A Torre das Encantadas

Torre das Encantadas (foto de Santiago Cabello)

Torre das Encantadas (foto de Santiago Cabello)

Existe um povoado na província de Saragoça, na Comunidade Autônoma de Aragão, Espanha, chamado Sabiñán. Próximo a este povoado encontra-se um torreão, conhecido como Torre das Encantadas. A Torre fica a uns 3 kms do pueblo, no alto de uma elevação, podendo ser vista da estrada.

Esta torre é um tanto especial, podemos mesmo dizer, quase única. É uma construção militar em estilo Mudejar do século XIV ou XV, uma das raras construções militares neste estilo ainda existentes. A torre tem forma retangular, tendo 11,6 m por 8,5 m. Em um de seus lados, que dá para o sul, não tem qualquer janela. Dentro dela existiram ao menos dois andares, hoje inexistentes, dos quais se pode ter alguma idéia pelo que sobra do andar térreo. Para subir ao andar superior, seguia-se por uma escada feita embutida no muro do lado oriental da torre, acessível por uma espécie de vestíbulo ligado à entrada principal. Na entrada há um arco pontiagudo que ainda pode ser notado no que resta da pequena torre.

Como foi dito, a Torre das Encantadas é em estilo Mudejar. Durante um período que vai do século XII até o XVII, existiu na Espanha um estilo de arte, caracterizado pela influência muçulmana, mesclada a outros estilos europeus da época, como o Gótico. Estas construções, decorações, pinturas ou mesmo literatura receberam o nome de Mudejar, que quer dizer domesticado. Os muçulmanos, após a conquista dos territórios onde viviam, tinham permissão para continuarem vivendo no mesmo local, seguindo com sua religião, idioma, etc. Este estilo arquitetônico/artístico é único da Península Ibérica, não se repetindo em mais nenhum lugar do mundo. O estilo Mudejar Aragonês foi declarado Patrimônio da Humanidade, pela UNESCO no ano de 2001, incluindo esta torre.

dscn4573Tudo que envolve a Torre das Encantadas é um mistério. Pela época em que foi construída dificilmente pertenceu a algum senhor muçulmano como afirma a lenda, sendo provável ter pertencido mesmo a um senhor cristão. Por suas dimensões não era uma torre secundária, subordinada a outra, sendo provavelmente uma casa senhorial fortificada o que também pode-se supor pelos vestígios que restam de seu interior. Próximo a ela existe uma outra construção cuja função é desconhecida mas por sua localização e dimensões, provavelmente serviria de dispensa para a torre. Apesar de hoje ser conhecida também como Castelo de Sabiñán, por sua localização não foi o castelo desta localidade, mas sim de outra localizada no vale que circunda a torre, cujo nome é desconhecido, mas supõe-se que um dia existiu. Por estes motivos, muito dificilmente a lenda das Encantadas tenha algum fundo de verdade histórica, sendo provavelmente uma alegoria com a intenção de talvez dar algum significado para a torre cujo passado era desconhecido para os moradores das redondezas ou, quem sabe, transmitir algum valor moral, ou também, por pura diversão, em um tempo que as histórias fantásticas como esta preenchiam as horas noturnas. Mais uma razão para duvidar-se de algum fundo de verdade histórica é o fato de a lenda ser localizada no tempo como tendo os fatos ocorrido em 1270, sendo que por volta de 1120 a região já era dominada pelos cristãos, não havendo nenhuma possibilidade de um muçulmano ter um senhorio nestes tempos.

São realizadas excursões para a Torre das Encantadas todas as noites de São João (23 de junho), onde se pode bebericar e mordiscar um lanchinho, e ouvir a lenda no próprio local dos feitos narrados.

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A TORRE DAS ENCANTADAS

torreonsabinan00Conta-se que o pequeno forte conhecido como Torre das Encantadas era a residência de um mouro, Abben Xumanda, pai de três moças de uma beleza ímpar. Por isto não as deixava sair dali, temendo que alguém pudesse levá-las. As moças nos momentos de tédio por não poderem sair da torre, aproximavam-se de uma janela que dava para o campo. Por esta janela comtemplavam uma pequena fonte que brotava mesmo ali, formando um minúsculo lago que servia como espelho perfeito.

Três cavaleiros cristãos as observavam todos os dias. Quando foram descobertos por elas, apresentaram-se. As visitas começaram a ser mais frequentes, aproveitando as muitas ausências do pai das moças, até que surgiu o amor entre os três casais. Então, elas elaboraram um plano para estarem mais próximas de seus amados, enganando o pai.

Fizeram uma escada para estendê-la através da janela, durante a noite, com a finalidade de que eles pudessem subir. E assim foi durante algum tempo, até que o ciumento pai descubriu a traição das filhas.

