Troca de Livros e Gibis

Troque os seus também.

Sempre tive um problema com gibis velhos que tinha guardado. Precisa me livrar deles. Eram histórias que eu não leria novamente. Mas como me livrar deles? Pensei em sebos, mas sebos já vendem barato então devem pagar o que? Centavos? Com isso me dava pena vender.

 Uma mensagem de um amigo veio com a solução. A mensagem informava de  uma tal de feira de troca de livros e gibis. Muito desconfiado da tal feira, que caia justo no domingão, peguei todos meus livros e gibis do qual a história não havia gostado e coloquei na mochila com a esperança de trocar ou até mesmo vender. Digo esperança por que até então não tinha certeza de como seria. Pensei em varias possibilidades, a primeira seria que a troca seria o equivalente a história ou ao autor até mesmo conservação ou algo assim, e a segunda que ao invés de trocar, o pessoal estaria vendendo o que é pior já que no momento estava desprovido de poder aquisitivo. Felizmente estava enganado.

 A feira funciona da seguinte maneira: Você leva livros ou gibis e troca um por um, livro por livro, gibi por gibi, gibi por livro e vice versa. Mas Atenção, não vale trocar livros técnicos e revistas normais (tipo veja, super interessante e etc) apenas livros de literatura e histórias em quadrinhos.

 

Gostei muito da feira! Consegui trocar bastantes revistas em quadrinhos. Dei um upgrade na minha coleção de quadrinhos e até começar uma pequena coleção de Julio Verne. A feira aconteceu no ultimo domingo, dia 2, no parque do Piqueri e foi coordenada pelo Sistema Municipal de Bibliotecas. Confira abaixo o calendário das próximas feiras:

 Parques da cidade de São Paulo onde ocorrerá a feira de Troca de Livros e Gibis

13 de setembro – Parque da Luz
Praça da Luz, s/n° – Bom Retiro – Centro

4 de outubro – Parque Cidade de Toronto
Av. Cardeal Mota, 84 – City América/ Pirituba – Zona Norte

8 de novembro – Parque Santo Dias
Estrada de Itapecerica, altura do n° 4.800 – Capão Redondo – Zona Sul

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Fonte: Catraca Livre

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O Auto da Compadecida

O Auto da Compadecida é uma micro-série da Globo baseada em uma peça de teatro de Ariano Suassuna, intitulada Auto da Compadecida. Mas antes de falarmos da série vamos falar deste senhor chamado Ariano Suassuna.

Ariano Suassuna

Ariano Suassuna

Ariano nasceu em João Pessoa, quando esta cidade chamava-se Parahyba, em 1927. Viveu seus primeiros anos em um sítio no sertão do estado da Paraíba. Quando tinha apenas 3 anos, seu pai foi assassinado na então capital da república, por motivos políticos. Por esta razão, sua família teve que mudar-se constantemente, fugindo de possíveis represálias de grupos políticos opositores ao do falecido pai. Em 1942 passou a residir em Recife, Pernambuco, onde sua família fixou-se definitivamente. Estudou em colégios renomados, concluindo a faculdade de Direito em 1950, na Faculdade de Direito do Recife. Depois, em 1964, concluiu também o curso de Filosofia. Sua primeira obra publicada foi um poema intitulado Noturno, em 1945, publicado no Jornal do Comércio, no Recife. Sua primeira peça foi Uma Mulher Vestida de Sol, de 1947. Depois desta vieram muitas outras, incluindo Auto da Compadecida, de 1955, que deu-lhe fama nacional. Mas apesar de boa parte de sua produção serem peças teatrais, também publicou romances e poemas. Entre seus romances, o mais conhecido é O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de 1971.

Apesar de escrever constantemente, não viveu apenas do que escrevia, exercendo a advocacia por um certo tempo, afastando-se em 1956, quando tornou-se professor de Estética, na Universidade Federal de Pernambuco. É justamente como professor desta universidade que acaba por aposentar-se em 1994. Antes, porém, continua dedicando-se ao teatro, e nos anos 1970 escreve romances, e ao mesmo tempo, defende sua tese de livre-docência, cujo título é A Onça Castanha e a Ilha Brasil: uma reflexão sobre a cultura brasileira.

