Os diferentes estilos dos Hórreos

Hoje terminamos a saga dos hórreos que começamos há dois domingos. Os outros posts foram Descobrindo os hórreos e As possíveis origens dos hórreos. No post de hoje falamos brevemente dos diferentes estilos de hórreos que se pode encontrar pela Península Ibérica, considerando apenas os principais estilos.

Há diferentes tipos de hórreos, uns tão diferentes dos outros que podem até parecer que não são a mesma coisa. Existem dois grupos principais nos quais os hórreos podem ser divididos. Vamos a eles:

Hórreos em estilo Galaico-Português:

Hórreo galego no Parque Santa Margarita, La Coruña.

Hórreo galego no Parque Santa Margarita, La Coruña.

Estes hórreos, que na Espanha são chamados apenas de hórreos galegos, são predominantemente retangulares. Os materiais empregados variam conforme a zona onde se encontram. São bem comuns na Galícia Ocidental e norte de Portugal hórreos feitos totalmente de pedra (granito), desde as colunas até as paredes – inclusive as partes fendadas para ventilação. O telhado pode variar sendo comum os de telha ou pedra (xisto, chamado em Portugal também de lousa). São principalmente utilizados para armazenagem de espigas de milho ou batatas. Estes hórreos podem estar junto às casas de seus proprietários como podem estar em locais onde há um conjunto de hórreos que servem a uma comunidade.

As partes que o constituem são a caixa, onde o produto é armazenado; a porta de acesso; as paredes fendadas, que permitem a ventilação para secagem do produto armazenado, mas estreitas o suficiente para evitar a entrada de insetos; os pilares que o sustentam elevado do solo, que variam de número conforme o comprimento do hórreo; sobre os pilares ficam pedras redondas que servem para evitar que ratos subam até o armazém (estas pedras na Espanha são chamadas de tornaratas); uma espécie de apoio onde se pode encaixar a escada ou rampa que se utilize para ligar a escada à porta; a escada e o telhado.

Há mais detalhes que podem existir em alguns hórreos como o corta-formigas, uma pequena zona onde a água acumula-se e impede a passagem de formigas. Nem todos os hórreos têm enfeites, mas é frequente ver cruzes ou símbolos associados à fertilidade adornando a parte superior das paredes mais estreitas do hórreo.

Mas esta é uma descrição básica do tipo mais comum que se pode encontrar. Na Galícia a quantidade de hórreos é grande, é onde mais existem hórreos, e também é onde há uma maior variedade de estilos (veja indicação de livro sobre o tema no final do post). Veja no vídeo abaixo a grande variedade que pode existir nos hórreos encontrados na Galícia – e por extensão no norte de Portugal.

Hórreos em estilo Asturiano:

Hórreo asturiano

Hórreo asturiano

Os hórreos em estilo asturiano não são exclusivos do Principado de Astúrias, também são encontrados na Cantábria e León. O formato é sempre quadrangular, sendo predominantemente construídos em madeira (castanheira e carvalho).

Suas partes são basicamente as mesmas dos hórreos em estilo galaico-português. Possuem de diferente uma área externa à caixa (área de armazenagem) que também é utilizada para secagem e armazenagem de produtos agrícolas, o corredor, sendo este uma introdução mais recente. Esta área está presente em muitos dos hórreos em estilo asturiano, sendo que os que não a possuem têm colunas transversais em seu lugar para sustentar o telhado que terminaria sobre esta espécie de corredor, formando uma varanda coberta. Assim como os hórreos galaico-portugueses os asturianos possuem aberturas em suas paredes para ventilação, mas estas aberturas estão mais para pequenas janelas do que fendas. Há uma orientação certa para seu posicionamento, normalmente sendo voltados para o leste ou para o sul, pois os ventos e chuvas no meses mais frios são mais intensos vindos do norte e oeste.

Dentro deste estilo também há subdivisões, podendo-se encontrar uma pequena variação de estilos entre os hórreos asturianos, mas isto não significa variação da forma que é sempre quadrada. Podem ser encontradas construções retangulares que se parecem a hórreos asturianos, mas não são. Os hórreos clássicos são sempre sustentados por quatro colunas e quadrados. Se são retangulares e sustentados por mais colunas tornam-se uma outra construção chamada de panera. Os corredores citados como parte componente de muitos hórreos asturianos aparecem em todas as paneras, havendo a afirmação que na verdade era um elemento das paneras que foi transportado para os hórreos. Outra variante que adquiriram com o tempo foi a de serem construídos sobre outras construções, ou terem a parte inferior fechada. Nestes casos podem até ser chamados de hórreos mas não são os clássicos hórreos considerados de interesse cultural e protegidos por lei.

