Virado à Paulista

Hoje não vamos dar uma receita, mas um prato feito. Lá em minha saudosa São Paulo, para quem não sabe, tem restaurante em cada esquina – e gente para comer aos milhões. E o tal Virado à Paulista é um dos pratos típicos de qualquer restaurante. Mas alto lá! Restaurante de gente comum, do povão. Em restaurante fino, onde a comida só suja o prato mas não enche o bucho, não tem destas coisas.

Mas vamos à História que é para não perder o hábito!

Virado à Paulista e outros pratos típicos de longa data que existem no atual estado de São Paulo são o resultado de necessidades específicas de outros tempos. Antigamente, no tempo em que ainda era tudo Mata Atlântica, índios e meia dúzia de portugueses malucos, os colonizadores que se estabeleceram no litoral e posteriormente no que hoje é a cidade de São Paulo, faziam incursões em busca de riquezas. Os cabras iam mato adentro caçando índios para vender como mão-de-obra escrava, além de riquezas como ouro e pedras preciosas. Mas eles entravam em algo quase sempre desconhecido, sem rumo muito certo e sem data para voltar. E neste meio tempo, que poderia levar mais de ano de viagem, precisavam se alimentar. Ao contrário dos índios, os brancos não sabiam encontrar comida com facilidade, naquelas terras inexploradas por eles. Era perigoso até morrerem envenenados por não saber o que comer naquele mundo estranho! Então, além de mulas carregando-os e aos materiais que poderiam precisar como armas e ferramentas, carregavam comida. Que fique claro que com o tempo, foram criando pequenos aldeamentos que serviam de posto de abastecimento. Mas continuemos com o que dizíamos.

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Tropeiro Paulista, 1825, ilustração de Charles Landseer.

Até descobrirem as minas que deram origem ao estado de Minas Gerais, foi assim. Depois, porém, continuou sendo assim, já que as distâncias naqueles tempos eram maiores do que hoje devido aos meios de transportes disponíveis, e restaurante em cada esquina não existir. E lá iam eles, agora então tropeiros, cavalgando com seus cavalos, com o farnel de comida na garupa. Galopando, galopando, chacoalhando, chacoalhando. O que acontecia? A comida que era basicamente feijão com carnes misturadas e farinha de mandioca – uma coisa separada da outra – , misturava-se no chacoalhar da estrada, ficava tudo revirado. Desta mistura inicial do feijão, carnes e farinha de mandioca, nasceu o Feijão Tropeiro, que depois deu origem a outros pratos como o Virado à Paulista. Hoje, existem dois pratos típicos, o Virado à Paulista e o Tutu à Mineira, que nada mais são do que o que deu origem e o derivado, sendo os dois derivados, do Feijão Tropeiro.

Com o passar do tempo o Virado diferenciou-se um pouquinho do Tutu, ganhando cada um sua identidade própria. Deixamos então, agora, enfim, a receita do Virado à Paulista, uma das muitas desta refeição completa inventada pelos caminhos de São Paulo. Para quem conhece dos restaurantes de São Paulo, boa diversão tentando fazer em casa. Para quem não conhece, atenção, nada de ficar inventando, siga a receita direitinho senão não vira Virado e sim revirado.

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VIRADO À PAULISTA

No sentido horário da direita para baixo: arroz branco, lingüiça, couve refogada, torresmo, bisteca, uma rodela de banana, feijão, outra rodela de banana e no centro de tudo um ovo frito.

No sentido horário: arroz branco, lingüiça, couve refogada, torresmo, bisteca, uma rodela de banana, feijão, outra rodela de banana e no centro de tudo um ovo frito.

