A Lenda de Zafara

Hoje falaremos de um rei mouro e seu belo castelo, que viveu no que hoje é a Espanha, em Badajoz, na atual cidade de Zafra. Hoje a cidade de Zafra é um importante polo industrial na Comunidade Autónoma de Extremadura. Ao seu redor existem marcas deixadas pelos antigos ocupantes da zona, como restos de vilas romanas e testemunhos dos tempos da ocupação muçulmana. Zafra ficava em uma zona de fronteira entre as taifas de Sevilha e Badajoz. Por esta razão, em 1030 começou a ser construído um castelo na Serra de El Castellar, próximo à atual cidade, com fins defensivos. Zafra, que já foi chamada de Sajra Abi Hassán (que derivou Safra, Cafra e por fim Zafra), foi ocupada pelos cristãos em 1229, mas só foi definitivamente conquistada por eles em 1241 pelo rei Fernando III, o Santo.

O castelo de Zafra, o do rei muçulmano, já não existe mais, restam ruínas que não há confirmação se de fato seriam do castelo do rei Al-Jarik. Mas ficou até os dias atuais uma lenda sobre este castelo, que traduzimos hoje.

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A LENDA DE ZAFARA

Vista da calle Jerez, em Zafra.

Vista da calle Jerez, em Zafra.

Havia próximo à cidade de Zafra um suntuoso palácio, construído pelos árabes. Nesta época a região onde fica Zafra estava sob o comando de Al-Jarik, nobre guerreiro responsável pela construção do Palácio de Zafra, no alto de uma montanha chamada atualmente de El Castellar que, majestosa vigia a cidade. O interior deste palácio foi adornado ricamente, com belas fontes, jardins coloridos e uma construção que alegrava seus habitantes e visitantes. Al-Jarik usava este palácio como residência de descanso e recebia frequentemente visitas de poderosos cavaleiros.

Havia, pelo que dizem, uma passagem secreta que ligava o palácio com o centro da cidade de Zafra, onde ficava o Palácio do Governo. Esta passagem secreta era enorme, podendo ser cruzada por cavaleiros montados em seus cavalos, ou mesmo por carruagens de porte médio. Sem contar que a distância do Palácio até Zafra era de alguns bons quilômetros. Este tunel era protegido por guerreiros que seguravam tochas para iluminar o interior.

Al-Jarik tinha uma filha chamada Zafara, muito bela que, apesar de muito jovem, o pai queria casar com Al-Bakrí, um dos mais respeitados guerreiros muçulmanos. Al-Bakrí vivia em Córdoba, mas passara em várias ocasiões pelo Palácio de Zafra, apaixonando-se pela jovem Zafara. Al-Jarik contabilizava muitos ganhos com esta união, pois além de Al-Bakrí se um dos mais respeitados guerreiros, tinha uma grande fortuna. Mas Zafara não via com os mesmos olhos esta possível união, já que jóias e ouro não a atraíam. O que a tornava feliz era a leitura dos incontáveis livros da biblioteca do palácio e contemplar a natureza. Quando não estava lendo, dava longos passeios ao redor do palácio para contemplar a natureza, indo com frequencia a um pequeno riacho para observar os peixes e outros animais, colhia flores e juncos com os quais criava belos enfeites.

Zafara sabia dos planos do pai, mas apesar de ser uma boa e obediente filha, ficava profundamente triste toda vez que pensava no assunto. Passado algum tempo Al-Jarik comunicou a Zafara que deveria preparar-se para o casamento, pois um mensageiro contara-lhe que o guerreiro de Córdoba vinha com seu sequito para a cerimônia. Zafara foi para seus aposentos e começou a chorar amargurada, enquanto seu pai dava instruções a seus servos para enfeitar o palácio e parar tudo o que fosse necessário para as festas que se aproximavam.

Quando tudo estava preparado, Al-Jarik mandou que chamassem sua filha para vestirem-na com sedas preciosas. O criado encarregado de chamar a Zafara voltou ao quarto onde estava seu amo dizendo que chamara várias vezes mas ela não respondia e a porta estava trancada. Al-Jarik foi rapidamente ao quarto de Zafara, verificando que a porta estava mesmo trancada e que ela não respondia a seus chamados. Diante disto, chamou dois guardas para que arrombassem a porta. Quando conseguiram entrar no quarto de Zafara, Al-Jarik encontrou algo que jamais esperava: sua preciosa filha estava estendida no solo, olhando para a janela que dava para o jardim, com juncos frescos do riacho próximo nas mãos e uma grande umidade ao redor do rosto. Até o chão parecia coberto de água. Mas não era água como percebeu o pai que desesperadamente tentava reanimar a filha. Aquela umidade eram as lágrimas que Zafara derramou. Morreu da profunda tristeza que o casamento imposto lhe causou.

