O Cavaleiro de Motos


Vista do pueblo de Motos.

Vista do pueblo de Motos.

Motos é um pequeno povoado com pouco mais de duas dezenas de habitantes, em uma zona montanhosa, no sudeste da província de Guadalajara, na Comunidade Autônoma de Castilha La Mancha, praticamente junto à província de Teruel. Está a 1419 m de altitude junto ao monte da Abadía ou del Castillo. Próximo encontra-se o rio Gallo, que por muito tempo funcionou como um limite natural deste pueblo. Motos pertenceu por longo tempo ao Real Senhorio de Molina. O Real Senhorio de Molina foi um senhorio jurisdicional, no período medieval, estabelecido ao redor da vila de Molina de Aragón, dentro da atual província de Guadalajara. Foi fundado no século XII, como um senhorio independente dos reinos cristãos que o cercavam, sendo o fundador e primeiro senhor Manrique de Lara. Era nesta época uma zona de fronteira entre reinos cristãos e as taifas andaluzas.

Em 1129 a taifa de Molina foi conquistada pelos cristãos, sob o comando do Reino de Aragão, mas o repovoamento (ocupação da área conquistada por famílias cristãs) foi empreendido pelo Reino de Castilha. As duas coroas acabaram por disputar a posse destas terras. Manrique de Lara, era conde e senhor de Lara, tendo influência nos dois reinos cristãos. Fez-se mediador em um encontro conhecido como Concórdia de Carrión, em 1137, e justamente aí consegue a posse das terras de Molina mantendo a zona independente dos dois reinos, mas aliada de ambos. Em 1138 nasceu o Senhorio que foi independente das duas coroas durante mais de 150 anos. Com o passar do tempo, os senhores de Molina vão aparentando-se com a nobreza de ambos os reinos cristãos, até que o senhorio passa a estar ligado, ou a uma coroa ou à outra, deixando de ter um senhor independente dos reis. Quando há a união dos reinos, com o casamento dos Reis Católicos, conhece-se na região uma certa tranqüilidade, já que não houve por longo tempo disputas militares entre reinos cristãos. É então que a economia local tem um considerável desenvolvimento, tornando-se a capital do senhorio, Molina de Aragón, uma rica cidade.

Neste contexto de dispustas fronteiriças, surge uma figura de caráter suspeito: o Cavaleiro de Motos. Conhecido como Beltran de Oreja, era natural de Hita, um povoado um pouco distante de Motos, mas também na atual província de Guadalajara. Teve seu auge enquanto cavaleiro indesejado no reinado de Enrique IV de Castilha (1425-1474), que além de nada de concreto fazer para deter o cavaleiro, ainda piorou mais a situação quando tentou impor como senhor de Molina, a um nobre de nome Beltrán de la Cueva, que foi totalmente rejeitado pela população do Senhorio de Molina. O Cavaleiro de Motos, já aposentado de suas façanhas de fora-da-lei, acabou por integrar as forças na luta contra o senhor de Molina rejeitado pelo povo.

Não se sabe ao certo o que é verdade ou mentira sobre o Cavaleiro de Motos, mas ao que consta, existiu de verdade, não sendo apenas mera lenda. O que o torna lendário são suas façanhas, e as incertezas que ainda perduram sobre o que é verdade ou inventado em relação a este cavaleiro medieval fora-da-lei.

____________________________________________________________________________________________

O CAVALEIRO DE MOTOS

Local onde provavelmente, lá no alto, existiu o castelo do Cavaleiro de Motos (foto de Alustante)

Local onde provavelmente, lá no alto, existiu o castelo do Cavaleiro de Motos (foto Alustante)

No século XV houve em Motos um castelo. Este castelo só existiu porque um dia Motos teve um cavaleiro. Este cavaleiro era mais bandido que cavaleiro. Chamava-se Beltran de Oreja e era de Hita. Uma certa vez, teve atritos com um Procurador do Reino de Castilha, nas Cortes celebradas em Madri por Enrique IV. Esta desavença acabou por culminar com o tal cavaleiro dando uma violenta bofetada no procurador. Por causa desta briga desapareceu, não se sabe se por ter sido desterrado pelo rei ou por crer que poderia ser executado, fugindo e escondendo-se por um bom tempo, até que um dia voltou a Hita.

Mas ao que parece não acreditava que estaria seguro em Hita. Escreveu para o rei de Aragão oferecendo-lhe seus serviços. O rei de Aragão aceitaria seus serviços, desde que o rei de Castilha desse seu concentimento. Nem fora contratado nem dispensado dos serviços para os quais se candidatou. Ainda assim, achou prudente aproximar-se mais ao reino de Aragão por uma questão de segurança, coisa que fez por volta de 1458, rumando para o Senhorio de Molina.

