Os diferentes estilos dos Hórreos

Hoje terminamos a saga dos hórreos que começamos há dois domingos. Os outros posts foram Descobrindo os hórreos e As possíveis origens dos hórreos. No post de hoje falamos brevemente dos diferentes estilos de hórreos que se pode encontrar pela Península Ibérica, considerando apenas os principais estilos.

Há diferentes tipos de hórreos, uns tão diferentes dos outros que podem até parecer que não são a mesma coisa. Existem dois grupos principais nos quais os hórreos podem ser divididos. Vamos a eles:

Hórreos em estilo Galaico-Português:

Hórreo galego no Parque Santa Margarita, La Coruña.

Hórreo galego no Parque Santa Margarita, La Coruña.

Estes hórreos, que na Espanha são chamados apenas de hórreos galegos, são predominantemente retangulares. Os materiais empregados variam conforme a zona onde se encontram. São bem comuns na Galícia Ocidental e norte de Portugal hórreos feitos totalmente de pedra (granito), desde as colunas até as paredes – inclusive as partes fendadas para ventilação. O telhado pode variar sendo comum os de telha ou pedra (xisto, chamado em Portugal também de lousa). São principalmente utilizados para armazenagem de espigas de milho ou batatas. Estes hórreos podem estar junto às casas de seus proprietários como podem estar em locais onde há um conjunto de hórreos que servem a uma comunidade.

As partes que o constituem são a caixa, onde o produto é armazenado; a porta de acesso; as paredes fendadas, que permitem a ventilação para secagem do produto armazenado, mas estreitas o suficiente para evitar a entrada de insetos; os pilares que o sustentam elevado do solo, que variam de número conforme o comprimento do hórreo; sobre os pilares ficam pedras redondas que servem para evitar que ratos subam até o armazém (estas pedras na Espanha são chamadas de tornaratas); uma espécie de apoio onde se pode encaixar a escada ou rampa que se utilize para ligar a escada à porta; a escada e o telhado.

Há mais detalhes que podem existir em alguns hórreos como o corta-formigas, uma pequena zona onde a água acumula-se e impede a passagem de formigas. Nem todos os hórreos têm enfeites, mas é frequente ver cruzes ou símbolos associados à fertilidade adornando a parte superior das paredes mais estreitas do hórreo.

Mas esta é uma descrição básica do tipo mais comum que se pode encontrar. Na Galícia a quantidade de hórreos é grande, é onde mais existem hórreos, e também é onde há uma maior variedade de estilos (veja indicação de livro sobre o tema no final do post). Veja no vídeo abaixo a grande variedade que pode existir nos hórreos encontrados na Galícia – e por extensão no norte de Portugal.

Hórreos em estilo Asturiano:

Hórreo asturiano

Hórreo asturiano

Os hórreos em estilo asturiano não são exclusivos do Principado de Astúrias, também são encontrados na Cantábria e León. O formato é sempre quadrangular, sendo predominantemente construídos em madeira (castanheira e carvalho).

Suas partes são basicamente as mesmas dos hórreos em estilo galaico-português. Possuem de diferente uma área externa à caixa (área de armazenagem) que também é utilizada para secagem e armazenagem de produtos agrícolas, o corredor, sendo este uma introdução mais recente. Esta área está presente em muitos dos hórreos em estilo asturiano, sendo que os que não a possuem têm colunas transversais em seu lugar para sustentar o telhado que terminaria sobre esta espécie de corredor, formando uma varanda coberta. Assim como os hórreos galaico-portugueses os asturianos possuem aberturas em suas paredes para ventilação, mas estas aberturas estão mais para pequenas janelas do que fendas. Há uma orientação certa para seu posicionamento, normalmente sendo voltados para o leste ou para o sul, pois os ventos e chuvas no meses mais frios são mais intensos vindos do norte e oeste.

Dentro deste estilo também há subdivisões, podendo-se encontrar uma pequena variação de estilos entre os hórreos asturianos, mas isto não significa variação da forma que é sempre quadrada. Podem ser encontradas construções retangulares que se parecem a hórreos asturianos, mas não são. Os hórreos clássicos são sempre sustentados por quatro colunas e quadrados. Se são retangulares e sustentados por mais colunas tornam-se uma outra construção chamada de panera. Os corredores citados como parte componente de muitos hórreos asturianos aparecem em todas as paneras, havendo a afirmação que na verdade era um elemento das paneras que foi transportado para os hórreos. Outra variante que adquiriram com o tempo foi a de serem construídos sobre outras construções, ou terem a parte inferior fechada. Nestes casos podem até ser chamados de hórreos mas não são os clássicos hórreos considerados de interesse cultural e protegidos por lei.

O vídeo que se segue mostra um conjunto de hórreos em estilo asturiano, em Villaviciosa, Astúrias. Não é nenhuma obra de arte cinematográfica mas dá uma idéia excelente das dimensões e formato de um hórreo asturiano. Não esqueçam que esta construção de considerável tamanho é montável e desmontável como se fosse um quebra-cabeças.

Hórreo navarro, no vale de Aezcoa, Navarra.

Hórreo navarro, no vale de Aezcoa, Navarra.

Além dos dois estilos citados existem hórreos em Navarra que se pode considerar como de um estilo à parte. O que acontece é que estes hórreos são muito poucos, existindo apenas cerca de 22 catalogados e todos com uma certa antigüidade. No País Basco também se pode encontrar alguns raros exemplares neste mesmo estilo.

