Lenda da Moura Cássima


A lenda de hoje é do sul de Portugal, daquelas lendas que surgem na época da Reconquista. Falamos aqui da localidade chamada Loulé, município do distrito de Faro, no Algarve. No século VIII foi conquistada pelos muçulmanos, que lá permaneceram até a Reconquista no século XIII. O nome de Loulé vem do arabe Al-‘Ulya’, pois a cidade de hoje nasceu de uma almedina (cidade) fortificada que prosperou no período muçulmano, quando pertencia ao reino de Niebla, comandado por Ibne Mafom. Em 1249, D. Afonso III, com o auxílio de D. Paio Peres Correia, conquista o Castelo de Loulé. Quem era o governador de Loulé então? Não sei. Mas algo diz a lenda sobre este homem e suas filhas.

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LENDA DA MOURA CÁSSIMA

Castelo de Loulé

Castelo de Loulé

O governador de Loulé era um homem muito sábio e conhecedor da magia. Quando os cristãos começaram a lutar para conquistar o castelo, percebeu que não seria fácil defender Loulé. Uma noite antes da derrota, secretamente abriu um dos portões da cidade, saindo com as três filhas até uma fonte próxima da vila. Alguns cristãos locais reconheceram o governador e assistiram a cena que se seguiu. Junto à fonte, o governador entoou uma prece misteriosa, enquanto suas filhas apenas soluçavam profundamente tristes. Apesar de triste, o canto do governador parecia muito doce e repleto de carinho.

Estranhamente, viram apenas o governador afastando-se da fonte numa tristeza profunda, e nenhum sinal de suas filhas.

Na noite seguinte abandonou o castelo, com toda a sua gente, indo até Quarteira para embarcar para Tanger. Ia o governador com a esperança de que, brevemente, voltariam com um grande número de reforços para reconquistar Loulé. O tempo passou e o governador não voltava a Loulé. Já estava velho, perdendo as esperanças de um dia voltar a ver suas filhas que ficaram para trás.

Um dia, chegaram a Tanger cristãos que foram feitos prisioneiros pelos mouros e seriam vendidos como escravos. Entre estes cristãos estava um carpinteiro natural de Loulé. Quando o governador tomou conhecimento da presença deste carpinteiro de Loulé, rapidamente comprou-o. Assim que ficou diante de seu proprietário, o carpinteiro reconheceu o antigo governador de Loulé, mas fez de conta que não sabia de quem se tratava.

Passado um tempo, o governador começou a pedir ao carpinteiro notícias de Loulé. O carpinteiro, continuando a fingir que não sabia de quem se tratava, começou a dar notícias da Loulé que deixara para trás, incluindo nas notícias a história que corria sobre as filhas encantadas do governador. Foi assim que o governador acabou por ser direto com o carpinteiro, dizendo que havia sido. Em troca da liberdade deste carpinteiro, teria ele que prestar um grande favor ao governador: voltar ao Algarve e resgatar as filhas encantadas que se encontravam presas em um outro mundo. Mas o carpinteiro via nisto algo impossível, afinal como chegaria ao Algarve?

O governador então chamou-lhe que o acompanhasse até seus aposentos. Quando entraram o carpinteiro viu bem no centro do quarto uma bacia cheia de água. A porta foi fechada por dentro pelo governador, e rapidamente exigiu que o carpinteiro jurasse pelo seu Deus que cumpriria tudo o que lhe mandasse fazer. O carpinteiro falando francamente jurou que sim. O governador entregou-lhe três pães. Em cada pão estava escrito o nome de uma das filhas do amo do carpinteiro. E disse o governador enquanto entregava-lhe os pães.

“Na véspera de São João, à meia-noite, chega-te á fonte onde estão minhas filhas encantadas. Lança um pão ao poço e chama o nome de uma de minhas filhas. Primeiro Zara, depois Lídia e por último Cássima. Após lançar os três pães e chamá-las volta para tua casa.”

Esta parte era até bem simples, mas o carpinteiro ainda se debatia em como chegaria ao Algarve. O governador apontou a bacia no meio do quarto, dizendo ao carpinteiro que se colocasse de costas em um lado da bacia, e desse um salto para trás. Se conseguisse dar um pulo só, estaria no mesmo instante na vila mas, se errasse o salto morreria afogado.

