Os diferentes estilos dos Hórreos

Hoje terminamos a saga dos hórreos que começamos há dois domingos. Os outros posts foram Descobrindo os hórreos e As possíveis origens dos hórreos. No post de hoje falamos brevemente dos diferentes estilos de hórreos que se pode encontrar pela Península Ibérica, considerando apenas os principais estilos.

Há diferentes tipos de hórreos, uns tão diferentes dos outros que podem até parecer que não são a mesma coisa. Existem dois grupos principais nos quais os hórreos podem ser divididos. Vamos a eles:

Hórreos em estilo Galaico-Português:

Hórreo galego no Parque Santa Margarita, La Coruña.

Hórreo galego no Parque Santa Margarita, La Coruña.

Estes hórreos, que na Espanha são chamados apenas de hórreos galegos, são predominantemente retangulares. Os materiais empregados variam conforme a zona onde se encontram. São bem comuns na Galícia Ocidental e norte de Portugal hórreos feitos totalmente de pedra (granito), desde as colunas até as paredes – inclusive as partes fendadas para ventilação. O telhado pode variar sendo comum os de telha ou pedra (xisto, chamado em Portugal também de lousa). São principalmente utilizados para armazenagem de espigas de milho ou batatas. Estes hórreos podem estar junto às casas de seus proprietários como podem estar em locais onde há um conjunto de hórreos que servem a uma comunidade.

As partes que o constituem são a caixa, onde o produto é armazenado; a porta de acesso; as paredes fendadas, que permitem a ventilação para secagem do produto armazenado, mas estreitas o suficiente para evitar a entrada de insetos; os pilares que o sustentam elevado do solo, que variam de número conforme o comprimento do hórreo; sobre os pilares ficam pedras redondas que servem para evitar que ratos subam até o armazém (estas pedras na Espanha são chamadas de tornaratas); uma espécie de apoio onde se pode encaixar a escada ou rampa que se utilize para ligar a escada à porta; a escada e o telhado.

Há mais detalhes que podem existir em alguns hórreos como o corta-formigas, uma pequena zona onde a água acumula-se e impede a passagem de formigas. Nem todos os hórreos têm enfeites, mas é frequente ver cruzes ou símbolos associados à fertilidade adornando a parte superior das paredes mais estreitas do hórreo.

Mas esta é uma descrição básica do tipo mais comum que se pode encontrar. Na Galícia a quantidade de hórreos é grande, é onde mais existem hórreos, e também é onde há uma maior variedade de estilos (veja indicação de livro sobre o tema no final do post). Veja no vídeo abaixo a grande variedade que pode existir nos hórreos encontrados na Galícia – e por extensão no norte de Portugal.

Hórreos em estilo Asturiano:

Hórreo asturiano

Hórreo asturiano

Os hórreos em estilo asturiano não são exclusivos do Principado de Astúrias, também são encontrados na Cantábria e León. O formato é sempre quadrangular, sendo predominantemente construídos em madeira (castanheira e carvalho).

Suas partes são basicamente as mesmas dos hórreos em estilo galaico-português. Possuem de diferente uma área externa à caixa (área de armazenagem) que também é utilizada para secagem e armazenagem de produtos agrícolas, o corredor, sendo este uma introdução mais recente. Esta área está presente em muitos dos hórreos em estilo asturiano, sendo que os que não a possuem têm colunas transversais em seu lugar para sustentar o telhado que terminaria sobre esta espécie de corredor, formando uma varanda coberta. Assim como os hórreos galaico-portugueses os asturianos possuem aberturas em suas paredes para ventilação, mas estas aberturas estão mais para pequenas janelas do que fendas. Há uma orientação certa para seu posicionamento, normalmente sendo voltados para o leste ou para o sul, pois os ventos e chuvas no meses mais frios são mais intensos vindos do norte e oeste.

