas mais nada, cristão! Não digas mais nada, que a minha ama carrega desde o berço uma terrível maldição!…

– Como assim velha?! – perguntou o cavaleiro, ao mesmo tempo que a moura dava o terceiro suspiro.

– Ah, cavaleiro! À nascença a minha ama foi amaldiçoada por uma feiticeira que odiava a sua mãe por lhe ter roubado o homem que amava. Fadou-a a morrer no dia em que desse sete ais… e como vês, já deu três!

D. Mendo deu uma alegre gargalhada, e a jovem outro ai.

– Não acredito nessas coisas, velha! Olha, a partir de agora ambas ficarão à minha guarda. Eu quero para mim a tua bela ama!

A moura suspirou de novo e a velha, numa aflição sem limites, gritou:

– Ouviste, cavaleiro, ouviste?! É o quinto ai! Que Alá lhe possa valer!

– Não tenhas medo! Espera aqui um pouco… Voltarei para vos levar a um sítio sossegado!

O cristão afastou-se rapidamente e, assim que desapareceu dentro das muralhas, um grupo de mouros que ouvira a conversa surgiu subitamente para roubar as duas mulheres. Com um golpe de adaga cortaram a cabeça à velha, que nem teve tempo de dar um ai. A jovem é que, ao ver a sua velha aia morrer daquele modo inesperado e cruel, soltou um novo e dolorido ai. Era o sexto, e o sétimo foi a última coisa que disse, no momento em que viu a adaga voltear para lhe cair sobre o pescoço.
Quando pouco depois D. Mendo voltou com uma escolta, ficou tristemente espantado: afinal cumprira-se a maldição!
D. Mendo jurou vingança e a partir desse dia tornou-se o cristão mais desapiedado que os mouros jamais encontraram no seu caminho.
E, em memória da moura que desejara e uma maldição matara, chamou, àquele recanto de Sintra, Seteais.
Ainda hoje, nos belos jardins de Seteais há um sítio onde se alguém disser um “ai” ouvirá um eco que o repetirá seis vezes, ouvindo-se assim sete ais em honra da moura que um dia lá morreu.

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Fonte:

Lendas e Mitos de Sintra

O Cavaleiro de Motos

Vista do pueblo de Motos.

Vista do pueblo de Motos.

Motos é um pequeno povoado com pouco mais de duas dezenas de habitantes, em uma zona montanhosa, no sudeste da província de Guadalajara, na Comunidade Autônoma de Castilha La Mancha, praticamente junto à província de Teruel. Está a 1419 m de altitude junto ao monte da Abadía ou del Castillo. Próximo encontra-se o rio Gallo, que por muito tempo funcionou como um limite natural deste pueblo. Motos pertenceu por longo tempo ao Real Senhorio de Molina. O Real Senhorio de Molina foi um senhorio jurisdicional, no período medieval, estabelecido ao redor da vila de Molina de Aragón, dentro da atual província de Guadalajara. Foi fundado no século XII, como um senhorio independente dos reinos cristãos que o cercavam, sendo o fundador e primeiro senhor Manrique de Lara. Era nesta época uma zona de fronteira entre reinos cristãos e as taifas andaluzas.

Em 1129 a taifa de Molina foi conquistada pelos cristãos, sob o comando do Reino de Aragão, mas o repovoamento (ocupação da área conquistada por famílias cristãs) foi empreendido pelo Reino de Castilha. As duas coroas acabaram por disputar a posse destas terras. Manrique de Lara, era conde e senhor de Lara, tendo influência nos dois reinos cristãos. Fez-se mediador em um encontro conhecido como Concórdia de Carrión, em 1137, e justamente aí consegue a posse das terras de Molina mantendo a zona independente dos dois reinos, mas aliada de ambos. Em 1138 nasceu o Senhorio que foi independente das duas coroas durante mais de 150 anos. Com o passar do tempo, os senhores de Molina vão aparentando-se com a nobreza de ambos os reinos cristãos, até que o senhorio passa a estar ligado, ou a uma coroa ou à outra, deixando de ter um senhor independente dos reis. Quando há a união dos reinos, com o casamento dos Reis Católicos, conhece-se na região uma certa tranqüilidade, já que não houve por longo tempo disputas militares entre reinos cristãos. É então que a economia local tem um considerável desenvolvimento, tornando-se a capital do senhorio, Molina de Aragón, uma rica cidade.

