Os diferentes estilos dos Hórreos

Hoje terminamos a saga dos hórreos que começamos há dois domingos. Os outros posts foram Descobrindo os hórreos e As possíveis origens dos hórreos. No post de hoje falamos brevemente dos diferentes estilos de hórreos que se pode encontrar pela Península Ibérica, considerando apenas os principais estilos.

Há diferentes tipos de hórreos, uns tão diferentes dos outros que podem até parecer que não são a mesma coisa. Existem dois grupos principais nos quais os hórreos podem ser divididos. Vamos a eles:

Hórreos em estilo Galaico-Português:

Hórreo galego no Parque Santa Margarita, La Coruña.

Hórreo galego no Parque Santa Margarita, La Coruña.

Estes hórreos, que na Espanha são chamados apenas de hórreos galegos, são predominantemente retangulares. Os materiais empregados variam conforme a zona onde se encontram. São bem comuns na Galícia Ocidental e norte de Portugal hórreos feitos totalmente de pedra (granito), desde as colunas até as paredes – inclusive as partes fendadas para ventilação. O telhado pode variar sendo comum os de telha ou pedra (xisto, chamado em Portugal também de lousa). São principalmente utilizados para armazenagem de espigas de milho ou batatas. Estes hórreos podem estar junto às casas de seus proprietários como podem estar em locais onde há um conjunto de hórreos que servem a uma comunidade.

As partes que o constituem são a caixa, onde o produto é armazenado; a porta de acesso; as paredes fendadas, que permitem a ventilação para secagem do produto armazenado, mas estreitas o suficiente para evitar a entrada de insetos; os pilares que o sustentam elevado do solo, que variam de número conforme o comprimento do hórreo; sobre os pilares ficam pedras redondas que servem para evitar que ratos subam até o armazém (estas pedras na Espanha são chamadas de tornaratas); uma espécie de apoio onde se pode encaixar a escada ou rampa que se utilize para ligar a escada à porta; a escada e o telhado.

Há mais detalhes que podem existir em alguns hórreos como o corta-formigas, uma pequena zona onde a água acumula-se e impede a passagem de formigas. Nem todos os hórreos têm enfeites, mas é frequente ver cruzes ou símbolos associados à fertilidade adornando a parte superior das paredes mais estreitas do hórreo.

Mas esta é uma descrição básica do tipo mais comum que se pode encontrar. Na Galícia a quantidade de hórreos é grande, é onde mais existem hórreos, e também é onde há uma maior variedade de estilos (veja indicação de livro sobre o tema no final do post). Veja no vídeo abaixo a grande variedade que pode existir nos hórreos encontrados na Galícia – e por extensão no norte de Portugal.

Hórreos em estilo Asturiano:

Hórreo asturiano

Hórreo asturiano

Os hórreos em estilo asturiano não são exclusivos do Principado de Astúrias, também são encontrados na Cantábria e León. O formato é sempre quadrangular, sendo predominantemente construídos em madeira (castanheira e carvalho).

Suas partes são basicamente as mesmas dos hórreos em estilo galaico-português. Possuem de diferente uma área externa à caixa (área de armazenagem) que também é utilizada para secagem e armazenagem de produtos agrícolas, o corredor, sendo este uma introdução mais recente. Esta área está presente em muitos dos hórreos em estilo asturiano, sendo que os que não a possuem têm colunas transversais em seu lugar para sustentar o telhado que terminaria sobre esta espécie de corredor, formando uma varanda coberta. Assim como os hórreos galaico-portugueses os asturianos possuem aberturas em suas paredes para ventilação, mas estas aberturas estão mais para pequenas janelas do que fendas. Há uma orientação certa para seu posicionamento, normalmente sendo voltados para o leste ou para o sul, pois os ventos e chuvas no meses mais frios são mais intensos vindos do norte e oeste.