Este hórreos são construídos totalmente em pedra, excetuando algumas vigas de sustentação. Mas como os demais, possui escada separada da construção (móvel ou não), aberturas para ventilação e são elevados do solo, tendo a mesma função dos outros hórreos.

No vídeo a seguir é possível ter uma idéia destes raros hórreos navarros. O vídeo está todo em espanhol, mas ainda que seu espanhol não seja dos melhores assista pelas imagens que são suficientes para se ter uma boa idéia deste tipo de hórreo.

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Martínez Rodríguez, Ignacio – El Hórreo Gallego , Fundación Pedro Barrié de la Maza

El Hórreo Asturiano (em espanhol)

Hórreos y Paneras (em espanhol)

Veja também os dois vídeos a seguir, que são uma reportagem da televisão portuguesa RTP1 sobre hórreos, neste caso canastros, portugueses.

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As possíveis origens dos Hórreos

Semana passada falamos de algo curioso que vimos no caminho para Santiago de Compostela (veja post aqui). Hoje continuamos a falar dos tais Hórreos, entrando um pouco nas suposições sobre suas origens e descrevendo os diferentes estilos que adquiriu nas zonas onde foram construídos e ainda existem.

Não há uma certeza de quando os Hórreos começaram a ser construídos, existindo diversas teorias que tentam explicar como surgiram estas construções que coalham o noroeste da Península Ibérica. Vamos brevemente tratar de algumas destas possibilidades de origens dos Hórreos:

1) Seriam de origem Pré-Histórica:

Hórreo em Somiedo, Astúrias, com telhado de palha e estrutura em madeira.

Hórreo em Somiedo, Astúrias, com telhado de palha e estrutura em madeira.

Seguindo esta suposição, seriam originários de períodos pré-históricos, por a tecnologia de construção neles empregada ser conhecida por civilizações em estágios mais antigos de desenvolvimento. Os hórreos podem ser considerados um tipo de construção em palafitas, que teve início em civilizações pré-históricas. Outra razão para se crer em uma origem pré-histórica dos hórreos é o fato de pela Europa encontrarem-se restos arqueológicos do período Neolítico e da Idade do Ferro, em territórios das atuais França e Alemanha, em sítios de civilizações pré-históricas com economias ligadas à prática da agricultura. Uma das representações de hórreos mais antiga que se conhece foi encontrada no norte da Itália, onde há um conjunto de inscrições atribuídas aos celtas lepônticos. A própria forma de alguns hórreos lembra construções celtas, seja pelas palafitas, seja pela cobertura de palha. Na Península Ibérica, no entanto, não foram encontradas provas materiais em sítios arqueológicos que comprovassem esta origem pré-histórica dos Hórreos. Mas alguns etnólogos a sustentam, ainda mais levando em consideração citações feitas por historiadores e geógrafos romanos da existência de hórreos na península quando da entrada dos romanos. É o caso de Varrão e Plínio o Velho, que descrevem celeiros suspensos e inclusive recomenda-se o uso para a conservação do trigo. Ainda dentro desta teoria da origem pré-histórica dos Hórreos, supõe-se que a construção em si já era feita por povos pré-romanos, mas que passou por aperfeiçoamentos durante a ocupação romana. As colunas de sustentação em pedra seriam uma prova de melhorias feitas através do contato com a cultura romana, que fazia largo uso de pedras em suas construções.

2) Seriam uma aquisição cultural do período do Império Romano:

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Hórreo em estilo românico, no Vale de Valdorba, Navarra. Totalmente construído em pedra, por volta do século X.

Esta teoria é embasada em alguns pontos, principalmente a origem da palavra Hórreo. Hórreo é uma palavra de origem latina, derivada de horreum, significando nada mais nada menos que celeiro. Considerando que os povos conquistados obrigatoriamente adotavam a língua latina, é um pouco frágil esta suposição. A provável designação antiga dada ao Hórreo, invariavelmente se perdeu, devido à aculturação promovida pelos romanos. Este fenômeno é mais do que comum em culturas de povos submetidos.

Porém, os romanos já construíam celeiros elevados sob colunas com a finalidade de conservar alimentos. Não esqueçamos que a representação mais antiga que se conhece de um hórreo foi encontrada no norte da Itália, pertencente a uma cultura anterior à romana. Acrescentemos a isto o fato dos romanos serem especialistas em construções de pedra, por vezes, sem a utilização de argamassa, apenas encaixando as peças como é o caso da técnica de construção dos Hórreos. Outra possível aquisição derivada da ocupação romana seria o uso de telhas na cobertura dos Hórreos, que caso tenham existido anteriormente eram cobertos de palha. Ainda que não sejam de origem romana, é provável que tenham sofrido alguma evolução tecnológica graças à presença dos romanos na Penínsual Ibérica.

3) Seriam uma aquisição cultural do período da presença dos Suevos ou Visigodos no noroeste da Península:

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Kozolec, espécie de celeiro suspenso que pode ser encontrado na Eslovênia.

Esta terceira suposição, que na verdade são duas diferentes, até parece lógica. Vejamos. Segundo estudiosos portugueses os hórreos presentes na Península Ibérica seriam originários da Pomerânia (região entre a atual Alemanha e Polônia), habitada antigamente pelos suevos que, com o decorrer das migrações bárbaras dos séculos V e VI, estabeleceram-se no Noroeste da Península Ibérica.

