Santillana del Mar – o “pueblo” mais belo da Espanha

Trecho da estrada próximo a Santillana.

Trecho da estrada próximo a Santillana.

Já imaginou perder-se por entre altas montanhas recortadas por vales verdes como esmeraldas, e de repente, encontrar-se à beira de uma estrada normal, com uma entrada para um povoado que parece perdido no tempo? Já imaginou seguir por esta entrada e descobrir-se cercado por velhas casas que parecem congeladas através dos séculos, só à sua espera para retornarem à vida, com flores nas varandas, separadas por pequenas ruas calçadas de antigas pedras, por onde já caminharam tantas pessoas de outros tempos? Isto não é impossível. Vivi esta pequena fantasia ao visitar Santillana del Mar, o pueblo das três mentiras. É que dizem que Santillana nem é Santa, nem llana (plana) e nem tem mar. Mas isto é um pouco questionável!

Rua de Santillana, ao fundo a Colegiata.

Rua de Santillana, ao fundo a Colegiata.

Sair da estrada asfaltada, descendo de um ônibus, e caminhando do asfalto para as velhas pedras do calçamento, seguir adiante e ver-me entrar por uma rua que fazia as vezes de túnel do tempo, foi uma sensação única que não me esqueço jamais. E quando as casas começaram a aparecer, de um lado e outro da ruazinha, feitas de pedras que mostravam em sua cor e desgaste quantos séculos se passaram… que mágico! Mais mágico ainda foi caminhar lentamente, apreciando os muitos anos que aquelas casas carregavam e, quando me dei conta, cheguei ao fim da vilinha, atravessando um pequeno rio, na calle del Río. Mas este fim foi grandioso, pois terminava em uma magnífica construção de cerca de 900 anos. A Colegiata Romanica de Santillana del Mar, um mosteiro construído para abrigar os restos mortais de Santa Juliana, conclui a visão do passado em pleno presente nesta bela vila cantábrica. Tirando meus delírios fantasiosos de filha da terra que nunca nela havia pisado, vamos à parte histórica. Ah, e não é Santa mas tem santa.

A Santillana que podemos ver ainda hoje encravada em um belo vale cantábrico, tem um início mesclado entre lenda e História. Dizem, mas não há certeza, que um mosteiro foi fundado por volta do século IX, por monges que escolheram este lugar para guardar os restos mortais de Santa Juliana. O próprio nome Santillana deriva do nome da santa, que em latim era Sancta Illana, depois Sant Iuliana, e com o tempo, virou Santillana.

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Túmulo onde se encontram os restos mortais de Santa Juliana.

Santa Juliana, ao que parece, foi martirizada na Ásia Menor, onde hoje é a Turquia, na época das perseguições aos cristãos feitas pelo imperador Diocleciano, em fins do século III. Os monges, que guardavam os restos de Santa Juliana, eram peregrinos, e acabaram por desembarcar na costa cantábrica, próximo da localidade hoje chamada de Santillana del Mar. Teriam construído uma Capela e um Mosteiro, onde os restos mortais de Santa Juliana poderiam ser venerados.

Já a versão histórica da fundação da localidade, atribui suas origens a uma corrente de repovoamento cristão da região, impulsionada pelos sucessores do rei Afonso I de Astúrias. A consolidação do poder cristão na região deu-se pelo século X, quando esta zona era conhecida como Astúrias de Santillana – nome pelo qual boa parte da atual Cantábria era denominada nesta época. No reinado de Fernando I de Castilha, o abade deste mosteiro ganhou importantes privilégios, no ano de 1045, tornando-o senhor da vila e suas possessões, ou seja, um homem rico, visto que a vila era passagem para os peregrinos que seguiam para Santiago de Compostela, e por aí passavam para venerar Santa Juliana.

Caminhando lentamente, deparei-me com este monumento do românico.

Caminhando lentamente, deparei-me com este monumento do românico: a Colegiata de Santa Juliana.