Dentro deste estilo também há subdivisões, podendo-se encontrar uma pequena variação de estilos entre os hórreos asturianos, mas isto não significa variação da forma que é sempre quadrada. Podem ser encontradas construções retangulares que se parecem a hórreos asturianos, mas não são. Os hórreos clássicos são sempre sustentados por quatro colunas e quadrados. Se são retangulares e sustentados por mais colunas tornam-se uma outra construção chamada de panera. Os corredores citados como parte componente de muitos hórreos asturianos aparecem em todas as paneras, havendo a afirmação que na verdade era um elemento das paneras que foi transportado para os hórreos. Outra variante que adquiriram com o tempo foi a de serem construídos sobre outras construções, ou terem a parte inferior fechada. Nestes casos podem até ser chamados de hórreos mas não são os clássicos hórreos considerados de interesse cultural e protegidos por lei.

O vídeo que se segue mostra um conjunto de hórreos em estilo asturiano, em Villaviciosa, Astúrias. Não é nenhuma obra de arte cinematográfica mas dá uma idéia excelente das dimensões e formato de um hórreo asturiano. Não esqueçam que esta construção de considerável tamanho é montável e desmontável como se fosse um quebra-cabeças.

Hórreo navarro, no vale de Aezcoa, Navarra.

Hórreo navarro, no vale de Aezcoa, Navarra.

Além dos dois estilos citados existem hórreos em Navarra que se pode considerar como de um estilo à parte. O que acontece é que estes hórreos são muito poucos, existindo apenas cerca de 22 catalogados e todos com uma certa antigüidade. No País Basco também se pode encontrar alguns raros exemplares neste mesmo estilo.

Este hórreos são construídos totalmente em pedra, excetuando algumas vigas de sustentação. Mas como os demais, possui escada separada da construção (móvel ou não), aberturas para ventilação e são elevados do solo, tendo a mesma função dos outros hórreos.

No vídeo a seguir é possível ter uma idéia destes raros hórreos navarros. O vídeo está todo em espanhol, mas ainda que seu espanhol não seja dos melhores assista pelas imagens que são suficientes para se ter uma boa idéia deste tipo de hórreo.

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Martínez Rodríguez, Ignacio – El Hórreo Gallego , Fundación Pedro Barrié de la Maza

El Hórreo Asturiano (em espanhol)

Hórreos y Paneras (em espanhol)

Veja também os dois vídeos a seguir, que são uma reportagem da televisão portuguesa RTP1 sobre hórreos, neste caso canastros, portugueses.

1ª parte2ª parte

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As possíveis origens dos Hórreos

Semana passada falamos de algo curioso que vimos no caminho para Santiago de Compostela (veja post aqui). Hoje continuamos a falar dos tais Hórreos, entrando um pouco nas suposições sobre suas origens e descrevendo os diferentes estilos que adquiriu nas zonas onde foram construídos e ainda existem.

Não há uma certeza de quando os Hórreos começaram a ser construídos, existindo diversas teorias que tentam explicar como surgiram estas construções que coalham o noroeste da Península Ibérica. Vamos brevemente tratar de algumas destas possibilidades de origens dos Hórreos:

1) Seriam de origem Pré-Histórica:

Hórreo em Somiedo, Astúrias, com telhado de palha e estrutura em madeira.

Hórreo em Somiedo, Astúrias, com telhado de palha e estrutura em madeira.

Seguindo esta suposição, seriam originários de períodos pré-históricos, por a tecnologia de construção neles empregada ser conhecida por civilizações em estágios mais antigos de desenvolvimento. Os hórreos podem ser considerados um tipo de construção em palafitas, que teve início em civilizações pré-históricas. Outra razão para se crer em uma origem pré-histórica dos hórreos é o fato de pela Europa encontrarem-se restos arqueológicos do período Neolítico e da Idade do Ferro, em territórios das atuais França e Alemanha, em sítios de civilizações pré-históricas com economias ligadas à prática da agricultura. Uma das representações de hórreos mais antiga que se conhece foi encontrada no norte da Itália, onde há um conjunto de inscrições atribuídas aos celtas lepônticos. A própria forma de alguns hórreos lembra construções celtas, seja pelas palafitas, seja pela cobertura de palha. Na Península Ibérica, no entanto, não foram encontradas provas materiais em sítios arqueológicos que comprovassem esta origem pré-histórica dos Hórreos. Mas alguns etnólogos a sustentam, ainda mais levando em consideração citações feitas por historiadores e geógrafos romanos da existência de hórreos na península quando da entrada dos romanos. É o caso de Varrão e Plínio o Velho, que descrevem celeiros suspensos e inclusive recomenda-se o uso para a conservação do trigo. Ainda dentro desta teoria da origem pré-histórica dos Hórreos, supõe-se que a construção em si já era feita por povos pré-romanos, mas que passou por aperfeiçoamentos durante a ocupação romana. As colunas de sustentação em pedra seriam uma prova de melhorias feitas através do contato com a cultura romana, que fazia largo uso de pedras em suas construções.