É justamente no Noroeste da Península Ibérica onde se concentram os hórreos, incluindo toda a Galícia, Astúrias, norte de Portugal (Minho), mas também estão presentes na Cantábria, León, Navarra, chegando a zonas próximas aos Pirineus. Devido à grande concentração de hórreos justamente em uma área ocupada por suevos, se estes não foram os introdutores dos hórreos na Península, de alguma forma, contribuiram com sua manutenção e com a ampliação de seu uso.

Já o defensor da teoria de que os Hórreos teriam sido introduzidos pelos visigodos é um fotógrafo e etnógrafo alemão chamado Fritz Krüger, que visitou Astúrias nos anos 20 do século passado. Segundo ele os hórreos seriam uma evolução de uma espécie de cabaceiro elaborado com varas cruzadas como alguns cestos. Destes cabaceiros arcaicos teria evoluido até chegar aos hórreos atuais. De fato alguns hórreos lembram mesmo cestos, podendo sim se não uma possibilidade sobre as origens dos hórreos, ao menos não deixou de ser uma inspiração para o formato de alguns.

Teorias à parte o certo é que entre os séculos XIV e XV os Hórreos chegaram ao apogeu de desenvolvimento tecnológico, passando apenas por pequenas mudanças ao longo dos séculos seguintes, até os dias atuais. Quanto à concentração de hórreos ser no noroeste peninsular, não significa que não existissem em outros lugares da península em número considerável anteriormente. Temos que levar em conta que o passado preserva-se melhor em zonas onde há um menor desenvolvimento nos períodos seguintes de sua História, ou seja, onde há uma certa estagnação ou mudanças em menor escala. Onde os hórreos foram melhor preservados são em zonas que até hoje têm a agricultura tradicional como uma das formas de produção econômica. Ou seja, o tipo de economia que existiu por longo tempo no noroeste da Espanha e norte de Portugal permitiu a utilização destes hórreos por tempo suficiente para popularizá-los e multiplicá-los. A cultura de subsistência, na qual os alimentos consumidos eram produzidos em uma mesma família que os consumia, ainda hoje pode ser encontrada nestas zonas.

A preguiça bateu! Vou deixar a descrição dos diferentes estilos para semana que vem.

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Fontes:

Antes e Agora: Paisagens Tecnológicas – Jorge Freitas Branco

El Hórreo en Asturias – Esperanza Ibañez de Aldecoa, Ediciones Trea, 2005.

Fórum Gallaecia – Hórreos/Espigueiros na Galécia e Europa (em português e espanhol)

l’horru

Los hórreos del País Vasco – Jose Antonio Alvarez Oses

La Nueva España: Diário Independiente de Astúrias – El pudor gana a la História.

Resumo sobre o Kozolec

Cozido Montanhês

Desde que me entendo por gente sempre ouvi falar deste bendito Cozido Montanhês. É mais uma receita da verdíssima Cantábria. Lá chove muito, no inverno faz mesmo frio, e este cozido é uma boa pedida para dias frios. Sempre o encarei como uma espécie de feijoada de feijão branco, mas não chamem de feijoada por favor. É Cozido, Montanhês. Montanhês é como os naturais de Cantábria eram chamados há muito tempo atrás, pois Cantábria era chamada de La Montaña. Mas caso não queira confundir as montanhas, até pode se atrever a chamá-lo de Cozido Cantábrico, mas não de feijoada!

É altamente calórico, não sendo recomendado para quem está de regime. E quem não tem paciência para esperar mais de 1 hora para que fique pronto nem arrisque.

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COZIDO MONTANHÊS

Ingredientes:

cocidomontanes400 g de feijão branco
300 g de costela defumada
100 g de bacon
100 g de toucinho
100 g de linguiça defumada
100 g de morcela
1 kg de couve (pode variar com repolho ou acelga)
100 g de orelha de porco
1 cebola
1 dente de alho
páprica doce
azeite para refogar
sal à gosto

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Modo de Preparo:

Deixe o feijão de molho um dia antes.

Corte as carnes em pedaços grandes, exceto a morcela que deve ser deixada inteira. Corte a couve em tiras grossas.

Cozinhe o feijão com o toucinho, em fogo baixo. Conforme for cozinhando acrescente mais água se se fizer necessário, deixando até que o caldo engrosse. Na metade do cozimento do feijão, junte a costela e a orelha. À parte, cozinhe a couve em bastante água, também em fogo baixo, junto com o bacon, a morcela e a linguiça.

Em outra panela coloque o azeite e doure a cebola e o alho. Assim que a cebola esteja transparente, tempere com sal e páprica. Despeje esta mistura sobre a couve.

Agora você tem duas opções. Misture tudo na mesma panela e sirva ainda quente. Ou misture a couve com o feijão, separe as carnes e sirva o feijão e a couve em um prato de sopa, acompanhado das carnes em outro prato.

Mas seja qual for a opção que escolha para servir, sirva sempre acompanhado de pão, que não pode faltar em uma refeição tipicamente espanhola.

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A morcela só deve ser cortada depois de cozida, pois caso contrário corre o risco de desmanchar-se durante o cozimento.

Caso não encontre morcela pode substituir por outro embutido ou fazer sem ela.

Não tente fazer este cozido em fogo alto, precisa mesmo ser em fogo baixo, para que o caldo fique com a textura certa. Nada de panela de pressão para cozinhar o feijão!

