Azulejos portugueses – século XVII (parte 02)

Voltando a falar dos azulejos do século XVII, continuamos no assunto dos azulejos figurativos. Os azulejos chamados figurativos funcionaram como um substituto de baixo custo de pinturas à óleo, cortinas, tapetes e outros adereços decorativos.

Representação de São Diogo em azulejos do século XVII, Casa Pia, Lisboa.

Representação de São Diogo em azulejos do século XVII, Casa Pia, Lisboa.

Nas igrejas estes azulejos foram utilizados para substituir imagens de santos, por exemplo, existindo painéis com imagens dos santos ou cenas religiosas na decoração das mesmas. Prevalecem os temas religiosos historiados. Isto quer dizer que, um conjunto de azulejos poderia servir para contar uma história, como se fosse uma história em quadrinhos em azulejo. Assim pode-se encontrar uma narrativa da vida de um santo ou de Cristo. Há também representações alegóricas com símbolos que identificam um determinado acontecimento, mistério, mandamento religioso. Em comparação com outros usos figurativos do azulejo, as composições religiosas tendem a ter uma dimensão reduzida.

Mas além da Igreja, a Nobreza da época também fez grande uso dos azulejos figurativos. Com a Restauração da independência portuguesa, em 1640, houve uma necessidade de redecorar rapidamente, e a um custo reduzido, palácios da nobreza portuguesa. Um exemplo deste uso dos azulejos na decoração palaciana é o Palácio dos Marqueses de Fronteira, localizado em Lisboa, considerado o exemplar mais significativo deste período. Após a Restauração, os palácios ganham painéis com a representação de batalhas, caçadas ou cenas do cotidiano. Se antes as pinturas eram copiadas de pintores e ilustradores italianos ou holandeses, passam também a chegar influências vindas da França. Surgem também as Figuras de Convite, que representavam porteiros ou soldados armados, na entrada ou escadarias de um Palácio. Também existem os Atlantes, que eram originalmente figuras esculpidas utilizadas em colunas, dando a idéia ilusória que estariam sustentando a coluna. Na azulejaria portuguesa, estas figuras esculpidas foram transformadas em um motivo decorativo muito utilizado não apenas no século XVII mas no seguinte também.

Exemplo de uma Macacaria, "o casamento da galinha", existente no Palácio Fronteira, Lisboa.

Exemplo de uma Macacaria, "o casamento da galinha", existente no Palácio Fronteira, Lisboa. Todos os personagens representados, excetuando a noiva, são macacos.

Há toda uma variedade de possibilidades na figuração com o azulejo, sendo reproduzidas cenas do cotidiano, batalhas, personagens ilustres, cenas satíricas. Entre as diversas figurações profanas existem as Macacarias e os Grotescos.

As Macacarias eram cenas onde os personagens centrais na maioria das vezes eram macacos. Eram carregadas de irreverência e ironia, criando cenas satíricas.

Os Grotescos eram basicamente cenas engraçadas, fantásticas, sem muito sentido, mas com uma imagética realista. Baseados em motivos profanos de origem romana recuperados por pintores renascentistas, os Grotescos também eram utilizados na decoração de igrejas, onde o tema retratado era relacionado à religião, tornando-os uma mistura entre sagrado e profano, sendo do agrado da grande maioria das pessoas. Os Grotescos tiveram uma mais larga presença na azulejaria do que em outras formas de representação.

Exemplo de Albarrada do século XVII, Évora.

Exemplo de Albarrada do século XVII, Évora.

Sem considerar o elemento figurado como um todo mas detalhes, ou motivos, temos um motivo decorativo muito recorrente no século XVII, o albarrada, ou simplesmente cesto de flores. Este motivo consiste em um ramo de flores numa jarra, cesto, vaso, taça ou outro tipo de suporte, com elementos figurativos ladeando este tema central. Exemplos são o uso de animais como golfinhos, pássaros, animais de caça, ou pessoas e crianças, assim como elementos vegetalistas.