Dentro deste estilo também há subdivisões, podendo-se encontrar uma pequena variação de estilos entre os hórreos asturianos, mas isto não significa variação da forma que é sempre quadrada. Podem ser encontradas construções retangulares que se parecem a hórreos asturianos, mas não são. Os hórreos clássicos são sempre sustentados por quatro colunas e quadrados. Se são retangulares e sustentados por mais colunas tornam-se uma outra construção chamada de panera. Os corredores citados como parte componente de muitos hórreos asturianos aparecem em todas as paneras, havendo a afirmação que na verdade era um elemento das paneras que foi transportado para os hórreos. Outra variante que adquiriram com o tempo foi a de serem construídos sobre outras construções, ou terem a parte inferior fechada. Nestes casos podem até ser chamados de hórreos mas não são os clássicos hórreos considerados de interesse cultural e protegidos por lei.

O vídeo que se segue mostra um conjunto de hórreos em estilo asturiano, em Villaviciosa, Astúrias. Não é nenhuma obra de arte cinematográfica mas dá uma idéia excelente das dimensões e formato de um hórreo asturiano. Não esqueçam que esta construção de considerável tamanho é montável e desmontável como se fosse um quebra-cabeças.

Hórreo navarro, no vale de Aezcoa, Navarra.

Hórreo navarro, no vale de Aezcoa, Navarra.

Além dos dois estilos citados existem hórreos em Navarra que se pode considerar como de um estilo à parte. O que acontece é que estes hórreos são muito poucos, existindo apenas cerca de 22 catalogados e todos com uma certa antigüidade. No País Basco também se pode encontrar alguns raros exemplares neste mesmo estilo.

Este hórreos são construídos totalmente em pedra, excetuando algumas vigas de sustentação. Mas como os demais, possui escada separada da construção (móvel ou não), aberturas para ventilação e são elevados do solo, tendo a mesma função dos outros hórreos.

No vídeo a seguir é possível ter uma idéia destes raros hórreos navarros. O vídeo está todo em espanhol, mas ainda que seu espanhol não seja dos melhores assista pelas imagens que são suficientes para se ter uma boa idéia deste tipo de hórreo.

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Martínez Rodríguez, Ignacio – El Hórreo Gallego , Fundación Pedro Barrié de la Maza

El Hórreo Asturiano (em espanhol)

Hórreos y Paneras (em espanhol)

Veja também os dois vídeos a seguir, que são uma reportagem da televisão portuguesa RTP1 sobre hórreos, neste caso canastros, portugueses.

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As possíveis origens dos Hórreos

Semana passada falamos de algo curioso que vimos no caminho para Santiago de Compostela (veja post aqui). Hoje continuamos a falar dos tais Hórreos, entrando um pouco nas suposições sobre suas origens e descrevendo os diferentes estilos que adquiriu nas zonas onde foram construídos e ainda existem.

Não há uma certeza de quando os Hórreos começaram a ser construídos, existindo diversas teorias que tentam explicar como surgiram estas construções que coalham o noroeste da Península Ibérica. Vamos brevemente tratar de algumas destas possibilidades de origens dos Hórreos:

1) Seriam de origem Pré-Histórica:

Hórreo em Somiedo, Astúrias, com telhado de palha e estrutura em madeira.

Hórreo em Somiedo, Astúrias, com telhado de palha e estrutura em madeira.

