Marchas Populares


Componentes da Marcha de Marvila, no ano de 2007.

Componentes da Marcha de Marvila, no ano de 2007.

Em Portugal não temos Festa Junina, não aos moldes como as conhecemos no Brasil. Mas existe em Portugal uma festa popular que, provavelmente seria a evolução portuguesa das antigas tradições que também deram origem às festas juninas.

Aqui mês de junho é mês de Marchas Populares. Na cidade de Lisboa, na noite de 12 de junho temos o “desfile” das marchas, uma de cada bairro lisboeta, que fazem uma apresentação mistura de dança, teatro e desfile. Como o homem daqui de casa é do bairro de Marvila, por apelo emocional virei torcedora da Marcha de Marvila também. Na sexta ficamos até umas 2 da madrugada só para ver o desfile da “nossa” favorita. Foram ao todo 23 marchas, uma de cada bairro.

Santo Antônio

Santo Antônio

Mas vamos lá ao histórico das marchas. Assim como festejamos os santos do mês de junho (Santo Antônio, São Pedro e São João) com as Festas Juninas, aqui os santos populares (os mesmos já citados) são festejados com várias celebrações, entre elas as Marchas Populares. Ainda em princípios do século XX esta tradição das marchas, como são conhecidas hoje, não existiam. O que existiam seriam como quermesses, chamados de arraiais populares, espalhados por toda Lisboa, e os vizinhos e conhecidos reunidos, tomando um tintinho (vinho tinto) e comendo sardinha assada com pão, para festejar o santo popular. Também rolam umas farturas (o que no Brasil chamamos de churros). Vale lembrar que o Santo Antônio, aquele mesmo que no Brasil conhecemos como santo casamenteiro e aqui também, é lisboeta. É um santo genuinamente português, e o mais festejado em Lisboa dos santos deste mês de junho, desde os tempos da Idade Média.

Rua da Alfama enfeitada.

Rua da Alfama enfeitada.

Segundo “Seu Sogro”, quando veio viver em Lisboa há mais de quarenta anos, era assim mesmo: os vizinhos se reuniam para festejar, tinha um arraial em um lugar e o povo ia lá se encontrar, beber e comer. Depois seguiam para outro arraial. E tinham as fogueiras para aquecer a noite, que por cá nesta época do ano não é tão fria, mas sempre é bom uma fogueira, e bem, em algum lugar precisava-se assar as sardinhas.

Parte do festejo incluia fazer os tronos de Santo Antônio. Dizendo de forma simples o Trono de Santo Antônio é uma espécie de altar móvel com a imagem do santo, além de outras imagens e enfeites, cravos e um vasinho de manjericão, que é a plantinha associada ao santo, entre outros enfeites que compõem o objeto em si. Há quem diga que a erva do santo na verdade seria outra espécie, um parente do manjericão, que aqui é chamado de manjerico. Mas pessoalmente olhei um e conheço o outro e penso que seja apenas uma questão de semântica. São feitos estes tronos geralmente por crianças, utilizando-se de banquinhos ou caixotes. Mas há também alguns mais elaborados em lugares públicos.

Vasinhos de Manjericão, ou Manjerico.

Vasinhos de Manjericão, ou Manjerico.

Nos vasinhos de manjericão (ou manjerico) são colocados trechos de poesias que os namorados presenteiam uns aos outros. Mas atenção, nada tem a ver com dia dos namorados que por aqui é em 14 de fevereiro. As ruas também eram e são enfeitadas, de forma semelhante aos enfeites que usamos nas nossas Festas Juninas e no Carnaval: balões e bandeirinhas, além dos arcos cheios de flores ou papéis coloridos.