Uma outra fonte de inspiração para os azulejistas deste século eram os tecidos exóticos do Oriente, provenientes principalmente da Índia, onde Portugal tinha possessões. As estampas dos tecidos foram ocidentalizadas, cristianizadas e transformadas em motivos para embelezar azulejos usados em frontais de altares, por exemplo. Tornam-se “tecidos” cerâmicos, ao substituirem estes em certos locais de uma construção, onde anteriormente poderia empregar-se uma toalha ou cortina na decoração. Há toda uma representação de motivos e animais e flora do oriente, de forma ocidentalizada. Ainda que vindos do Oriente, os motivos representados ganhavam um significado ocidental e cristão. Um exemplo é a representação de romãs, que na cultura oriental está relacionada à fertilidade, mas nas igrejas católicas era associada com a Ressurreição ou da Esperança.

Um dos destaques da utilização da azulejaria na substituição de tecidos são os Frontais de Altar. Em sua grande maioria são representados como se fossem um pano único, podendo haver variações, como os frontais tripartidos. Nestes últimos, a parte central possui uma cartela com um emblema religioso, no mais, além da profusão de figuras, havia a reprodução inclusive de franjas, para dar mesmo a idéia de que era uma toalha.

Frontal de Altar da segunda metade do século XVII, localizado na Igreja de Santa Tereza, em Lisboa. Com uma cartela central e repleto de motivos da fauna e flora oriental.

Frontal de Altar da segunda metade do século XVII, localizado na Igreja de Santa Tereza, em Lisboa. Com uma cartela central e repleto de motivos da fauna e flora oriental.

Até cerca de 1675 o azulejo é largamente utilizado na decoração de igrejas, conventos e palácios. Mas ainda há neste período uma produção artesanal, com mão de obra não qualificada. O fato da azulejaria ser produção por mão de obra não qualificada é significativo, pois há neste período uma releitura de todas as fontes de inspiração, uma espécie de livre interpretação. Há uma mistura de diferentes estilos, como o maneirista e o barroco, sem uma separação rígida. Isto torna a azulejaria deste período uma espécie de arte com identidade própria, não estando atrelada pura e simplesmente a uma tendência artística, mas bebendo como convêm de cada uma, reinventando-as e tornando-as algo novo.

Mas em fins do século XVII ocorrem mudanças significativas no fabrico de azulejos e na qualificação da mão de obra que fazem com que este período seja uma transição para azulejos de maior valor artístico, enquandrando-se às tendências da época mais formalmente.

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Para saber mais:

A Arte do Azulejo em Portugal

Fábrica Cerâmica Viúva Lamego

Museu Nacional do Azulejo

O Azulejo em Portugal

O Azulejo em Portugal ao longo dos séculos

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Azulejos Portugueses – século XVII (Parte 01)

Há uns dois meses demos uma idéia geral da azulejaria portuguesa nos séculos XV e XVI (veja post aqui). Hoje falaremos do século XVII, quando a produção portuguesa de azulejos consolida-se e ganha características próprias, para atender as necessidades locais.

É no século XVII que aparecem os Azulejos de Repetição, utilizados na técnica do alicatado ou com padrões que repetidos formavam um desenho mais amplo do que o presente em uma única peça.

Igreja de Santa Maria de Marvila, em Santarém. Exemplo de azulejos de padrão com utilização da técnica do alicatado (faixa central).

Igreja de Santa Maria de Marvila, em Santarém. Exemplo de azulejos de padrão com utilização da técnica do alicatado (faixa central), formando um enxaquetado, datado de princípios do século XVII.