Seguindo esta suposição, seriam originários de períodos pré-históricos, por a tecnologia de construção neles empregada ser conhecida por civilizações em estágios mais antigos de desenvolvimento. Os hórreos podem ser considerados um tipo de construção em palafitas, que teve início em civilizações pré-históricas. Outra razão para se crer em uma origem pré-histórica dos hórreos é o fato de pela Europa encontrarem-se restos arqueológicos do período Neolítico e da Idade do Ferro, em territórios das atuais França e Alemanha, em sítios de civilizações pré-históricas com economias ligadas à prática da agricultura. Uma das representações de hórreos mais antiga que se conhece foi encontrada no norte da Itália, onde há um conjunto de inscrições atribuídas aos celtas lepônticos. A própria forma de alguns hórreos lembra construções celtas, seja pelas palafitas, seja pela cobertura de palha. Na Península Ibérica, no entanto, não foram encontradas provas materiais em sítios arqueológicos que comprovassem esta origem pré-histórica dos Hórreos. Mas alguns etnólogos a sustentam, ainda mais levando em consideração citações feitas por historiadores e geógrafos romanos da existência de hórreos na península quando da entrada dos romanos. É o caso de Varrão e Plínio o Velho, que descrevem celeiros suspensos e inclusive recomenda-se o uso para a conservação do trigo. Ainda dentro desta teoria da origem pré-histórica dos Hórreos, supõe-se que a construção em si já era feita por povos pré-romanos, mas que passou por aperfeiçoamentos durante a ocupação romana. As colunas de sustentação em pedra seriam uma prova de melhorias feitas através do contato com a cultura romana, que fazia largo uso de pedras em suas construções.

2) Seriam uma aquisição cultural do período do Império Romano:

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Hórreo em estilo românico, no Vale de Valdorba, Navarra. Totalmente construído em pedra, por volta do século X.

Esta teoria é embasada em alguns pontos, principalmente a origem da palavra Hórreo. Hórreo é uma palavra de origem latina, derivada de horreum, significando nada mais nada menos que celeiro. Considerando que os povos conquistados obrigatoriamente adotavam a língua latina, é um pouco frágil esta suposição. A provável designação antiga dada ao Hórreo, invariavelmente se perdeu, devido à aculturação promovida pelos romanos. Este fenômeno é mais do que comum em culturas de povos submetidos.

Porém, os romanos já construíam celeiros elevados sob colunas com a finalidade de conservar alimentos. Não esqueçamos que a representação mais antiga que se conhece de um hórreo foi encontrada no norte da Itália, pertencente a uma cultura anterior à romana. Acrescentemos a isto o fato dos romanos serem especialistas em construções de pedra, por vezes, sem a utilização de argamassa, apenas encaixando as peças como é o caso da técnica de construção dos Hórreos. Outra possível aquisição derivada da ocupação romana seria o uso de telhas na cobertura dos Hórreos, que caso tenham existido anteriormente eram cobertos de palha. Ainda que não sejam de origem romana, é provável que tenham sofrido alguma evolução tecnológica graças à presença dos romanos na Penínsual Ibérica.

3) Seriam uma aquisição cultural do período da presença dos Suevos ou Visigodos no noroeste da Península:

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Kozolec, espécie de celeiro suspenso que pode ser encontrado na Eslovênia.

Esta terceira suposição, que na verdade são duas diferentes, até parece lógica. Vejamos. Segundo estudiosos portugueses os hórreos presentes na Península Ibérica seriam originários da Pomerânia (região entre a atual Alemanha e Polônia), habitada antigamente pelos suevos que, com o decorrer das migrações bárbaras dos séculos V e VI, estabeleceram-se no Noroeste da Península Ibérica.

É justamente no Noroeste da Península Ibérica onde se concentram os hórreos, incluindo toda a Galícia, Astúrias, norte de Portugal (Minho), mas também estão presentes na Cantábria, León, Navarra, chegando a zonas próximas aos Pirineus. Devido à grande concentração de hórreos justamente em uma área ocupada por suevos, se estes não foram os introdutores dos hórreos na Península, de alguma forma, contribuiram com sua manutenção e com a ampliação de seu uso.

Já o defensor da teoria de que os Hórreos teriam sido introduzidos pelos visigodos é um fotógrafo e etnógrafo alemão chamado Fritz Krüger, que visitou Astúrias nos anos 20 do século passado. Segundo ele os hórreos seriam uma evolução de uma espécie de cabaceiro elaborado com varas cruzadas como alguns cestos. Destes cabaceiros arcaicos teria evoluido até chegar aos hórreos atuais. De fato alguns hórreos lembram mesmo cestos, podendo sim se não uma possibilidade sobre as origens dos hórreos, ao menos não deixou de ser uma inspiração para o formato de alguns.