O vídeo que se segue mostra um conjunto de hórreos em estilo asturiano, em Villaviciosa, Astúrias. Não é nenhuma obra de arte cinematográfica mas dá uma idéia excelente das dimensões e formato de um hórreo asturiano. Não esqueçam que esta construção de considerável tamanho é montável e desmontável como se fosse um quebra-cabeças.

Hórreo navarro, no vale de Aezcoa, Navarra.

Hórreo navarro, no vale de Aezcoa, Navarra.

Além dos dois estilos citados existem hórreos em Navarra que se pode considerar como de um estilo à parte. O que acontece é que estes hórreos são muito poucos, existindo apenas cerca de 22 catalogados e todos com uma certa antigüidade. No País Basco também se pode encontrar alguns raros exemplares neste mesmo estilo.

Este hórreos são construídos totalmente em pedra, excetuando algumas vigas de sustentação. Mas como os demais, possui escada separada da construção (móvel ou não), aberturas para ventilação e são elevados do solo, tendo a mesma função dos outros hórreos.

No vídeo a seguir é possível ter uma idéia destes raros hórreos navarros. O vídeo está todo em espanhol, mas ainda que seu espanhol não seja dos melhores assista pelas imagens que são suficientes para se ter uma boa idéia deste tipo de hórreo.

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Martínez Rodríguez, Ignacio – El Hórreo Gallego , Fundación Pedro Barrié de la Maza

El Hórreo Asturiano (em espanhol)

Hórreos y Paneras (em espanhol)

Veja também os dois vídeos a seguir, que são uma reportagem da televisão portuguesa RTP1 sobre hórreos, neste caso canastros, portugueses.

1ª parte2ª parte

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As possíveis origens dos Hórreos

Semana passada falamos de algo curioso que vimos no caminho para Santiago de Compostela (veja post aqui). Hoje continuamos a falar dos tais Hórreos, entrando um pouco nas suposições sobre suas origens e descrevendo os diferentes estilos que adquiriu nas zonas onde foram construídos e ainda existem.

Não há uma certeza de quando os Hórreos começaram a ser construídos, existindo diversas teorias que tentam explicar como surgiram estas construções que coalham o noroeste da Península Ibérica. Vamos brevemente tratar de algumas destas possibilidades de origens dos Hórreos:

1) Seriam de origem Pré-Histórica:

Hórreo em Somiedo, Astúrias, com telhado de palha e estrutura em madeira.

Hórreo em Somiedo, Astúrias, com telhado de palha e estrutura em madeira.

Seguindo esta suposição, seriam originários de períodos pré-históricos, por a tecnologia de construção neles empregada ser conhecida por civilizações em estágios mais antigos de desenvolvimento. Os hórreos podem ser considerados um tipo de construção em palafitas, que teve início em civilizações pré-históricas. Outra razão para se crer em uma origem pré-histórica dos hórreos é o fato de pela Europa encontrarem-se restos arqueológicos do período Neolítico e da Idade do Ferro, em territórios das atuais França e Alemanha, em sítios de civilizações pré-históricas com economias ligadas à prática da agricultura. Uma das representações de hórreos mais antiga que se conhece foi encontrada no norte da Itália, onde há um conjunto de inscrições atribuídas aos celtas lepônticos. A própria forma de alguns hórreos lembra construções celtas, seja pelas palafitas, seja pela cobertura de palha. Na Península Ibérica, no entanto, não foram encontradas provas materiais em sítios arqueológicos que comprovassem esta origem pré-histórica dos Hórreos. Mas alguns etnólogos a sustentam, ainda mais levando em consideração citações feitas por historiadores e geógrafos romanos da existência de hórreos na península quando da entrada dos romanos. É o caso de Varrão e Plínio o Velho, que descrevem celeiros suspensos e inclusive recomenda-se o uso para a conservação do trigo. Ainda dentro desta teoria da origem pré-histórica dos Hórreos, supõe-se que a construção em si já era feita por povos pré-romanos, mas que passou por aperfeiçoamentos durante a ocupação romana. As colunas de sustentação em pedra seriam uma prova de melhorias feitas através do contato com a cultura romana, que fazia largo uso de pedras em suas construções.