Uma noite, acompanhado de vários de seus homens, esperou ao pé da escada aos três cavaleiros cristãos, e assim que desceram de seus cavalos rapidamente cortou a cabeça a cada um com uma cimitarra. As três moças, apaixonadas, atiraram-se da janela, morrendo também.

Dizem que até os dias de hoje, quando chega a noite de São João, três pombas descem à pequena fonte, fundindo-se com as estrelas.

Tradução livre da versão encontrada em: Sabinius

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Para saber mais sobre a Torre das Encantadas veja:

Turismo de Zaragoza

Castillos de Aragón

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Marchas Populares

Componentes da Marcha de Marvila, no ano de 2007.

Componentes da Marcha de Marvila, no ano de 2007.

Em Portugal não temos Festa Junina, não aos moldes como as conhecemos no Brasil. Mas existe em Portugal uma festa popular que, provavelmente seria a evolução portuguesa das antigas tradições que também deram origem às festas juninas.

Aqui mês de junho é mês de Marchas Populares. Na cidade de Lisboa, na noite de 12 de junho temos o “desfile” das marchas, uma de cada bairro lisboeta, que fazem uma apresentação mistura de dança, teatro e desfile. Como o homem daqui de casa é do bairro de Marvila, por apelo emocional virei torcedora da Marcha de Marvila também. Na sexta ficamos até umas 2 da madrugada só para ver o desfile da “nossa” favorita. Foram ao todo 23 marchas, uma de cada bairro.

Santo Antônio

Santo Antônio

Mas vamos lá ao histórico das marchas. Assim como festejamos os santos do mês de junho (Santo Antônio, São Pedro e São João) com as Festas Juninas, aqui os santos populares (os mesmos já citados) são festejados com várias celebrações, entre elas as Marchas Populares. Ainda em princípios do século XX esta tradição das marchas, como são conhecidas hoje, não existiam. O que existiam seriam como quermesses, chamados de arraiais populares, espalhados por toda Lisboa, e os vizinhos e conhecidos reunidos, tomando um tintinho (vinho tinto) e comendo sardinha assada com pão, para festejar o santo popular. Também rolam umas farturas (o que no Brasil chamamos de churros). Vale lembrar que o Santo Antônio, aquele mesmo que no Brasil conhecemos como santo casamenteiro e aqui também, é lisboeta. É um santo genuinamente português, e o mais festejado em Lisboa dos santos deste mês de junho, desde os tempos da Idade Média.

Rua da Alfama enfeitada.

Rua da Alfama enfeitada.

Segundo “Seu Sogro”, quando veio viver em Lisboa há mais de quarenta anos, era assim mesmo: os vizinhos se reuniam para festejar, tinha um arraial em um lugar e o povo ia lá se encontrar, beber e comer. Depois seguiam para outro arraial. E tinham as fogueiras para aquecer a noite, que por cá nesta época do ano não é tão fria, mas sempre é bom uma fogueira, e bem, em algum lugar precisava-se assar as sardinhas.

Parte do festejo incluia fazer os tronos de Santo Antônio. Dizendo de forma simples o Trono de Santo Antônio é uma espécie de altar móvel com a imagem do santo, além de outras imagens e enfeites, cravos e um vasinho de manjericão, que é a plantinha associada ao santo, entre outros enfeites que compõem o objeto em si. Há quem diga que a erva do santo na verdade seria outra espécie, um parente do manjericão, que aqui é chamado de manjerico. Mas pessoalmente olhei um e conheço o outro e penso que seja apenas uma questão de semântica. São feitos estes tronos geralmente por crianças, utilizando-se de banquinhos ou caixotes. Mas há também alguns mais elaborados em lugares públicos.

Vasinhos de Manjericão, ou Manjerico.

Vasinhos de Manjericão, ou Manjerico.

Nos vasinhos de manjericão (ou manjerico) são colocados trechos de poesias que os namorados presenteiam uns aos outros. Mas atenção, nada tem a ver com dia dos namorados que por aqui é em 14 de fevereiro. As ruas também eram e são enfeitadas, de forma semelhante aos enfeites que usamos nas nossas Festas Juninas e no Carnaval: balões e bandeirinhas, além dos arcos cheios de flores ou papéis coloridos.