Ariano Suassuna é o idealizador do Movimento Armorial, cujo objetivo é criar arte erudita a partir da cultura popular nordestina. Este movimento engloba todas as formas de expressões artísticas como música, dança, literatura, teatro, cinema, etc (para saber mais veja no final do post). Em 1990, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras,ocupando a cadeira 32.

A Compadecida e Jesus Cristo (foto de Nelson Di Rago)

A Compadecida e Jesus Cristo (foto de Nelson Di Rago)

Voltando ao Auto da Compadecida, sua obra mais conhecida, esta peça foi montada por grupos teatrais de todo o país, incontáveis vezes, sendo também adaptada para a televisão e o cinema. Antes da micro-série da qual falamos hoje, o Auto da Compadecida já tinha virado filme estrelado por Regina Duarte (no papel da Compadecida), em 1969, com o título de A Compadecida. Renato Aragão, o maior humorista nordestino de todos os tempos, também transformou o Auto da Compadecida em filme, com a produção Os Trapalhões no Auto da Compadecida, em 1987, um dos raros filmes dos Trapalhões que chegou a ser comercializado no estrangeiro. E em 1999 surge a micro-série O Auto da Compadecida, transformada em filme no ano seguinte.

A micro-série de 4 capítulos, com uma duração total de 2 horas (o filme conta apenas com 104 minutos e tem algumas das melhores partes da série cortadas), não é fiel à obra de Suassuna, tendo sido uma adaptação feita a partir da peça teatral Auto da Compadecida, mas com pequenas histórias mescladas de outras peças de Suassuna. Foi a micro-série de maior sucesso da Rede Globo até os dias atuais. Como foi baseada no texto de Suassuna, tem em sua versão televisiva elementos que podem identificar a obra e estilo de Suassuna. Autos eram obras medievais de cunho religioso, e o Auto da Compadecida tem todo um percurso que termina justamente tendo um ápice religioso. Outra característica da obra de Suassuna é que, o Auto da Compadecida tem uma narrativa, uma forma de contar a história que inspira-se na Literatura de Cordel, seja pelos termos utilizados, pelos diálogos estabelecidos, mas também, no caso da série, pelas imagens que acompanham a história narrada. Outra característica definidora é o enfoque a um tema regional (nordestino), sendo apresentado com toda uma narrativa e visual alusivos à cultura regional.

João Grilo e Chicó (com a cruz na mão).

João Grilo e Chicó (com a cruz na mão).

A série conta a história de João Grilo e seu amigo Chicó. João Grilo é o tipo esperto e simplório que faz tudo para sobreviver, enquanto Chicó só conta vantagens, inventa, e não sabe se desvencilhar das dificuldades, só com a ajuda do amigo. Encontram trabalho na padaria do lugarejo de Taperoá, tendo como patrão o avarento Eurico e sua mulher Dora, que dá mais importância à sua cachorra que ao próprio marido. No desenrolar da história, Chicó apaixona-se pela filha do major Antônio Morais, Rosinha, e precisa da ajuda do amigo João Grilo, novamente, para conseguir casar com a moça. Mas algo acontece neste meio tempo que leva ao momento da verdade, em que A Compadecida intercederá por todos, e principalmente por João Grilo. Esta parte final é onde os dramas pessoais são revelados, onde as histórias são de fato compreendidas, e entende-se o porquê da história ter o Compadecida no nome.