Neste contexto de dispustas fronteiriças, surge uma figura de caráter suspeito: o Cavaleiro de Motos. Conhecido como Beltran de Oreja, era natural de Hita, um povoado um pouco distante de Motos, mas também na atual província de Guadalajara. Teve seu auge enquanto cavaleiro indesejado no reinado de Enrique IV de Castilha (1425-1474), que além de nada de concreto fazer para deter o cavaleiro, ainda piorou mais a situação quando tentou impor como senhor de Molina, a um nobre de nome Beltrán de la Cueva, que foi totalmente rejeitado pela população do Senhorio de Molina. O Cavaleiro de Motos, já aposentado de suas façanhas de fora-da-lei, acabou por integrar as forças na luta contra o senhor de Molina rejeitado pelo povo.

Não se sabe ao certo o que é verdade ou mentira sobre o Cavaleiro de Motos, mas ao que consta, existiu de verdade, não sendo apenas mera lenda. O que o torna lendário são suas façanhas, e as incertezas que ainda perduram sobre o que é verdade ou inventado em relação a este cavaleiro medieval fora-da-lei.

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O CAVALEIRO DE MOTOS

Local onde provavelmente, lá no alto, existiu o castelo do Cavaleiro de Motos (foto de Alustante)

Local onde provavelmente, lá no alto, existiu o castelo do Cavaleiro de Motos (foto Alustante)

No século XV houve em Motos um castelo. Este castelo só existiu porque um dia Motos teve um cavaleiro. Este cavaleiro era mais bandido que cavaleiro. Chamava-se Beltran de Oreja e era de Hita. Uma certa vez, teve atritos com um Procurador do Reino de Castilha, nas Cortes celebradas em Madri por Enrique IV. Esta desavença acabou por culminar com o tal cavaleiro dando uma violenta bofetada no procurador. Por causa desta briga desapareceu, não se sabe se por ter sido desterrado pelo rei ou por crer que poderia ser executado, fugindo e escondendo-se por um bom tempo, até que um dia voltou a Hita.

Mas ao que parece não acreditava que estaria seguro em Hita. Escreveu para o rei de Aragão oferecendo-lhe seus serviços. O rei de Aragão aceitaria seus serviços, desde que o rei de Castilha desse seu concentimento. Nem fora contratado nem dispensado dos serviços para os quais se candidatou. Ainda assim, achou prudente aproximar-se mais ao reino de Aragão por uma questão de segurança, coisa que fez por volta de 1458, rumando para o Senhorio de Molina.

Foi então que chegou a Motos, acompanhado de sua família, fazendo muita ostentação, apesar de estar praticamente falido. Outros no entanto, dizem que sua chegada foi bem mais modesta, trazendo não a família, mas seu cavalo e alguns poucos homens que o acompanhavam e serviam.

Trocou de nome para Alvaro de Hita e solicitou uma vaga de cavaleiro, que era o ofício de pobres fidalgos na defesa do gado e das fronteiras de um senhorio, além de participação em possíveis guerras. A cada 100 cabeças de gado colocadas sob sua proteção, recebia uma gratificação. Conseguiu a vaga de cavaleiro e com este ofício reunir um bom dinheiro. Mas a maior fortuna que alcançou com este ofício foi conhecer palmo a palmo todas as terras da redondeza, seus esconderijos, possíveis rotas de fuga, e tudo o mais que lhe permitiriam exercer um novo ofício. Preparou-se muito bem e tornou-se um cavaleiro brigante, um refinado sinônimo de ladrão.

Foi então que construiu em Motos uma casa fortificada, ou pequeno castelo. Aproveitando-se da confusão que reinava, do desgoverno e indisciplina social nos tempos do reinado de Enrique IV, o Impotente, começou a fazer suas andanças, roubando aqui e ali. Motos era zona de fronteira entre os reinos de Castilha e Aragão, e para piorar a situação – e facilitar a vida do Cavaleiro de Motos – era também um nó fronteiriço entre jurisdições eclesiásticas e civis. Existiam muitos senhores dividindo o poder, e assim, diminuindo-o na hora de tomar medidas drásticas contra o temível cavaleiro. Os locais nada podiam fazer, as autoridades também nada faziam de concreto, e o Cavaleiro de Motos conseguiu reunir um considerável grupo de homens, soldados desertores e facínoras. Comandava-os com mão de ferro mantendo-os sob seu controle e exigindo o melhor de cada um.

Graças a muitas façanhas malignas em seu ofício de nobre ladrão, sua fortuna foi aumentando mais e mais, e dizem que com esta fortuna construiu – outros dizem que ocupou – um castelo dentro de Aragão, próximo a Ródenas, atual província de Teruel, chamado de San Ginés. Segundo algumas versões é nesta época que traz sua família de Hita, mulher e irmãos para viver neste castelo.