Com o passar do tempo a festa, que tinha seu lado digamos pagão, e o lado litúrgico, passou a ganhar novos contornos. Então, em plena década de 1920, começaram a surgir os primórdios das Marchas Populares. Mas é só em 1932 que passa a existir um concurso oficial das Marchas Populares como acontece até os dias de hoje. Na primeira edição participaram 6 bairros: Alcântara, Alfama, Alto do Pina, Bairro Alto, Campo de Ourique e Madragoa – a nossa querida Marvila ainda não tinha entrado. Foi organizada por Leitão de Barros e Norberto de Araújo. Em 1934 as Marchas Populares de Lisboa passam a ser organizadas pela Câmara Municipal de Lisboa (o equivalente à Prefeitura Municipal). Elas não eram realizadas todos os anos, sendo que entre 1970 e 1980 não houve um ano sequer que tenha tido Marchas Populares. Somente em 1988 é que passaram a ser anuais, não tendo falhado um ano desde então. Acredita-se que as Marchas Populares foram uma espécie de mistura da tradição francesa chamada Marche aux Flambeaux com as danças do Entrudo (o “primitivo” carnaval português). Cada local onde se festejasse o Santo Antônio teria dado início a algum grupo de marchantes, que desfilavam sem todos os apetrechos que há hoje, mais para exibição nas portas de algumas casas.

Os mascotes

Os mascotes

Voltando às Marchas atuais, o tema central do desfile, da música e da coreografia sempre evoca algo tipicamente lisboeta. Cada marcha inicia-se através de uma associação de bairro e participam de um desfile que dura de 15 a 20 minutos. Precisam ter 24 casais de marchantes (sempre casais), quatro aguadeiros (que são os que recolhem os objetos que caem, os objetos que são usados só momentaneamente e mudam os adereços), um cavalinho (que seria a bandinha), um casal de suplentes, um casal de crianças com no máximo 10 anos que são os mascotes, um porta-estandarte e um casal de padrinhos além de um ou dois ensaiadores.

Normalmente os padrinhos são famosos como atrizes, cantores entre outras celebridades. Todos os casais de marchantes usam roupas idênticas e carregam arcos. Os arcos vão mudando de uma Marcha para outra, mas sempre integrados ao tema do desfile. Há outros objetos que podem ser usados em encenações rápidas que se integram à marcha durante a coreografia feita nestes 20 minutos em que dura a apresentação.

Na Avenida da Liberdade, sai cada uma das Marchas, desfilando para que os espectadores apreciem o trabalho dos participantes. No sábado ficamos sabendo quem ganhou. Este ano houve empate entre a Marcha de Alfama e a do Castelo. A “nossa” Marvila ficou em segundo, empatada com Madragoa.

Marcha da Alfama, em 2007. Aqui dá pra ver bem os arcos, adereços que não podem faltar.

Marcha da Alfama, em 2007. Aqui dá pra ver bem os arcos, adereços que não podem faltar.

Além do prêmio da melhor Marcha, há outros prêmios como: melhor figurino, melhor coreografia, melhor cenografia, melhor letra, melhor musicalidade, melhor desfile na avenida e melhor composição. Mas não confunda! Não tem nada a ver com escola de samba e carnaval, apesar de algumas pequenas semelhanças. São duas tradições distintas, em épocas diferentes do ano. As Marchas tem muito mais a ver com as Festas Juninas, devido a suas origens. Assim como as escolas de samba, as Marchas participantes da festa também recebem uma ajuda de custo do governo.

Esta festividade está integrada em uma comemoração mais ampla, as Festas de Lisboa. Há durante todo o mês de junho, ou melhor, começando ainda no mês de maio os preparativos e anúncios, um conjunto de espetáculos, exposições e outras festividades que compõem as Festas de Lisboa. Entre alguns dos festejos que aconteceram este ano estiveram o Desfile da Máscara Ibérica, o Fado nos Eléctricos (é fadista cantando um fadinho dentro do bonde de número 28, que percorre alguns bairros tradicionais da cidade), os Arraiais Populares de Lisboa, os Casamentos de Santo António (casamento coletivo promovido pela Câmara Municipal de Lisboa) e as já faladas Marchas.

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As fotos utilizadas neste post, tirando a de Santo Antônio e da rua de Alfama, foram todas tiradas do site da EGEAC, empresa responsável pela organização das Festas de Lisboa.

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Para saber mais:

Álbuns de Fotos do Diário de Notícias:

Ensaios das Marchas (16 fotos)

As Marchas no Pavilhão Atlântico (24 fotos)

e mais

Marchas Populares – MyM

Programação das Festas de Lisboa 2009

Santillana del Mar – o “pueblo” mais belo da Espanha

Trecho da estrada próximo a Santillana.

Trecho da estrada próximo a Santillana.

Já imaginou perder-se por entre altas montanhas recortadas por vales verdes como esmeraldas, e de repente, encontrar-se à beira de uma estrada normal, com uma entrada para um povoado que parece perdido no tempo? Já imaginou seguir por esta entrada e descobrir-se cercado por velhas casas que parecem congeladas através dos séculos, só à sua espera para retornarem à vida, com flores nas varandas, separadas por pequenas ruas calçadas de antigas pedras, por onde já caminharam tantas pessoas de outros tempos? Isto não é impossível. Vivi esta pequena fantasia ao visitar Santillana del Mar, o pueblo das três mentiras. É que dizem que Santillana nem é Santa, nem llana (plana) e nem tem mar. Mas isto é um pouco questionável!