A adaptação foi escrita por Adriana Falcão, João Falcão e Guel Arraes, e dirigida também por Guel Arraes. Teve no elenco nomes como Matheus Nachtergaele (João Grilo), Selton Melo (Chicó), Virgínia Cavendish (Rosinha), Paulo Goulart (Major Antônio Morais), Fernanda Montenegro (a Compadecida), Maurício Gonçalves (Jesus Cristo/Manuel), Luís Melo (Diabo), Lima Duarte (Bispo), Rogério Cardoso (Padre João), Marco Nanini (Severino), Denise Fraga (Dora), Diogo Vilela (Eurico), entre outros.

Como disse mais acima, o filme tem uma duração menor que a micro-série. Mas para quem não viu a série é uma boa opção, de divertimento garantido. O problema é que, quem viu a série sente falta de momentos hilários que não podem ser vistos no filme. Independente deste pequeno grande detalhe, o filme foi um grande sucesso nos cinemas quando de seu lançamento.

Fique com um trecho desta deliciosa série (e do filme), com a história do Cavalo Bento de Chicó, uma das muitas histórias sem pé nem cabeça que ele conta ao longo da série.

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Para saber mais:

A Música Armorial – de Ana Paula Campos Lima

– um pequeno trabalho sobre a Música Armorial que nos dá uma idéia mais ampla sobre o Movimento Armorial como um todo.

Ariano Suassuna

– é o site sobre Ariano Suassuna: vida, obra e etc.

Capitu

capitulinaHá mais de 100 anos tenta-se descobrir se Capitu traiu Bentinho ou não. E como Machado de Assis já morreu não temos como perguntar a ele.

O jeito é você ler o livro e tirar suas próprias conclusões, se é que você chegará a alguma conclusão. Como é um livro de muita idade já é de domínio público e você pode baixar da internet sem cometer crime. Aqui está o link para o livro.

Algumas informações sobre o livro e o autor são importantes para você se localizar, caso não conheça. Machado de Assis é um dos maiores nomes, se não o maior, da literatura brasileira, nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e morreu também no Rio em 1908. Era filho de um pintor de paredes negro e uma lavadeira açoriana. Não frequentou a escola regular. Ao que consta tinha problemas de saúde como epilepsia e gagueira. Perdeu os pais ainda criança. Vivendo com a madrasta foi vender doces em uma escola, e é então que tem contato com professores e alunos, e provavelmente começa a ter alguma instrução regular. Aprendeu francês e inglês e traduziu ainda jovem um romance de Vitor Hugo para o português, Os Trabalhadores do Mar, e o poema de Edgar Allan Poe, O Corvo.

Quanto a obras próprias, a primeira de Machado de Assis foi “Ela”, quando ele tinha apenas 15 anos, e trabalhava em uma tipografia. Então não pára mais, colaborando com jornais e revistas como contista, cronista, poeta ou crítico literário. Em 1864 publica seu primeiro livro, Crisálidas, e 5 anos depois casa-se com uma portuguesa chamada Carolina Augusta Xavier de Novais, irmã do poeta Faustino Xavier de Novais, com quem viveu durante 35 anos. Em 1873 ingressa na carreira pública na qual ficará até aposentar-se como diretor do Ministério da Viação e Obras Públicas. Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, e na época da fundação da academia era considerado o maior nome vivo da literatura brasileira.

Foi um contista, cronista, poeta, romancista, teatrólogo, jornalista que escreveu vários romances, centenas de contos, crônicas e poemas. Entre os seus romances encontra-se o já citado da história de Capitu. O nome do livro é Dom Casmurro, foi publicado em 1899, e é o livro da literatura brasileira traduzido para o maior número de idiomas. Dom Casmurro é um dos personagens centrais da trama, Bentinho, que além de personagem é o narrador da história. O livro conta a trajetória do amor entre Bentinho e Capitu, mas sempre dando a visão apenas de Bentinho, por esta razão, nunca sabemos o que aconteceu realmente, apenas o que Bentinho acreditava que se passava. É ambientado no Rio de Janeiro do Segundo Império, e mostra toda uma realidade social da época. Porém, independente disso, o que prende a atenção do leitor e o faz inclusive reler o livro, são as dúvidas de Bentinho sobre uma possível traição de Capitu.

bentinhoecapituEsta suposta traição, que continuamos sem saber se existiu ou não, inspirou estudos, filmes e séries. E a última obra televisiva inspirada na misteriosa e fascinante Capitu de Machado de Assis, é uma micro-série chamada Capitu. Em comemoração aos 100 anos da morte de Machado de Assis, muito se fez relembrando a vida e obra deste grande escritor. A micro-série Capitu foi uma destas realizações.