2) Seriam uma aquisição cultural do período do Império Romano:

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Hórreo em estilo românico, no Vale de Valdorba, Navarra. Totalmente construído em pedra, por volta do século X.

Esta teoria é embasada em alguns pontos, principalmente a origem da palavra Hórreo. Hórreo é uma palavra de origem latina, derivada de horreum, significando nada mais nada menos que celeiro. Considerando que os povos conquistados obrigatoriamente adotavam a língua latina, é um pouco frágil esta suposição. A provável designação antiga dada ao Hórreo, invariavelmente se perdeu, devido à aculturação promovida pelos romanos. Este fenômeno é mais do que comum em culturas de povos submetidos.

Porém, os romanos já construíam celeiros elevados sob colunas com a finalidade de conservar alimentos. Não esqueçamos que a representação mais antiga que se conhece de um hórreo foi encontrada no norte da Itália, pertencente a uma cultura anterior à romana. Acrescentemos a isto o fato dos romanos serem especialistas em construções de pedra, por vezes, sem a utilização de argamassa, apenas encaixando as peças como é o caso da técnica de construção dos Hórreos. Outra possível aquisição derivada da ocupação romana seria o uso de telhas na cobertura dos Hórreos, que caso tenham existido anteriormente eram cobertos de palha. Ainda que não sejam de origem romana, é provável que tenham sofrido alguma evolução tecnológica graças à presença dos romanos na Penínsual Ibérica.

3) Seriam uma aquisição cultural do período da presença dos Suevos ou Visigodos no noroeste da Península:

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Kozolec, espécie de celeiro suspenso que pode ser encontrado na Eslovênia.

Esta terceira suposição, que na verdade são duas diferentes, até parece lógica. Vejamos. Segundo estudiosos portugueses os hórreos presentes na Península Ibérica seriam originários da Pomerânia (região entre a atual Alemanha e Polônia), habitada antigamente pelos suevos que, com o decorrer das migrações bárbaras dos séculos V e VI, estabeleceram-se no Noroeste da Península Ibérica.

É justamente no Noroeste da Península Ibérica onde se concentram os hórreos, incluindo toda a Galícia, Astúrias, norte de Portugal (Minho), mas também estão presentes na Cantábria, León, Navarra, chegando a zonas próximas aos Pirineus. Devido à grande concentração de hórreos justamente em uma área ocupada por suevos, se estes não foram os introdutores dos hórreos na Península, de alguma forma, contribuiram com sua manutenção e com a ampliação de seu uso.

Já o defensor da teoria de que os Hórreos teriam sido introduzidos pelos visigodos é um fotógrafo e etnógrafo alemão chamado Fritz Krüger, que visitou Astúrias nos anos 20 do século passado. Segundo ele os hórreos seriam uma evolução de uma espécie de cabaceiro elaborado com varas cruzadas como alguns cestos. Destes cabaceiros arcaicos teria evoluido até chegar aos hórreos atuais. De fato alguns hórreos lembram mesmo cestos, podendo sim se não uma possibilidade sobre as origens dos hórreos, ao menos não deixou de ser uma inspiração para o formato de alguns.

Teorias à parte o certo é que entre os séculos XIV e XV os Hórreos chegaram ao apogeu de desenvolvimento tecnológico, passando apenas por pequenas mudanças ao longo dos séculos seguintes, até os dias atuais. Quanto à concentração de hórreos ser no noroeste peninsular, não significa que não existissem em outros lugares da península em número considerável anteriormente. Temos que levar em conta que o passado preserva-se melhor em zonas onde há um menor desenvolvimento nos períodos seguintes de sua História, ou seja, onde há uma certa estagnação ou mudanças em menor escala. Onde os hórreos foram melhor preservados são em zonas que até hoje têm a agricultura tradicional como uma das formas de produção econômica. Ou seja, o tipo de economia que existiu por longo tempo no noroeste da Espanha e norte de Portugal permitiu a utilização destes hórreos por tempo suficiente para popularizá-los e multiplicá-los. A cultura de subsistência, na qual os alimentos consumidos eram produzidos em uma mesma família que os consumia, ainda hoje pode ser encontrada nestas zonas.

