Festa de São João


saojoaoApesar de no Brasil a Festa Junina, em algumas regiões, também ser chamada de Festa de São João ou simplesmente São João, esta festa da qual falamos hoje não é festa brasileira. É mais uma festa portuguesa em comemoração aos Santos Populares deste mês de junho. A origem do próprio nome das festas no Brasil, Festa Junina, tem a ver com o São João, já que, à princípio, eram chamadas de Festas Joaninas. Como diz o nome, é em honra a São João Batista, comemorado na virada de 23 para 24 de junho.

Tudo começou quando há muito tempo atrás a noite de 23 para 24 de junho era o solstício do verão aqui no hemisfério norte. Hoje o solstício é na noite de 21 para 22 de junho, pois houve mudança de calendário. Na época dos romanos eram festas com danças ao redor de uma fogueira, onde eram queimadas ervas aromáticas, e no final, tomava-se banhos matinais nas águas do rio. Mas com o tempo a Igreja Cristã, praticando o já velho conhecido sincretismo religioso, cristianizou a festa pagã, tornando-a a festa do Santo do dia, São João Batista, cujo nascimento é comemorado em 24 de junho. São João até hoje é dos santos mais festejados, não apenas aqui em Portugal, na Espanha os festejos também são grandiosos.

São João Batista, era o primo de Jesus, o mesmo que o batizou no rio Jordão. É o santo protetor dos casados e dos doentes, além de patrono dos monges. O curioso é que o sincretismo religioso introduziu São João em uma festa pagã muito alegre, porém, o santo foi uma pessoa reservada, de vida simples, com nada em comum ao exagero dos festejos que hoje são próprios do seu dia.

A maior de todas as festas feitas a São João é realizada na cidade do Porto, também sendo chamada de São João Tripeiro. Mas em outros lugares de todo Portugal também se comemora o São João. Seja onde for a festa, dura por toda a noite de 23 para 24 de junho, sendo que no dia seguinte é feriado nas cidades onde ele é padroeiro (e no Porto passou a ser feriado pela grandiosidade da festa), o que ajuda que a festa dure o dia seguinte inteiro também. Toda a cidade é inundada por uma multidão que vai para as ruas. Andam as pessoas com alho-poró nas mãos (as flores), com manjericões, com martelinhos de plástico (já falo deles mais adiante), comem sardinha assada (chamada aqui de sardinhada), bebem um caldo verde (sopa típica da terrinha), soltam balões de papel… fora os fogos de artifício que não podem faltar nas festas de São João, à meia noite certinha.

Barraquinhas com as flores e ervas da festa.

Barraquinhas com as flores e ervas da festa.

Falei que as pessoas saem às ruas com flores de alho-poró. Pois é, esta e outras flores e ervas são consagradas ao Santo, e existem vendedores pelas cidades. Também pode-se encontrar à venda manjericão, cravo e erva-cidreira. Ou seja, é uma noite quente e perfumada. As flores de alho-poró servem para dar boa sorte, os manjericões simbolizam o amor, sendo sempre vendidas acompanhadas com trechos de poemas. As flores dos cravos jogadas por moças casadoiras para a rua, se apanhadas por algum rapaz, casam-se logo, não necessariamente com o rapaz que pegue o cravo.

Aqui em Lisboa existem os arraiais populares nos festejos de Santo Antônio. No porto também há os bailaricos de bairro. Neles pode-se dançar, comer, beber, tudo acompanhado do calor de uma fogueira.

As fogueiras são dos tempos da festa pagã antecessora do São João. Eram o símbolo da chegada do verão. Pode-se tentar saltar a fogueira, os mais corajosos. Dizem mesmo que, quem salta a fogueira em noite de São João, no mínimo três vezes (tem sempre que ser em número ímpar de saltos), fica protegido de todos os males o ano inteiro. Acrescente-se a isto que também há a crença de que as cinzas da fogueira de São João curam algumas doenças de pele. Há lugares que, também pode-se tentar caminhar nas brasas da fogueira, descalço. Dizem que se fizer esta caminhada rapidamente nem se sente o calor das brasas. Não arrisco.

Cascata de São João

Cascata São Joanina

Aqui em Lisboa há os Tronos do Santo, nas festas de Santo Antônio, e no Porto há as Cascatas São Joaninas, que nada mais são do que, também, altares com imagens do Santo e seu cordeirinho, com outros símbolos mais que representam a festa. Há uma disputa entre os bairros da cidade do Porto, e algumas freguesias, para ver qual consegue elaborar a Cascata mais bela. Porém, as Cascatas tem uma dimensão bem superior aos Tronos lisboetas, sendo verdadeiras mini-cidades – lembrando um presépio – em honra aos santos populares. Dizendo de outra forma, enquanto o presépio é uma espécie de altar erguido no solstício de inverno (Natal), a cascata é uma espécie de altar erguido no solstício de verão. Nela, além da imagem do São João bem no centro, tem que ter água (símbolo da purificação), coreto, entre outros elementos tradicionais indispensáveis.