Detalhe importante: na receita original cantábrica faz-se com couve, porém pode-se encontrar cozidos semelhantes levando acelga ou mesmo repolho, por isto a sugestão deixada acima.

As Bruxas de Ongayo

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Igreja de Santiago Apóstolo, Ongayo.

Hoje falamos de bruxas, as velhas conhecidas das histórias infantis. Mas estas bruxas eram muito viajantes, e pelo visto, velozes. São bruxas desconhecidas mas até hoje têm sua caverna preservada em uma localidade da província de Santander.

As bruxas de Ongayo não possuem mais rostos, nomes ou histórias próprias, já a localidade continua sendo o lugar onde as bruxas viviam em uma caverna. Ongayo é um pueblo que pertence ao município de Suances, conhecido pelas mais belas praias de Cantábria, segundo alguns. A população não chega a 200 habitantes, e conserva um patrimônio histórico de valor, como a igreja de Santiago Apóstolo de estilo românico (foto), duas capelinhas, sendo uma de Nossa Senhora dos Remédios e outra de São Roque. A referência histórica mais antiga que se conhece do município ao qual pertence Ongayo, Suances, é dos tempos medievais. Mas já era habitada em tempos pré-históricos, como revelam os restos encontrados na tal caverna das Bruxas.

Somente no século XIX, quando houve um grande interesse pela espeleologia, movendo muitos indivíduos, acadêmicos e amadores, a catalogar as cavernas existentes por toda a Cantábria, que descobriu-se – digamos que pela ciência – a existência da Cueva de las Brujas. Não houve a princípio grande interesse pela caverna, sendo que ela só volta a receber a atenção de estudiosos em fins do século XX. Somente então, as formações existentes em seu interior, as pinturas rupestres e restos fósseis mereceram estudos. Ainda não há uma definição clara de quando foram feitas as pinturas, sabendo-se apenas que são do Paleolítico Superior. Foram encontrados ossos humanos, peças de cerâmica feitas à mão e peças de silex. Fora estes restos existem vários painéis com pinturas pela caverna. Tem entrada ampla com acesso a uma área de considerável tamanho e descendente, possuindo muitas formações em suas várias galerias.

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Charca de Cernégula

Outro local de encontro destas bruxas de Ongayo era o pueblo de Cernégula, na província de Burgos. Festejavam e banhavam-se em uma lagoa lá existente. A lagoa de Cernégula tem uns 5000 m², com uma pronfundidade máxima de cerca de 5 metros. No inverno encontra-se bem cheia, tendo o nível mais baixo no verão, mas nunca foi vista seca. Também é conhecida como Charca de las Brujas devido às lendas que afirmam ser nela que as bruxas banhavam-se depois de seus bailes. A charca é formada por águas de chuva e do degelo do inverno. No inverno as vezes apresenta uma grossa capa de gelo que permitia às crianças patinarem em sua superfície.

Além desta lagoa, existem outras mais nas redondezas, sendo possivelmente pela abundância de água proporcionada por elas que surgiram 5 pueblos nas proximidades. O único que ainda permanece é Cernégula, sendo os outros meras ruínas quase imperceptíveis. As lendas que povoam a Charca de Cernégula e as redondezas, com suas bruxas, são avisos ancestrais que ainda hoje há quem respeite ao visitá-la. Cuidado ao visitar Cernégula, pois as bruxas de Ongayo podem lá estar em uma de suas festas.

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AS BRUXAS DE ONGAYO

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Pintura de Francisco Goya, intitulada "Aquelarre" (1797-1798).

Dizem que havia bruxas em Cantábria!

Entre gargalhadas, soltavam o gado dos estábulos, enervavam os moradores das casas, costumavam provocar ou piorar incêndios. As grávidas deviam ter muito cuidado, pois ao menor descuido, lançavam-lhe um mau-olhado. Para evitar, deviam colocar nas casas réstias de alho ou ramos de cardos. Dizem quem crê que, durante a noite, percorriam os pueblos de Cantábria e faziam todo tipo de maldades que pudessem.

Estas bruxas voadoras só tinham poder entre os mortais no período de tempo por volta da meia noite, a chamada hora da bruxa. Também julga-se que tinham poder sobre o clima, sendo capazes de provocar grandes chuvas com o sol brilhando no céu. É o chamado sol das bruxas que todo mundo já viu alguma vez na vida.

Nem todas as bruxas eram más. Algumas eram curandeiras e faziam misturas de ervas para entregá-las aos doentes que confiavam nelas. Havia as que viviam nas montanhas, as quais eram respeitadas por seu grande conhecimento. Como julgava-se que fossem parentes do diabo, o povo as consultava com freqüência para beneficiarem-se de suas artes. Outras são feiticeiras, encantadoras ou adivinhas, afinal, há de tudo.

As bruxas de Ongayo todo sábado à noite urinavam nas cinzas das lareiras gritando:

– Sem Deus e Sem a Santa Maria, pela chaminé acima!

Assim, saíam voando em um verdadeiro enxame em suas vassouras, ou transformadas em corujas. Durante séculos, em uma caravana misteriosa, uma tropa de feiticeiras e magas voavam pelos céus da tierruca rumando para lugar certo e conhecido de todos. A sabedoria popular manteve até os dias atuais na memória oral, o conhecimento da existência desta rota proibida e mágica que tinha como inicio Ongayo, e como meta Cernégula, um pueblo de Burgos.