O templo primitivo foi substituído pelo que conhecemos hoje. Anexos foram construídos posteriormente, sendo que as partes mais antigas da construção que pode ser vista ainda hoje, datam do século XII. No início o mosteiro pertencia à ordem beneditina, mas no século XI, o mosteiro transformou-se em abadia, passando à tutela de uma comunidade de cônegos da ordem de santo Agostinho. No século XII, com o apoio da nobreza, a abadia tornou-se a mais importante da Cantábria medieval.

Em 1209, no reinado de Afonso VIII de Castilha, a vila de Santillana tornou-se a capital das Astúrias de Santillana. Na mesma época o mosteiro entra em decadência, mas é então que a vila passa por um desenvolvimento urbano, ao redor da Plaza Mayor, conhecida atualmente como Ramón Pelayo, e a Torre del Merino.

Vista do alto, tem-se uma idéia melhor da monumentalidade desta construção.

Vista do alto, tem-se uma idéia melhor da monumentalidade desta construção.

Em 1445, o rei Juan II de Castilha deu o senhorio da vila ao primeiro Marquês de Santillana e seus sucessores. Iñigo Lopez de Mendoza, o primeiro marquês, era pai de um dos maiores escritores em língua castelhana, Garci Lasso de la Vega (mais conhecido como Garcilaso de la Vega). Em 1475, os reis católicos concedem o título à família do Marquês de Santillana, de Duques do Infantado, continuando eles com a posse de Santillana.

A vila que conhecemos em um simples passeio é justamente o testemunho deste período de desenvolvimento urbano finalizado pelo século XVIII. No século XIX, era uma vila quase fantasma, mas como fica próximo a Comillas, local de veraneio da família real na época, era passagem obrigatória para visitantes tanto da nobreza madrilenha como catalã.

Bisão pintado, mas na Neo-Cueva, cópia perfeita da velha Cova de Altamira que encontra-se fechada ao público.

Bisão pintado, mas na Neo-Cueva, cópia perfeita da velha Cova de Altamira que encontra-se fechada ao público.

Santillana vira tema literário, sendo citada por autores como Benito Pérez de Galdós. Torna-se ainda no século XIX Monumento Histórico-Artístico Nacional, em 1889. Poucos anos antes, um morador local descobre, melhor seria dizer redescobre, uma caverna com desenhos que por muito tempo tiveram sua autenticidade contestada. Um caçador, ao tentar soltar um cachorro que ficou preso em umas pedras, ao perseguir uma presa, descobre a entrada de uma caverna, em 1868. No princípio, ninguém deu crédito, pois a região é rica em cavernas, sendo que esta era apenas mais uma. Marcelino Sanz de Sautuola acompanhado de sua filha de 9 anos, em 1879, visita a localidade. Ele era um erudito em paleontologia, e tinha como objetivo apenas encontrar alguns restos de esqueletos e peças feitas por homens primitivos. No final das contas, acabou por descobrir a Capela Sixtina da Pré-História, um nome que é dado à Cova de Altamira. Por muitos anos sua descoberta foi contestada, já que naquela época não se acreditava que o homem pré-histórico fosse capaz de fazer desenhos tão realísticos. Somente anos depois, com a descoberta de uma caverna com desenhos de igual qualidade na França, é que a descoberta de Sautuola foi reconhecida.

Praia de Santa Justa, a única do município de Santillana del Mar, na localidade de Ubiarco.

Praia de Santa Justa, a única do município de Santillana del Mar, na localidade de Ubiarco.

Como disse no começo, dizem que Santillana é o pueblo das três mentiras. Nem é Santa, nem llana (plana) e nem tem mar. Na verdade, santa pode até não ser, mas há lá o sepulcro que guarda os restos da Santa Juliana, ao menos teoricamente. Plana, de fato, não se pode dizer que seja, digamos que é ondulada, devido a seu relevo montanhoso. Já o mar, bem, ele não está muito distante… mas… não se vê o mar da vila. Para chegar até a única praia do município de Santillana del Mar, é preciso descer uma estradinha quase vertical que leva a uma pequena e aconchegante praia, a praia de Santa Justa, que fica em um pueblo chamado Ubiarco, pertencente ao município de Santillana, a 5 km da vila histórica. Nesta única praia do município podemos encontrar uma capela provavelmente do século XVI, construída encravada na falha de uma rocha, mesmo à direita da praia. Mas o mar está lá, a 5 quilômetros mas está!