2) Seriam uma aquisição cultural do período do Império Romano:

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Hórreo em estilo românico, no Vale de Valdorba, Navarra. Totalmente construído em pedra, por volta do século X.

Esta teoria é embasada em alguns pontos, principalmente a origem da palavra Hórreo. Hórreo é uma palavra de origem latina, derivada de horreum, significando nada mais nada menos que celeiro. Considerando que os povos conquistados obrigatoriamente adotavam a língua latina, é um pouco frágil esta suposição. A provável designação antiga dada ao Hórreo, invariavelmente se perdeu, devido à aculturação promovida pelos romanos. Este fenômeno é mais do que comum em culturas de povos submetidos.

Porém, os romanos já construíam celeiros elevados sob colunas com a finalidade de conservar alimentos. Não esqueçamos que a representação mais antiga que se conhece de um hórreo foi encontrada no norte da Itália, pertencente a uma cultura anterior à romana. Acrescentemos a isto o fato dos romanos serem especialistas em construções de pedra, por vezes, sem a utilização de argamassa, apenas encaixando as peças como é o caso da técnica de construção dos Hórreos. Outra possível aquisição derivada da ocupação romana seria o uso de telhas na cobertura dos Hórreos, que caso tenham existido anteriormente eram cobertos de palha. Ainda que não sejam de origem romana, é provável que tenham sofrido alguma evolução tecnológica graças à presença dos romanos na Penínsual Ibérica.

3) Seriam uma aquisição cultural do período da presença dos Suevos ou Visigodos no noroeste da Península:

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Kozolec, espécie de celeiro suspenso que pode ser encontrado na Eslovênia.

Esta terceira suposição, que na verdade são duas diferentes, até parece lógica. Vejamos. Segundo estudiosos portugueses os hórreos presentes na Península Ibérica seriam originários da Pomerânia (região entre a atual Alemanha e Polônia), habitada antigamente pelos suevos que, com o decorrer das migrações bárbaras dos séculos V e VI, estabeleceram-se no Noroeste da Península Ibérica.

É justamente no Noroeste da Península Ibérica onde se concentram os hórreos, incluindo toda a Galícia, Astúrias, norte de Portugal (Minho), mas também estão presentes na Cantábria, León, Navarra, chegando a zonas próximas aos Pirineus. Devido à grande concentração de hórreos justamente em uma área ocupada por suevos, se estes não foram os introdutores dos hórreos na Península, de alguma forma, contribuiram com sua manutenção e com a ampliação de seu uso.

Já o defensor da teoria de que os Hórreos teriam sido introduzidos pelos visigodos é um fotógrafo e etnógrafo alemão chamado Fritz Krüger, que visitou Astúrias nos anos 20 do século passado. Segundo ele os hórreos seriam uma evolução de uma espécie de cabaceiro elaborado com varas cruzadas como alguns cestos. Destes cabaceiros arcaicos teria evoluido até chegar aos hórreos atuais. De fato alguns hórreos lembram mesmo cestos, podendo sim se não uma possibilidade sobre as origens dos hórreos, ao menos não deixou de ser uma inspiração para o formato de alguns.