Neste local celebravam suas reuniões e ritos bruxólicos, ao redor de um espinheiro. Estas reuniões não chegavam a ser sabbats. As bruxas cantábricas untavam-se com uma mistura de ervas que lhes provocaria visões, dizem, agradáveis. Junto a estas reuniões, realizavam alegres e agitados bailes, que terminavam com um mergulho nas gélidas águas de uma lagoa local, conhecida como Charca de Cernégula.

Outras eram mais afoitas, e voavam meia Espanha, amanhecendo em Sevilha, aos pés da Torre del Oro.

Diz uma outra lenda local de Cernégula que por um dos pueblos que já não existem mais, passavam homens com seus animais para que bebessem nas águas das lagoas. Mas uma vez, inexplicavelmente, sumiram todos os animais. De boca em boca, correu a história de que foram as bruxas que chegavam de Cantábria que fizeram desaparecer os animais.

Quando retornavam de suas reuniões em Cernégula, formavam uma espécie de conclave, no qual exigia-se que todas as bruxas relatassem as maldades que cometeram durante a semana.

E assim seguiam suas vidas maléficas, celebrando seus sabbats em Ongayo, festejando em Cernégula mergulhando em sua lagoa, ou chegando a Sevilha, sabe-se lá para que maldades.

ongayobrujas“De la cueva de Ongayo
salió una bruja
con la greña caída
y otra brujuca.
Al llegar a Cernégula
¡válgame el Cielo!
un diablo cornudo
bailó con ellas.
Por el Redentor,
por Santa María,
con el rabo ardiendo
¡cómo bailarían…!”

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Fontes:

Cantabria Infinita

Casas de Cantabria

Guia Magica de Cantabria

Merindad de Río Ubierna

Pobladores

Descobrindo os Hórreos

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Hórreos retangulares, formato tradicional dos hórreos galegos, na província de Orense, Galícia.

Em uma pequena viagem que fiz com meus pais, saímos daqui de Lisboa e fomos até o extremo norte de Portugal. Como é meu hábito, fui observando a paisagem até os mínimos detalhes. Quando entramos na Galícia, comecei a ver com muita frequência algo que nem era necessária muita atenção para notar. Já havia visto em outros lugares, mas não em tão grande quantidade como via naquele caminho até Santiago de Compostela – que era para onde íamos. O que eu via que tanto me chamou a atenção é chamado por lá de hórreo, que em português é comumente chamado de canastro. Podem ser chamados de celeiros, mas em opinião muito pessoal creio que este último nome não é muito apropriado, pois desconsidera as características que tornam peculiares essas construções. Pelo caminho que percorri havia hórreos novos ou reformados, velhos ainda utilizados ou abandonados, pequenos e enormes. Mas todos eram de pedra, com umas ripinhas finas nas laterais, uma porta somente acessível a partir de uma escada, e ficavam lá, encravados na paisagem, imponentes, enquanto eu me perguntava, afinal, qual seria a utilidade daquelas “casinhas diferentes”.

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Hórreo estilo asturiano, no pueblo de Soto de Sajambre, León.

O hórreo é uma espécie de dispensa de outros tempos, sendo uma peça fundamental na vida diária das casas rurais de antigamente. Também é conhecido pelos nomes de cabazo, cabaceiro, cabaceira, canastro, piorno, horru, hurriu, granero, espigueiro, canastro, etc (estando nesta lista incluidas palavras em português e espanhol). É um pequeno edifício ou construção elevada sobre pilares, que tem como função servir de depósito de grãos. Grande parte dos hórreos até hoje existentes eram basicamente para o armazenamento de milho, podendo também ser utilizados para o armazenamento, secagem e conservação de produtos como centeio, maçãs, castanhas, batatas, cebolas, queijos, embutidos, presuntos, etc. Serviram inclusive para a instalação de colméias para a produção de mel. Outro uso que foi dado a eles foi o de quarto improvisado, inclusive com a colocação de uma cama em seu interior, mas isto nos de considerável dimensão!

Um imponente hórreo galego.

Um imponente hórreo galego.

São elevados do chão, para evitar o ataque de animais que poderiam alimentar-se dos produtos armazenados. Como nas áreas onde existem os hórreos chove muito no Inverno, era também uma forma de proteger os produtos da umidade característica desta estação, mantendo-os afastados do chão. No vão existente entre as colunas que sustentam o hórreo tradicionalmente encontrou-se diversos usos para este espaço. Eram o espaço para guardar os carros de boi, montar pequenas oficinas de carpintaria ou outras profissões tradicionais, assim como servia para armazenar lenha para o inverno, como galinheiro, ou para guardar quaisquer objetos que não tivessem mais serventia. Mas atualmente podem ser usados como garagem para carros ou tratores, dependendo da altura ou, em alguns casos, foram transformados em pombais.

Hórreo asturiano com milho e favas secando, em Mestas.

Hórreo asturiano com milho e favas secando, no pueblo de Mestas, Astúrias.

Não é considerado propriamente um imóvel por ser móvel, isto mesmo. Os hórreos – ao menos os tradicionais – eram feitos sem a utilização de quaisquer argamassa, sendo suas peças encaixadas como em um quebra-cabeças. Isto possibilitava que fossem removidos com certa facilidade e levados para onde se quisesse.

Os hórreos não existem apenas na Galícia. Ao norte de Portugal também pode-se encontrar em menor quantidade, principalmente no Minho, assim como existem por todo o norte da Espanha, desde Astúrias, passando por Cantábria, León e País Basco. Mas as áreas onde há maior concentração de hórreos são Galícia, Astúrias e ao norte da província de León.

