Voltando a falar dos azulejos do século XVII, continuamos no assunto dos azulejos figurativos. Os azulejos chamados figurativos funcionaram como um substituto de baixo custo de pinturas à óleo, cortinas, tapetes e outros adereços decorativos.
Nas igrejas estes azulejos foram utilizados para substituir imagens de santos, por exemplo, existindo painéis com imagens dos santos ou cenas religiosas na decoração das mesmas. Prevalecem os temas religiosos historiados. Isto quer dizer que, um conjunto de azulejos poderia servir para contar uma história, como se fosse uma história em quadrinhos em azulejo. Assim pode-se encontrar uma narrativa da vida de um santo ou de Cristo. Há também representações alegóricas com símbolos que identificam um determinado acontecimento, mistério, mandamento religioso. Em comparação com outros usos figurativos do azulejo, as composições religiosas tendem a ter uma dimensão reduzida.
Mas além da Igreja, a Nobreza da época também fez grande uso dos azulejos figurativos. Com a Restauração da independência portuguesa, em 1640, houve uma necessidade de redecorar rapidamente, e a um custo reduzido, palácios da nobreza portuguesa. Um exemplo deste uso dos azulejos na decoração palaciana é o Palácio dos Marqueses de Fronteira, localizado em Lisboa, considerado o exemplar mais significativo deste período. Após a Restauração, os palácios ganham painéis com a representação de batalhas, caçadas ou cenas do cotidiano. Se antes as pinturas eram copiadas de pintores e ilustradores italianos ou holandeses, passam também a chegar influências vindas da França. Surgem também as Figuras de Convite, que representavam porteiros ou soldados armados, na entrada ou escadarias de um Palácio. Também existem os Atlantes, que eram originalmente figuras esculpidas utilizadas em colunas, dando a idéia ilusória que estariam sustentando a coluna. Na azulejaria portuguesa, estas figuras esculpidas foram transformadas em um motivo decorativo muito utilizado não apenas no século XVII mas no seguinte também.
Exemplo de uma Macacaria, "o casamento da galinha", existente no Palácio Fronteira, Lisboa. Todos os personagens representados, excetuando a noiva, são macacos.
Há toda uma variedade de possibilidades na figuração com o azulejo, sendo reproduzidas cenas do cotidiano, batalhas, personagens ilustres, cenas satíricas. Entre as diversas figurações profanas existem as Macacarias e os Grotescos.
As Macacarias eram cenas onde os personagens centrais na maioria das vezes eram macacos. Eram carregadas de irreverência e ironia, criando cenas satíricas.
Os Grotescos eram basicamente cenas engraçadas, fantásticas, sem muito sentido, mas com uma imagética realista. Baseados em motivos profanos de origem romana recuperados por pintores renascentistas, os Grotescos também eram utilizados na decoração de igrejas, onde o tema retratado era relacionado à religião, tornando-os uma mistura entre sagrado e profano, sendo do agrado da grande maioria das pessoas. Os Grotescos tiveram uma mais larga presença na azulejaria do que em outras formas de representação.
Sem considerar o elemento figurado como um todo mas detalhes, ou motivos, temos um motivo decorativo muito recorrente no século XVII, o albarrada, ou simplesmente cesto de flores. Este motivo consiste em um ramo de flores numa jarra, cesto, vaso, taça ou outro tipo de suporte, com elementos figurativos ladeando este tema central. Exemplos são o uso de animais como golfinhos, pássaros, animais de caça, ou pessoas e crianças, assim como elementos vegetalistas.
Uma outra fonte de inspiração para os azulejistas deste século eram os tecidos exóticos do Oriente, provenientes principalmente da Índia, onde Portugal tinha possessões. As estampas dos tecidos foram ocidentalizadas, cristianizadas e transformadas em motivos para embelezar azulejos usados em frontais de altares, por exemplo. Tornam-se “tecidos” cerâmicos, ao substituirem estes em certos locais de uma construção, onde anteriormente poderia empregar-se uma toalha ou cortina na decoração. Há toda uma representação de motivos e animais e flora do oriente, de forma ocidentalizada. Ainda que vindos do Oriente, os motivos representados ganhavam um significado ocidental e cristão. Um exemplo é a representação de romãs, que na cultura oriental está relacionada à fertilidade, mas nas igrejas católicas era associada com a Ressurreição ou da Esperança.
Um dos destaques da utilização da azulejaria na substituição de tecidos são os Frontais de Altar. Em sua grande maioria são representados como se fossem um pano único, podendo haver variações, como os frontais tripartidos. Nestes últimos, a parte central possui uma cartela com um emblema religioso, no mais, além da profusão de figuras, havia a reprodução inclusive de franjas, para dar mesmo a idéia de que era uma toalha.
Frontal de Altar da segunda metade do século XVII, localizado na Igreja de Santa Tereza, em Lisboa. Com uma cartela central e repleto de motivos da fauna e flora oriental.
Até cerca de 1675 o azulejo é largamente utilizado na decoração de igrejas, conventos e palácios. Mas ainda há neste período uma produção artesanal, com mão de obra não qualificada. O fato da azulejaria ser produção por mão de obra não qualificada é significativo, pois há neste período uma releitura de todas as fontes de inspiração, uma espécie de livre interpretação. Há uma mistura de diferentes estilos, como o maneirista e o barroco, sem uma separação rígida. Isto torna a azulejaria deste período uma espécie de arte com identidade própria, não estando atrelada pura e simplesmente a uma tendência artística, mas bebendo como convêm de cada uma, reinventando-as e tornando-as algo novo.
Mas em fins do século XVII ocorrem mudanças significativas no fabrico de azulejos e na qualificação da mão de obra que fazem com que este período seja uma transição para azulejos de maior valor artístico, enquandrando-se às tendências da época mais formalmente.
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