Com o passar do tempo a festa, que tinha seu lado digamos pagão, e o lado litúrgico, passou a ganhar novos contornos. Então, em plena década de 1920, começaram a surgir os primórdios das Marchas Populares. Mas é só em 1932 que passa a existir um concurso oficial das Marchas Populares como acontece até os dias de hoje. Na primeira edição participaram 6 bairros: Alcântara, Alfama, Alto do Pina, Bairro Alto, Campo de Ourique e Madragoa – a nossa querida Marvila ainda não tinha entrado. Foi organizada por Leitão de Barros e Norberto de Araújo. Em 1934 as Marchas Populares de Lisboa passam a ser organizadas pela Câmara Municipal de Lisboa (o equivalente à Prefeitura Municipal). Elas não eram realizadas todos os anos, sendo que entre 1970 e 1980 não houve um ano sequer que tenha tido Marchas Populares. Somente em 1988 é que passaram a ser anuais, não tendo falhado um ano desde então. Acredita-se que as Marchas Populares foram uma espécie de mistura da tradição francesa chamada Marche aux Flambeaux com as danças do Entrudo (o “primitivo” carnaval português). Cada local onde se festejasse o Santo Antônio teria dado início a algum grupo de marchantes, que desfilavam sem todos os apetrechos que há hoje, mais para exibição nas portas de algumas casas.

Os mascotes

Os mascotes

Voltando às Marchas atuais, o tema central do desfile, da música e da coreografia sempre evoca algo tipicamente lisboeta. Cada marcha inicia-se através de uma associação de bairro e participam de um desfile que dura de 15 a 20 minutos. Precisam ter 24 casais de marchantes (sempre casais), quatro aguadeiros (que são os que recolhem os objetos que caem, os objetos que são usados só momentaneamente e mudam os adereços), um cavalinho (que seria a bandinha), um casal de suplentes, um casal de crianças com no máximo 10 anos que são os mascotes, um porta-estandarte e um casal de padrinhos além de um ou dois ensaiadores.

Normalmente os padrinhos são famosos como atrizes, cantores entre outras celebridades. Todos os casais de marchantes usam roupas idênticas e carregam arcos. Os arcos vão mudando de uma Marcha para outra, mas sempre integrados ao tema do desfile. Há outros objetos que podem ser usados em encenações rápidas que se integram à marcha durante a coreografia feita nestes 20 minutos em que dura a apresentação.

Na Avenida da Liberdade, sai cada uma das Marchas, desfilando para que os espectadores apreciem o trabalho dos participantes. No sábado ficamos sabendo quem ganhou. Este ano houve empate entre a Marcha de Alfama e a do Castelo. A “nossa” Marvila ficou em segundo, empatada com Madragoa.

Marcha da Alfama, em 2007. Aqui dá pra ver bem os arcos, adereços que não podem faltar.

Marcha da Alfama, em 2007. Aqui dá pra ver bem os arcos, adereços que não podem faltar.

Além do prêmio da melhor Marcha, há outros prêmios como: melhor figurino, melhor coreografia, melhor cenografia, melhor letra, melhor musicalidade, melhor desfile na avenida e melhor composição. Mas não confunda! Não tem nada a ver com escola de samba e carnaval, apesar de algumas pequenas semelhanças. São duas tradições distintas, em épocas diferentes do ano. As Marchas tem muito mais a ver com as Festas Juninas, devido a suas origens. Assim como as escolas de samba, as Marchas participantes da festa também recebem uma ajuda de custo do governo.

Esta festividade está integrada em uma comemoração mais ampla, as Festas de Lisboa. Há durante todo o mês de junho, ou melhor, começando ainda no mês de maio os preparativos e anúncios, um conjunto de espetáculos, exposições e outras festividades que compõem as Festas de Lisboa. Entre alguns dos festejos que aconteceram este ano estiveram o Desfile da Máscara Ibérica, o Fado nos Eléctricos (é fadista cantando um fadinho dentro do bonde de número 28, que percorre alguns bairros tradicionais da cidade), os Arraiais Populares de Lisboa, os Casamentos de Santo António (casamento coletivo promovido pela Câmara Municipal de Lisboa) e as já faladas Marchas.

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As fotos utilizadas neste post, tirando a de Santo Antônio e da rua de Alfama, foram todas tiradas do site da EGEAC, empresa responsável pela organização das Festas de Lisboa.

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Para saber mais:

Álbuns de Fotos do Diário de Notícias:

Ensaios das Marchas (16 fotos)

As Marchas no Pavilhão Atlântico (24 fotos)

e mais

Marchas Populares – MyM

Programação das Festas de Lisboa 2009

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