Por muitas zonas da Europa existem ou existiram celeiros elevados sobre colunas parecidos ou quase idênticos aos existentes na Península Ibérica. No resto do mundo também existem exemplares de celeiros ou depósitos elevados, pertencentes às mais diversas culturas, mais ou menos similares aos hórreos. Até os dias atuais, na Escandinávia (Noruega, Suécia) também podem ser encontrados, assim como na Inglaterra, Suíça, Romênia e norte da Itália, entre outros.

Os hórreos mais conhecidos ficam na zona ocidental da Galícia, em Carnota, Lira e Araño. São os maiores da Galícia com 34, 36 e 37 metros de comprimento respectivamente. Há uma certa disputa entre os moradores de Carnota e Lira sobre qual de seus hórreos é de fato o maior, visto que um tem um maior comprimento e o outro uma maior capacidade, levando a uma eterna disputa de qual é o maior realmente.

Hórreo em Cosgaya, Cantábria.

Hórreo em Cosgaya, Cantábria, transformado em suporte para parreira e garagem.

Os hórreos foram uma espécie de tecnologia desenvolvida através de milênios para o armazenamento, secagem e conservação, assim como isolamento e proteção, de grãos oriundos das agriculturas de subsistência das populações do noroeste da Península Ibérica.

O que diferencia os chamados hórreos de outros exemplares similares de diferentes culturas, é o fato de terem sobrevivido em grande número até os dias atuais, assim como as características que adquiriram com o passar do tempo que os transformaram em um edifício com características únicas.

Devido às mudanças que acabam por levar à extinção formas tradicionais de economia, construções como os hórreos acabam por perder sua utilidade. No entanto, como possuem características próprias que revelam a cultura de uma sociedade, são uma forma de conhecermos os povos que habitam o norte e noroeste peninsular e seus antigos modos de vida. Por esta razão, há da parte do governo espanhol, e dos governos regionais, medidas para a preservação dos hórreos. São eles um patrimônio etnográfico que podem ter novas utilidades como meio de auto-conhecimento para os moradores locais ou de conhecimento para os que vêm de fora, servindo assim como um atrativo turístico a mais. Hoje em dia muito raramente se construiria um hórreo para os fins tradicionais para os quais foi construído ao longo de séculos. Mas novos usos foram dados já, como inclusive a construção de residências na forma de hórreo. De fato para a arquitetura é um meio de conhecimento da evolução de uma técnica. Divagações à parte, não se esqueça de, quando visitar o Minho em Portugal, ou a Galícia, Astúrias, Cantábria, León, Navarra e País Basco, prestar atenção a estas construções curiosas e em toda a história que carregam.

Mais sobre o assunto falamos domingo que vem, dando um breve histórico e descrevendo com mais detalhes esta curiosa construção em seus diferentes estilos. Por hoje é só que o post já está grandinho!

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Fontes:

Caminho de Santiago – Hórreos (Celeiros) (em português)

Concello de Friol – Hórreos (em espanhol)

Correr y Escalar – La arquitectura asturiana (em espanhol)

El Diário Montañes – Los hórreos de Cantabria serán parte del Patrimonio Cultural (em espanhol)

Faro de Vigo – La segunda vida de los hórreos (em espanhol)

Hórreos de Galícia – blog somente sobre os hórreos galegos. (em espanhol)

La Voz de Asturias – Alertan del riesgo de desaparición de los hórreos y paneras asturianos (em espanhol)

Vigo en Fotos (fotos de hórreos galegos)

A flor da gruta

hada-aguaHá na Mitologia da Cantábria, Espanha, um ser conhecido como Anjana, nome derivado de Jana que era usado na Idade Média para designar as feiticeiras. Mas na verdade, nada têm de feiticeira uma Anjana. São seres bondosos que protegem as pessoas honradas, aos apaixonados e aos que se perdem nos bosques ou caminhos. São belas mulheres, com longos e finos cabelos, enfeitados com flores e laços de seda. Vestem-se delicadamente, com túnicas de seda branca. Usam sandálias e carregam um cajado com poderes mágicos, com o qual amansam as feras do campo com um simples toque. Também é com este cajado que realizam suas magias e curas milagrosas. Ninguém sabe ao certo a origem das Anjanas, mas dizem alguns que seriam espíritos das árvores que se encarregam de cuidar dos bosques. Alimentam-se de mel, morangos, caldas adocicadas e outros frutos que o bosque lhes proporcionam. Vivem em grutas secretas que dizem ter o piso forrado de ouro e prata, nas quais ficam guardadas riquezas que acumulam para as pessoas necessitadas.

Passam o dia andando pelas trilhas dos bosques, sentando-se para descansarem nas margens das fontes. Os riachos parecem ganhar vida com a passagem das Anjanas. Nas fontes, conversam com as águas, que parecem emergir mais alegres e cristalinas. Também ajudam aos viajantes perdidos, aos pastores, aos animais feridos e às árvores atormentadas pelo vento ou quebradas pelo Ojáncano. Durante a noite passeiam pelos povoados, deixando presentes nas portas das casas daqueles que o fizeram por merecer, graças a suas boas ações. Dizem que as Anjanas reunem-se no início da primavera nos altos pastos dos montes para dançar até o amanhecer, de mãos dadas ao redor de um monte de rosas que, mais tarde, espalham pelos caminhos. Quem encontra uma destas rosas de pétalas vermelhas, verdes e amarelas será feliz até o fim da vida.