Além de nos relembrar da já velha e imortal história de Bentinho e Capitu, a micro-série tem todo um jeito de ser diferente das produções que normalmente vemos na televisão. Uma mistura de teatro, circo e musical, com uma trilha sonora peculiar, e alguns atores desconhecidos da televisão, mais uma vez é recontada a história da suposta traição. Recontada em uma adaptação, não sendo fiel ao livro, mas sendo fiel à dúvida eterna sobre a traição. A série foi dirigida por Luiz Fernando de Carvalho, contando no elenco com nomes como Eliane Giardini (Dona Glória, mãe de Bentinho), César Cadadeiro (Bentinho jovem), Pierre Baitelli (Escobar jovem e Ezequiel adulto), Letícia Persiles (Capitu jovem), Michel Melamed (Bentinho adulto), Maria Fernanda Cândido (Capitu adulta), entre outros. A série que se desenrola em apenas 5 capítulos, reconta de forma peculiar a clássica história. Foi ao ar entre 9 e 13 de dezembro de 2008.

É, em uma opinião muito pessoal, mais interessante pela forma como a história é contada do que pela história em si (desculpe Machado). A originalidade das formas, cores e musicalidade da série fazem com que ela valha a pena independente de ser a releitura de uma obra machadiana. Assista ao menos para estimular seus sentidos visual e auditivo.

Fique com o vídeo feito com imagens da série ao som de Elephant Gun, do grupo Beirut.

Esta noite sonhei com o Mário Lino (Miguel de Sousa Tavares)

Hoje vamos simplesmente copiar e colar uma crônica de Miguel de Sousa Tavares, publicada no jornal Expresso, no dia 29 de junho de 2009.

É aquela coisa, imigrante não pode emitir opinião, só omitir. Pois se imigrante fala alguma coisa é mal agradecido, cospe no prato que come, é xenófobo (o povo aqui adora esta palavra), entre outras coisas. Então já que imigrante não pode falar, reproduz o que português diz sobre o próprio país. Afinal o copiar e colar ainda não foi considerado ato xenófobo. Vamos a isto, com muito “prazere”.

Para quem nunca ouviu falar do dito senhor, Miguel de Sousa Tavares é português nascido no Porto, cidade ao norte de Portugal. É um advogado que abandonou a carreira, tornando-se jornalista e também escritor. Tem livros lançados no Brasil, como Equador (que virou novela por aqui), além de já ter sido ou ser colunista de diversas revistas e jornais portugueses. Ele é filho de uma grande poetisa portuguesa, desconhecida praticamente do público brasileiro: Sophia de Mello Breyner Andresen. Ela tem um poema intitulado Manuel Bandeira (leia aqui). O filho da poetisa, o Miguel, é um crítico social digamos um tanto radical às vezes. Para quem já leu Eça de Queirós, diria que, em uma opinião pessoal, ele tenha o mesmo estilo, a mesma acidez. Nesta crônica publicada no Expresso ele nos faz uma crítica, diria que, nem é assim tão ácida, mas corajosa, visto que, há certas coisas que acontecem por terras de Cabral que os portugueses fazem questão de não ver. Pronto, já parei.

Fotomontagem humorística baseada em opinião de Mário Lino sobre a Ota.

Fotomontagem humorística baseada em opinião de Mário Lino sobre a Ota.