A preguiça bateu! Vou deixar a descrição dos diferentes estilos para semana que vem.

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Fontes:

Antes e Agora: Paisagens Tecnológicas – Jorge Freitas Branco

El Hórreo en Asturias – Esperanza Ibañez de Aldecoa, Ediciones Trea, 2005.

Fórum Gallaecia – Hórreos/Espigueiros na Galécia e Europa (em português e espanhol)

l’horru

Los hórreos del País Vasco – Jose Antonio Alvarez Oses

La Nueva España: Diário Independiente de Astúrias – El pudor gana a la História.

Resumo sobre o Kozolec

Descobrindo os Hórreos

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Hórreos retangulares, formato tradicional dos hórreos galegos, na província de Orense, Galícia.

Em uma pequena viagem que fiz com meus pais, saímos daqui de Lisboa e fomos até o extremo norte de Portugal. Como é meu hábito, fui observando a paisagem até os mínimos detalhes. Quando entramos na Galícia, comecei a ver com muita frequência algo que nem era necessária muita atenção para notar. Já havia visto em outros lugares, mas não em tão grande quantidade como via naquele caminho até Santiago de Compostela – que era para onde íamos. O que eu via que tanto me chamou a atenção é chamado por lá de hórreo, que em português é comumente chamado de canastro. Podem ser chamados de celeiros, mas em opinião muito pessoal creio que este último nome não é muito apropriado, pois desconsidera as características que tornam peculiares essas construções. Pelo caminho que percorri havia hórreos novos ou reformados, velhos ainda utilizados ou abandonados, pequenos e enormes. Mas todos eram de pedra, com umas ripinhas finas nas laterais, uma porta somente acessível a partir de uma escada, e ficavam lá, encravados na paisagem, imponentes, enquanto eu me perguntava, afinal, qual seria a utilidade daquelas “casinhas diferentes”.

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Hórreo estilo asturiano, no pueblo de Soto de Sajambre, León.

O hórreo é uma espécie de dispensa de outros tempos, sendo uma peça fundamental na vida diária das casas rurais de antigamente. Também é conhecido pelos nomes de cabazo, cabaceiro, cabaceira, canastro, piorno, horru, hurriu, granero, espigueiro, canastro, etc (estando nesta lista incluidas palavras em português e espanhol). É um pequeno edifício ou construção elevada sobre pilares, que tem como função servir de depósito de grãos. Grande parte dos hórreos até hoje existentes eram basicamente para o armazenamento de milho, podendo também ser utilizados para o armazenamento, secagem e conservação de produtos como centeio, maçãs, castanhas, batatas, cebolas, queijos, embutidos, presuntos, etc. Serviram inclusive para a instalação de colméias para a produção de mel. Outro uso que foi dado a eles foi o de quarto improvisado, inclusive com a colocação de uma cama em seu interior, mas isto nos de considerável dimensão!

Um imponente hórreo galego.

Um imponente hórreo galego.

São elevados do chão, para evitar o ataque de animais que poderiam alimentar-se dos produtos armazenados. Como nas áreas onde existem os hórreos chove muito no Inverno, era também uma forma de proteger os produtos da umidade característica desta estação, mantendo-os afastados do chão. No vão existente entre as colunas que sustentam o hórreo tradicionalmente encontrou-se diversos usos para este espaço. Eram o espaço para guardar os carros de boi, montar pequenas oficinas de carpintaria ou outras profissões tradicionais, assim como servia para armazenar lenha para o inverno, como galinheiro, ou para guardar quaisquer objetos que não tivessem mais serventia. Mas atualmente podem ser usados como garagem para carros ou tratores, dependendo da altura ou, em alguns casos, foram transformados em pombais.

Hórreo asturiano com milho e favas secando, em Mestas.

Hórreo asturiano com milho e favas secando, no pueblo de Mestas, Astúrias.

Não é considerado propriamente um imóvel por ser móvel, isto mesmo. Os hórreos – ao menos os tradicionais – eram feitos sem a utilização de quaisquer argamassa, sendo suas peças encaixadas como em um quebra-cabeças. Isto possibilitava que fossem removidos com certa facilidade e levados para onde se quisesse.