Teorias à parte o certo é que entre os séculos XIV e XV os Hórreos chegaram ao apogeu de desenvolvimento tecnológico, passando apenas por pequenas mudanças ao longo dos séculos seguintes, até os dias atuais. Quanto à concentração de hórreos ser no noroeste peninsular, não significa que não existissem em outros lugares da península em número considerável anteriormente. Temos que levar em conta que o passado preserva-se melhor em zonas onde há um menor desenvolvimento nos períodos seguintes de sua História, ou seja, onde há uma certa estagnação ou mudanças em menor escala. Onde os hórreos foram melhor preservados são em zonas que até hoje têm a agricultura tradicional como uma das formas de produção econômica. Ou seja, o tipo de economia que existiu por longo tempo no noroeste da Espanha e norte de Portugal permitiu a utilização destes hórreos por tempo suficiente para popularizá-los e multiplicá-los. A cultura de subsistência, na qual os alimentos consumidos eram produzidos em uma mesma família que os consumia, ainda hoje pode ser encontrada nestas zonas.

A preguiça bateu! Vou deixar a descrição dos diferentes estilos para semana que vem.

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Fontes:

Antes e Agora: Paisagens Tecnológicas – Jorge Freitas Branco

El Hórreo en Asturias – Esperanza Ibañez de Aldecoa, Ediciones Trea, 2005.

Fórum Gallaecia – Hórreos/Espigueiros na Galécia e Europa (em português e espanhol)

l’horru

Los hórreos del País Vasco – Jose Antonio Alvarez Oses

La Nueva España: Diário Independiente de Astúrias – El pudor gana a la História.

Resumo sobre o Kozolec

Descobrindo os Hórreos

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Hórreos retangulares, formato tradicional dos hórreos galegos, na província de Orense, Galícia.

Em uma pequena viagem que fiz com meus pais, saímos daqui de Lisboa e fomos até o extremo norte de Portugal. Como é meu hábito, fui observando a paisagem até os mínimos detalhes. Quando entramos na Galícia, comecei a ver com muita frequência algo que nem era necessária muita atenção para notar. Já havia visto em outros lugares, mas não em tão grande quantidade como via naquele caminho até Santiago de Compostela – que era para onde íamos. O que eu via que tanto me chamou a atenção é chamado por lá de hórreo, que em português é comumente chamado de canastro. Podem ser chamados de celeiros, mas em opinião muito pessoal creio que este último nome não é muito apropriado, pois desconsidera as características que tornam peculiares essas construções. Pelo caminho que percorri havia hórreos novos ou reformados, velhos ainda utilizados ou abandonados, pequenos e enormes. Mas todos eram de pedra, com umas ripinhas finas nas laterais, uma porta somente acessível a partir de uma escada, e ficavam lá, encravados na paisagem, imponentes, enquanto eu me perguntava, afinal, qual seria a utilidade daquelas “casinhas diferentes”.

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Hórreo estilo asturiano, no pueblo de Soto de Sajambre, León.

O hórreo é uma espécie de dispensa de outros tempos, sendo uma peça fundamental na vida diária das casas rurais de antigamente. Também é conhecido pelos nomes de cabazo, cabaceiro, cabaceira, canastro, piorno, horru, hurriu, granero, espigueiro, canastro, etc (estando nesta lista incluidas palavras em português e espanhol). É um pequeno edifício ou construção elevada sobre pilares, que tem como função servir de depósito de grãos. Grande parte dos hórreos até hoje existentes eram basicamente para o armazenamento de milho, podendo também ser utilizados para o armazenamento, secagem e conservação de produtos como centeio, maçãs, castanhas, batatas, cebolas, queijos, embutidos, presuntos, etc. Serviram inclusive para a instalação de colméias para a produção de mel. Outro uso que foi dado a eles foi o de quarto improvisado, inclusive com a colocação de uma cama em seu interior, mas isto nos de considerável dimensão!

Um imponente hórreo galego.

Um imponente hórreo galego.