No senhorio de Molina foram edificados vários fortes para defenderem-se deste temível cavaleiro. O desespero era tal que conseguiram erguer uma fortificação em apenas 80 dias, sem janela alguma, na localidade de Orea. Mas nem todos o temiam, sendo que entre os populares angariou muitos admiradores. Estes admiradores ocupavam-se em espalhar aos quatro ventos suas façanhas, às vezes aumentando o feito do herói bandido. Além de vítimas nas redondezas também estabeleceu amizades com senhores locais, conseguindo a tranqüilidade necessária para viver recolhido por uns tempos em suas terras. Já rico, o Cavaleiro de Motos deixou de praticar seus ataques crimonosos, tornando-se um homem respeitável ao prestar seus serviços de experimentado cavaleiro às famílias nobres da região.

Em certo momento, o rei Enrique IV de Castilha resolveu que o Real Senhorio de Molina seria dado a um nobre chamado Don Beltrán de la Cueva. Muitos locais do senhorio não desejavam tal nobre ocupando esta posição. Havia outro candidato para o posto, Don Diego Hurtado de Mendoza, senhor de Castilnuevo, do qual o Cavaleiro de Motos tomou partido.

Em meio a toda esta disputa pelo Senhorio de Molina, dizem alguns, mas não há certeza, que o Cavaleiro de Motos caiu em um embuste muitas vezes por ele mesmo utilizado. Don Alvaro de Hita foi atraído a um encontro, foi preso e encarcerado em uma fortaleza de Toledo, no castelo de Almonacid. O que lhe aconteceu depois ninguém sabe. Não se sabe se um dia recuperou sua liberdade, se morreu na prisão ou se foi executado. Há outra versão que diz que o temível cavaleiro teve um final certo. Um dia em seu castelo de San Ginés, teria ficado muito doente, e percebendo a proximidade da morte, exigiu que o levassem a Motos, onde tinha sua casa principal. Ali teria morrido, sendo que em seu enterro foram muitas pessoas importantes da redondeza.

Não sabemos qual a versão verdadeira do fim deste temível cavaleiro. Mas o fim de seu castelo em Motos é mais certo. Ao que se sabe, Fernando II de Aragão em 1479, a pedido dos camponeses prejudicados pelos assaltos do Cavaleiro de Motos, teria ordenado a demolição total do castelo, que foi derrubado com a ajuda dos locais, restando até os dias atuais apenas quase imperceptíveis vestígios.

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Fontes:

Alustante

Asociación Cultural Amigos de Motos

InfoMolina

Leyenda del Caballero de Motos

As Bruxas de Ongayo

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Igreja de Santiago Apóstolo, Ongayo.

Hoje falamos de bruxas, as velhas conhecidas das histórias infantis. Mas estas bruxas eram muito viajantes, e pelo visto, velozes. São bruxas desconhecidas mas até hoje têm sua caverna preservada em uma localidade da província de Santander.

As bruxas de Ongayo não possuem mais rostos, nomes ou histórias próprias, já a localidade continua sendo o lugar onde as bruxas viviam em uma caverna. Ongayo é um pueblo que pertence ao município de Suances, conhecido pelas mais belas praias de Cantábria, segundo alguns. A população não chega a 200 habitantes, e conserva um patrimônio histórico de valor, como a igreja de Santiago Apóstolo de estilo românico (foto), duas capelinhas, sendo uma de Nossa Senhora dos Remédios e outra de São Roque. A referência histórica mais antiga que se conhece do município ao qual pertence Ongayo, Suances, é dos tempos medievais. Mas já era habitada em tempos pré-históricos, como revelam os restos encontrados na tal caverna das Bruxas.

Somente no século XIX, quando houve um grande interesse pela espeleologia, movendo muitos indivíduos, acadêmicos e amadores, a catalogar as cavernas existentes por toda a Cantábria, que descobriu-se – digamos que pela ciência – a existência da Cueva de las Brujas. Não houve a princípio grande interesse pela caverna, sendo que ela só volta a receber a atenção de estudiosos em fins do século XX. Somente então, as formações existentes em seu interior, as pinturas rupestres e restos fósseis mereceram estudos. Ainda não há uma definição clara de quando foram feitas as pinturas, sabendo-se apenas que são do Paleolítico Superior. Foram encontrados ossos humanos, peças de cerâmica feitas à mão e peças de silex. Fora estes restos existem vários painéis com pinturas pela caverna. Tem entrada ampla com acesso a uma área de considerável tamanho e descendente, possuindo muitas formações em suas várias galerias.