Os hórreos não existem apenas na Galícia. Ao norte de Portugal também pode-se encontrar em menor quantidade, principalmente no Minho, assim como existem por todo o norte da Espanha, desde Astúrias, passando por Cantábria, León e País Basco. Mas as áreas onde há maior concentração de hórreos são Galícia, Astúrias e ao norte da província de León.

Por muitas zonas da Europa existem ou existiram celeiros elevados sobre colunas parecidos ou quase idênticos aos existentes na Península Ibérica. No resto do mundo também existem exemplares de celeiros ou depósitos elevados, pertencentes às mais diversas culturas, mais ou menos similares aos hórreos. Até os dias atuais, na Escandinávia (Noruega, Suécia) também podem ser encontrados, assim como na Inglaterra, Suíça, Romênia e norte da Itália, entre outros.

Os hórreos mais conhecidos ficam na zona ocidental da Galícia, em Carnota, Lira e Araño. São os maiores da Galícia com 34, 36 e 37 metros de comprimento respectivamente. Há uma certa disputa entre os moradores de Carnota e Lira sobre qual de seus hórreos é de fato o maior, visto que um tem um maior comprimento e o outro uma maior capacidade, levando a uma eterna disputa de qual é o maior realmente.

Hórreo em Cosgaya, Cantábria.

Hórreo em Cosgaya, Cantábria, transformado em suporte para parreira e garagem.

Os hórreos foram uma espécie de tecnologia desenvolvida através de milênios para o armazenamento, secagem e conservação, assim como isolamento e proteção, de grãos oriundos das agriculturas de subsistência das populações do noroeste da Península Ibérica.

O que diferencia os chamados hórreos de outros exemplares similares de diferentes culturas, é o fato de terem sobrevivido em grande número até os dias atuais, assim como as características que adquiriram com o passar do tempo que os transformaram em um edifício com características únicas.

Devido às mudanças que acabam por levar à extinção formas tradicionais de economia, construções como os hórreos acabam por perder sua utilidade. No entanto, como possuem características próprias que revelam a cultura de uma sociedade, são uma forma de conhecermos os povos que habitam o norte e noroeste peninsular e seus antigos modos de vida. Por esta razão, há da parte do governo espanhol, e dos governos regionais, medidas para a preservação dos hórreos. São eles um patrimônio etnográfico que podem ter novas utilidades como meio de auto-conhecimento para os moradores locais ou de conhecimento para os que vêm de fora, servindo assim como um atrativo turístico a mais. Hoje em dia muito raramente se construiria um hórreo para os fins tradicionais para os quais foi construído ao longo de séculos. Mas novos usos foram dados já, como inclusive a construção de residências na forma de hórreo. De fato para a arquitetura é um meio de conhecimento da evolução de uma técnica. Divagações à parte, não se esqueça de, quando visitar o Minho em Portugal, ou a Galícia, Astúrias, Cantábria, León, Navarra e País Basco, prestar atenção a estas construções curiosas e em toda a história que carregam.

Mais sobre o assunto falamos domingo que vem, dando um breve histórico e descrevendo com mais detalhes esta curiosa construção em seus diferentes estilos. Por hoje é só que o post já está grandinho!

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Fontes:

Caminho de Santiago – Hórreos (Celeiros) (em português)

Concello de Friol – Hórreos (em espanhol)

Correr y Escalar – La arquitectura asturiana (em espanhol)

El Diário Montañes – Los hórreos de Cantabria serán parte del Patrimonio Cultural (em espanhol)

Faro de Vigo – La segunda vida de los hórreos (em espanhol)

Hórreos de Galícia – blog somente sobre os hórreos galegos. (em espanhol)

La Voz de Asturias – Alertan del riesgo de desaparición de los hórreos y paneras asturianos (em espanhol)

Vigo en Fotos (fotos de hórreos galegos)

O Candeeiro do Rei Mouro

Durante longos séculos a Península Ibérica (Portugal e Espanha atuais) estiveram ocupados por muçulmanos, que dominaram a maior parte da península, divididos em Califados e Taifas (estas eram subdivisões de um califado que entrara em decadência).