Ingredientes:

Feijão:

3 xícaras (chá) de feijão carioca cozido
1/2 xícara (chá) de farinha de milho amarela em flocos
1/2 xícara (chá) de farinha de mandioca crua
50 g de bacon em cubinhos
3 dentes de alho picados
1 cebola grande picada em cubinhos pequenos
pimenta-do-reino à gosto
Bisteca de Porco:
4 bistequas de porco
óleo para fritar
sal à gosto
Lingüiça Toscana:
3 gomos de Lingüiça Toscana
Couve
1 maço de couve manteiga
azeite ou óleo para refogar
2 dentes de alho picados
sal à gosto
Ovo Frito
4 ovos
óleo para fritar
sal e pimenta-do-reino à gosto
Arroz Branco
1 xícara (chá) de arroz agulhinha lavado e escorrido
1 dente de alho esmagado
sal à gosto
óleo
2 e 1/2 xícaras (chá) de água fervente
Banana Frita
1 banana-da-terra ou nanica cortada no sentido do comprimento em fatias (se quiser pode cortar em rodelas)
1 ovo batido
farinha de rosca para empanar
óleo para fritar
Torresmo
4 fatias de toucinho (ou bacon)
água para cozinhar
1 pitada de bicarbonato de sódio
sal à gosto
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Modo de Preparo:

Feijão:

Faça o feijão normalmente. Separe 3 xícaras (chá) do feijão e reserve. Misture as farinhas de milho e mandioca. Umedeça as mãos e misture mais um pouco as farinhas, até que fiquem úmidas. Reserve. Pegue o feijão e bata metade dele no liqüidificador com o caldo. Em uma panela, frite o bacon até dourar, adicione os dentes de alho e doure-os também. Em seguida junte a cebola e deixe fritando até dourar. Assim que esteja tudo dourado, junte o feijão batido no liqüidificador, mexendo bem. Junte o restante do feijão que não foi batido, mexa só um pouquinho para misturar e deixe ferver. Quando estiver fervendo comece a juntar as farinhas misturadas aos poucos, mexendo sempre, e temperando com a pimenta-do-reino. A consistência deve ficar de uma pasta mole, quando adquirir esta consistência desligue o fogo. Quando esfriar irá ficar mais consistente, então atenção para não deixar engrossar muito enquanto estiver quente.

Arroz:

Em uma panela coloque óleo e frite levemente o alho esmagado. Junte o arroz lavado e seco e mexendo envolva-o bem neste óleo. Tempere com sal e cubra com a água. Deixe cozinhar até secar toda a água. Reserve.

Couve:

Corte o maço de couve em tiras finas. Em uma panela coloque o azeite ou óleo e frite os dentes de alho. Quando estiverem dourados acrescente a couve mexendo sempre até que amoleça levemente. Isto é coisa de segundos. Tempere com sal e reserve.

Banana da Terra:

Corte a banana em fatias. Passe estas fatias no ovo batido e depois na farinha de rosca. Frite em bastante óleo e bem quente. As fatias de banana devem ficar mergulhadas no óleo. Quando começarem a dourar, retire-as, escorra-as em papel toalha e reserve.

Torresmo:

Em uma panela ferva água e acrescente uma pitada de bicarbonato de sódio. Cozinhe o toucinho por cerca de 20 minutos ou até que solte bastante espuma. Em uma frigideira funda, de preferência tampada, frite até que fique bem dourado, temperando com um pouco de sal. Retire-os e reserve.

Bistecas, Lingüiças e Ovos:

Na mesma frigideira em que fritou o toucinho, aproveitando sua gordura, frite as bistecas e depois as lingüiças. Frite os ovos em óleo separadamente, temperando com sal. Reserve tudo em separado.

Montagem do Prato:

Depois de algum tempo de trabalho escravo na cozinha está tudo pronto. Todas as partes prontas e acabadas distribua-as no prato da seguinte maneira: coloque uma porção do feijão, uma do arroz, uma porção de couve, uma bisteca, pedaços da lingüiça, do torresmo, uma fatia de banana frita e por cima de tudo um ovo.

Sirva a seguir e diga adeus à dieta pois é super calórico.

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Algumas variações:

Há versões da receita em que todo o feijão é batido no liqüidificador, transformando-se em um verdadeiro purê.

A banana, como foi dito, tanto pode ser a da terra (a tradicional) como a nanica, tanto em fatias como em rodelas.

O torresmo pode ser substituído por bacon, além de ter outras formas de fazer (como a versão que leva um pouco de pinga à sua elaboração), inclusive fritando-o direto sem pré-cozinhar.