Somando o patrimônio arquitetônico da vila de Santillana, com as preciosas pinturas rupestres de Altamira, que fica a 2 km da vila, temos um recanto cheio de encanto (rimei propositadamente), encravado em um dos muitos vales cor de esmeralda da bela Cantábria. E parafraseando Benito Pérez Galdós:

Ninguém poderá dizer: Vi Santillana de passagem. Para vê-la é preciso visitá-la.

Panorâmica da Plaza Mayor de Santillana.

Panorâmica da Plaza Mayor de Santillana.

E quem a conhece sabe perfeitamente o que isto quer dizer.

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Este é um post de um conjunto que farei sobre Santillana. Digamos que acabam de ficar com uma pequena introdução sobre o Pueblo más bello de España.

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Cananéia, um pouco de História.

Vista aérea de Cananéia.

Vista aérea de Cananéia.

Cananéia é um município do estado de São Paulo, localizado a 270 km ao sul da cidade de São Paulo e a 70 km da cidade de Iguape. Na verdade é um arquipélago formado pelas ilhas do Cardoso, Bom Abrigo, da Casca e a própria Ilha de Cananéia, além de uma extensa área continental também pertencer ao município. As principais atividades econômicas são a pesca e o turismo. Nos limites territoriais da cidade encontram-se 6 unidades de conservação ambiental.

Tem em seu centro urbano uma importante área considerada como Patrimônio Histórico pelo CONDEPHAAT, desde 1969. Este patrimônio histórico compreende os diversos casarões restaurados e muitos em ruínas que se encontram próximo à laguna, da qual se tem acesso a Ilha Comprida, a cidade mais próxima.

O núcleo urbano da cidade, que hoje é uma Estância Turística, ocupa a parte oriental da ilha de mesmo nome, encontrando-se cercada por dois canais do oceano onde forma uma baía, a Baía de Cananéia, cuja exuberância chama a atenção de quem visita a cidade – além dos golfinhos que a todo o momento parecem cumprimentar os visitantes com aparições espontâneas na laguna entre Cananéia e Ilha Comprida.

Evidência da existência de um sambaqui sob a densa Mata Atlântica em Cananéia.

Sambaqui sob a densa Mata Atlântica em Cananéia.

Cananéia, a antiga Maratayama (Terra do Mar em tupi), é habitada há pelo menos cerca de 8000 anos segundo recente pesquisa. Podemos encontrar sambaquis (concheiros, em Portugal) espalhados por todo o município. Os povos dos sambaquis eram semi-nômades, vivendo basicamente da pesca, mostrando um certo grau de complexidade na sociedade sambaqui que só seria possível com alguma sedentarização, como demonstram as estruturas e tempo que levaram habitados estes locais. Os homens dos sambaquis provavelmente construíam os montes de conchas para melhorarem suas condições de habitação, já que viviam em zonas alagadas sobre estes sambaquis. Estes amontoados de conchas ao que se sabe até agora, também serviam de local de enterramento e eram uma espécie de depósito de lixo, já que não apenas as conchas provenientes dos mariscos que serviam de alimento eram depositadas no local, mas objetos feitos de ossos e conchas e restos de peças cerâmicas também foram encontrados nestes sítios arqueológicos. Em realidade pouco ou quase nada sabe-se sobre estes habitantes pré-históricos do litoral brasileiro. Sambaqui é palavra de origem tupi e quer dizer monte de conchas.