Deste período que durou cerca de 800 anos, surgiram inúmeras lendas por toda a península, falando de riquezas, de grandes batalhas, de amores impossíveis. A lenda contada a seguir é simples, mas provavelmente repetiu-se na realidade inúmeras vezes, com finais mais ou menos tristes. Era comum na época chamarem a muçulmanos de mouros (ou moro em espanhol), que deriva da palavra moreno. Hoje em dia é uma palavra pejorativa, servindo mais para ofensa do que propriamente para identificação. Mas nas lendas ainda permanece a palavra como forma de identificação dos personagens. Outra denominação comum era de infiéis, já que não compartilhavam da mesma religião que os habitantes locais. O Cristianismo foi devidamente usado como estímulo para angariar soldados na luta pela expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica. E era depois, aos santos católicos, que se agradecia a graça de sobreviver, ou que se pedia a salvação da alma dos que não sobreviveram.

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O CANDEEIRO DO REI MOURO

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Havia uma família próximo a Coba (Orense, Galícia) que tinha muitos filhos, como era comum naqueles tempos. Três dos irmãos foram para terras de Castilha com a intenção de lutar na guerra contra os muçulmanos e regressarem ricos a sua terra. Como ninguém sabe o que há na página seguinte do livro do destino, somente dois dos irmãos regressaram, pois um morreu devido às feridas sofridas na batalha.

Ao saírem da Galícia , dirigiram-se a uma cidade castelhana de poderosas muralhas (talvez Ávila), e ali reuniram-se a um poderoso exército cristão que preparava-se para iniciar uma expedição ou saque por terras mouras. Viajaram com este exército até o sul e chegaram próximo à cidade de Córdoba.

Estava quase anoitecendo quando os cristãos atacaram aos muçulmanos de surpresa, encontrando-os desprevinidos, inclusive seu rei fugiu ferido gravemente. Rapidamente dividiram o saque.

Um dos irmãos ficou com os guardas no acampamento, enquanto os outros dois lutaram na batalha, na qual o mais novo acabou ferido. Mesmo ferido, conseguiu participar da divisão do riquíssimo saque conseguido com esta batalha.

Durante a longa viagem de volta para o Reino da Galícia, o irmão ferido piorou e morreu.

Com as riquezas conseguidas carregadas em uma mula, e sem o irmão, os dois irmãos restantes regressaram às Terras Altas. Mandaram rezar inúmeras missas pela alma do irmão falecido. Presentearam a Virgem com uma lâmpada de azeite, toda em ouro, para que iluminasse permanentemente ao Santíssimo em memória do irmão que foi e não regressou.

Esta lâmpada esteve durante gerações na igreja da aldeia, e todos a conheciam como o Candeeiro do Rei Mouro.

Tradução livre da versão encontrada em Coba Leyendas, El Candil del Rey Moro.

Lenda do Cão da Morte

Vista do casario de Casteligo, nas Terras Altas galegas.

Vista do casario de Casteligo, nas Terras Altas galegas.

As chamadas Terras Altas da Galícia, Espanha, espalham-se ao redor das Montanhas de Manzaneda, na província de Orense, bem junto à fronteira de Portugal. Aqui pode-se encontrar (em espanhol) os nomes dos pueblos que pertencem a esta área denominada de Terras Altas, assim como um mapa que dá uma localização aproximada. A ocupação da região é antiga, mas as primeira referências a esta área são dos tempos do Império Romano. Os habitantes locais de então se auto-denominavam Tiburos. Eram terras ricas em ouro que foi explorado pelos romanos, que inclusive, desviaram o curso de um rio – fazendo um túnel através de uma montanha – para explorar o ouro que continha estas terras. O próprio nome da província, Orense em espanhol e Ourense em galego, é uma referência a esta presença do ouro nestas terras, significando Dourado, e originário da palavra Auriense (cidade do ouro).

Mas sempre foi uma região pouco povoada, por esta razão, existem poucas referências sobre ela ao longo da História. Orense durante a Idade Média pertenceu ao Conde de Monforte e à Igreja, e a riqueza do patrimônio histórico do município de Manzaneda revela uma beleza singular. A área que hoje ocupa o município de Manzaneda sempre foi voltada à atividade pastoril, agricultura (vinho e castanhas) assim como no inverno é uma área que atrai praticantes de esportes de inverno, ficando nas proximidades a única estação de esqui da Galícia.

Destas terras, vem a lenda do Cão da Morte. Mesmo em pleno século XX os cães foram utilizados como arma de guerra, e anteriormente tiveram uma utilização mais vasta. Raças como os Mastins, Galgos e Alanos espanhóis foram utilizados na conquista da América em práticas que foram repetidas no Novo Mundo mas aprendidas no Velho Mundo. A arma de guerra ou de contenção foi transportada para lendas, como a que contamos a seguir. É uma lenda trágica, de sede de vingança, que mostra um jovem que busca pagar na mesma moeda uma perda sofrida.