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Charca de Cernégula

Outro local de encontro destas bruxas de Ongayo era o pueblo de Cernégula, na província de Burgos. Festejavam e banhavam-se em uma lagoa lá existente. A lagoa de Cernégula tem uns 5000 m², com uma pronfundidade máxima de cerca de 5 metros. No inverno encontra-se bem cheia, tendo o nível mais baixo no verão, mas nunca foi vista seca. Também é conhecida como Charca de las Brujas devido às lendas que afirmam ser nela que as bruxas banhavam-se depois de seus bailes. A charca é formada por águas de chuva e do degelo do inverno. No inverno as vezes apresenta uma grossa capa de gelo que permitia às crianças patinarem em sua superfície.

Além desta lagoa, existem outras mais nas redondezas, sendo possivelmente pela abundância de água proporcionada por elas que surgiram 5 pueblos nas proximidades. O único que ainda permanece é Cernégula, sendo os outros meras ruínas quase imperceptíveis. As lendas que povoam a Charca de Cernégula e as redondezas, com suas bruxas, são avisos ancestrais que ainda hoje há quem respeite ao visitá-la. Cuidado ao visitar Cernégula, pois as bruxas de Ongayo podem lá estar em uma de suas festas.

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AS BRUXAS DE ONGAYO

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Pintura de Francisco Goya, intitulada "Aquelarre" (1797-1798).

Dizem que havia bruxas em Cantábria!

Entre gargalhadas, soltavam o gado dos estábulos, enervavam os moradores das casas, costumavam provocar ou piorar incêndios. As grávidas deviam ter muito cuidado, pois ao menor descuido, lançavam-lhe um mau-olhado. Para evitar, deviam colocar nas casas réstias de alho ou ramos de cardos. Dizem quem crê que, durante a noite, percorriam os pueblos de Cantábria e faziam todo tipo de maldades que pudessem.

Estas bruxas voadoras só tinham poder entre os mortais no período de tempo por volta da meia noite, a chamada hora da bruxa. Também julga-se que tinham poder sobre o clima, sendo capazes de provocar grandes chuvas com o sol brilhando no céu. É o chamado sol das bruxas que todo mundo já viu alguma vez na vida.

Nem todas as bruxas eram más. Algumas eram curandeiras e faziam misturas de ervas para entregá-las aos doentes que confiavam nelas. Havia as que viviam nas montanhas, as quais eram respeitadas por seu grande conhecimento. Como julgava-se que fossem parentes do diabo, o povo as consultava com freqüência para beneficiarem-se de suas artes. Outras são feiticeiras, encantadoras ou adivinhas, afinal, há de tudo.

As bruxas de Ongayo todo sábado à noite urinavam nas cinzas das lareiras gritando:

– Sem Deus e Sem a Santa Maria, pela chaminé acima!

Assim, saíam voando em um verdadeiro enxame em suas vassouras, ou transformadas em corujas. Durante séculos, em uma caravana misteriosa, uma tropa de feiticeiras e magas voavam pelos céus da tierruca rumando para lugar certo e conhecido de todos. A sabedoria popular manteve até os dias atuais na memória oral, o conhecimento da existência desta rota proibida e mágica que tinha como inicio Ongayo, e como meta Cernégula, um pueblo de Burgos.

Neste local celebravam suas reuniões e ritos bruxólicos, ao redor de um espinheiro. Estas reuniões não chegavam a ser sabbats. As bruxas cantábricas untavam-se com uma mistura de ervas que lhes provocaria visões, dizem, agradáveis. Junto a estas reuniões, realizavam alegres e agitados bailes, que terminavam com um mergulho nas gélidas águas de uma lagoa local, conhecida como Charca de Cernégula.

Outras eram mais afoitas, e voavam meia Espanha, amanhecendo em Sevilha, aos pés da Torre del Oro.

Diz uma outra lenda local de Cernégula que por um dos pueblos que já não existem mais, passavam homens com seus animais para que bebessem nas águas das lagoas. Mas uma vez, inexplicavelmente, sumiram todos os animais. De boca em boca, correu a história de que foram as bruxas que chegavam de Cantábria que fizeram desaparecer os animais.

Quando retornavam de suas reuniões em Cernégula, formavam uma espécie de conclave, no qual exigia-se que todas as bruxas relatassem as maldades que cometeram durante a semana.