Al-Jarik recolheu tristemente algumas lágrimas que ainda encontravam-se no belo rosto de Zafara, quanto misturavam-se com as suas, pois não foi capaz de evitar o choro quando carregava em seus braços o corpo de sua filha. A amargura não deixaria em paz a Al-Jarik, pois acreditavam então que quando alguém morria de tristeza, seu espírito vagava eternamente pelos lugares onde mais foi feliz enquanto vivo.

Quando estavam preparando o funeral de Zafara, chegou ao palácio um veloz mensageiro, comunicando que o guerreiro Al-Bakri morrera a pouca distância da cidade. Enquanto descansavam da viagem próximo a um riacho, o guerreiro foi banhar-se. Como demorava em sair da água seus companheiros foram buscá-lo, sendo encontrado agarrado aos juncos da margem, mas já morto afogado. Ninguém soube explicar como aquilo acontecu, mas o certo é que Al-Bakri deixou de existir muito próximo de Zafra. Estes infortúnios foram muito comentados e chorados por todo o território muçulmano de Zafra a Córdoba, correndo a história até Sevilha e Granada. Al-Jarik decidiu enterrar sua filha ao lado de Al-Bakri, próximo ao palácio, às margens do riacho entre os juncos, em um pequeno túmulo onde se podia ler:

Aqui jaz Zafara, bela filha do nobre Al-Jarik,

que amava o riacho e os juncos,

cujo espírito vaga por estes lugares

e o valoroso guerreiro Al-Bakri que amando a Zafara

entre a ribeira e os juncos faleceu.

Alá é grande.

Com o passar do tempo, o palácio e seus jardins desapareceram completamente, hoje restam apenas algumas ruínas, cavernas que se supem davam ao túnel, o riacho e os juncos, onde as vezes dizem que se pode sentir a presença do espírito de Zafara.

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Tradução livre da versão em espanhol encontrada em Zafara.

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Lenda do Monte da Nó

Esta lenda portuguesa é dos tempos da ocupação muçulmana, mas já na época da Reconquista. O local referido na lenda fica bem ao norte de Portugal, no distrito de Viana do Castelo, na fronteira com a Espanha. O monte da Nó fica no concelho de Ponte de Lima, a vila mais antiga de Portugal. A vila chamada hoje de Ponte de Lima tem este nome porque surgiu às margens do rio Lima, junto à ponte romana construída neste rio. Da antiga povoação de junto da ponte do rio Lima, surgiu a vila de Ponte do Lima que nos dias de hoje é Ponte de Lima. Deixando a ponte de lado, e subindo a serra, chegamos ao Monte da Nó. Nesta serra existem três castros, dos tempos da Idade do Ferro, e que posteriormente foram ocupados pelos romanos. Há outros testemunhos das ocupações consecutivas. Mas o Castelo do Monte da Nó ninguém encontra…

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LENDA DO MONTE DA NÓ

Vista do Monte da Nó, na freguesia de Vitorino de Piães (Nicole Viana).

Vista do Monte da Nó, em foto tirada na freguesia de Vitorino de Piães (Nicole Coelho Viana).

Nos tempos em que os mouros dominavam a região de Viana do Castelo, sob o comando de Abakir, surge a lenda do Castelo do Monte da Nó. Em um monte elevado sobre o vale do Lima, com povoados a toda volta, estava o castelo de Abakir.

Abakir, conhecido por Feroz, por seu valor nas batalhas, tinha fama de conquistador – de terras e de mulheres. O seu castelo mesmo no mais alto da serra, dizem que era dos mais ricos do mundo, forrado de tapetes persas e sedas multicoloridas, bancos forrados de damascos e sofás de ouro. Rico e poderoso, Abakir mandou buscar nos lugares mais elegantes belas e finas mulheres, com as quais partilhava seus momentos de descanso entre uma e outra batalha. Tratava a todas respeitosamente e era retribuido com o carinho que lhe dispensavam. Mas havia uma entre elas que não demonstrava alegria como as demais. Zuleima, que dizem, fora um dia uma pastora, acabava por ferir o orgulho de Abakir. Ele estava acostumado a ser recebido pelas demais com euforia, mas ela não. Parecia distante, como se não lhe desse importância. Começou Abakir a sondá-la, primeiro observando-a discretamente, depois conversando na tentativa de descobrir o que se passava para que agisse diferente das outras.

