As possíveis origens dos Hórreos


Semana passada falamos de algo curioso que vimos no caminho para Santiago de Compostela (veja post aqui). Hoje continuamos a falar dos tais Hórreos, entrando um pouco nas suposições sobre suas origens e descrevendo os diferentes estilos que adquiriu nas zonas onde foram construídos e ainda existem.

Não há uma certeza de quando os Hórreos começaram a ser construídos, existindo diversas teorias que tentam explicar como surgiram estas construções que coalham o noroeste da Península Ibérica. Vamos brevemente tratar de algumas destas possibilidades de origens dos Hórreos:

1) Seriam de origem Pré-Histórica:

Hórreo em Somiedo, Astúrias, com telhado de palha e estrutura em madeira.

Hórreo em Somiedo, Astúrias, com telhado de palha e estrutura em madeira.

Seguindo esta suposição, seriam originários de períodos pré-históricos, por a tecnologia de construção neles empregada ser conhecida por civilizações em estágios mais antigos de desenvolvimento. Os hórreos podem ser considerados um tipo de construção em palafitas, que teve início em civilizações pré-históricas. Outra razão para se crer em uma origem pré-histórica dos hórreos é o fato de pela Europa encontrarem-se restos arqueológicos do período Neolítico e da Idade do Ferro, em territórios das atuais França e Alemanha, em sítios de civilizações pré-históricas com economias ligadas à prática da agricultura. Uma das representações de hórreos mais antiga que se conhece foi encontrada no norte da Itália, onde há um conjunto de inscrições atribuídas aos celtas lepônticos. A própria forma de alguns hórreos lembra construções celtas, seja pelas palafitas, seja pela cobertura de palha. Na Península Ibérica, no entanto, não foram encontradas provas materiais em sítios arqueológicos que comprovassem esta origem pré-histórica dos Hórreos. Mas alguns etnólogos a sustentam, ainda mais levando em consideração citações feitas por historiadores e geógrafos romanos da existência de hórreos na península quando da entrada dos romanos. É o caso de Varrão e Plínio o Velho, que descrevem celeiros suspensos e inclusive recomenda-se o uso para a conservação do trigo. Ainda dentro desta teoria da origem pré-histórica dos Hórreos, supõe-se que a construção em si já era feita por povos pré-romanos, mas que passou por aperfeiçoamentos durante a ocupação romana. As colunas de sustentação em pedra seriam uma prova de melhorias feitas através do contato com a cultura romana, que fazia largo uso de pedras em suas construções.

2) Seriam uma aquisição cultural do período do Império Romano:

horreo08

Hórreo em estilo românico, no Vale de Valdorba, Navarra. Totalmente construído em pedra, por volta do século X.

Esta teoria é embasada em alguns pontos, principalmente a origem da palavra Hórreo. Hórreo é uma palavra de origem latina, derivada de horreum, significando nada mais nada menos que celeiro. Considerando que os povos conquistados obrigatoriamente adotavam a língua latina, é um pouco frágil esta suposição. A provável designação antiga dada ao Hórreo, invariavelmente se perdeu, devido à aculturação promovida pelos romanos. Este fenômeno é mais do que comum em culturas de povos submetidos.

Porém, os romanos já construíam celeiros elevados sob colunas com a finalidade de conservar alimentos. Não esqueçamos que a representação mais antiga que se conhece de um hórreo foi encontrada no norte da Itália, pertencente a uma cultura anterior à romana. Acrescentemos a isto o fato dos romanos serem especialistas em construções de pedra, por vezes, sem a utilização de argamassa, apenas encaixando as peças como é o caso da técnica de construção dos Hórreos. Outra possível aquisição derivada da ocupação romana seria o uso de telhas na cobertura dos Hórreos, que caso tenham existido anteriormente eram cobertos de palha. Ainda que não sejam de origem romana, é provável que tenham sofrido alguma evolução tecnológica graças à presença dos romanos na Penínsual Ibérica.