Teorias à parte o certo é que entre os séculos XIV e XV os Hórreos chegaram ao apogeu de desenvolvimento tecnológico, passando apenas por pequenas mudanças ao longo dos séculos seguintes, até os dias atuais. Quanto à concentração de hórreos ser no noroeste peninsular, não significa que não existissem em outros lugares da península em número considerável anteriormente. Temos que levar em conta que o passado preserva-se melhor em zonas onde há um menor desenvolvimento nos períodos seguintes de sua História, ou seja, onde há uma certa estagnação ou mudanças em menor escala. Onde os hórreos foram melhor preservados são em zonas que até hoje têm a agricultura tradicional como uma das formas de produção econômica. Ou seja, o tipo de economia que existiu por longo tempo no noroeste da Espanha e norte de Portugal permitiu a utilização destes hórreos por tempo suficiente para popularizá-los e multiplicá-los. A cultura de subsistência, na qual os alimentos consumidos eram produzidos em uma mesma família que os consumia, ainda hoje pode ser encontrada nestas zonas.

A preguiça bateu! Vou deixar a descrição dos diferentes estilos para semana que vem.

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Fontes:

Antes e Agora: Paisagens Tecnológicas – Jorge Freitas Branco

El Hórreo en Asturias – Esperanza Ibañez de Aldecoa, Ediciones Trea, 2005.

Fórum Gallaecia – Hórreos/Espigueiros na Galécia e Europa (em português e espanhol)

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Los hórreos del País Vasco – Jose Antonio Alvarez Oses

La Nueva España: Diário Independiente de Astúrias – El pudor gana a la História.

Resumo sobre o Kozolec

Descobrindo os Hórreos

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Hórreos retangulares, formato tradicional dos hórreos galegos, na província de Orense, Galícia.

Em uma pequena viagem que fiz com meus pais, saímos daqui de Lisboa e fomos até o extremo norte de Portugal. Como é meu hábito, fui observando a paisagem até os mínimos detalhes. Quando entramos na Galícia, comecei a ver com muita frequência algo que nem era necessária muita atenção para notar. Já havia visto em outros lugares, mas não em tão grande quantidade como via naquele caminho até Santiago de Compostela – que era para onde íamos. O que eu via que tanto me chamou a atenção é chamado por lá de hórreo, que em português é comumente chamado de canastro. Podem ser chamados de celeiros, mas em opinião muito pessoal creio que este último nome não é muito apropriado, pois desconsidera as características que tornam peculiares essas construções. Pelo caminho que percorri havia hórreos novos ou reformados, velhos ainda utilizados ou abandonados, pequenos e enormes. Mas todos eram de pedra, com umas ripinhas finas nas laterais, uma porta somente acessível a partir de uma escada, e ficavam lá, encravados na paisagem, imponentes, enquanto eu me perguntava, afinal, qual seria a utilidade daquelas “casinhas diferentes”.

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Hórreo estilo asturiano, no pueblo de Soto de Sajambre, León.

O hórreo é uma espécie de dispensa de outros tempos, sendo uma peça fundamental na vida diária das casas rurais de antigamente. Também é conhecido pelos nomes de cabazo, cabaceiro, cabaceira, canastro, piorno, horru, hurriu, granero, espigueiro, canastro, etc (estando nesta lista incluidas palavras em português e espanhol). É um pequeno edifício ou construção elevada sobre pilares, que tem como função servir de depósito de grãos. Grande parte dos hórreos até hoje existentes eram basicamente para o armazenamento de milho, podendo também ser utilizados para o armazenamento, secagem e conservação de produtos como centeio, maçãs, castanhas, batatas, cebolas, queijos, embutidos, presuntos, etc. Serviram inclusive para a instalação de colméias para a produção de mel. Outro uso que foi dado a eles foi o de quarto improvisado, inclusive com a colocação de uma cama em seu interior, mas isto nos de considerável dimensão!

Um imponente hórreo galego.

Um imponente hórreo galego.