Com o tempo e a convivência mais intensa, descobriu que o que causava aquele aparente afastamento de Zuleima era justamente o grande amor que sentia por ele. Assim, aos poucos, descobriu mais coisas. Zuleima era mais inteligente e digna que todas as demais que ali estavam, concluiu Abakir. Seu amor por Zuleima tornou-se tão intenso que dispensou as demais. Entregou-se a tal enlevo que acabou por esquecer-se dos prazeres da caça, do convívio com seus guerreiros e de cuidar das defesas de seus domínios. Aos poucos, conforme se entregava ao extremo envolvimento com Zuleima, todos os demais foram se afastando, os amigos, os conselheiros, os guerreiros. Partiram todos em busca de um senhor para servir, já que Abakir deixara de ser um senhor e tornara-se escravo de um amor. Abakir e Zuleima estavam tão envoltos pelo amor que sentiam que nem perceberam que acabaram sós.

Um dia os cristãos aproximaram-se dos domínios de Abakir, talvez por saberem do abandono que sofrera este senhor por parte de seus guerreiros. Cercaram o castelo e, só então, Abakir e Zuleima perceberam o quanto estavam sós. Percebendo o erro que cometera, Abakir conduziu Zuleima até a mais bela e rica sala. Junto à amada pronunciou palavras desconhecidas que fizeram com que o castelo desaparecesse terra adentro. Quando os cristãos se aproximaram mais não viram qualquer sinal do castelo que nunca mais foi visto.

Dizem que há uma entrada secreta por uma das grutas que leva ao castelo encantado, onde Abakir e Zuleima gozam ainda do enleio do amor ardente em meio a riquezas, mesmo séculos depois. Somente quando alguém descobrir a entrada o encanto será desfeito, e a pessoa que quebrar este encanto irá apossar-se de todos os tesouros do castelo encantado.

Dizem também que, em noites de luar, vagueando pelo monte, pode-se ver Abakir e Zuleima tentando impedir aos mais ousados de descobrirem a entrada do misterioso castelo.

O Candeeiro do Rei Mouro

Durante longos séculos a Península Ibérica (Portugal e Espanha atuais) estiveram ocupados por muçulmanos, que dominaram a maior parte da península, divididos em Califados e Taifas (estas eram subdivisões de um califado que entrara em decadência).

Deste período que durou cerca de 800 anos, surgiram inúmeras lendas por toda a península, falando de riquezas, de grandes batalhas, de amores impossíveis. A lenda contada a seguir é simples, mas provavelmente repetiu-se na realidade inúmeras vezes, com finais mais ou menos tristes. Era comum na época chamarem a muçulmanos de mouros (ou moro em espanhol), que deriva da palavra moreno. Hoje em dia é uma palavra pejorativa, servindo mais para ofensa do que propriamente para identificação. Mas nas lendas ainda permanece a palavra como forma de identificação dos personagens. Outra denominação comum era de infiéis, já que não compartilhavam da mesma religião que os habitantes locais. O Cristianismo foi devidamente usado como estímulo para angariar soldados na luta pela expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica. E era depois, aos santos católicos, que se agradecia a graça de sobreviver, ou que se pedia a salvação da alma dos que não sobreviveram.

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O CANDEEIRO DO REI MOURO

candil

Havia uma família próximo a Coba (Orense, Galícia) que tinha muitos filhos, como era comum naqueles tempos. Três dos irmãos foram para terras de Castilha com a intenção de lutar na guerra contra os muçulmanos e regressarem ricos a sua terra. Como ninguém sabe o que há na página seguinte do livro do destino, somente dois dos irmãos regressaram, pois um morreu devido às feridas sofridas na batalha.

Ao saírem da Galícia , dirigiram-se a uma cidade castelhana de poderosas muralhas (talvez Ávila), e ali reuniram-se a um poderoso exército cristão que preparava-se para iniciar uma expedição ou saque por terras mouras. Viajaram com este exército até o sul e chegaram próximo à cidade de Córdoba.

Estava quase anoitecendo quando os cristãos atacaram aos muçulmanos de surpresa, encontrando-os desprevinidos, inclusive seu rei fugiu ferido gravemente. Rapidamente dividiram o saque.

Um dos irmãos ficou com os guardas no acampamento, enquanto os outros dois lutaram na batalha, na qual o mais novo acabou ferido. Mesmo ferido, conseguiu participar da divisão do riquíssimo saque conseguido com esta batalha.

Durante a longa viagem de volta para o Reino da Galícia, o irmão ferido piorou e morreu.

Com as riquezas conseguidas carregadas em uma mula, e sem o irmão, os dois irmãos restantes regressaram às Terras Altas. Mandaram rezar inúmeras missas pela alma do irmão falecido. Presentearam a Virgem com uma lâmpada de azeite, toda em ouro, para que iluminasse permanentemente ao Santíssimo em memória do irmão que foi e não regressou.

Esta lâmpada esteve durante gerações na igreja da aldeia, e todos a conheciam como o Candeeiro do Rei Mouro.

Tradução livre da versão encontrada em Coba Leyendas, El Candil del Rey Moro.