O outro nome citado no título do post (e da crônica) é Mário Lino. Este senhor é ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações do atual governo português. Foi um dos protagonistas de uma polêmica que já se prolonga há tempos, sobre a construção de um novo aeroporto para Lisboa, que foi resolvida porém não concluída. Defendia de forma intransigente a construção do aeroporto em uma localidade chamada Ota, que segundo sua opinião era um deserto, e acabaria por desenvolver-se com este empreendimento.

Para os críticos não é necessária a construção de um novo aeroporto visto não haver fluxo que justifique um aeroporto maior, assim como a localização também foi muito contestada pela distância de Lisboa, fazendo-se necessário não apenas construir o aeroporto em questão mas outras obras caríssimas que viabilizassem a utilização do mesmo pela população lisboeta e dos arredores. Detalhe, esta discussão sobre a construção do novo aeroporto durou cerca de meio século (não vou por em negrito para não me acusarem de xenófoba).

A crônica em si não fala apenas do tal aeroporto, mas das rodovias, ferrovias e tudo mais que há em Portugal, país abençoado com rodovias e mais rodovias… vazias, coisa que pode matar qualquer paulista de inveja. Fique com a crônica.

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ESTA NOITE SONHEI COM MÁRIO LINO

Miguel de Sousa Tavares

Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:

Paisagem típica das rodovias portuguesas.

Paisagem típica das rodovias portuguesas.

– É sempre assim, esta auto-estrada?

– Assim, como?

– Deserta, magnífica, sem trânsito?

– É, é sempre assim.

– Todos os dias?

– Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.

– Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?

– Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.

– E têm mais auto-estradas destas?

– Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. – respondi, rindo-me. – E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?

– Porque assim não pagam portagem.

– E porque são quase todos espanhóis?

– Vêm trazer-nos comida.

– Mas vocês não têm agricultura?

– Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.

– Mas para os espanhóis é?

– Pelos vistos…

Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:

– Mas porque não investem antes no comboio?

– Investimos, mas não resultou.

– Não resultou, como?

– Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.

– Mas porquê?

– Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não ‘pendula’; e, quando ‘pendula’, enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de ‘modernidade’ foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.

– E gastaram nisso uma fortuna?

– Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos…

– Estás a brincar comigo!

– Não, estou a falar a sério!

– E o que fizeram a esses incompetentes?

– Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa… e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.

– Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?

– Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.

Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.

– Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?

– Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.

– Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?

– Isso mesmo.

– E como entra em Lisboa?

– Por uma nova ponte que vão fazer.

– Uma ponte ferroviária?

– E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.

– Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!

– Pois é.

– E, então?

– Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.

Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.

– E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta…

– Não, não vai ter.

– Não vai? Então, vai ser uma ruína!

– Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína – aliás, já admitida pelo Governo – porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.

– E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?

– Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!

– E vocês não despedem o Governo?

– Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo…

– Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?

– Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.

– O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?

– A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.

– Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?

– É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.

Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:

– E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?

– O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.

– Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?

– É isso mesmo. Dizem que este está saturado.

– Não me pareceu nada…

– Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.

– Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?

– Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.

– E tu acreditas nisso?

Barragem de Alqueva

Barragem de Alqueva, Alentejo. Fica no rio Guadiana e é a maior da Europa.

– Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?

– Um lago enorme! Extraordinário!

– Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.

– Ena! Deve produzir energia para meio país!

– Praticamente zero.

– A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!

– A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.

– Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar – ou nem isso?

– Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.

– Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?

– Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.

Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:

– Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?

– Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.

Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:

– Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!

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Mini-vocabulário básico para tupiniquins que não vivem em Portugal:

TGV – Popularmente conhecido como Trem Bala.

Autoestrada – Algo próximo a uma rodovia estadual, que tem como finalidade atender núcleos urbanos de grande densidade demográfica.

Comboio – Trem. Os pendulares são aqueles que balançam para os lados quando fazem a curva, e tem uma velocidade superior aos trens comuns. Não temos disso no Brasil.

Vital Moreira – jurista português membro do PS (Partido Socialista), partido do atual Primeiro-Ministro.

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Queria agradecer a Isis por ter enviado esta pérola literária por e mail.

O texto foi publicado no jornal Expresso.