A técnica do alicatado é uma herança dos tempos da azulejaria árabe, onde as peças cerâmicas monocromáticas eram posteriormente cortadas e reagrupadas com outras peças de cores diferentes para formar um desenho. Como este trabalho era feito com um alicate, a técnica ficou conhecida por este nome. Os azulejos do século XVII, ao menos até cerca de 1630, eram muito empregados com a utilização do alicatado. Além do desenho formado pela junção as peças cortadas, havia uma espécie de barra delimitando o trabalho, que servia não apenas como acabamento mas como elemento de integração entre o azulejo e a construção como um todo. As cores predominantes nestes azulejos eram o azul e branco, e o verde e branco. Em alguns exemplos ainda existentes desta utilização do azulejo pode-se notar que além da aplicação com a técnica do alicatado, existiu o uso desta técnica associada com azulejos de padrão.

Exemplo de tapete de azulejos, com padrão parras e uma barra em todo o contorno, do século XVII (Museu Nacional do Azulejo).

Exemplo de tapete de azulejos, com padrão parras e uma barra em todo o contorno, do século XVII (Museu Nacional do Azulejo).

Os azulejos de padrão são aqueles que se usam até os dias de hoje, com um desenho específico em uma peça, que junta às outras formam um desenho maior, ou um novo desenho com o conjunto dos motivos repetidos. Em comparação com o colorido dos azulejos do século anterior e os de origem árabe, são bem menos coloridos, e os desenhos mais simples. Este tipo de azulejo não precisava ser cortado e encaixado para formar o desenho como os empregados com o alicatado. Era necessário apenas dispo-los um ao lado do outro para formar o desenho planejado, o que diminuia os custos de sua colocação. Por esta razão popularizaram-se, tornando acessível a um maior número de pessoas o uso do revestimento de azulejos. Também os Azulejos de Padrão eram acompanhados de barras, ou cercaduras, para delimitar o trabalho azulejado e integrá-lo à construção, sendo os motivos predominantemente vegetalistas e geométricos, pintados de azul e amarelo sobre fundo branco.

É muito característico deste princípio de século XVII o uso do enxaquetado, uma composição com os azulejos formando desenhos geométricos, seja com a técnica do alicatado ou com azulejos de Padrão. Um exemplo de enxaquetado pode ser encontrado na Igreja de Santa Maria de Marvila, em Santarém, com conjuntos de azulejos de 1617 e da década de 1630. Outro exemplo de decoração elaborada com estes azulejos são os chamados tapetes. Formavam padrões multicoloridos e com formas variadas em sua composição, lembrando os desenhos tradicionais de tapetes, sempre com barras, para delimitar o trabalho e integrá-lo ao conjunto da construção onde era empregado.

Capela de São Sebastião, Ericeira, erguida no século XVII, com tapetes de azulejos inclusive no teto.

Capela de São Sebastião, Ericeira, erguida no século XVII, com tapetes de azulejos inclusive no teto.

A inspiração para a criação dos desenhos destas peças cerâmicas teve diversas fontes. Os primeiros Azulejos de Padrão portugueses tiveram em seus desenhos decoração maneirista, com influência italiana e flamenga (região da atual Bélgica). Os desenhos destes azulejos eram recriações dos motivos utilizados em pavimentos do Renascimento, com formas de cruz alternando com outras formas geométricas justapostas e delineadas, com barras, ou frisos, delimitando o padrão, barra esta que em conjunto formava um motivo à parte, originando uma malha solta em arabescos, mas integrada tanto com a composição formada pelos azulejos em conjunto, como com a construção onde eram empregados. Eram compostos a princípio por módulos de 4 azulejos, o que posteriormente expandiu-se para números imensos, chegando a conjuntos de centenas de peças.

Um exemplo destes azulejos são os Ponta de Diamante, simulando prismas e dando um efeito de relevo ao desenho formado, através da pintura. Quer dizer, ao olhar para o conjunto temos a impressão que há um relevo, mas na verdade é apenas uma ilusão de ótica devido à forma como foram pintados, com uma espécie de “sombra” num ângulo de 45º. Além destes, também existiam os óvulos, dardos, ondas, palmetas, pirâmides e cartelas. O Ponta de Diamante era conhecido na Espanha como Padrón de los Clavos, ou Padrón del Arzobispo, pois, a princípio, foi fabricado para satisfazer uma encomenda feita por um arcebispo de Toledo, no século XVI. Havia também as parras, ou folhagens, motivos muito utlizados neste período. Na verdade apenas o nome popular é Parras, pois as folhas quase nunca eram de parreiras, também este motivo sendo de origem italiana.