E assim seguiam suas vidas maléficas, celebrando seus sabbats em Ongayo, festejando em Cernégula mergulhando em sua lagoa, ou chegando a Sevilha, sabe-se lá para que maldades.

ongayobrujas“De la cueva de Ongayo
salió una bruja
con la greña caída
y otra brujuca.
Al llegar a Cernégula
¡válgame el Cielo!
un diablo cornudo
bailó con ellas.
Por el Redentor,
por Santa María,
con el rabo ardiendo
¡cómo bailarían…!”

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Fontes:

Cantabria Infinita

Casas de Cantabria

Guia Magica de Cantabria

Merindad de Río Ubierna

Pobladores

A Lenda de Zafara

Hoje falaremos de um rei mouro e seu belo castelo, que viveu no que hoje é a Espanha, em Badajoz, na atual cidade de Zafra. Hoje a cidade de Zafra é um importante polo industrial na Comunidade Autónoma de Extremadura. Ao seu redor existem marcas deixadas pelos antigos ocupantes da zona, como restos de vilas romanas e testemunhos dos tempos da ocupação muçulmana. Zafra ficava em uma zona de fronteira entre as taifas de Sevilha e Badajoz. Por esta razão, em 1030 começou a ser construído um castelo na Serra de El Castellar, próximo à atual cidade, com fins defensivos. Zafra, que já foi chamada de Sajra Abi Hassán (que derivou Safra, Cafra e por fim Zafra), foi ocupada pelos cristãos em 1229, mas só foi definitivamente conquistada por eles em 1241 pelo rei Fernando III, o Santo.

O castelo de Zafra, o do rei muçulmano, já não existe mais, restam ruínas que não há confirmação se de fato seriam do castelo do rei Al-Jarik. Mas ficou até os dias atuais uma lenda sobre este castelo, que traduzimos hoje.

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A LENDA DE ZAFARA

Vista da calle Jerez, em Zafra.

Vista da calle Jerez, em Zafra.

Havia próximo à cidade de Zafra um suntuoso palácio, construído pelos árabes. Nesta época a região onde fica Zafra estava sob o comando de Al-Jarik, nobre guerreiro responsável pela construção do Palácio de Zafra, no alto de uma montanha chamada atualmente de El Castellar que, majestosa vigia a cidade. O interior deste palácio foi adornado ricamente, com belas fontes, jardins coloridos e uma construção que alegrava seus habitantes e visitantes. Al-Jarik usava este palácio como residência de descanso e recebia frequentemente visitas de poderosos cavaleiros.

Havia, pelo que dizem, uma passagem secreta que ligava o palácio com o centro da cidade de Zafra, onde ficava o Palácio do Governo. Esta passagem secreta era enorme, podendo ser cruzada por cavaleiros montados em seus cavalos, ou mesmo por carruagens de porte médio. Sem contar que a distância do Palácio até Zafra era de alguns bons quilômetros. Este tunel era protegido por guerreiros que seguravam tochas para iluminar o interior.

Al-Jarik tinha uma filha chamada Zafara, muito bela que, apesar de muito jovem, o pai queria casar com Al-Bakrí, um dos mais respeitados guerreiros muçulmanos. Al-Bakrí vivia em Córdoba, mas passara em várias ocasiões pelo Palácio de Zafra, apaixonando-se pela jovem Zafara. Al-Jarik contabilizava muitos ganhos com esta união, pois além de Al-Bakrí se um dos mais respeitados guerreiros, tinha uma grande fortuna. Mas Zafara não via com os mesmos olhos esta possível união, já que jóias e ouro não a atraíam. O que a tornava feliz era a leitura dos incontáveis livros da biblioteca do palácio e contemplar a natureza. Quando não estava lendo, dava longos passeios ao redor do palácio para contemplar a natureza, indo com frequencia a um pequeno riacho para observar os peixes e outros animais, colhia flores e juncos com os quais criava belos enfeites.

Zafara sabia dos planos do pai, mas apesar de ser uma boa e obediente filha, ficava profundamente triste toda vez que pensava no assunto. Passado algum tempo Al-Jarik comunicou a Zafara que deveria preparar-se para o casamento, pois um mensageiro contara-lhe que o guerreiro de Córdoba vinha com seu sequito para a cerimônia. Zafara foi para seus aposentos e começou a chorar amargurada, enquanto seu pai dava instruções a seus servos para enfeitar o palácio e parar tudo o que fosse necessário para as festas que se aproximavam.