Dizem que, no Porto, é tradição que a festa tenha seu ponto alto num banho de mar na foz do rio Douro, que corta a cidade do Porto, desaguando no Atlântico ali mesmo. É que, segundo reza a tradição, os banhos tomados na manhã de São João (antes do sol nascer) seriam bons para algumas doenças. Na época antes da cristianização da festa, os banhos eram uma forma de purificação. Ainda de madrugada pode-se praticar uma outra tradição chamada Orvalhada. É o seguinte, as mulheres que quisessem ter filhos, tinham como santo remédio, rolar no mato orvalhado dos campos. Esta tradição da orvalhada, ainda é dos tempos pagãos, quando acreditava-se que o orvalho era o suor dos deuses da fertilidade. No entanto, não vi em lugar algum, qualquer referência se este rolar no mato deveria ser só ou acompanhada.

Quanto às comidas, além da sardinhada, também há um cabrito assado com batatas, arroz de forno, caldeiradas de peixe (no litoral), bonequinhos com o formato do santo (no Algarve), um bolo chamado Capelas de São João (no Alentejo), fora o chamado Bolo de São João, uma antiga tradição do Porto, que foi esquecida por muitas décadas, mas recentemente resgatada.

Brincadeira dos Martelinhos.

Brincadeira dos Martelinhos.

Entre as várias tradições populares existe uma um pouco, digamos, exótica, estranha, engraçada. As pessoas saem às ruas com martelinhos de plástico, de brinquedo, daqueles que fazem barulho, e tascam o dito nas cabeças todas que encontram pela frente. Até passou por estes dias na televisão, um gajo com um capacete para proteger a cabeça das marteladas animadas que o povo dava nas ruas. Segundo os nativos lá do Porto, não tem nada de agressiva a Brincadeira ou Festa dos Martelinhos, dizem que é amistosa… Estes martelinhos seriam uma versão moderna das flores de alho-poró, sendo estas últimas as que eram usadas, em outros tempos, para bater levemente na cabeça das pessoas para dar sorte. Quer dizer, se uma pessoa vai ao Porto na Festa de São João tem que torcer para levar muitas marteladas na cabeça para ter sorte.

Outra tradição popular, que sinceramente não sei se ainda existe, era fazer previsões nesta noite. Isto mesmo, tudo previa-se na noite de São João, desde casamentos até o sucesso ou não das colheitas. Dizem, por exemplo, que pegava-se uma tábua, colocava-se 12 montinhos de sal (cada um representando um mês do ano), e passava-se esta tábua na fumaça da fogueira. Deixava-se assim durante toda a noite, e depois ainda tomava o orvalho da manhã. Mas ainda antes do nascer do sol, corriam verificar os resultados estampados na tábua. Os montinhos de sal mais úmidos, representariam meses mais chuvosos. Mas independente de ainda existir ou não a tabuazinha com montinhos de sal, a festa continua sim sendo das previsões: sobre o amor, sobre a saúde, sobre a felicidade…

Soltando um balãozinho.

Soltando um balãozinho.

Os nossos velhos conhecidos balões também tem raízes na antiga festa pagã. Os balões eram um símbolo do antigo culto ao Sol. Ainda hoje, aqui em Portugal pelo menos, soltam-se os balões em homenagem ao Santo. Também com relação ao antigo culto do Sol, eram erguidos nas ruas da cidade do Porto, arcos pelas ruas, enfeitados, e terminados em um triângulo, que era o símbolo do Sol nas religiões antigas.

Mas, para terminar, há algo além nesta história toda sobre São João. Dizem que, na verdade, o São João do Porto não é bem o São João Batista mas sim um eremita, natural do Porto, que teria vivido pelo século IX. Este outro São João, teria vivido na Galícia, na localidade chamada Tuy. Ao morrer foi enterrado nesta mesma localidade, onde os moradores consideravam-no um protetor que os livraria das febres. No século XII, a Rainha Mafalda (a Rainha Santa), teria trazido para Portugal algumas relíquias deste São João, e depois a cabeça teria sido levada para uma capela da Santa Cabeça, situada em uma igreja da cidade do Porto. Por um acaso este São João também teria como data de nascimento o dia 24 de junho, sendo as festas dos dois “São Joãos” no mesmo dia. Porém, a falta de dados sobre este possível outro São João me fazem não ter muita confiança na existência deste santo.

Dizem que a grande tradição da Festa de São João no Porto seria por causa deste São João do Porto e não do São João Batista. Mas pelo que andei perguntando por aí, nem os nativos da terra sabem muito bem se isto é verdade ou lenda! Fica aqui a curiosidade, sobre a festa e sobre os “São Joãos”.

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Fontes:

Pessoas com mais de 65 anos da vizinhança.

Camara Municipal do Porto

Galeria de fotos do São João do Porto – Notícias Sapo (quase todas as fotos deste post foram encontradas neste link)

Pititi

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2 opiniões sobre “Festa de São João

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