Não se esqueça que as calorias deste prato são astronômicas, se não puder consumir gordura à vontade ou tiver alguma outra restrição, contente-se em olhar fotos do prato. Caso não seja seu caso, empanturre-se que é muito bom!

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Lendas do Corpo Seco

Corpo Seco (Maurício Pereira)

Corpo Seco (ilustração de Maurício Pereira)

Corpo Seco é uma figura folclórica recorrente principalmente no sudeste brasileiro. Apesar de muito comum no sudeste, há histórias de encontros com um Corpo Seco desde o Paraná até o Amazonas, assim como em alguns países africanos de língua portuguesa.

O Corpo Seco seria um morto-vivo que por ter praticado muitas más ações durante a vida, e agredido ou matado os pais (alguns afirmam que seria só a mãe), ao morrer, teve seu descanso negado. Há um ditado popular que diz que “quem bate na mãe fica com a mão seca”.

Assim o Corpo Seco acaba sendo rejeitado por Deus, pelo Diabo e pela própria terra onde teria sido enterrado. É que, ao ser enterrado, o Corpo Seco é expelido pela terra, aparecendo o morto desenterrado pouco tempo depois do próprio enterro, já com as carnes apodrecidas.

O Corpo Seco não gosta de água, sendo que pode ser isolado se deixado em um lugar do qual para sair se tenha que atravessar um curso d’água.

Depois de sair do túmulo o Corpo Seco começa a vaguear pelas matas próximas a caminhos, pois para sobreviver tem que se agarrar a uma árvore. Quando se agarra a uma acaba por secá-la. Portanto, se encontrarem uma árvore que secou de repente, sem causa aparente, pode ter sido um Corpo Seco que se agarrou a ela.

Dizem alguns que o Corpo Seco fica junto a caminhos, pois precisa de sangue para continuar “vivo”. Quando passa uma pessoa agarra-a e suga todo o seu sangue (como os vampiros). Se não passar nenhuma pessoa ele morre.

Deixamos aqui duas histórias sobre Corpos Secos contadas por aí. A primeira é sobre um Corpo Seco que assombra moradores há mais de 40 anos, no Vale do Paraíba, próximo a Taubaté, São Paulo. A segunda história é sobre um Corpo Seco da cidade de Colombo, que fica na região metropolitana de Curitiba, Paraná.

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CORPO SECO DO ZÉ MAXIMIANO (MONTEIRO LOBATO, SÃO PAULO)

Possível trilha assombrada pelo Corpo Seco de Monteiro Lobato, no Parque Natural do Sauá.

Provável trilha assombrada pelo Corpo Seco, em Monteiro Lobato, no Parque Natural do Sauá.

Dizem os moradores mais antigos que existe um Corpo Seco assombrando uma trilha entre os Vales do Buquira e do Trabiju, há mais de 40 anos, no município de Monteiro Lobato. Este Corpo Seco habita a gruta do Picadão. Um morador local, chamado Geraldo Periquito chega a afirmar que já viu o Corpo Seco pescando lá perto. Também, segundo Periquito, uma vez passava por esta trilha uma comitiva de uns 50 cavaleiros que seguia para uma festa de casamento. Era umas 10 horas da noite quando os cavaleiros cruzavam o trecho assombrado da trilha. Periquito diz que quando passava ouviu uma voz dizendo:

– Dá a garupa que eu também vou.

Periquito não pensou duas vezes, saiu correndo à galope.

Conta este morador local que a alma penada tem nome conhecido. Seu nome em vida era Zé Maximiano, e Periquito até trabalhou com um sobrinho do Corpo Seco numa roça, e o conheceu quando era pequeno. Dizem que virou Corpo Seco porque batia nos pais. Geraldo Periquito conheceu um amigo do Zé Maximiano, Pedro Vicente, que foi responsável em transportar seu corpo para um lugar seguro.

Ao que se conta Zé morreu assassinado, de morte matada, e foi enterrado no cemitério em Monteiro Lobato. Mas a terra expelia o defunto, que mesmo que voltassem a enterrar era de novo expelido por ela. Então Pedro Vicente foi designado para levar o corpo do Zé até uma gruta afastada e deixá-lo por lá. Levou Pedro Vicente, em um balaio nas costas, o corpo ressecado do Zé Maximiano até a tal gruta afastada, para que ele não ficasse assombrando o povo. Para chegar à gruta tinha que se atravessar um córrego, e Corpo Seco não atravessa água.

