Descobrindo os Hórreos


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Hórreos retangulares, formato tradicional dos hórreos galegos, na província de Orense, Galícia.

Em uma pequena viagem que fiz com meus pais, saímos daqui de Lisboa e fomos até o extremo norte de Portugal. Como é meu hábito, fui observando a paisagem até os mínimos detalhes. Quando entramos na Galícia, comecei a ver com muita frequência algo que nem era necessária muita atenção para notar. Já havia visto em outros lugares, mas não em tão grande quantidade como via naquele caminho até Santiago de Compostela – que era para onde íamos. O que eu via que tanto me chamou a atenção é chamado por lá de hórreo, que em português é comumente chamado de canastro. Podem ser chamados de celeiros, mas em opinião muito pessoal creio que este último nome não é muito apropriado, pois desconsidera as características que tornam peculiares essas construções. Pelo caminho que percorri havia hórreos novos ou reformados, velhos ainda utilizados ou abandonados, pequenos e enormes. Mas todos eram de pedra, com umas ripinhas finas nas laterais, uma porta somente acessível a partir de uma escada, e ficavam lá, encravados na paisagem, imponentes, enquanto eu me perguntava, afinal, qual seria a utilidade daquelas “casinhas diferentes”.

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Hórreo estilo asturiano, no pueblo de Soto de Sajambre, León.

O hórreo é uma espécie de dispensa de outros tempos, sendo uma peça fundamental na vida diária das casas rurais de antigamente. Também é conhecido pelos nomes de cabazo, cabaceiro, cabaceira, canastro, piorno, horru, hurriu, granero, espigueiro, canastro, etc (estando nesta lista incluidas palavras em português e espanhol). É um pequeno edifício ou construção elevada sobre pilares, que tem como função servir de depósito de grãos. Grande parte dos hórreos até hoje existentes eram basicamente para o armazenamento de milho, podendo também ser utilizados para o armazenamento, secagem e conservação de produtos como centeio, maçãs, castanhas, batatas, cebolas, queijos, embutidos, presuntos, etc. Serviram inclusive para a instalação de colméias para a produção de mel. Outro uso que foi dado a eles foi o de quarto improvisado, inclusive com a colocação de uma cama em seu interior, mas isto nos de considerável dimensão!

Um imponente hórreo galego.

Um imponente hórreo galego.

São elevados do chão, para evitar o ataque de animais que poderiam alimentar-se dos produtos armazenados. Como nas áreas onde existem os hórreos chove muito no Inverno, era também uma forma de proteger os produtos da umidade característica desta estação, mantendo-os afastados do chão. No vão existente entre as colunas que sustentam o hórreo tradicionalmente encontrou-se diversos usos para este espaço. Eram o espaço para guardar os carros de boi, montar pequenas oficinas de carpintaria ou outras profissões tradicionais, assim como servia para armazenar lenha para o inverno, como galinheiro, ou para guardar quaisquer objetos que não tivessem mais serventia. Mas atualmente podem ser usados como garagem para carros ou tratores, dependendo da altura ou, em alguns casos, foram transformados em pombais.

Hórreo asturiano com milho e favas secando, em Mestas.

Hórreo asturiano com milho e favas secando, no pueblo de Mestas, Astúrias.

Não é considerado propriamente um imóvel por ser móvel, isto mesmo. Os hórreos – ao menos os tradicionais – eram feitos sem a utilização de quaisquer argamassa, sendo suas peças encaixadas como em um quebra-cabeças. Isto possibilitava que fossem removidos com certa facilidade e levados para onde se quisesse.

Os hórreos não existem apenas na Galícia. Ao norte de Portugal também pode-se encontrar em menor quantidade, principalmente no Minho, assim como existem por todo o norte da Espanha, desde Astúrias, passando por Cantábria, León e País Basco. Mas as áreas onde há maior concentração de hórreos são Galícia, Astúrias e ao norte da província de León.

Por muitas zonas da Europa existem ou existiram celeiros elevados sobre colunas parecidos ou quase idênticos aos existentes na Península Ibérica. No resto do mundo também existem exemplares de celeiros ou depósitos elevados, pertencentes às mais diversas culturas, mais ou menos similares aos hórreos. Até os dias atuais, na Escandinávia (Noruega, Suécia) também podem ser encontrados, assim como na Inglaterra, Suíça, Romênia e norte da Itália, entre outros.

Os hórreos mais conhecidos ficam na zona ocidental da Galícia, em Carnota, Lira e Araño. São os maiores da Galícia com 34, 36 e 37 metros de comprimento respectivamente. Há uma certa disputa entre os moradores de Carnota e Lira sobre qual de seus hórreos é de fato o maior, visto que um tem um maior comprimento e o outro uma maior capacidade, levando a uma eterna disputa de qual é o maior realmente.

Hórreo em Cosgaya, Cantábria.

Hórreo em Cosgaya, Cantábria, transformado em suporte para parreira e garagem.

Os hórreos foram uma espécie de tecnologia desenvolvida através de milênios para o armazenamento, secagem e conservação, assim como isolamento e proteção, de grãos oriundos das agriculturas de subsistência das populações do noroeste da Península Ibérica.

O que diferencia os chamados hórreos de outros exemplares similares de diferentes culturas, é o fato de terem sobrevivido em grande número até os dias atuais, assim como as características que adquiriram com o passar do tempo que os transformaram em um edifício com características únicas.

Devido às mudanças que acabam por levar à extinção formas tradicionais de economia, construções como os hórreos acabam por perder sua utilidade. No entanto, como possuem características próprias que revelam a cultura de uma sociedade, são uma forma de conhecermos os povos que habitam o norte e noroeste peninsular e seus antigos modos de vida. Por esta razão, há da parte do governo espanhol, e dos governos regionais, medidas para a preservação dos hórreos. São eles um patrimônio etnográfico que podem ter novas utilidades como meio de auto-conhecimento para os moradores locais ou de conhecimento para os que vêm de fora, servindo assim como um atrativo turístico a mais. Hoje em dia muito raramente se construiria um hórreo para os fins tradicionais para os quais foi construído ao longo de séculos. Mas novos usos foram dados já, como inclusive a construção de residências na forma de hórreo. De fato para a arquitetura é um meio de conhecimento da evolução de uma técnica. Divagações à parte, não se esqueça de, quando visitar o Minho em Portugal, ou a Galícia, Astúrias, Cantábria, León, Navarra e País Basco, prestar atenção a estas construções curiosas e em toda a história que carregam.

Mais sobre o assunto falamos domingo que vem, dando um breve histórico e descrevendo com mais detalhes esta curiosa construção em seus diferentes estilos. Por hoje é só que o post já está grandinho!

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Fontes:

Caminho de Santiago – Hórreos (Celeiros) (em português)

Concello de Friol – Hórreos (em espanhol)

Correr y Escalar – La arquitectura asturiana (em espanhol)

El Diário Montañes – Los hórreos de Cantabria serán parte del Patrimonio Cultural (em espanhol)

Faro de Vigo – La segunda vida de los hórreos (em espanhol)

Hórreos de Galícia – blog somente sobre os hórreos galegos. (em espanhol)

La Voz de Asturias – Alertan del riesgo de desaparición de los hórreos y paneras asturianos (em espanhol)

Vigo en Fotos (fotos de hórreos galegos)

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