3) Seriam uma aquisição cultural do período da presença dos Suevos ou Visigodos no noroeste da Península:

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Kozolec, espécie de celeiro suspenso que pode ser encontrado na Eslovênia.

Esta terceira suposição, que na verdade são duas diferentes, até parece lógica. Vejamos. Segundo estudiosos portugueses os hórreos presentes na Península Ibérica seriam originários da Pomerânia (região entre a atual Alemanha e Polônia), habitada antigamente pelos suevos que, com o decorrer das migrações bárbaras dos séculos V e VI, estabeleceram-se no Noroeste da Península Ibérica.

É justamente no Noroeste da Península Ibérica onde se concentram os hórreos, incluindo toda a Galícia, Astúrias, norte de Portugal (Minho), mas também estão presentes na Cantábria, León, Navarra, chegando a zonas próximas aos Pirineus. Devido à grande concentração de hórreos justamente em uma área ocupada por suevos, se estes não foram os introdutores dos hórreos na Península, de alguma forma, contribuiram com sua manutenção e com a ampliação de seu uso.

Já o defensor da teoria de que os Hórreos teriam sido introduzidos pelos visigodos é um fotógrafo e etnógrafo alemão chamado Fritz Krüger, que visitou Astúrias nos anos 20 do século passado. Segundo ele os hórreos seriam uma evolução de uma espécie de cabaceiro elaborado com varas cruzadas como alguns cestos. Destes cabaceiros arcaicos teria evoluido até chegar aos hórreos atuais. De fato alguns hórreos lembram mesmo cestos, podendo sim se não uma possibilidade sobre as origens dos hórreos, ao menos não deixou de ser uma inspiração para o formato de alguns.

Teorias à parte o certo é que entre os séculos XIV e XV os Hórreos chegaram ao apogeu de desenvolvimento tecnológico, passando apenas por pequenas mudanças ao longo dos séculos seguintes, até os dias atuais. Quanto à concentração de hórreos ser no noroeste peninsular, não significa que não existissem em outros lugares da península em número considerável anteriormente. Temos que levar em conta que o passado preserva-se melhor em zonas onde há um menor desenvolvimento nos períodos seguintes de sua História, ou seja, onde há uma certa estagnação ou mudanças em menor escala. Onde os hórreos foram melhor preservados são em zonas que até hoje têm a agricultura tradicional como uma das formas de produção econômica. Ou seja, o tipo de economia que existiu por longo tempo no noroeste da Espanha e norte de Portugal permitiu a utilização destes hórreos por tempo suficiente para popularizá-los e multiplicá-los. A cultura de subsistência, na qual os alimentos consumidos eram produzidos em uma mesma família que os consumia, ainda hoje pode ser encontrada nestas zonas.

A preguiça bateu! Vou deixar a descrição dos diferentes estilos para semana que vem.

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Fontes:

Antes e Agora: Paisagens Tecnológicas – Jorge Freitas Branco

El Hórreo en Asturias – Esperanza Ibañez de Aldecoa, Ediciones Trea, 2005.

Fórum Gallaecia – Hórreos/Espigueiros na Galécia e Europa (em português e espanhol)

l’horru

Los hórreos del País Vasco – Jose Antonio Alvarez Oses

La Nueva España: Diário Independiente de Astúrias – El pudor gana a la História.

Resumo sobre o Kozolec

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2 opiniões sobre “As possíveis origens dos Hórreos

  1. Muito boa sua série sobre hórreos! Quem faz o Caminho de Santiago fica por muito tempo imaginando que raios são essas construções… No devido tempo, vou pedir sua permissão para publicar os seus posts no meu blogue sobre o caminho…

    Abraços,
    Henrique

  2. Olá Henrique!
    Domingo que vem ainda tem mais um!
    Vou falar de forma bem resumida sobre os diferentes tipos de hórreos.
    E quanto a publicar fique à vontade! (desde que dê os créditos claro, rsss).

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