São elevados do chão, para evitar o ataque de animais que poderiam alimentar-se dos produtos armazenados. Como nas áreas onde existem os hórreos chove muito no Inverno, era também uma forma de proteger os produtos da umidade característica desta estação, mantendo-os afastados do chão. No vão existente entre as colunas que sustentam o hórreo tradicionalmente encontrou-se diversos usos para este espaço. Eram o espaço para guardar os carros de boi, montar pequenas oficinas de carpintaria ou outras profissões tradicionais, assim como servia para armazenar lenha para o inverno, como galinheiro, ou para guardar quaisquer objetos que não tivessem mais serventia. Mas atualmente podem ser usados como garagem para carros ou tratores, dependendo da altura ou, em alguns casos, foram transformados em pombais.

Hórreo asturiano com milho e favas secando, em Mestas.

Hórreo asturiano com milho e favas secando, no pueblo de Mestas, Astúrias.

Não é considerado propriamente um imóvel por ser móvel, isto mesmo. Os hórreos – ao menos os tradicionais – eram feitos sem a utilização de quaisquer argamassa, sendo suas peças encaixadas como em um quebra-cabeças. Isto possibilitava que fossem removidos com certa facilidade e levados para onde se quisesse.

Os hórreos não existem apenas na Galícia. Ao norte de Portugal também pode-se encontrar em menor quantidade, principalmente no Minho, assim como existem por todo o norte da Espanha, desde Astúrias, passando por Cantábria, León e País Basco. Mas as áreas onde há maior concentração de hórreos são Galícia, Astúrias e ao norte da província de León.

Por muitas zonas da Europa existem ou existiram celeiros elevados sobre colunas parecidos ou quase idênticos aos existentes na Península Ibérica. No resto do mundo também existem exemplares de celeiros ou depósitos elevados, pertencentes às mais diversas culturas, mais ou menos similares aos hórreos. Até os dias atuais, na Escandinávia (Noruega, Suécia) também podem ser encontrados, assim como na Inglaterra, Suíça, Romênia e norte da Itália, entre outros.

Os hórreos mais conhecidos ficam na zona ocidental da Galícia, em Carnota, Lira e Araño. São os maiores da Galícia com 34, 36 e 37 metros de comprimento respectivamente. Há uma certa disputa entre os moradores de Carnota e Lira sobre qual de seus hórreos é de fato o maior, visto que um tem um maior comprimento e o outro uma maior capacidade, levando a uma eterna disputa de qual é o maior realmente.

Hórreo em Cosgaya, Cantábria.

Hórreo em Cosgaya, Cantábria, transformado em suporte para parreira e garagem.

Os hórreos foram uma espécie de tecnologia desenvolvida através de milênios para o armazenamento, secagem e conservação, assim como isolamento e proteção, de grãos oriundos das agriculturas de subsistência das populações do noroeste da Península Ibérica.

O que diferencia os chamados hórreos de outros exemplares similares de diferentes culturas, é o fato de terem sobrevivido em grande número até os dias atuais, assim como as características que adquiriram com o passar do tempo que os transformaram em um edifício com características únicas.

Devido às mudanças que acabam por levar à extinção formas tradicionais de economia, construções como os hórreos acabam por perder sua utilidade. No entanto, como possuem características próprias que revelam a cultura de uma sociedade, são uma forma de conhecermos os povos que habitam o norte e noroeste peninsular e seus antigos modos de vida. Por esta razão, há da parte do governo espanhol, e dos governos regionais, medidas para a preservação dos hórreos. São eles um patrimônio etnográfico que podem ter novas utilidades como meio de auto-conhecimento para os moradores locais ou de conhecimento para os que vêm de fora, servindo assim como um atrativo turístico a mais. Hoje em dia muito raramente se construiria um hórreo para os fins tradicionais para os quais foi construído ao longo de séculos. Mas novos usos foram dados já, como inclusive a construção de residências na forma de hórreo. De fato para a arquitetura é um meio de conhecimento da evolução de uma técnica. Divagações à parte, não se esqueça de, quando visitar o Minho em Portugal, ou a Galícia, Astúrias, Cantábria, León, Navarra e País Basco, prestar atenção a estas construções curiosas e em toda a história que carregam.