vista de cananeia

Vista de Cananéia

Por volta de 1000 anos atrás chega o povo que mais tarde seria conhecido como guarani devido a semelhanças entre as línguas dos vários povos que habitavam o litoral sul. Os antigos habitantes provavelmente foram dizimados ou aculturados pelos indígenas guaranis que se fixaram na região, sendo os sambaquis abandonados. Nos próximos 500 anos há a criação de comunidades de língua guarani e, quando chegam os primeiros europeus a população girava em torno de alguns milhares de indígenas no que hoje é Cananéia. Supõe-se que os Carijós, nome pelo qual eram conhecidos estes indígenas, habitavam desde a Juréia (em Iguape, estado de São Paulo) até a lagoa dos Patos, no estado do Rio Grande do Sul. Com a chegada dos europeus foram os primeiros a serem escravizados, sendo totalmente exterminados pela escravidão e doenças. Há uma teoria que estes índios guaranis ganharam o nome de Carijós por serem resultantes da mestiçagem de brancos, negro e indígenas, sendo o significado da palavra Carijó “arrancado do branco” (cari é homem branco em tupi). Náufragos que chegaram próximo à ilha de Santa Catarina (atual Florianópolis, estado de Santa Catarina), o português Henriques Montes, o castelhano Melchor Ramirez e o negro Francisco Pacheco, ao misturarem-se com as índias e passarem a viver dentro da cultura indígena, originaram os Carijós. Se é verdade ou não é questão a ser estudada ainda, porém eram diferenciados dos demais grupos guaranis por terem a pele mais clara.

A chegada do primeiro europeu ao que viria a ser Cananéia é um tanto obscura, havendo certa controvérsia sobre este tema. Oficialmente, a primeira expedição a aportar por estas terras chegou em 24 de janeiro de 1502, comandada por Gaspar de Lemos – acompanhado pelo cartógrafo Américo Vespúcio (o mesmo que seria posteriormente homenageado com a denominação de América ao “novo continente”). Foram dados então nomes às baias, enseadas, ilhas, e Cananéia foi batizada de Barra do Rio Cananor. Supõe-se que é nesta expedição que chega à localidade um homem que passaria a ser conhecido como Bacharel de Cananéia.

Ilha do Cardoso, Cananéia.

Ilha do Cardoso

O Bacharel, Mestre Cosme Fernandes, degredado de Portugal pelo rei D. Manuel, foi enviado a “25º de ladeza da costa sul do grande mar oceano”, como consta no Livro dos Degredos, na Torre do Tombo, em Lisboa. Pelo que afirmam alguns estudiosos, esta seria a localização da Ilha do Cardoso, mesmo ao lado da Ilha de Cananéia. O Mestre Cosme Fernandes fora degredado por questões político-religiosas, era um português judeu de grande cultura, hábil no uso das palavras e praticamente mais nada sabe-se sobre ele, antes de sua presença em Cananéia.

Porém nem todos os estudiosos põem-se de acordo. Alguns crêem que o Bacharel de Cananéia era de origem castelhana e talvez não fosse Cosme Fernandes, apesar de este ser o candidato mais provável, pois é o único que se conheça referências de ter sido deixado nesta zona. Há quem conteste que o Bacharel foi o degredado deixado na expedição de Gaspar de Lemos pois, é bem provável que, esta zona tenha recebido visitas em viagens pré-cabralinas, pelo fato de a região ser, na época, considerada o limite sul das terras portuguesas no Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494.

Marco (ou padrão) assinalando os limites das terras portuguesas segundo o Tratado de Tordesilhas.

Marco (ou padrão) assinalando os limites das terras portuguesas pelo Tratado de Tordesilhas.

Neste ponto foi fixado o limite do Tratado de Tordesilhas, na ilha do Bom Abrigo, a ilha mais exterior deste conjunto de ilhas – nem todas visíveis do oceano. Em outras palavras, esta região era o fim dos domínios portugueses e tudo o que se encontrava a sul eram terras espanholas. Havia um marco de pedra – padrão – posto na Ilha do Cardoso, que hoje encontra-se no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro no Rio de Janeiro, existindo no local uma réplica. Este marco ganhou o nome de Itacoatiara (pedra com desenhos em tupi) dos indígenas, e posteriormente, acabou por tornar-se o nome de uma das praias da ilha, onde ficou por muito tempo, e que hoje é conhecida como Itacuruçá (pedra com cruz em tupi). Colocar um padrão era uma forma de assinalar o limite dos domínios portugueses, sendo este marco popularmente chamado de Marco do Tratado de Tordesilhas. Porém mais uma vez encontramos controvérsias sobre a História de Cananéia, não havendo um consenso de quando de fato foi posto este marco, sendo a versão mais difundida a de que teria sido aí posto em 1502.