Rua de Santillana, ao fundo a Colegiata.

Rua de Santillana, ao fundo a Colegiata.

Sair da estrada asfaltada, descendo de um ônibus, e caminhando do asfalto para as velhas pedras do calçamento, seguir adiante e ver-me entrar por uma rua que fazia as vezes de túnel do tempo, foi uma sensação única que não me esqueço jamais. E quando as casas começaram a aparecer, de um lado e outro da ruazinha, feitas de pedras que mostravam em sua cor e desgaste quantos séculos se passaram… que mágico! Mais mágico ainda foi caminhar lentamente, apreciando os muitos anos que aquelas casas carregavam e, quando me dei conta, cheguei ao fim da vilinha, atravessando um pequeno rio, na calle del Río. Mas este fim foi grandioso, pois terminava em uma magnífica construção de cerca de 900 anos. A Colegiata Romanica de Santillana del Mar, um mosteiro construído para abrigar os restos mortais de Santa Juliana, conclui a visão do passado em pleno presente nesta bela vila cantábrica. Tirando meus delírios fantasiosos de filha da terra que nunca nela havia pisado, vamos à parte histórica. Ah, e não é Santa mas tem santa.

A Santillana que podemos ver ainda hoje encravada em um belo vale cantábrico, tem um início mesclado entre lenda e História. Dizem, mas não há certeza, que um mosteiro foi fundado por volta do século IX, por monges que escolheram este lugar para guardar os restos mortais de Santa Juliana. O próprio nome Santillana deriva do nome da santa, que em latim era Sancta Illana, depois Sant Iuliana, e com o tempo, virou Santillana.

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Túmulo onde se encontram os restos mortais de Santa Juliana.

Santa Juliana, ao que parece, foi martirizada na Ásia Menor, onde hoje é a Turquia, na época das perseguições aos cristãos feitas pelo imperador Diocleciano, em fins do século III. Os monges, que guardavam os restos de Santa Juliana, eram peregrinos, e acabaram por desembarcar na costa cantábrica, próximo da localidade hoje chamada de Santillana del Mar. Teriam construído uma Capela e um Mosteiro, onde os restos mortais de Santa Juliana poderiam ser venerados.

Já a versão histórica da fundação da localidade, atribui suas origens a uma corrente de repovoamento cristão da região, impulsionada pelos sucessores do rei Afonso I de Astúrias. A consolidação do poder cristão na região deu-se pelo século X, quando esta zona era conhecida como Astúrias de Santillana – nome pelo qual boa parte da atual Cantábria era denominada nesta época. No reinado de Fernando I de Castilha, o abade deste mosteiro ganhou importantes privilégios, no ano de 1045, tornando-o senhor da vila e suas possessões, ou seja, um homem rico, visto que a vila era passagem para os peregrinos que seguiam para Santiago de Compostela, e por aí passavam para venerar Santa Juliana.

Caminhando lentamente, deparei-me com este monumento do românico.

Caminhando lentamente, deparei-me com este monumento do românico: a Colegiata de Santa Juliana.

O templo primitivo foi substituído pelo que conhecemos hoje. Anexos foram construídos posteriormente, sendo que as partes mais antigas da construção que pode ser vista ainda hoje, datam do século XII. No início o mosteiro pertencia à ordem beneditina, mas no século XI, o mosteiro transformou-se em abadia, passando à tutela de uma comunidade de cônegos da ordem de santo Agostinho. No século XII, com o apoio da nobreza, a abadia tornou-se a mais importante da Cantábria medieval.

Em 1209, no reinado de Afonso VIII de Castilha, a vila de Santillana tornou-se a capital das Astúrias de Santillana. Na mesma época o mosteiro entra em decadência, mas é então que a vila passa por um desenvolvimento urbano, ao redor da Plaza Mayor, conhecida atualmente como Ramón Pelayo, e a Torre del Merino.

Vista do alto, tem-se uma idéia melhor da monumentalidade desta construção.

Vista do alto, tem-se uma idéia melhor da monumentalidade desta construção.

Em 1445, o rei Juan II de Castilha deu o senhorio da vila ao primeiro Marquês de Santillana e seus sucessores. Iñigo Lopez de Mendoza, o primeiro marquês, era pai de um dos maiores escritores em língua castelhana, Garci Lasso de la Vega (mais conhecido como Garcilaso de la Vega). Em 1475, os reis católicos concedem o título à família do Marquês de Santillana, de Duques do Infantado, continuando eles com a posse de Santillana.

A vila que conhecemos em um simples passeio é justamente o testemunho deste período de desenvolvimento urbano finalizado pelo século XVIII. No século XIX, era uma vila quase fantasma, mas como fica próximo a Comillas, local de veraneio da família real na época, era passagem obrigatória para visitantes tanto da nobreza madrilenha como catalã.