São elevados do chão, para evitar o ataque de animais que poderiam alimentar-se dos produtos armazenados. Como nas áreas onde existem os hórreos chove muito no Inverno, era também uma forma de proteger os produtos da umidade característica desta estação, mantendo-os afastados do chão. No vão existente entre as colunas que sustentam o hórreo tradicionalmente encontrou-se diversos usos para este espaço. Eram o espaço para guardar os carros de boi, montar pequenas oficinas de carpintaria ou outras profissões tradicionais, assim como servia para armazenar lenha para o inverno, como galinheiro, ou para guardar quaisquer objetos que não tivessem mais serventia. Mas atualmente podem ser usados como garagem para carros ou tratores, dependendo da altura ou, em alguns casos, foram transformados em pombais.

Hórreo asturiano com milho e favas secando, em Mestas.

Hórreo asturiano com milho e favas secando, no pueblo de Mestas, Astúrias.

Não é considerado propriamente um imóvel por ser móvel, isto mesmo. Os hórreos – ao menos os tradicionais – eram feitos sem a utilização de quaisquer argamassa, sendo suas peças encaixadas como em um quebra-cabeças. Isto possibilitava que fossem removidos com certa facilidade e levados para onde se quisesse.

Os hórreos não existem apenas na Galícia. Ao norte de Portugal também pode-se encontrar em menor quantidade, principalmente no Minho, assim como existem por todo o norte da Espanha, desde Astúrias, passando por Cantábria, León e País Basco. Mas as áreas onde há maior concentração de hórreos são Galícia, Astúrias e ao norte da província de León.

Por muitas zonas da Europa existem ou existiram celeiros elevados sobre colunas parecidos ou quase idênticos aos existentes na Península Ibérica. No resto do mundo também existem exemplares de celeiros ou depósitos elevados, pertencentes às mais diversas culturas, mais ou menos similares aos hórreos. Até os dias atuais, na Escandinávia (Noruega, Suécia) também podem ser encontrados, assim como na Inglaterra, Suíça, Romênia e norte da Itália, entre outros.

Os hórreos mais conhecidos ficam na zona ocidental da Galícia, em Carnota, Lira e Araño. São os maiores da Galícia com 34, 36 e 37 metros de comprimento respectivamente. Há uma certa disputa entre os moradores de Carnota e Lira sobre qual de seus hórreos é de fato o maior, visto que um tem um maior comprimento e o outro uma maior capacidade, levando a uma eterna disputa de qual é o maior realmente.

Hórreo em Cosgaya, Cantábria.

Hórreo em Cosgaya, Cantábria, transformado em suporte para parreira e garagem.

Os hórreos foram uma espécie de tecnologia desenvolvida através de milênios para o armazenamento, secagem e conservação, assim como isolamento e proteção, de grãos oriundos das agriculturas de subsistência das populações do noroeste da Península Ibérica.

O que diferencia os chamados hórreos de outros exemplares similares de diferentes culturas, é o fato de terem sobrevivido em grande número até os dias atuais, assim como as características que adquiriram com o passar do tempo que os transformaram em um edifício com características únicas.

Devido às mudanças que acabam por levar à extinção formas tradicionais de economia, construções como os hórreos acabam por perder sua utilidade. No entanto, como possuem características próprias que revelam a cultura de uma sociedade, são uma forma de conhecermos os povos que habitam o norte e noroeste peninsular e seus antigos modos de vida. Por esta razão, há da parte do governo espanhol, e dos governos regionais, medidas para a preservação dos hórreos. São eles um patrimônio etnográfico que podem ter novas utilidades como meio de auto-conhecimento para os moradores locais ou de conhecimento para os que vêm de fora, servindo assim como um atrativo turístico a mais. Hoje em dia muito raramente se construiria um hórreo para os fins tradicionais para os quais foi construído ao longo de séculos. Mas novos usos foram dados já, como inclusive a construção de residências na forma de hórreo. De fato para a arquitetura é um meio de conhecimento da evolução de uma técnica. Divagações à parte, não se esqueça de, quando visitar o Minho em Portugal, ou a Galícia, Astúrias, Cantábria, León, Navarra e País Basco, prestar atenção a estas construções curiosas e em toda a história que carregam.