Ilha do Bom Abrigo, Cananéia.

Ilha do Bom Abrigo

Anos depois, em 1531 é enviada uma outra expedição que aporta próximo a Cananéia no dia 12 de agosto. Martim Afonso de Sousa atraca na Ilha do Bom Abrigo, encontrando povoados formados de índios, brancos e mestiços nas redondezas. Em um deles, o de Maratayama – ou vila dos tupis, como também era chamado -, viviam 6 europeus, entre eles o Bacharel de Cananéia, 200 mestiços e mais de 1500 indígenas, segundo consta no diário de navegação da armada de Pêro Lopes de Souza, irmão de Martim Afonso. Além do Bacharel consta a presença de Francisco de Chavez, do qual também não se sabe quase nada além do nome e de ter estado em terras incas, sendo náufrago da expedição de Aleixo Garcia, e genro do Bacharel. Estes 6 europeus ou eram degredados, corsários ou náufragos que por ali aportaram, testemunhos de um certo fluxo de naus pela região, anterior ao descobrimento oficial do Brasil.

Igreja-forte de São João Batista, Cananéia.

"Igreja-forte" de São João Batista

O povoado de Maratayama não ficava no mesmo lugar da atual cidade de Cananéia. Ficava na ilha próxima chamada de Ilha Comprida (que hoje é um município independente). Há uma certa controvérsia em qual seria a real localização da Cananéia de Martim Afonso, acreditando-se que talvez fosse a Ilha do Cardoso ou a do Bom Abrigo, mais visíveis do oceano que a própria ilha de Cananéia que só muito tempo depois, foi possível perceber que é uma ilha.

Pela proximidade aos limites territoriais portugueses, Cananéia era uma zona de conflito. Por vezes sua posse era contestada pelos castelhanos, já que a localização exata da linha divisória do Tratado de Tordesilhas era incerta. Cada cartógrafo a localizava em um ponto diferente. Em outras ocasiões a povoação era ameaçada por ataques dos nativos que não viviam nas povoações locais, outras vezes por piratas franceses ou holandeses.

Janela da igreja.

Janela-seteira da igreja-forte.

Em 1577 foi construída uma “igreja-forte”, próximo à laguna, de onde se podia ver a chegada de naus que adentravam pela baía, através do canal que dá acesso à ilha. Esta igreja (de São João Batista) não tem janelas nas laterais e sim uma espécie de seteiras. São largas por dentro e estreitas por fora, dando um excelente campo de visão aos que estão dentro, e estreitas o suficiente para protegê-los. Além da igreja-forte havia uma espécie de abrigo natural, mesmo junto à laguna, que era usada para que crianças e mulheres se abrigassem enquanto os homens encontravam-se na igreja travando combate com os invasores. É na época da construção da igreja de São João Batista que o povoado de Maratayama é transferido da atual Ilha Comprida para a atual Ilha de Cananéia.

Praça ao lado da Igreja de São João Batista, com canhões do século XVI.

Praça Martim Afonso de Sousa, ao lado da Igreja de São João Batista, com canhões castelhanos dos tempos de Carlos I de Espanha (Carlos V), século XVI.