Bisão pintado, mas na Neo-Cueva, cópia perfeita da velha Cova de Altamira que encontra-se fechada ao público.

Bisão pintado, mas na Neo-Cueva, cópia perfeita da velha Cova de Altamira que encontra-se fechada ao público.

Santillana vira tema literário, sendo citada por autores como Benito Pérez de Galdós. Torna-se ainda no século XIX Monumento Histórico-Artístico Nacional, em 1889. Poucos anos antes, um morador local descobre, melhor seria dizer redescobre, uma caverna com desenhos que por muito tempo tiveram sua autenticidade contestada. Um caçador, ao tentar soltar um cachorro que ficou preso em umas pedras, ao perseguir uma presa, descobre a entrada de uma caverna, em 1868. No princípio, ninguém deu crédito, pois a região é rica em cavernas, sendo que esta era apenas mais uma. Marcelino Sanz de Sautuola acompanhado de sua filha de 9 anos, em 1879, visita a localidade. Ele era um erudito em paleontologia, e tinha como objetivo apenas encontrar alguns restos de esqueletos e peças feitas por homens primitivos. No final das contas, acabou por descobrir a Capela Sixtina da Pré-História, um nome que é dado à Cova de Altamira. Por muitos anos sua descoberta foi contestada, já que naquela época não se acreditava que o homem pré-histórico fosse capaz de fazer desenhos tão realísticos. Somente anos depois, com a descoberta de uma caverna com desenhos de igual qualidade na França, é que a descoberta de Sautuola foi reconhecida.

Praia de Santa Justa, a única do município de Santillana del Mar, na localidade de Ubiarco.

Praia de Santa Justa, a única do município de Santillana del Mar, na localidade de Ubiarco.

Como disse no começo, dizem que Santillana é o pueblo das três mentiras. Nem é Santa, nem llana (plana) e nem tem mar. Na verdade, santa pode até não ser, mas há lá o sepulcro que guarda os restos da Santa Juliana, ao menos teoricamente. Plana, de fato, não se pode dizer que seja, digamos que é ondulada, devido a seu relevo montanhoso. Já o mar, bem, ele não está muito distante… mas… não se vê o mar da vila. Para chegar até a única praia do município de Santillana del Mar, é preciso descer uma estradinha quase vertical que leva a uma pequena e aconchegante praia, a praia de Santa Justa, que fica em um pueblo chamado Ubiarco, pertencente ao município de Santillana, a 5 km da vila histórica. Nesta única praia do município podemos encontrar uma capela provavelmente do século XVI, construída encravada na falha de uma rocha, mesmo à direita da praia. Mas o mar está lá, a 5 quilômetros mas está!

Somando o patrimônio arquitetônico da vila de Santillana, com as preciosas pinturas rupestres de Altamira, que fica a 2 km da vila, temos um recanto cheio de encanto (rimei propositadamente), encravado em um dos muitos vales cor de esmeralda da bela Cantábria. E parafraseando Benito Pérez Galdós:

Ninguém poderá dizer: Vi Santillana de passagem. Para vê-la é preciso visitá-la.

Panorâmica da Plaza Mayor de Santillana.

Panorâmica da Plaza Mayor de Santillana.

E quem a conhece sabe perfeitamente o que isto quer dizer.

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Este é um post de um conjunto que farei sobre Santillana. Digamos que acabam de ficar com uma pequena introdução sobre o Pueblo más bello de España.

Palácio de Queluz – breve histórico.

Palácio Nacional de Queluz, Sintra, Portugal.

Palácio Nacional de Queluz, Sintra, Portugal.

O Palácio Nacional de Queluz fica na cidade de mesmo nome, pertencente ao concelho de Sintra, no Distrito de Lisboa. O Palácio divide o nome com a cidade onde localiza-se, que já era habitada há milênios.

Entre as várias versões da origem do nome contamos algumas. Uma delas seria de que Queluz tem origem árabe e significaria Vale da Amendoeira. Outra versão diz que o nome é devido ao Monte da Luz (atual Monte Abraão) onde era cultuado o deus lusitano Lu ou Lou (Sol), local onde ainda existe uma anta (ou dólmen, monumento megalítico) que testemunha este antigo culto. Há também uma versão popular que fala de uma lenda de caçadores que se perderam em meio ao arvoredo ali existente. Em certo momento viram uma luz para a qual seguiram dizendo: Que luz é aquela? Que luz, Queluz.

Antes de ser construído o Palácio atual, a área que ele ocupa e uma vasta extensão de terras ao redor, formavam uma quinta conhecida como Quinta de Queluz, que pertencia a D. Cristóvão de Moura, 1º Marquês de Castelo Rodrigo. Havia nesta quinta uma casa do século XVII e uma área de caça. Era uma espécie de palácio rural em meio às árvores com a finalidade de servir de pouso para as caçadas. Este tipo de casa é chamada de pavilhão de caça.