Quando tudo estava preparado, Al-Jarik mandou que chamassem sua filha para vestirem-na com sedas preciosas. O criado encarregado de chamar a Zafara voltou ao quarto onde estava seu amo dizendo que chamara várias vezes mas ela não respondia e a porta estava trancada. Al-Jarik foi rapidamente ao quarto de Zafara, verificando que a porta estava mesmo trancada e que ela não respondia a seus chamados. Diante disto, chamou dois guardas para que arrombassem a porta. Quando conseguiram entrar no quarto de Zafara, Al-Jarik encontrou algo que jamais esperava: sua preciosa filha estava estendida no solo, olhando para a janela que dava para o jardim, com juncos frescos do riacho próximo nas mãos e uma grande umidade ao redor do rosto. Até o chão parecia coberto de água. Mas não era água como percebeu o pai que desesperadamente tentava reanimar a filha. Aquela umidade eram as lágrimas que Zafara derramou. Morreu da profunda tristeza que o casamento imposto lhe causou.

Al-Jarik recolheu tristemente algumas lágrimas que ainda encontravam-se no belo rosto de Zafara, quanto misturavam-se com as suas, pois não foi capaz de evitar o choro quando carregava em seus braços o corpo de sua filha. A amargura não deixaria em paz a Al-Jarik, pois acreditavam então que quando alguém morria de tristeza, seu espírito vagava eternamente pelos lugares onde mais foi feliz enquanto vivo.

Quando estavam preparando o funeral de Zafara, chegou ao palácio um veloz mensageiro, comunicando que o guerreiro Al-Bakri morrera a pouca distância da cidade. Enquanto descansavam da viagem próximo a um riacho, o guerreiro foi banhar-se. Como demorava em sair da água seus companheiros foram buscá-lo, sendo encontrado agarrado aos juncos da margem, mas já morto afogado. Ninguém soube explicar como aquilo acontecu, mas o certo é que Al-Bakri deixou de existir muito próximo de Zafra. Estes infortúnios foram muito comentados e chorados por todo o território muçulmano de Zafra a Córdoba, correndo a história até Sevilha e Granada. Al-Jarik decidiu enterrar sua filha ao lado de Al-Bakri, próximo ao palácio, às margens do riacho entre os juncos, em um pequeno túmulo onde se podia ler:

Aqui jaz Zafara, bela filha do nobre Al-Jarik,

que amava o riacho e os juncos,

cujo espírito vaga por estes lugares

e o valoroso guerreiro Al-Bakri que amando a Zafara

entre a ribeira e os juncos faleceu.

Alá é grande.

Com o passar do tempo, o palácio e seus jardins desapareceram completamente, hoje restam apenas algumas ruínas, cavernas que se supem davam ao túnel, o riacho e os juncos, onde as vezes dizem que se pode sentir a presença do espírito de Zafara.

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Tradução livre da versão em espanhol encontrada em Zafara.

Lendas da Casa das Sete Chaminés

Casa as Sete Chaminés, com suas chaminés em destaque.

Casa das Sete Chaminés, com suas chaminés em destaque.

A Casa das Sete Chaminés é um dos poucos exemplos de arquitetura civil do século XVI que permanece de pé em Madri. Foi projetada e construída entre 1574 e 1577, pelo arquiteto Antonio Sillero para Pedro de Ledesma. Em 1583 a casa foi vendida para o comerciante genovês Baltasar Cattaneo, que teria comprado a residência pela metade de seu valor. Foi na época em que pertencia a Cattaneo que a casa sofreu uma ampliação, tornando-se um imóvel de dois andares, planta retangular e recebendo as sete chaminés – pelas quais é conhecida até hoje.

Em volta das tais chaminés surgiram inúmeras lendas. Entre as várias lendas, existe a que afirma que cada chaminé representaria um pecado capital. Para quem não sabe os pecados capitais são: gula, luxúria, avareza, preguiça, ira, inveja e vaidade.