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LENDA DO CÃO DA MORTE

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Alano Espanhol, animal que teve utilizações pouco nobres ao longo da História.

Nas Terras Altas da Galícia, havia um conde que mantinha seus patrícios temerosos, com um cão treinado para matar. Era um cão daqueles que são chamados de Cães de Guerra ou Cães da Morte, usados em guerras para combates. Este cão era chamado de Demo (demônio em galego). Era um grande animal, mas não tanto como os que guardavam e protegiam os rebanhos dos povoados contra os lobos. Mas este cão foi treinado para matar pessoas na guerra. Dizia-se que ele matou muitos inimigos nas batalhas, mas agora o Conde utilizava-o para amedrontar e submeter seus vassalos.

Um dia, apareceu o Conde em um dos povoados das Terras Altas, e convocou seus habitantes no ponto de reunião do Concelho. Ameaçou-os, exigindo que pagassem mais impostos, mas como os moradores negaram-se, mandou preparar o cão. As pessoas fugiram em pânico e esconderam-se em suas casas. O Conde escolheu uma casa e ordenou a seus soldados que arrombassem a porta, soltando o cão para que entrasse. O feroz animal matou a todos que encontrou dentro da casa, inclusive as crianças. Aterrorizados com tamanha brutalidade, todos os demais apressaram-se em cumprir os desejos do infame Conde.

Entre os mortos estava uma bela jovem, prometida em casamento a um primo que vivia no mesmo lugarejo. Este rapaz estava tão desolado que recolheu todos os cães que guardavam os rebanhos, por serem os maiores. Mas o que fez foi por impulso, não pensou muito no que iria fazer e nem nas conseqüências. Treinou os cães como bem entendeu para que se defendessem uns aos outros e matassem a Demo. Foi em vão, Demo matou a todos. Os moradores locais voltaram-se contra o jovem porque deixou todos os rebanhos sem cães que os defendessem dos lobos.

O Conde ao saber do ocorrido mandou prendê-lo, mas o jovem conseguiu fugir a tempo por Verin até terras de Portugal, onde inclusive esteve lutando contra os mouros. Durante este tempo, aprendeu com um judeu as artes para adestrar os cães usados na guerra, e com este saber regressou às Terras Altas com sede de vingança. Não avisou a ninguém de sua chegada, exceto sua mãe. Graças a sua mãe encontrou uma cadela grande no cio, e com ela foi até a fortaleza do Conde.

Em uma noite escura, o rapaz preparou uma emboscada, amarrando a cadela no cio de forma a que o vento levasse o odor até onde estava Demo. Quando Demo sentiu o odor da cadela no cio, ficou enlouquecido. O criado do Conde que cuidava do cão, tirou-o de seu canil, e saiu com ele para ver o que lhe causava tanta perturbação. Quando chegou próximo à cadela percebeu o que estava acontecendo e soltou-o. Demo foi de encontro à cadela e, neste momento, o rapaz aproveitou-se e matou o criado que conduzira Demo até ali. Demo estava entretido, atendendo ao chamado da Natureza, e o rapaz preparou-se. Já tinha previamente lavado-se minuciosamente, e untou o corpo com um óleo que dera-lhe o judeu para disfarçar seu próprio odor. Vestiu-se com as surradas roupas do criado assassinado, assim o cão não o reconheceria nem pela vista e principalmente pelo olfato. Antes que Demo terminasse com a cadela, atou-o novamente.

Armadura para cachorro do século XVII, Instituo Ricardo Brennand.

Armadura para cachorro do século XVII, Instituto Ricardo Brennand.