Existem diversas lendas, e contos, sobre as Anjanas – e muitas pessoas, até os dias de hoje, juram que viram uma Anjana. Eu vi uma Anjana, rindo-se e dançando pelo campo, enquanto seguia até Altamira, lá na Cantábria. Estava divertindo-se com alegria de criança entre as pequenas flores brancas que cobriam as margens do caminho. Que bela visão eu tive! Fiz-lhe um pedido e ela me atendeu! Ela nunca nega um pedido quando feito com sincera bondade! ;)

Aqui deixamos uma destas muitas lendas, onde um dos personagens principais é uma bela Anjana.

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A FLOR DA GRUTA

Monte Ucieda, Cantábria

Monte Ucieda, Cantábria

Próximo ao desfiladeiro de Santa Lucía, na Cantábria, vivia um rapaz que trabalhava como lenhador chamado Antonio. Ele estava apaixonado por Rosaura, bela jovem de sua aldeia com a qual casaria em breve. Antonio teve que subir ao cume do monte Ucieda para cortar algumas árvores, saindo de casa ao amanhecer, mas chegou ao alto do monte já tarde. Começou a dar machadadas no tronco de uma árvore, porém ouviu uns lamurios que pareciam sair da própria árvore, deixando-o pálido de medo. Horrorizado, parou com o que fazia. Quando recomeçou, voltou a ouvir que ela queixava-se como se fosse uma pessoa. Já ia começar a correr desesperado, quando ouviu uma voz que saía da árvore e dizia:

“Eu sou uma donzela encantada. Dar-te-ei incontáveis riquezas, se for ao remanso do rio e golpear a água com uma vara, até que saia a Anjana. Ela dir-te-á o que deves fazer para desencantar-me.”

O moço correu até o povoado para contar a sua namorada o que havia acontecido. Rosaura aconselhou-o que deveria desencantar a donzela, pois assim poderiam viver ricos e felizes. O lenhador dirigiu-se até o remanso do rio no desfiladeiro de Santa Lucía, e com uma vara golpeou as águas. As águas abriram-se no mesmo instante, emergindo delas uma belíssima Anjana de grande e sonhadores olhos azuis. O rapaz, perturbado diante de tanta beleza, contou-lhe o que havia acontecido no monte, e a Anjana, que estava sentada sobre as águas, depois de escutá-lo, respondeu:

Entra na gruta do Monte Ucieda, busque uma flor muito brilhante e traga-a para mim. Eu lhe direi o que deves fazer com ela para desencantar a donzela.”

soplao

Caverna El Soplao, a cerca de 25 km de Ucieda, Cantábria.

Em quatro pernadas chegou à entrada da gruta, conhecida de todos os aldeões. Todos sabiam de sua grande profundidade, que chega até Bárcena Mayor. Antonio penetrou decidido, buscando a flor brilhante. Na medida em que se distanciava da entrada, aumentava a escuridão, chegando ao ponto de ver-se envolvido pelas trevas e desorientado. Sem saber para onde ir, tateando, seguiu caminhando em busca da flor que não aparecia. Até que sentiu-se rendido pelo cansaço e deixou-se cair ao solo, sem ver a mais pequena luz.

Perdida a esperança de encontrar a flor, decidiu sair e voltou sobre seus próprios passos. Mas encontrou o caminho bifurcado e não sabia qual rumo seguir. Entrou em um deles sem encontrar a saída. Logo deu-se conta de que estava perdido em um complicado labirinto. Enlouquecido, quis gritar e pedir ajuda, mas só lhe respondia o eco de sua voz lastimosa. Novamente buscou com desespero pela flor que, talvez, lhe ajudasse a encontrar a saída. Mas nada brilhava a sua volta. Notou que suas barbas e cabelos cresceram e suas roupas estavam desfeitas. Teve que tirar seus velhos calçados e caminhar descalço, até ferir os pés. Contudo, não sentia nem fome nem sede, e continuava buscando a entrada ou saída da fatídica gruta. Vencido pelo sono dormiu, e sonhou que sua namorada havia se casado com um moço de Ruente que a desejava fazia tempo. Ao acordar sentiu ciúmes e um desejo mais ardente de sair daqueles caminhos subterrâneos, mas sem conseguir. A barba e os cabelos continuavam crescendo e passavam já dos joelhos. Suas forças estavam esgotadas, mas ele continuava buscando a flor.

Finalmente, quando seus cabelos já alcançavam o chão, encontrou-a. Com ela na mão, achou imediatamente a saída. Dirigiu-se à casa de seus pais e chamou, mas quem lhe atendeu era um desconhecido, que ao ouvi-lo dizer que era sua casa pensou que Antonio estava louco, expulsando-o e fechando bem a porta. Foi então à casa de sua namorada e abriu-lhe a porta uma velhinha. Ele achando que fosse sua sogra disse:

“Quero ver a Rosaura, minha noiva. Diga que venha.”

Ucieda de Arriba, Cantábria.

Vista de Ucieda, pueblo pertencente ao município de Ruente, Cantábria.

Mas aquela velhinha era Rosaura que, achando que Antonio não passava de um bêbado, despachou-o de forma pouco educada. Antonio começou a achar que estava enlouquecendo e começou a correr pelas ruas da aldeia, mas caiu no meio de uma ruela. Viu-lhe cair uma velhinha que correu ajudá-lo. Levou-o para casa e deixou-o dormir em seu palheiro. No dia seguinte, foi tratar de Antonio o filho da anciã, cortou-lhe os cabelos e arranjou-lhe umas roupas.