O local onde encontra-se esta igreja foi o primeiro povoado branco que existiu oficialmente na cidade de Cananéia. Era chamado de São João Batista de Cananéia, sendo hoje o bairro de São João Batista. Foi desta localidade que partiu a primeira expedição (entrada) em busca de ouro e pedras preciosas do Brasil, que por um período foram encontradas em abundância no Vale do Ribeira, cujo principal rio é chamado de Ribeira de Iguape. Foi o próprio Martim Afonso de Sousa que enviou a expedição, no dia 1 de setembro de 1531, formada por 80 homens comandados por Pero Lobo, e com a participação de Francisco de Chavez, para um reconhecimento do interior na busca de riquezas. No entanto, nem Pero Lobo nem nenhum dos seus comandados voltou para contar a Martim Afonso o que viram. Foram todos mortos por povos que viviam no interior – supõe-se que por Carijós -, próximo ao Rio Iguaçú (atual estado do Paraná), como soube-se cerca de 2 anos depois. Paira a dúvida se teriam sido mortos a mando do Bacharel, visto que as relações amistosas entre ele e Martim Afonso de Sousa não duraram por muito tempo.

Morro de São João

Morro de São João

Mas foi possível aos portugueses travarem relações com os locais, sendo desenvolvida na região uma produção de transportes marítimos e reparos para as naus que dirigiam-se ao sul. Aliado a isto, Cananéia é naturalmente dotada de um excelente porto, mais um motivo que levou ao desenvolvimento da construção naval entre os séculos XVII e XVIII.

Entre os séculos XVI e XVII muitos locais foram garimpar nas regiões interiores, com a descoberta de ouro da Serra de Paranapiacaba (atual estado de São Paulo), chegando mesmo ao atual estado de Minas Gerais. Houve então um período áureo na região do vale do Ribeira, com um aumento de escravos africanos (que superavam os demais habitantes locais). Deste período restam inúmeras comunidades quilombolas espalhadas pelo Vale do Ribeira, como o Quilombo de Mandira que fica na atual Cananéia.

Barcos na laguna em frente a Cananéia.

Barcos na laguna em frente a Cananéia.

Em 1782 Cananéia contava com 16 estaleiros, concentrados entre o Morro de São João e a desembocadura da laguna, e uma frota de mais de 200 embarcações. Por um bom tempo foi o mais importante porto da capitania de São Vicente (atual estado de São Paulo), escoando produtos agrícolas e minerais. No século XVIII o comércio direto com o Rio de Janeiro foi proibido, levando a um período de estagnação na região, visto que o comércio sendo liberado apenas para São Vicente era menos lucrativo que o feito diretamente com o Rio.

Ainda em princípios do século XVII consta que Cananéia tinha uma razoável produção pesqueira que até hoje é uma das principais atividades econômicas da cidade. Na época esta produção pesqueira foi útil para suprir as necessidades dos portugueses que lutavam contra os espanhóis na Bacia do Rio da Prata, atual fronteira entre Argentina e Uruguai, e parte do território do atual Paraguai. A caça às baleias foi uma das importantes atividades ligada à pesca na região. Na ilha do Bom Abrigo foi instalada uma armação, onde obtinha-se produtos resultantes do beneficiamento de baleias francas. Ainda há indícios da existência desta armação que podem ser visitados pelos turistas. O óleo resultante era largamente utilizado, sendo empregado na calafetagem das embarcações, como liga para o reboco de construções e combustível para iluminação de casas e ruas. Em alguns casarões arruinados que se encontram pela cidade é possível ver a argamassa utilizada em sua construção, que contava também com o emprego das conchas dos sambaquis existentes. Também existiam inúmeras casas de farinha (locais devidamente equipados para produção de farinha de mandioca), outro produto essencial para os navegantes portugueses de então.

Curiosa rua de Cananéia próxima à laguna.

Curiosa rua de Cananéia próxima à laguna.