Mais sobre o assunto falamos domingo que vem, dando um breve histórico e descrevendo com mais detalhes esta curiosa construção em seus diferentes estilos. Por hoje é só que o post já está grandinho!

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Fontes:

Caminho de Santiago – Hórreos (Celeiros) (em português)

Concello de Friol – Hórreos (em espanhol)

Correr y Escalar – La arquitectura asturiana (em espanhol)

El Diário Montañes – Los hórreos de Cantabria serán parte del Patrimonio Cultural (em espanhol)

Faro de Vigo – La segunda vida de los hórreos (em espanhol)

Hórreos de Galícia – blog somente sobre os hórreos galegos. (em espanhol)

La Voz de Asturias – Alertan del riesgo de desaparición de los hórreos y paneras asturianos (em espanhol)

Vigo en Fotos (fotos de hórreos galegos)

Queijo Cabrales

Panorâmica do lugarejo de Sotres com os Picos de Europa ao fundo, em Cabrales. (Mick Stephenson)

Panorâmica do lugarejo de Sotres com os Picos de Europa ao fundo, em Cabrales. (Mick Stephenson)

Quando eu tinha uns 9 anos, meu pai chegou de uma longa viagem. Depois de décadas vivendo no Brasil tinha conseguido voltar a sua terra natal. Além de rever os parentes que ficaram para trás e os lugares da infância e juventude, também visitou lugares que sempre ouviu falar mas nunca teve a oportunidade de conhecer. De um deles levou uma preciosidade, bem embalado, com todo cuidado, para que provássemos algo delicioso que só na terra dele existia. Quando foi abrindo o embrulho, começou a aparecer o queijo mais feio que já tinha visto na vida. Aquilo não me parecia estar em bom estado. Mas ele, com um sorriso mágico, dizia o quanto era bom aquele queijo feio. Ainda acrescentou que os bons eram os que tinham “bichos” (larvas), mas que aquele não tinha.

Como eu era uma criança de 9 anos, e era meu pai quem dizia que aquilo era bom, provei. Descobri que ele tinha razão, foi o melhor queijo que comi até então. Durante 20 longos anos não tive a oportunidade de provar aquele queijo novamente (muito caro e difícil de achar no Brasil), mas não esqueci o sabor nem o mágico momento de descoberta que vivi. Quando cheguei na Espanha foi das primeiras coisas que busquei, e novamente, comi daquela delícia, o queijo mais feio que vi na vida.

Queijo de Cabrales - a primeira visão que tive deste queijo foi muito parecida com o que se vê nesta foto.

Queijo Cabrales - a primeira visão que tive deste queijo foi muito parecida com o que se vê nesta foto.

Este feio queijo, ou como me foi apresentado Queso Cabrales, leva o nome do concelho onde é fabricado artesanalmente até os dias de hoje. Cabrales é uma localidade do Principado de Astúrias, no norte da Espanha, encravado nos Picos de Europa. Mais da metade de Cabrales são picos nevados. A parte que não é pico nevado é composta de vales onde se fixaram pequenos lugarejos, cuja população vivia e ainda vive da criação de gado leiteiro (vacas, cabras e ovelhas). O queijo teria nascido de uma necessidade dos habitantes locais de dar uma utilidade ao leite e queijos a mais que tinham disponíveis. Não se tem certeza de quando o queijo começou a ser fabricado, mas em algum momento perdido na História, eles foram guardados nas grutas, e depois de algum tempo, ao provarem do queijo descobriram que era bom. Dizem que o consumo do queijo, antes da criação da pasteurização, evitava a chamada febre de malta (brucelose), doença bacteriológica crônica causada pelo consumo de leite e produtos lácteos não pasteurizados.

É de uma mistura variável dos leites de vaca, cabra e ovelha que é feito o Cabrales, mistura que pode variar dando a cada queijo características peculiares. Mas somente o leite que é retirado nas ordenhas da manhã e da noite é que são utilizados. Quando o leite atinge a temperatura adequada, acrescenta-se uma pequena quantidade de coalho, que antes era artesanal e agora é feito a partir de preparados industrializados. No dia seguinte, com uma espécie de grande colher, quebra-se a coalhada formada, deixando repousar por algumas horas, para que se possa retirar o soro posteriormente. A massa que resulta é colocada em moldes, mas sem prensar o futuro queijo. Assim fica a massa dentro dos moldes por alguns dias, num primeiro processo de secagem. Quando se tira o queijo dos moldes salga-se de um lado, e só depois de mais alguns dias é que se vira o queijo e salga-se do outro lado.