Já mais aliviado, Antonio voltou ao remanso do rio, golpeando as águas até que a Anjana saísse. Entregou-lhe a flor brilhante e disse-lhe a Anjana

“Justo castigo recebeste pelo dano que fizeste àquela moça a quem desonraste.”

E desapareceu a Anjana. Então, lembrou-se com muito pesar que, antes de Rosaura tivera uma namorada chamada Mercedes, a quem havia abandonado depois de desonrá-la. Compreendeu que a Anjana havia lhe castigado evitando, com seu engano, seu casamento com Rosaura. Encheu-se de remorsos, voltou à aldeia e perguntou à velhinha que lhe havia acolhido onde vivia Mercedes, que quando jovem era muito bela. Aquela velhinha era Mercedes! Ele revelou-lhe que era Antonio, e a anciã, cheia de emoção, começou a gritar:

“Carpio, meu filho, vem abraçar seu pai.”

Os três se abraçaram e viveram contentes, protegidos pela Anjana, que o havia castigado a permanecer cinqüenta anos na gruta, apesar de que para ele parecera apenas um mês.

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Fontes:

García de Diego, Vicente – Antología de Leyendas de la Literatura Universal – Editora Labor, Barcelona, 1953.

Llano, Manuel – Mitos y Leyendas de Cantabria – Librería Estudio, Santander, 2001.

Quesada Pasiega

Há uma região autónoma da Espanha chamada Cantábria. Esta região é composta por uma única província, Santander. E Santander é uma esmeralda cortada por altos picos nevados e belos vales verdejantes. E isto não é conto de fadas, é assim mesmo!

Em um destes vales, o Valle del Pas (Pas é o nome de um rio que corta este vale), existem e existiram pessoas que sobreviveram ao frio chuvoso e ao verão chuvoso, levando seu gado de um lado para o outro. Os pasiegos (naturais do Valle del Pas) criaram pratos únicos na gastronomia espanhola, e entre eles está a Quesada Pasiega.

Este doce é a sobremesa mais tradicional de Cantábria, e conta-se que ao juntarem sobras de leite e coalho que começavam a estragar, criaram esta sobremesa deliciosa com aquilo que seria jogado fora. Se é verdade ou não, não faço idéia. Mas o doce tradicional que existe há mais de 100 anos, de fato é delicioso.

Dizem que na versão original, era adoçado com mel. Hoje é com açúcar mesmo. Há versões na qual leva licor (algum qualquer) e versões que não leva licor algum. Há também versões que se afirma que ao invés do queijo fresco, levaria coalho, ou seja, no doce tradicional não vai queijo coisa nenhuma. Resumindo, há variações, e algumas um tanto complicadas. Bem, divagações sobre a receita original vou deixar aos colegas de profissão que estudem por nós. Fico com a versão que encontrei, testei e aprovei.

Aqui em Portugal, já provei várias queijadas, queijadinhas, mas nenhuma tem a consistência e o sabor suave desta quesada. Normalmente vemos as queijadinhas em formas individuais, mas esta é feita em uma única forma, ou assadeira.

Encontrei por aí, uma versão simples e bem prática. Para quem não é tradicionalista, serve e muito bem. Esta receita encontrei na net, em espanhol. Traduzi para o bom e velho português (tradução livre e despretenciosa), visto que nem todo mundo tem obrigação de entender a boa e velha língua de Cervantes.

Mas para quem a domina deixamos o link do Cantabria Joven onde se pode apreciar uma receita diferente e, segundo afirma-se no site, genuína (o mais próximo da receita tradicional).

A receita que deixo não é minha e já não sei onde encontrei (refiz a busca no Yahoo!España mas não tive sucesso). Mas mais fácil, impossível.

Depois de tanta enrolação, lá vai a receita.

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Quesada Pasiega

QUESADA PASIEGA

Ingredientes:

150g de queijo fresco de vaca
4 ovos batidos
2 iogurtes naturais
2 copos (dos de iogurte) de leite de vaca
1 copo (do de iogurte) de açúcar
1 copo (do de iogurte) de farinha de trigo peneirada
1 copo (do de iogurte) de creme de leite
1 pitada de sal
casca de limão ralada
canela para polvilhar

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Modo de Preparo:

Cortar o queijo em pequenos pedaços. Bater os iogurtes, a casca de limão, o açúcar e o queijo, com a varinha mágica (ou no liquidificador), até ficar uma mistura homogênea. Acrescentar os ovos batidos, o creme de leite e o leite. Por último misture a farinha. Coloque em uma assadeira untada e leve ao forno em temperatura média por cerca de 45 minutos, ou até ficar dourada por cima. Desenforme já fria e com cuidado, pois quebra com facilidade. Polvilhe com canela a gosto.

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1) Se ficar muito branquela após 45 minutos de forno, não retire, deixe um pouco mais. Mas atenção nas laterais da forma para não queimar dos lados deixando muito tempo. Dependendo do forno, com menos de 45 minutos já está boa…

2) Há diferentes tamanhos de copos de iogurte? Sem problemas, isto não afeta o resultado final. Uma deliciosa queijada…

3) Devo confessar que na receita que fiz em casa, coloquei 250g de queijo fresco.