No século XIX a construção naval perde espaço, sendo que as embarcações produzidas acabam por destinarem-se somente à pesca. Nesta época ganha terreno a exploração das madeiras para exportação, abrindo vastas áreas de terra para a agricultura. Na segunda metade do século XIX chegam os primeiros colonos à região: 9 famílias suíças que formaram a colônia Santa Maria. Estes suíços foram posteriormente seguidos por italianos, alemães, eslovenos e japoneses, além de portugueses e espanhóis, que foram chegando desde o final do século XIX até meados do século XX, espalhando-se por todo o Vale do Ribeira. A vinda destes imigrantes foi necessária em um período em que havia a expansão da produção de arroz, de chá e implantação de bananais no vale. Com a expansão da cultura cafeeira, a região viu-se abandonada de novos investimentos, entrando em mais um período de estagnação econômica. A diversidade étnica do Vale do Ribeira, e consequentemente da cidade de Cananéia, conta também com a presença dos caiçaras (mestiços dos primeiros europeus com indígenas), além de grupos indígenas guaranis (Mbyá e Ñandeva) que se estabelecem periodicamente na região.

Tucuxi (golfinho cinza) nadando nas águas de Cananéia.

Tucuxi (golfinho cinza) nadando nas águas de Cananéia, cena muito corriqueira.

A situação de estagnação econômica perdura até os anos 60 do século XX, quando enfim a região começa a ser encarada com outros olhos. Há o tombamento do centro antigo da cidade pelo CONDEPHAAT em 1969. Nesta mesma década é inaugurado o primeiro hotel da cidade. Cananéia começa a ganhar uma outra atividade econômica além da pesca e porto de escoamento de produtos: torna-se uma estância turística, graças a sua peculiar e rica História e a natureza quase totalmente preservada.

No ano de 1962 foi criado o Parque Estadual da Ilha do Cardoso, que tem 15.100 hectares, onde a Mata Atlântica está praticamente intacta. No ano de 1969, é criado o Parque Estadual de Jacupiranga, que em parte, ocupa área do município de Cananéia. Neste parque há uma concentração de cavernas e boa área de vegetação muito bem preservadas da ação humana, sendo a maior reserva do Vale do Ribeira.

Armadilha para pesca artesanal, muito comum em Cananéia.

Armadilha para pesca artesanal, muito comum em Cananéia.

A área ocupada por Cananéia também faz parte do Complexo Estuarino Lagunar, que estende-se entre os municípios de Iguape, Ilha Comprida, Cananéia, no estado de São Paulo, e Paranaguá no estado do Paraná. Este complexo em 1999 recebeu o título de Patrimônio Natural da Humanidade, da UNESCO. Contém a maior área de mangue pouco degradada no país. Cerca de 20% de toda a Mata Atlântica preservada no Brasil, encontra-se no Vale do Ribeira, por esta razão não é preciso dizer mais nada para explicar a importância desta região no que diz respeito ao Patrimônio Natural aí existente.

Isto gerou novos problemas econômicos para a cidade, com proibição de certas práticas de subsistência e pesqueiras, visando a proteção do meio ambiente. A pesca em alto mar é responsável por boa parte da produção pesqueira, existindo uma indústria de considerável porte na cidade. A produção pesqueira no litoral do Vale do Ribeira representa cerca de 30% da produção do estado de São Paulo. A implementação dos projetos de conservação ambiental poderiam ser uma saída para a criação de empregos na região, porém caminham a passos muito lentos. Projetos visando o aproveitamento dos recursos naturais de forma sustentável são desenvolvidos, como criação de ostras e outros crustáceos em cativeiro. Formas não depredatórias de pesca também são estimuladas, fora o eco-turismo que tem neste local um verdadeiro paraíso. A riqueza natural, humana e histórica da região do Vale do Ribeira torna-o inigualável tanto para estudos como para turismo. E neste vale, junto ao litoral, encontra-se Cananéia.

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Para saber mais sobre este Paraíso Natural chamado Cananéia e proximidades, veja também:

Cananet: Portal sobre a cidade de Cananéia.

Cananéia e Paranaguá: História comum na era das Grandes Navegações.

Cílios do Ribeira: Uma campanha de recuperação das Matas Ciliares do Vale do Ribeira.

IpeC – Instituto de Pesquisas Cananéia.

NUPAUB -USP – Centro de Estudos Caiçaras.

Prefeitura Municipal da Estância de Cananéia

S.O.S. Mata Atlântica