Voltou o rapaz com Demo para o canil. Colocou-lhe a armadura de couro com placas de ferro, que se coloca aos cães de guerra antes de entrarem em combate, que também servia de proteção contra as flechas e espadas inimigas. Esperou até que todos na fortaleza adormecessem e, depois de passar pelos guardas sem problemas, foi até a torre onde o Conde e sua família dormiam. Quando encontrou-se na torre atiçou e soltou a Demo. Imediatamente ouviu-se os gritos de pavor do Conde pedindo ajuda a seus guardas. Mas o rapaz havia trancado a sólida porta por dentro, para que ninguém pudesse entrar. Todos os membros da família do Conde morreram, inclusive um dos filhos que se jogou de uma janela para não ser devorado pela fera. Enquanto o cão completava sua incrível e cruel chacina, o rapaz ateava fogo à torre. Quando enfim os soldados do Conde conseguiram arrombar a sólida porta e entrar nos aposentos, o cão de novo atiçado pelo rapaz atacou-os também, e o rapaz aproveitou a confusão para escapulir em meio ao banho de sangue gerado pela fera, até que conseguiram matar a Demo.

Sob a luz do incêndio da torre conseguiu o rapaz escapar, e a partir de uma montanha próxima pos-se a dar brados de vitória aos quatro ventos.

Tradução livre da lenda El Perro de la Muerte, encontrada em Coba Leyendas.


A Rainha Loba

A mitologia galega é cheia de lendas de lobos, ou pessoas relacionadas de algum modo a estes animais, mostrando de uma certa forma o medo e respeito que tinham por este animal. Durante a Idade Média foram terrivelmente perseguidos, considerados seres malignos. Mas ao que parece, voltando no tempo, estes animais eram considerados sagrados, sendo mais respeitados que temidos pelas pessoas, sendo os protetores dos bosques. Hoje o lobo nativo da Península Ibérica é um animal ameaçado de extinção. Mas ao menos nas lendas continua eterno.

Uma destas lendas não é sobre um lobo mas sobre uma rainha identificada com este animal por sua crueldade: a Rainha Loba. Não se sabe ao certo se algum dia caminhou por esta terra ou se apenas caminhou, ao longo dos séculos, na imaginação dos galegos. Pela imagem negativa, relacionando a rainha com o lobo, é possível ser de origem medieval, apesar de nada na história identificar em que tempos teria se passado este fato narrado na lenda.

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A RAINHA LOBA

reinalobaConta-se que na província de Orense, viveu há muito tempo atrás uma poderosa mulher, tão cruel e soberba que era chamada pelos camponeses de seu senhorio de “a Rainha Loba”.

Para seu sustento e de seus agregados (tão cruéis quanto ela), obrigava que seus súditos entregassem, todos os dias, uma vaca, um porco, e uma carroça cheia de outros alimentos. As aldeias camponesas revezavam-se nesta entrega de víveres, por medo dos guerreiros da Loba, que arrasavam e incendiavam casas e colheitas, e assassinavam a todos os habitantes das aldeias, nas que alguma família se negasse a entregar o que era reclamado.

Neste clima de terror vivia toda aquela região, quando chegou a vez do povoado de Figueirós entregar os alimentos. Os moradores reuniram-se em assembléia e decidiram não pagar o tributo que lhes arruinava. Mas dizer “não pagaremos” não seria o suficiente, porque a rainha mandaria contra eles suas hostes e seriam perseguidos e mortos. Decidiram que se haviam de morrer de fome ou às mãos dos facínoras da Loba, melhor era morrer combatendo contra ela própria.

Armaram-se o melhor que puderam. Fizeram lanças e dardos, arcos e flechas, recolheram pedras e paus. Na escuridão da noite, puseram-se a caminho do castelo da malvada mulher.

A Loba e seus seguidores dormiam. Confiantes no terror que incutiam na região descuidaram da vigilância. Nunca ninguém atreveu-se a desafiar seu poder, nem contavam com que tal coisa pudesse acontecer.

Secretamente, os moradores de Figueirós escalaram as muralhas e abriram as portas, surpreendendo aos perversos homens da Loba. Um curto mas sangrento combate deu vitória aos aldeões, que lançaram-se escada acima em busca de sua opressora.

A Loba refugiou-se na torre mais alta, mas nenhuma porta era suficientemente segura para resistir aos decididos assaltantes. Quando viu cair sua última defesa ante a força impelida por seus inimigos, e não querendo submeter-se aos que ela considerava como seus escravos, a Loba correu até uma janela e lançou-se no vazio, morrendo despedaçada sobre as rochas.

Com sua morte, acabou o suplício dos habitantes da região, que recordaram durante séculos, em romances e canções, o valor dos moradores de Figueirós.

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Tradução livre da lenda que encontra-se, em espanhol, no site Asturias Natural.