O carpinteiro preparou-se para o salto. Segurando firmemente a caixa onde estavam guardados os três pães, prepara-se e salta! No mesmo instante ve-se transportado pelos ares e encontra-se diante de sua casa em Loulé. Corre até ela e abraça mulher e filho, que não acreditam no seu retorno e saem contando a novidade aos conhecidos. Enquanto mulher e filho espalhavam a boa nova, corre ao sótão de sua casa e esconde a caixa com os três pães, mesmo a tempo de voltar e abraçar os amigos que começavam a chegar para festejar seu retorno. Inventa uma história qualquer sobre como voltou a Loulé, já que se contasse a verdade ninguém acreditaria.

Passam-se os dias, a mulher do carpinteiro estava muito feliz com sua volta, mas notava que algo não estava claro nesta história pois o marido andava muito misterioso. Lembra-se, então, da caixa que ele trazia quando chegou e começa a procurá-la pela casa. Acabou por encontrar a caixa com os três pães, e começa a sondar o marido para saber do que se trata. Como ele não dizia do que se tratava e apenas que ela não lhes tocasse, resolveu a mulher descobrir sozinha o que havia de estranho com aqueles pães. Vai ao sótão com uma faca e abre um dos pães, crendo que descobriria algo dentro dele. Ao invés de descobrir alguma coisa escondida dentro do pão, no mesmo instante em que o corta ao meio, ouve um grito desesperado de mulher e muito sangue começa a sair do pão. Muito assustada volta a guardar o pão partido na caixa junto aos outros e não diz nada a ninguém.

Na véspera de São João, o carpinteiro enfim vai cumprir sua promessa ao velho governador mouro de Loulé. Sem se importar com toda a festa que o rodeava, segue em silêncio e escondido para a fonte, com a caixa na qual estavam guardados os pães. Lança para dentro da fonte o primeiro pão e chama por Zara. Em seguida uma imagem feminina sai de dentro da fonte e esfuma-se no ar. Depois lança o segundo pão e chama por Lídia, e acontece a mesma coisa. Mas no terceiro pão, sem perceber que estava partido, lança-o e chama por Cássima. Ao invés de uma imagem feminina surgir da fonte e esfumar-se no ar, o que acontece é que o carpinteiro ouve um gemido de mulher, rouco, sofrido. Vê que alguém começa a subir até a boca da fonte. Era Cássima, que não conseguia sair. Por causa da curiosidade da mulher do carpinteiro, explica ela, não poderia mais, nunca mais, sair daquela fonte. O carpinteiro que não sabia de nada, nem vira o pão partido, ficou sem entender bem o que aconteceu. Cássima explica-lhe o que tinha feito sua mulher. Cássima diz que, apesar do acontecido, não queria mal à mulher do carpinteiro, e entrega-lhe um cinto todo bordado a ouro para que desse de presente à esposa. O carpinteiro sem saber o que fazer apanha o cinto, e ve a moura sumir para dentro da fonte.

mulherislamicaRumando para casa, ainda embaraçado com o ocorrido, pára pelo caminho e coloca o cinto bordado ao redor de um carvalho para observá-lo melhor. Para sua surpresa, o carvalho, imenso e frondoso, cai num instante ao chão, cortado pelo cinto mágico dado por Cássima. Foi então que o carpinteiro percebeu as reais intenções de Cássima ao dar-lhe o cinto para levar à mulher: queria que lhe acontecesse o mesmo que lhe acontecera, quando a mulher cortara o pão ao meio.

Corre para casa e conta toda a história à mulher, que acaba por lhe confessar o que fizera ao pão. Não conseguem dormir, na espera de que a moura Cássima aparecesse para vingar-se. Mas ela não apareceu, nem nesta noite, nem nunca. Pois ficou presa à fonte para sempre. Dizem que em véspera de São João, por vezes, Cássima consegue chegar até a boca da fonte, e mostrar sua beleza aos corajosos que se aproximam.

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Adaptado de:

Marques, Gentil – Lendas de Portugal: Lendas de Mouras e Mouros – volume 8, 2006.

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2 opiniões sobre “Lenda da Moura Cássima

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