Em 1654, no reinado de D. João IV – primeiro rei da Dinastia de Bragança – , D. Cristóvão teve todos os seus bens confiscados por ser simpatizante do rei de Castela (o que hoje chamamos de Espanha). Portugal voltara a ser um reino independente em 1640 com o fim da União Ibérica (Restauração), e o marquês de Castelo Branco era um dos que apoiavam a continuidade da União. Não apenas os bens do marquês de Castelo Branco, mas de todos os simpatizantes de Castela tornaram-se propriedades dos infantes portugueses. Após o confisco passou a ser parte da recém-criada Casa do Infantado, instituição que administrava os bens dos segundos filhos dos reis portugueses.

Estátua de D. Maria I, em frente ao Palácio

Estátua de D. Maria I, em frente ao Palácio

Ainda no século XVI, nos tempos de D. João V, a Quinta de Queluz passou por reformas para adaptar-se às necessidades dos novos proprietários. A primeira foi a ampliação do existente pavilhão de caça que foi lentamente tornando-se residência dos infantes. Mas as grandes reformas se deram no século XVIII com D. Pedro de Bragança, ou Pedro III de Portugal (1717 – 1786). Tio e rei-consorte de D. Maria I, a Louca, irmão do rei D. José I, foi o responsável pelo início da ampliação da casa que já existia e criação do que hoje conhecemos como o Palácio de Queluz.

A construção do palácio teve início em 1747, com mais uma ampliação da casa existente, que localizava-se no que passou a ser a cozinha, além da construção de uma capela, que foi concluída em 1752. De residência dos infantes, a velha quinta tornou-se palácio de veraneio de D. Pedro. Mas o projeto original passou por várias alterações nas décadas seguintes.

Neste meio tempo Lisboa sofreu um duro golpe, o terremoto de 1755 que praticamente destruiu a cidade. O arquiteto original do projeto, Mateus Vicente de Oliveira – arquiteto oficial da Casa do Infantado – acabou por tornar-se responsável pela reconstrução de Lisboa, passando o Palácio a cargo de outro arquiteto, o francês Jean Baptiste Robillion, continuando Vicente como superintendente.

Uma nova fase de ampliação teve início quando foi anunciado o casamento de D. Pedro com a sobrinha D. Maria, futura rainha de Portugal, que se deu em 1760. Foi necessário torna-lo um palácio real, dotando-o de salas e aparatos adequados para este fim. E mais uma vez sofre uma grande transformação, de casa de veraneio a Palácio Real.

Vista do Pavilhão Robillion a partir do jardim.

Vista do Pavilhão Robillion a partir do jardim.

Nesta segunda fase de ampliação e reorganização dos espaços, o Palácio ganha a forma de um U. Em 1765 foi construída uma praça de touros no jardim, que não existe mais. Foram criados jardins, desenhados por Robillion, decorados com peças vindas da Itália e Inglaterra (vasos, estátuas de mármore e chumbo), assim como foi construído um pavilhão que leva seu nome, em 1774, que tornou-se os aposentos do príncipe. Este pavilhão também serviu para resolver o problema de desnível que havia no terreno, abrindo espaço para uma escadaria suntuosa chamada de Robillion ou dos Leões, que dá acesso a uma área do jardim onde existe um canal totalmente azulejado, criado em 1756 por João Nunes de Oliveira.

Com a morte de Robillion em 1782, a direção das obras passa a cargo de Manuel Caetano de Sousa. O Palácio ganha quartéis para a Guarda Real, casa de administração, cavalariças e outras dependências anexas ao conjunto. No ano de 1786 acaba a primeira fase de construção do Palácio, justamente no ano da morte de D. Pedro III.

Escadaria Robillon ou dos Leões.

Escadaria Robillion ou dos Leões.

Em 1794 a família real teve que mudar-se para Queluz, pois a residência oficial sofreu um incêndio. Novas modificações e alterações na funcionalidade dos espaços foram feitas.

Já no século XIX, D. João VI manda construir um edifício em frente ao Palácio destinado à Guarda Real. As obras no Palácio seguiram até 1807 quando, devido à invasão napoleônica, a Família Real fugiu para o Brasil. Grande parte do recheio do Palácio foi roubado. No retorno da Família Real volta a ser residência da família, mas brevemente perde seu favoritismo deixando de ser a casa oficial em 1826.

Em 1908 tornou-se propriedade do Estado, quando o rei D. Manuel II cedeu-o à Fazenda Nacional. Em 1910 é classificado como Monumento Nacional. O Palácio passou por um restauro em 1933, e no ano seguinte teve seu interior quase totalmente destruído por um incêndio. Logo em seguida volta a ser restaurado.