Mais sobre o assunto falamos domingo que vem, dando um breve histórico e descrevendo com mais detalhes esta curiosa construção em seus diferentes estilos. Por hoje é só que o post já está grandinho!

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Fontes:

Caminho de Santiago – Hórreos (Celeiros) (em português)

Concello de Friol – Hórreos (em espanhol)

Correr y Escalar – La arquitectura asturiana (em espanhol)

El Diário Montañes – Los hórreos de Cantabria serán parte del Patrimonio Cultural (em espanhol)

Faro de Vigo – La segunda vida de los hórreos (em espanhol)

Hórreos de Galícia – blog somente sobre os hórreos galegos. (em espanhol)

La Voz de Asturias – Alertan del riesgo de desaparición de los hórreos y paneras asturianos (em espanhol)

Vigo en Fotos (fotos de hórreos galegos)

O montado (ou dehesa)

Um montado composto por Freixos (Fraxinus angustifolia), próximo a Madri.

Um montado composto por Freixos (Fraxinus angustifolia), próximo a Madri (ES). Fonte:Wikimedia.

Logo que cheguei por estes lados, a primeira impressão que tive da fauna e flora que vi a princípio é que estavam mortas. A ação humana já havia matado tudo o que eu chamaria de natureza. Andando por São Paulo, ainda podemos reconhecer algo que possa ser denominado de Mata Atlântica, existem ilhas isoladas e preservadas que nos dá uma idéia de como era aquilo antes do início do desmatamento em larga escala. Na Península Ibérica (Portugal e Espanha) não há estas ilhas preservadas de mata nativa como temos pelo Brasil. As áreas de proteção ambiental, não preservam o que havia, mas o restou daquilo que foi irremediavelmente modificado pelo homem. Por esta comparação com o que eu conhecia e o que encontrei, senti uma profunda tristeza. Considerei como uma natureza morta. Aqui não há mais o que eu chamaria de natureza, pensei. Mas esta natureza modificada não tem nada de morta. Está cheia de vida, vida que eu não soube perceber em meu primeiro olhar. Só depois de conhecê-la fui compreender o que um professor na faculdade quis dizer: O meio modificado pelo homem também é natural, também é natureza.

Esta paisagem que julguei morta e sem vida, natureza modelada pelo homem, chama-se montado em Portugal, e dehesa na Espanha. Ela não se limita à Península Ibérica, e pode ser encontrada por todo o sul da Europa. Porém, como estamos por aqui, trataremos apenas daquilo que nos cerca. Este ecossistema é derivado dos antigos bosques mediterrânicos, com predominância de Sobreiros (Alcornoques, em espanhol) e Azinheiras (Encinas, em espanhol), existindo áreas onde pode-se encontrar outras espécies (muitas delas, assim como as duas citadas, pertencentes à família dos carvalhos). É deste sistema que se extrai a cortiça dos sobreiros que conhecemos mais pelas rolhas das garrafas de vinho, cujo maior produtor mundial é Portugal. Também é deste sistema que se produz o melhor presunto ibérico, segundo alguns, cujos porcos são alimentados pelos frutos das azinheiras. O montado/dehesa pode ser encontrado pelas províncias espanholas de Córdoba, Salamanca, Ávila, Badajoz, Cáceres e Huelva, e nas regiões portuguesas do Alentejo e Algarve (quase todo o centro sul do país).