Depois desta secagem e tempero do queijo, ele passa por um processo de maturação. É levado até as cavernas naturais que existem nos Picos de Europa, onde a umidade relativa chega aos 90%, e a temperatura gira em torno dos 8 e 12 graus centígrados, ficando aí por 1 a 4 meses. Nestas cavernas existem correntes de ar internas que permitem o toque especial ao queijo: o mofo. É então que o mofo (do tipo penicillium) que caracteriza o Cabrales se desenvolve e espalha-se pelo queijo através de seus poros, conforme o tempo passa, ajudado pelas correntes de ar.

Peças do queijo de Cabrales

Peças do queijo Cabrales

No final, o resultado é um queijo que pode variar de 2 a 5 quilos, 7 a 15 cm de diâmetro, com uma fina casca predominantemente castanha acinzentada e mole. Por dentro tem veios de cor verde azulada, é cremoso, compacto e com um cheiro forte e picante. Há controvérsias quanto ao odor do queijo. Alguns afirmam que só tem cheiro forte quando exposto a altas temperaturas ou armazenado por muito tempo em embalagens plásticas. A cor pode variar, dependendo da quantidade de leite de vaca que tenha, sendo mais amarelo quanto maior for a quantidade deste leite. Mas geralmente é branco por dentro e muito feio por fora.

Aquela história contada por meu pai de que os melhores são os que têm larvas, é muito comum de se ouvir das gerações mais velhas. Mas pelo que consta não passa de lenda, visto que o processo de fabricação não tem brechas para o desenvolvimento de nenhum “bichinho” nos queijos.

Cabrales fatiado

Cabrales fatiado

O queijo não deve ser mantido em local seco, o recomendável é cortar em peças e guardar dentro da geladeira em embalagens que impeçam que resseque. Pode ser conservado por até um ano, ganhando um sabor mais picante e intenso. Em ambientes quentes perde seu sabor, degradando-se. O ideal mesmo seria envolve-lo em um pano úmido, re-umedecendo este pano diariamente – assim fez meu pai. Pode ser consumido com tudo, desde um aperitivo, com frutas, como molho de acompanhamento ou com doces. Tradicionalmente, deve ser acompanhado de uma boa sidra (bebida típica em Astúrias), mas cai bem com um vinho branco adocicado. Uma senhora que me vendeu um pedacinho do queijo na Espanha, ensinou-me uma receitinha bem básica. Misturar o queijo a um pouco de sidra formando uma pasta, e passa-la em fatias de pão. Uma delícia!

Em 1981, o queijo ganhou Denominação de Origem, levando que sua fabricação siga normas regulamentadoras que obrigam que o fabrico seja feito invariavelmente de um mesmo modo, segundo o velho método artesanal, e que o leite utilizado seja sempre o dos criadores da mesma localidade onde é feito o queijo, desde que registrados na Denominação de Origem. Este queijo é também o mais falsificado, há muitos por aí que supostamente são queijos Cabrales, mas os verdadeiros tem certos dados na embalagem que certificam sua origem.

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Para ver receitas (em espanhol) nas quais se emprega o queijo Cabrales veja o site El Camino Real.

Para saber mais sobre a Denominação de Origem consulte o site Fundación Cabrales. Neste mesmo site pode-se ver diversas fotos sobre o queijo, o entorno, e a Cueva de Exposición, onde os turistas podem apreciar o processo de fabrico do queijo.

No site Sabores Mitológicos de Asturias pode-se conferir uma lista de produtores certificados do queijo Cabrales.

No Flickr há um álbum que mostra o processo de fabrico do queijo chamado Asturias Queso-Cabrales.