O padre de Monteiro Lobato, para proteger Pedro Vicente, entregou-lhe uma vara de marmelo benzida. Caso a assombração quisesse agarrá-lo era para bater no Corpo Seco com a vara até ele soltar. Depois de uma longa caminhada, Pedro Vicente chega à gruta, deixando o corpo do Zé no chão, e virando-se para ir embora. É então que o Corpo Seco agarra Pedro dizendo que não o deixaria partir, pois era para os dois ficarem ali juntos, para sempre. Pedro pegou a varinha de marmelo benzida pelo padre e bateu com muita força, repetidas vezes, até que a assombração soltou-lhe e ele conseguiu fugir dali, para nunca mais voltar. Ao menos é a história que se conta.

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CORPO SECO DE COLOMBO (PARANÁ)

Trilha no Bosque da Uva, Colombo, Paraná.

Trilha no Bosque da Uva, Colombo, Paraná.

(…)

Aqui, em Colombo, na região metropolitana de Curitiba, há uma história destas, que contarei abaixo :

Era uma vez um menino chamado Marcelo, filho de fazendeiros que moravam num sítio na cidade de Colombo. Este garoto tinha sérios problemas neurológicos: hiperatividade e déficit de atenção. Mas os seus pais não tinham paciência com ele, pois toda a vez que o menino aprontava na escola ou tirava notas baixas seu pai dava surras com chicotes. Com o passar do tempo o garoto cresceu e virou um rapaz.

Seus pais pressionavam este moço para passar no vestibular do curso de Direito da UFPR. No dia do resultado, o casal de fazendeiros descobriu que seu filho não foi aprovado. Assim, de noite, seu pai deu várias chicotadas em Marcelo. De madrugada o rapaz resolveu se vingar: pegou uma espingarda e atirou na sua família. Os empregados da fazenda acordaram e chamaram a polícia. Marcelo foi preso e transferido para a penitenciária de Piraquara. Lá ele suicidou-se.

Sua alma chegou ao inferno, mas nem o diabo quis e o seu corpo foi expulso do cemitério pois nem as outras almas e nem os bichos da terra permitiram que ele continuasse lá. Assim o morto-vivo caminhou até a sua antiga residência, que era numa fazenda em Colombo. Então seu corpo secou e ele passou a dormir em troncos ocos de árvore de dia e saia vagando todas as noites.

Um certo dia este zumbi estava dentro de um tronco de uma árvore, quando escutou a conversa de um casal. O rapaz falou assim para a moça:

– Não passei no vestibular, quando a minha família souber, não saberei o que fazer: Será que mato os meus pais, ou me suicido?

Desta maneira a garota respondeu:

– A solução é não fazer nada. Por favor, não faça nenhuma besteira!

De repente, a moça se afastou. Aproveitando a oportunidade, Marcelo saiu de dentro da árvore e exclamou para o rapaz:

– Boa tarde! Com licença!

O garoto exclamou:

– Quem é você? Parece uma assombração!

Marcelo explicou :

– Eu sou, realmente, uma assombração. Virei Corpo Seco, pois matei meus pais porque eles brigaram comigo por não ter passado no vestibular. Por favor, não mate a sua família! Pois, você acabará como eu!

Então, após escutar estas palavras, o rapaz saiu correndo.

Alguns dias depois, o mesmo moço surgiu com uma corda no mesmo lugar. Ele colocou a corda no pescoço para se suicidar. O zumbi, que observava tudo, tomou o caminho da estrada para avisar a namorada do suicida. Desta forma a pretendente do rapaz chegou ao local e conseguiu evitar a tragédia.

Reza lenda que este Corpo Seco, até hoje, continua vagando pelas fazendas de uva da cidade de Colombo.

escrito por: Luciana do Rocio Mallon

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Fontes:

Corpo Seco de Colombo, de Luciana do Rocio Mallon – Texto Livre

Corpo Seco do Zé Maximiano, Jornal do Vale Paraibano