Painel figurativo, com motivo religioso, datado entre 1630 e 1650, da Igreja da Assunção da Atalaia, Vila Nova da Barquinha, Santarém.

Painel figurativo, com motivo religioso, datado entre 1630 e 1650, da Igreja da Assunção da Atalaia, Vila Nova da Barquinha, Santarém.

Outra característica da azulejaria do século XVII foi a utilização de gravuras para criar ou recriar paisagens, passagens bíblicas ou mitológicas. Não são apenas um revestimento decorativo, também são uma forma de expressar gostos de uma época. Além dos gostos artísticos expressados nos azulejos, temos como encontrar em painéis deste século, um pouco de como pensavam seus criadores e os compradores. A moral, a literatura, os gostos artísticos definem as características dos azulejos, principalmente nos painéis.

Os pintores de azulejos, com o grande aumento da procura do produto para revestimentos, acabaram por buscar inspiração em pintores e ilustradores europeus, transportando para o azulejo imagens que faziam parte do imaginário da época, sendo transferidas para a peça as imagens, com uma ampliação em sua escala. Há que se levar em conta que, muitas das imagens originais eram feitas por artistas com uma formação específica. Já os azulejistas não tinham uma formação ligada às artes, fazendo assim uma interpretação livre de muitos dos desenhos reproduzidos. Por vezes uma gravura ganhava novas conotações ou várias leituras, sendo uma mesma cena utilizada para compor diversas outras. Quer dizer, em um painel com uma imagem bucólica pode-se encontrar detalhes de uma ilustração, um personagem de outra e um fundo paisagístico de outra mais, por exemplo, não sendo somente uma mera reprodução da ilustração, mas sim uma recriação.

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Para saber mais:

A Arte do Azulejo em Portugal

Fábrica Cerâmica Viúva Lamego

Museu Nacional do Azulejo

O Azulejo em Portugal

O Azulejo em Portugal ao longo dos séculos

Azulejos Portugueses – séculos XV e XVI.

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Painel do século XVI, com passagem bíblica, na Quinta da Bacalhôa, Azeitão (Setúbal).

O uso do azulejo em Portugal ganhou uma dimensão única, sendo utilizado desde a pavimentação até o revestimento externo de edifícios. Mas ele não se limita a um tipo de revestimento utilizado na arquitetura. Mais do que isto, tem uma conotação artística, nas formas e usos que ganhou com o passar do tempo, seja em Portugal ou nos países por onde Portugal esteve. Ele faz parte da História deste país e dos países que influenciou culturalmente.

Podem ser meros enfeites em um cantinho de uma casa ou seu total revestimento. Mas seja uma mera decoração ou mais que isto, revela um longo percurso da azulejaria no contato entre culturas e gostos estéticos. Andando por Portugal, em qualquer lugar pode-se encontrar a presença deste “ilustre português”; em um pequeno painel onde consta o nome de uma rua, em um mural com alguma cena histórica ou alegórica, no revestimento de alguma igreja secular, nos edifícios espalhados pelas cidades, ou – no caso de Lisboa – nas estações do metrô, cada qual com suas características próprias de uma época ou estilo.

Capela de São Roque, Lisboa

Azulejos com motivos bico de diamante, de 1596, na Capela de São Roque, Lisboa.