Edifício mandado construir por D. João VI, para a Guarda Real, em frente ao Palácio, ocupado atualmente pela Pousada D. Maria I

Torre do Relógio, ocupado atualmente pela Pousada D. Maria I

Até os dias de hoje o Palácio é utilizado para recepções oficiais do governo português. Além de salão de festas, local de reuniões e sala de visitas do governo em ocasiões especiais, também funciona como museu, tendo um valioso acervo de artes decorativas oriundas das coleções reais. O edifício construído na época de D. João VI destinado à Guarda Real tornou-se a Pousada D. Maria I, e está em vias de classificação como monumento nacional há mais de uma década. A cozinha é ocupada pelo Restaurante Cozinha Velha. Uma das alas do Palácio, o Pavilhão de D. Maria, construído entre 1785 e 1792 é o quarto de hóspedes de chefes de Estado estrangeiros em visitas oficiais a Portugal.

O Palácio é um dos monumentos mais visitados em Portugal. Atualmente encontra-se sob tutela do IMC (Instituto dos Museus e da Conservação), ligado ao Ministério da Cultura.

Castelos Templários em Portugal – Tomar

Vista aérea do Castelo de Tomar

Vista aérea do Castelo de Tomar

O Castelo de Tomar fica na freguesia de São João Baptista, no concelho de Tomar, no distrito de Santarém. Sua construção foi iniciada em 1160, no que restava da cidade de Sellium, fundada pelos romanos, passando esta a ser designada de Tomar quando do início da construção do Castelo.

Mas por que Tomar? Diz a lenda, que D. Gualdim Pais, mestre da Ordem do Templo na época da doação das terras aos templários pelo rei D. Afonso Henriques, encontrava-se explorando a cidade abandonada de Sellium, um pouco afastado de seus companheiros. Começa a ouvir gritos destes que diziam: Toma-lo! Toma-lo! (Pegue-o! Pegue-o!). Estavam todos envolvidos na caça a um javali, que aparecera de repente. D. Gualdim quando vê o javali já morto, resolve que não apenas o Castelo mas toda a área ao redor passaria a chamar-se Tomar.

Capitel na Igreja de São João Baptista, onde é representada a caçada ao javali que teria dado nome à cidade de Tomar.

Capitel na Igreja de São João Baptista, onde é representada a caçada ao javali que teria dado nome à cidade de Tomar.

Independente de ser verdade a lenda, o fato é que a palavra “tomar” também pode ser usada com o significado de “conquistar”. Não se pode esquecer que nesta época estava sendo empreendida a Reconquista das terras ocupadas pelos muçulmanos na Península Ibérica. A caçada ao javali foi esculpida em um capitel e em um portal da Igreja de São João Baptista, que se localiza na freguesia de mesmo nome.

O Castelo de Tomar divide espaço com outras construções, sendo a mais notável o Convento de Cristo, cuja construção iniciou-se pouco depois do castelo, em 1162. Mas as maiores modificações foram feitas no século XVI, o que acabou por lhe dar um aspecto arquitetônico diferenciado do castelo. O Convento de Cristo é considerado patrimônio da humanidade pela UNESCO. O Castelo de Tomar é classificado como Monumento Nacional, de arquitetura militar, onde se pode encontrar elementos de diferentes estilos (românico, gótico e renascentista). É cercado por uma muralha dupla, ou dupla cintura de muralhas. Na parte interna amuralhada, havia uma divisão de espaços, tendo uma área de Praça de Armas separada, por uma zona elevada amuralhada, da Almedina ou Medina – nome dado a cidades que eram construídas dentro de muralhas, e significa cidade em árabe. No ponto mais alto fica a Torre de Menagem (torre mais elevada de um castelo e o último reduto de defesa), totalmente cercada por mais uma muralha, e contígua à Alcáçova (cidadela), onde residiam as autoridades eclesiásticas e militares. A muralha externa é recortada por vários cubelos arredondados ou quadrados (torres), que comportavam os homens que a defendiam, e encima uma área inclinada denominada de alambor – espécie de muro em rampa que dificultava o acesso à muralha e suas torres.

Sítio onde teria existido o Castelo de Cera

Local onde teria existido o Castelo de Cera

O Castelo de Tomar foi antecedido pelo Castelo de Cera – este nome originou-se de sua designação romana Castrum Caesaris – que localizava-se na freguesia de Alviobeira, também concelho de Tomar, distante cerca de 10 km do atual Castelo de Tomar. O Castelo de Cera provavelmente foi construído ainda antes da ocupação romana, sendo reaproveitado por estes e pelos posteriores ocupantes da zona. Acabou por ser destruído, segundo alguns, pelos muçulmanos na época da Reconquista empreendida por D. Afonso Henriques no século XII. Já outros afirmam que, por ser muito pequeno e estar em mal estado, teria sido abandonado, quando D. Afonso Henriques doou o castelo e as terras ao redor para a Ordem do Templo. Deste castelo resta apenas um amontoado de pedras, em Alviobeira, onde supõem os arqueólogos teria existido este castelo.