Dizem alguns que, na verdade, a casa não teria sido construída para Pedro de Ledesma, mas para o rei Felipe II. Segundo consta ele teria comprado uma parte das terras do Convento del Carmen, para dar a sua filha como presente de casamento, após a construção da casa. Há outra versão que afirma que a casa serviu para manter reclusa uma filha ilegítima do rei Felipe II e que, depois de morta, permanecia habitando aquela casa…

Ainda na época do rei Felipe II a casa teria sido habitada por um capitão Zapata, que casou-se com a filha de um amigo do rei. O pai era amigo mas parece que a filha, Elena, era amante do rei e fora casada com o capitão Zapata por estar dando problemas a Felipe II. Assim, o rei casou-a com um nobre senhor, dando também um dote pessoal a sua suposta amante de 13 moedas de ouro, nas quais estavam a sua efingie. Com poucos dias de casados o nobre e valente capitão teve que partir para Flandres, onde acabou morrendo em uma batalha. Alguns dias depois, Elena apareceu morta em sua cama para, em seguida, seu cadáver desaparecer misteriosamente. Ninguém sabe o fim que levou seu cadáver. Para tornar a história mais tenebrosa ainda, dizem que os vizinhos da casa, durante a noite, viam uma jovem mulher passeando pelo telhado com uma tocha nas mãos entre as sete chaminés. Depois de passar uma a uma das chaminés, voltava-se em direção ao palácio real, ajoelhava-se, rezava e dava murros no próprio peito. Os populares começaram a relacionar estes eventos, do falecimento da jovem Elena e suas supostas aparições no telhado da casa, com as frequentes visitas do rei Felipe II à então quinta, na qual ia escondido pela sombra da noite. Como seu cadáver desapareceu, nunca se soube se morreu de causas naturais ou às mãos de alguém.

Parece que o rei Felipe II tinha uma coleção de amantes, pois também da mesma época há outra lenda mais. Nesta outra lenda não se conhece nomes dos personagens, excetuando o rei. Mas um homem de negócios bem sucedido teria comprado o palacete. Seria sua casa, depois que casasse com uma jovem de boa família mas falida. Esta outra jovem também seria amante de Felipe II, e em plena noite de núpcias teria se suicidado. Seu fantasma também passeia pela casa, não no telhado, e faz tilintar as 13 moedas que também teria recebido como dote.

Mas algo é certo sobre a casa, ou seja, nem tudo é lenda. Em 1590 o doutor Francisco Sandi y Mesa comprou a casa e nela fundou o morgado da família dos Colmenares, que em 1716 tornaram-se Condes de Polentinos. A casa foi propriedade desta família até 1881.

No século XVIII foi realizada uma nova ampliação na residência, levando à construção de um edifício anexo que transformou a casa com planta retangular em um edificio em forma de L. Este novo edifício dá para a atual rua Colmenares. Por esta época foi residência de um famoso marquês, o Marquês de Esquilache, contra o qual a população madrilenha realizou protestos violentos, um motim em 1766, deixando na Casa das Sete Chaminés as marcas do descontentamento popular, que culminou no saque da residência. O Marquês de Esquilache foi Ministro da Fazenda no reinado de Carlos III.

chimeneas01Em 1874 o arquiteto Agustín Ortiz de Villajos foi responsável por uma nova reforma na casa, mas como foi vendida em 1881 para o financeiro Jaime Girona, voltou a sofrer uma nova reforma, para transformar-se em sede do Banco de Castilla. Em 1882, Manuel Antonio Capo, empreendeu uma reforma das fachadas e restaurou a casa, devolvendo-lhe o aspecto original, sem modificar demasiado as construções anexas que foram construídas posteriormente à casa. Em uma destas reformas empreendidas no século XIX, conta-se que no porão foi encontrado, emparedado em um muro, um esqueleto de uma jovem mulher juntamente com um saco contendo 13 moedas de ouro da época de Felipe II!

Durante o século XIX a casa continuou servindo para abrigar sedes de bancos até que, em 1948 foi declarada Monumento Histórico e Artístico, e novamente reformada em 1957 pelos arquitetos Fernando Chueca Goitia e José Antonio Domínguez Salazar. Desde os anos de 1980 até os dias de hoje é sede do Ministério da Cultura.

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Fontes:

Cajon Desastres

El Distrito

Madrid Histórico

Veja também:

Dominguez, Mari Pau – La Casa de los Siete Pecados – Editora Grijalbo, 2009.

Papa-Figo

papafigoA personagem de hoje é o Papa-Figo, uma figura lendária do folclore brasileiro, conhecido principalmente no estado de Pernambuco. Mas ele nada tem a ver com a fruta chamada figo. Na verdade o figo do nome deste ser é uma corruptela de fígado. Vovó nunca teve problemas no fígado, sempre foi no figo, pois era assim que chamava este órgão.

Dizem que o Papa-Figo tinha orelhas de morcego, unhas de gavião e dentes de vampiro. Andava com roupas esfarrapadas e sujo. Há outras versões que dizem que o Papa-Figo parecia uma pessoa normal, nada tendo a ver com esta figura monstruosa descrita há pouco. Porém, mesmo normal, era de aparência modesta, apresentando-se como um mendigo simpático com um saco nas costas, que atraía crianças solitárias com doces, dinheiro, brinquedos ou comida.