Azulejo é uma simples peça, geralmente quadrada, de barro cozido, esmaltado ou vitrificado de um dos lados. Podem ser de uma só cor ou multicoloridos. A palavra tem origem árabe e significa pequena pedra polida. Há uma versão, que desconheço se seria verdadeira ou não, que afirma que azulejo viria da junção da palavra azul e longe em espanhol (lejos), devido à cor predominante dos azulejos clássicos portugueses, significando assim azul distante (azul lejos). Esta versão pode não ser verdadeira mas é bem poética.

O revestimento cerâmico conhecido como azulejo, é utilizado desde a antiguidade, podendo ser encontrados no Egito Antigo ou Mesopotâmia. Espalhou-se pelo mundo graças à expansão do Islã, chegando a todo o norte da África e sul da Europa. Na Península Ibérica chega por volta do século XIV. No entanto, desde o século XIII, usavam-se pavimentações geométricas formadas por mosaicos vitrificados, como no Mosteiro de Alcobaça e no Castelo de Leiria. Mas a qualidade e uso extenso só se nota a partir do século XV com os produtos importados da Espanha, oriundos da azulejaria mudéjar. É também com esta azulejaria que a peça de cerâmica ganha o formato que conhecemos, um quadrado que em conjunto formam uma padronagem. Mas a partir do século XV os azulejos não se limitam a servir de pavimentação, mas recobrem paredes inteiras ou partes delas formando uma composição com os demais elementos arquitetônicos. Esta característica da utilização do azulejo em Portugal é repetidamente chamada de horror ao vazio – muito compreensível esta afirmação.

Piso na técnica do alicatado do século XV (?), na capela do Palácio da Vila, Sintra (PT).

Piso na técnica do alicatado do século XV (?), na capela do Palácio da Vila, Sintra.

O primeiro produto da azulejaria propriamente dita em solos ibéricos foi o chamado de azulejo mudéjar (ou hispano mourisco), sendo o utilizado pelas primeiras fábricas de cerâmica azulejar em Sevilha, Valência, Málaga e Talavera de la Reina. Este tipo de técnica já é resultado da mistura cultural entre os mundos árabe e ibérico. Caracteriza-se por uma decoração geométrica e vegetalista. A técnica de fabrico difere bem do que se faz nos dias de hoje. Eram produzidas grandes placas de barro cobertas de vidrado colorido uniforme. Depois de cozidos eram cortados em fragmentos de tamanhos e formas variáveis, e recombinados em desenhos decorativos geométricos ou lembrando plantas e folhagens (vegetalista), com a união de pedaços de diferentes cores.

Esta técnica de fabrico era chamada alicatado, visto que o alicate era um instrumento de trabalho indispensável. Levava muito tempo para que o trabalho fosse concluído, além de ser necessário que um artífice acompanhasse a encomenda até o local onde seria utilizada. Isto gerava um problema na hora de importar este material, razão pela qual são raros os azulejos deste período em Portugal, pois nesta época não existia produção própria. Exemplos de azulejos deste período em Portugal encontram-se no Palácio da Vila em Sintra (Palácio Nacional de Sintra).

Esfera Armilar de D. Manuel I.

Esfera Armilar de D. Manuel I.

Também no Palácio da Vila podemos encontrar azulejos na técnica corda seca, como os que representam a Esfera Armilar de D. Manuel I que revestem o Pátio das Carrancas. Estes pequenos painéis de cerâmica foram utilizados não apenas por D. Manuel mas por toda a nobreza e alto clero para afirmar publicamente seu prestígio, tornando-se algo recorrente ao longo dos 500 anos de história do azulejo em Portugal. O rei D. Manuel I fez uma importação de 10146 azulejos mudéjares, em 1508, para a decoração do Palácio de Sintra, onde podem ser encontrados não apenas exemplos dos alicatados e corda seca já citados, como dos de aresta, esgrafitados ou relevados.