Foi então que chegou a Motos, acompanhado de sua família, fazendo muita ostentação, apesar de estar praticamente falido. Outros no entanto, dizem que sua chegada foi bem mais modesta, trazendo não a família, mas seu cavalo e alguns poucos homens que o acompanhavam e serviam.

Trocou de nome para Alvaro de Hita e solicitou uma vaga de cavaleiro, que era o ofício de pobres fidalgos na defesa do gado e das fronteiras de um senhorio, além de participação em possíveis guerras. A cada 100 cabeças de gado colocadas sob sua proteção, recebia uma gratificação. Conseguiu a vaga de cavaleiro e com este ofício reunir um bom dinheiro. Mas a maior fortuna que alcançou com este ofício foi conhecer palmo a palmo todas as terras da redondeza, seus esconderijos, possíveis rotas de fuga, e tudo o mais que lhe permitiriam exercer um novo ofício. Preparou-se muito bem e tornou-se um cavaleiro brigante, um refinado sinônimo de ladrão.

Foi então que construiu em Motos uma casa fortificada, ou pequeno castelo. Aproveitando-se da confusão que reinava, do desgoverno e indisciplina social nos tempos do reinado de Enrique IV, o Impotente, começou a fazer suas andanças, roubando aqui e ali. Motos era zona de fronteira entre os reinos de Castilha e Aragão, e para piorar a situação – e facilitar a vida do Cavaleiro de Motos – era também um nó fronteiriço entre jurisdições eclesiásticas e civis. Existiam muitos senhores dividindo o poder, e assim, diminuindo-o na hora de tomar medidas drásticas contra o temível cavaleiro. Os locais nada podiam fazer, as autoridades também nada faziam de concreto, e o Cavaleiro de Motos conseguiu reunir um considerável grupo de homens, soldados desertores e facínoras. Comandava-os com mão de ferro mantendo-os sob seu controle e exigindo o melhor de cada um.

Graças a muitas façanhas malignas em seu ofício de nobre ladrão, sua fortuna foi aumentando mais e mais, e dizem que com esta fortuna construiu – outros dizem que ocupou – um castelo dentro de Aragão, próximo a Ródenas, atual província de Teruel, chamado de San Ginés. Segundo algumas versões é nesta época que traz sua família de Hita, mulher e irmãos para viver neste castelo.

No senhorio de Molina foram edificados vários fortes para defenderem-se deste temível cavaleiro. O desespero era tal que conseguiram erguer uma fortificação em apenas 80 dias, sem janela alguma, na localidade de Orea. Mas nem todos o temiam, sendo que entre os populares angariou muitos admiradores. Estes admiradores ocupavam-se em espalhar aos quatro ventos suas façanhas, às vezes aumentando o feito do herói bandido. Além de vítimas nas redondezas também estabeleceu amizades com senhores locais, conseguindo a tranqüilidade necessária para viver recolhido por uns tempos em suas terras. Já rico, o Cavaleiro de Motos deixou de praticar seus ataques crimonosos, tornando-se um homem respeitável ao prestar seus serviços de experimentado cavaleiro às famílias nobres da região.

Em certo momento, o rei Enrique IV de Castilha resolveu que o Real Senhorio de Molina seria dado a um nobre chamado Don Beltrán de la Cueva. Muitos locais do senhorio não desejavam tal nobre ocupando esta posição. Havia outro candidato para o posto, Don Diego Hurtado de Mendoza, senhor de Castilnuevo, do qual o Cavaleiro de Motos tomou partido.

Em meio a toda esta disputa pelo Senhorio de Molina, dizem alguns, mas não há certeza, que o Cavaleiro de Motos caiu em um embuste muitas vezes por ele mesmo utilizado. Don Alvaro de Hita foi atraído a um encontro, foi preso e encarcerado em uma fortaleza de Toledo, no castelo de Almonacid. O que lhe aconteceu depois ninguém sabe. Não se sabe se um dia recuperou sua liberdade, se morreu na prisão ou se foi executado. Há outra versão que diz que o temível cavaleiro teve um final certo. Um dia em seu castelo de San Ginés, teria ficado muito doente, e percebendo a proximidade da morte, exigiu que o levassem a Motos, onde tinha sua casa principal. Ali teria morrido, sendo que em seu enterro foram muitas pessoas importantes da redondeza.

Não sabemos qual a versão verdadeira do fim deste temível cavaleiro. Mas o fim de seu castelo em Motos é mais certo. Ao que se sabe, Fernando II de Aragão em 1479, a pedido dos camponeses prejudicados pelos assaltos do Cavaleiro de Motos, teria ordenado a demolição total do castelo, que foi derrubado com a ajuda dos locais, restando até os dias atuais apenas quase imperceptíveis vestígios.

____________________________________________________________________________________________

Fontes:

Alustante

Asociación Cultural Amigos de Motos

InfoMolina

Leyenda del Caballero de Motos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s