A ocupação humana do atual concelho de Tomar remonta a cerca de 30 mil anos, pelos achados arqueológicos, o que equivale dizer que a região já era habitada no Neolítico. Também na área que ocupa Tomar, segundo alguns, teria existido a cidade de Nabância, associada a uma divindade pré-romana chamada Nabia (água corrente), relacionada às águas e rios, da mitologia celta, brácara e lusitana. Esta cidade teria sido fundada no século V a.C., por um povo oriundo do sul da península, uma tribo dos Tartessos, e depois ocupada pelos romanos. Foi já comprovado que a cidade de Nabância não é propriamente em Tomar, apesar de ainda haver quem associe Tomar a Nabância. Porém, há um rio que passa pela cidade chamado Nabão (Nabanus para os romanos), nome que estaria associado à cidade de Nabância. No século I d.C., na época do imperador romano Augusto, foi fundada a cidade de Sellium que, esta sim comprovadamente, era onde hoje fica a cidade de Tomar. O tempo passou, e a pequena cidade romana de Sellium foi sucessivamente sendo incorporada ao território de novos ocupantes. No século V chegaram os suevos e no século VI os visigodos. Foi durante o domínio visigodo que ergueram-se em Tomar (Sellium) os primeiros templos cristãos. É desta época a Lenda de Santa Iria (também chamada de Santa Irene), santa não reconhecida pela Igreja Católica, sendo até os dias de hoje, padroeira de algumas paróquias em todo Portugal. O nome do distrito de Santarém seria uma corruptela do nome de Santa Iria (Sancta Irene).

Vista do interior do Castelo

Vista do interior do Castelo

Após os visigodos chegaram os muçulmanos que ficaram pelo atual concelho de Tomar e até D. Afonso Henriques iniciar a Reconquista, logo depois da fundação do Reino de Portugal. Graças à ajuda dada pela Ordem do Templo na reconquista de Santarém, a região hoje ocupada por Tomar e proximidades foi doada à Ordem, no ano de 1159. Além das terras e o Castelo de Cera, os rendimentos que seriam recebidos pelas igrejas locais passavam às mãos dos templários. A Ordem podia explorar toda a zona economicamente, sem dever impostos ao rei ou ao bispo, ou qualquer outra obrigação, além da de defender aquele território de qualquer ataque muçulmano. Em 1160 tem início a construção do Castelo de Tomar, e da vila situada dentro das muralhas do castelo, a Almedina. As terras férteis junto ao rio Nabão, além da proteção dos templários, atraíram povoadores.

Porta que dava acesso à Almedina, rebatizada de Porta do Sangue quando to cerco de Tomar em 1190.

Porta que dava acesso à Almedina, rebatizada de Porta do Sangue no cerco de Tomar em 1190.

Em 1185, morre D. Afonso Henriques, sendo sucedido por seu filho D. Sancho I. Poucos anos depois, os muçulmanos empreendem um pesado ataque aos territórios conquistados por D. Afonso Henriques, fazendo todo o território português recuar do Algarve até o rio Tejo. Em 1190, através das atalaias (torres de vigia) que existiam entre o Castelo de Almourol – outro castelo templário localizado em uma ilha do rio Tejo – e o Castelo de Tomar, os membros da Ordem em Tomar foram avisados do avanço muçulmano. O castelo ainda não estava concluído passados 30 anos, mas lá achavam-se duas centenas de defensores templários, acompanhados por homens locais e chefiados por D. Gualdim que já tinha 72 anos. Ao encontro deles vinham 900 guerreiros chefiados pelo califa Almansor, terceiro da dinastia Almôada, do Marrocos. Por seis dias, toda a zona ao redor do castelo foi saqueada, e chegaram mesmo a passar pela porta que dava acesso à Almedina. Mas os cavaleiros templários chefiados pelo velho mestre, conseguiram manter o castelo em seu poder. Graças a esta batalha, foi travado o avanço muçulmano, abrindo brecha a um contra-ataque e início de uma nova expansão dos domínios portugueses.

Esta não foi a última batalha em Tomar, mas a primeira grande batalha em que cumpriam ao pé da letra o acordo feito com D. Afonso Henriques de defender Tomar dos muçulmanos.

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Como sugestões de leitura deixamos aqui o link da bibliografia utilizada para a elaboração do site Tomar Terra Templária, muito bem escrito, coerente e de fácil leitura, do qual utilizamos informações e fotos para montar este post.