Quanto à técnica da corda seca, os azulejos eram coloridos utilizando-se de sulcos na peça que depois eram preenchidos com as cores desejadas, ou seja, eram azulejos em baixo-relevo. Esta pintura era feita com substâncias que impediam que a pigmentação se alterasse durante a aplicação e cozedura, visto que isto era algo recorrente na técnica anterior, pois as substâncias utilizadas para a coloração das peças eram hidrossolúveis. A outra técnica era a aresta que é o contrário da corda seca. Ao invés de sulcos, levantavam-se arestas (muretas) na peça com moldes de madeira ou metal, no barro ainda macio. Desta técnica surge a variação relevada (em alto relevo).

Exemplo de azulejo na técnica de aresta relevada do século XVI, Palácio da Vila, Sintra (PT).

Azulejo na técnica de aresta em relevo do século XVI, Palácio da Vila, Sintra.

Durante o século XV e até metade do século XVI, Portugal importou azulejos da Espanha, tanto de Sevilha como já foi dito como de Valência. É no século XVI que começam a ser produzidos em Portugal em grande escala e com variedade de técnicas. Até então era o exótico que vinha de fora. Além das encomendas feitas em Sevilha ou Valência, também vinham azulejos de Flandres, mas na metade do século XVI ceramistas flamengos fixam-se em Lisboa, dando início à produção portuguesa. É nesta época que o azulejo português ganhará personalidade própria. Com a fixação dos ceramistas em Lisboa, o azulejo torna-se mais acessível. Mas o grande problema continua sendo sua colocação, lenta e dispendiosa, que impede o acesso da azulejaria a qualquer pessoa.

Azulejo em técnica de aresta, Palácio da Pena em Sintra.

Azulejo em técnica de aresta, Palácio da Pena, Sintra.

Na década de 60 do século XVI houve o contato com nova técnica de fabrico, vinda da Itália, o que permitiu uma ampliação nas possibilidades de uso e acabamento final das peças cerâmicas. A novidade era a técnica de fabrico chamada Majólica. Graças à utilização de um esmalte branco e de pigmentos metálicos, tornou-se possível pintar o lado vitrificado do azulejo. No entanto, não era possível retocar a pintura realizada, pois os pigmentos eram rapidamente absorvidos. Os motivos destes azulejos também eram diferentes dos azulejos mudéjares. A estética nestes era renascentista, evoluindo posteriormente para o maneirismo. Exemplo de destaque deste tipo de azulejo é a Capela de São Roque, que fica na Igreja de São Roque, em Lisboa, datados de 1584. Outro exemplo é a Quinta da Bacalhôa em Azeitão, no distrito de Setúbal, cujos azulejos são datados de 1565.

Com a entrada deste novo produto e a rejeição da Igreja Católica de tudo o que recordasse a arte mourisca, os azulejos mudéjares caem em desuso e com eles as técnicas da corda-seca e aresta. A majólica em Portugal tem o predomínio de representações figurativas, como painéis e medalhões alegóricos, de cunho religioso, mitológico, guerreiro ou satírico. Já os ceramistas de Flandres tinham um estilo mais gráfico e menos preciso que o renascentista italiano. São criados neste período elementos arquitetônicos que criam ilusões espaciais, e uma gama variada de elementos decorativos como os anjinhos, grinaldas, medalhões, etc.

No final do século XVI Portugal passa a integrar os domínios dos reis espanhóis, com o início da União Ibérica, em 1580. Este período de controle espanhol impede o acesso a tapeçarias, vitrais ou mármores, que acabam por serem substituídos pela azulejaria, que recobre do piso até as abóbadas de igrejas e palácios. É então que os azulejos ganham novas dimensões que não se limitam à repetição de um padrão em pequenas áreas. Tornam-se parte integrante da decoração de modo extensivo, porém ainda limitado, originando um pré-início da monumentalidade do uso que ganhará em Portugal no século seguinte, este pequeno quadrado de barro cozido.

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Para saber mais:

A Arte do Azulejo em Portugal

Fábrica Cerâmica Viúva Lamego

Museu Nacional do Azulejo

O Azulejo em Portugal

O Azulejo em Portugal ao longo dos séculos