Montado utilizado para a atividade pecuária

Montado utilizado para a atividade pecuária. Fonte: Projeto Montado/dehesa

O montado/dehesa é um sistema agrosilvopastoril resultante de um largo período de tempo de ação humana em sua modelagem e utilização. Ao longo da história da ocupação humana na Península Ibérica, houve uma modificação de tal maneira do meio ambiente que já não há um milímetro de terra nesta península que o homem não tenha transformado. Muito deste meio ambiente foi modificado para uso econômico, envolvendo atividades agropastoris e extrativistas, mas também por questões de defesa. Tal é a razão de, em espanhol, esta paisagem chamar-se dehesa, vem do latim tardio defensa (que é a palavra em espanhol para defesa). A limpeza dos bosques era uma forma de defenderem-se de emboscadas, pois assim via-se a uma certa distância a aproximação do inimigo. Mas ainda preciso descobrir porque em português diz-se montado (não foi por falta de procurar).

Este sistema antigo tem diferentes graus de maturidade, que pode ser percebido pela distribuição e distanciamento das árvores. O espaçamento das árvores também tem relação ao tipo de terreno. A presença das árvores não tem apenas fins econômicos, mas servem também para evitar a erosão dos solos, que tendem a ser pobres e ácidos, não sendo adequados para a produção agrícola em grande escala. Além da cortiça citada acima, há a extração de lenha, carvão vegetal, cogumelos, produção da bolota (bellota, em espanhol) seja para consumo animal ou humano, entre outros.

Quanto à pecuária, além da criação de porcos, há também de vacas, ovelhas e cabras, que acabam por auxiliar o homem na manutenção deste sistema, ao alimentarem-se da vegetação rasteira que se desenvolve por entre as árvores. O gado presente nos montados/dehesas são raças que se desenvolveram e adaptaram-se a este sistema, como os bovinos das raças avilenha e morucha. O gado ovino era o merino, que acabou sendo substituído ou cruzado com outras raças para aumento da produção de carne, devido à crise no mercado de lãs. O gado porcino, da raça ibérica, também sofreu um decréscimo décadas atrás, sendo cruzado com outras para o aumento da produção de carne, mas está recuperando espaço. O gado caprino é o mais estável e em crescimento, com produção de leite e carne.

Montado em Trujillo, Extremadura (ES). Fonte: Wikimedia

Montado em Trujillo, Extremadura (ES). Fonte: Wikimedia

Pessoalmente creio ser mais apropriado chamar esta paisagem de organização do espaço, onde há a utilização para fins agrícola, pecuarista, mas preservando a natureza com fins extrativistas. Ao preservar algo da vegetação, acaba-se por preservar espécies animais, todo um ecossistema, que em parte ajuda na manutenção deste sistema. Já a outra parte responsável por esta manutenção é o próprio homem com suas atividades econômicas. A extinção deste ecossistema ou o fim das ações humanas destruiria este sistema chamado montado/dehesa.

Há muitas áreas de montado/dehesa abandonadas, que voltam lentamente a cobrir-se da vegetação que o homem ao longo do tempo retirou para utilizar este espaço. Esta áreas sofrem uma regressão para o que eram antes da ação humana. Outras áreas são destruídas para a implantação da agricultura em grande escala, apesar da inaptidão do solo para este tipo de agricultura. Estas situações ocorrem devido à crise nas atividades tradicionais, que caem em desuso ou têm a produção diminuída.

Termino com algo que pode-se encontrar no site da Junta de Extremadura, relativo ao Projeto Montado/Dehesa. Neste site, além de informações detalhadas e confiáveis sobre o montado (na versão em espanhol, visto que a versão em português está de péssima qualidade), pode-se ter acesso a informações sobre o que anda sendo feito para preservar ou revitalizar este sistema agrosilvopastoril, assim como excelentes fotos sobre as diferentes atividades nele desenvolvidas.

Definindo o montado/dehesa, a partir do que encontramos no site do Projeto Montado/dehesa, pode-se dizer que:

“O montado é, definitivamente, o meio florestal mais representativo cultural e superficialmente da região. Um meio que, (…), representa o mais inteligente equilíbrio possível na intervenção do homem sobre a natureza. Em condições ótimas de exploração é capaz de comportar uma grande variedade de recursos úteis à sociedade, mantendo uma estabilidade ecológica não muito distante do bosque climático originário.”

E eu achando que esta natureza estava morta!