Matava criancinhas mentirosas para chupar o seu sangue e comer o seu fígado. Dava preferência para meninos desobedientes, chorões, e principalmente os gordinhos. Mas apesar de seletivo comia o fígado de qualquer criancinha que tivesse à mão.

É que o Papa-Figo acreditava que beber o sangue e comer o fígado destas criancinhas era o único remédio para uma doença que o afligia: a lepra. Uns justificam que seu aspecto horrendo seria devido a esta doença. A lepra, ou Mal de Hansen, matou um considerável número de pessoas em princípios do século XX, época provável da origem das lendas que envolvem este personagem. Há mesmo relatos que dizem que pessoas com o Mal de Chagas eram confundidas com um Papa-Figo, pois a doença provocava inchaço em algumas partes do corpo, como o fígado. De fato o Ministério da Saúde teve que monitorar em princípios do século XX a população para evitar o contágio e garantir que as pessoas adotavam as medidas necessárias para evitar a propagação do inseto. Os responsáveis por esta fiscalização dirigiam-se às povoações em um carro preto, e quando era encontrada uma vítima da doença, fazia-se o exame do fígado do falecido através de uma punção. As vítimas, predominantemente eram crianças. Junte-se a isto o fato das pessoas não saberem direito o que estava acontecendo pois, com certeza, não recebiam uma explicação. Pronto. Já temos o suficiente para o surgimento de uma lenda. E assim, uma pessoa dentro de um carro preto, estranha, que aparecesse em uma localidade, estava atrás de comer fígado de criancinhas. Era um Papa-Figo!

Mas há outras versões que explicam o surgimento deste ser monstruoso. Outra versão para o surgimento deste personagem seria uma forma das mães despertarem o medo em seus filhos de pessoas estranhas próximo à casa, na tentativa de evitar o contato de crianças inocentes com pessoas que talvez não tivessem boas intenções ao se aproximarem delas. Uma outra forma do Papa-Figo ser usado pelas mães para assustar as crianças era dizê-las, quando não queriam comer, que se não se alimentassem ficariam pálidas como um Papa-Figo. Aliás, outra possibilidade para a origem do Papa-Figo seja a anemia. Pessoas anêmicas são pálidas, e nos tempos de antigamente, remédio para anemia era alimentação, ferro e fígado de boi. De fígado de boi para fígado de criancinha é um passo, quando se tem alguma imaginação.

Dizem em outra versão ainda que o Papa-Figo seria uma pessoa que era rica, educada e respeitada, porém, foi vítima de uma terrível maldição, que o condenou a esta triste sina. Esta versão era bem conhecida dos moradores de Recife. Dizem que havia um palacete localizado em um sítio que, atualmente, ocupa a área de um parque da cidade. Neste palacete residia uma família muito rica. Ao que parece a família foi alvo da curiosidade da vizinhança, que transformou-a em Papa-Figos, pois levou ao surgimento da lenda de que comeriam fígado de criancinhas. Na realidade, consta que uma família abastada viu seu patriarca definhar de uma terrível doença no século passado, mas na versão popular a história ganhou outros contornos. E este senhor acabou em certo momento – na versão popular – sendo aconselhado a comer fígado de criancinha para se curar.Verdade? Mentira? Quem sabe?

papafigo00Há versões de que o Papa-Figo na verdade não era o atacante, mas sim o mandante. Teria ajudantes que raptariam as criancinhas por ele, preferindo não aparecer em público. Estes ajudantes poderiam ser quaisquer pessoas normais, agindo em parques, jardins, portas de escolas ou vias públicas.

Ao que parece, na maioria das versões, o Papa-Figo não gosta do que faz, já que costuma deixar para a família do pequeno do qual comeu o fígado uma gorda quantia em dinheiro que guarda na barriga da vítima. Seria uma forma de compensação pela perda sofrida, e talvez de custear seu enterro.

Em meados do século XX, a crescente urbanização, e novos meios de comunicação como o rádio e a televisão, foram transformando e ocupando a vida das pessoas, e acabando por mudar o imaginário do povo, e a lenda do Papa-Figo vai perdendo força. Mas até hoje, pode-se encontrar alguém, em algum recanto rural, que ainda recorda este terrível ser.

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Fontes:

Jangada Brasil

JC OnLine

Lendas e Mitos

Pingos de Sabedoria

Vale dos Figos