A Mula da Rainha Santa


Vale de Arouca

Vale de Arouca

Há, próximo à cidade do Porto, em Portugal, uma vila chamada Arouca, com cerca de 3.100 habitantes, pertencente ao concelho de mesmo nome. A localidade é habitada desde a Pré-História, mas não há grandes estudos que tragam à luz os fatos ocorridos no passado desta vila. Somente a partir do período de ocupação muçulmana é que há mais informações da História de Arouca. Mas é a partir da fundação de um Mosteiro em suas terras, que a vila ganha maior reconhecimento. O Mosteiro de Arouca foi construído no século X, tendo como primeiro padroeiro São Pedro, sendo mandado erigir por dois nobres de Moldes: Loderigo e Vandilo. Era a princípio uma modesta moradia, abrigando professores e professoras. No século XII passa a ser controlado por D. Toda Viegas e sua família, levando ao enriquecimento e engrandecimento do mosteiro. Antes mesmo da independência de Portugal, D. Afonso Henriques concede à fidalga D. Toda e suas freiras privilégios e doações. No século XIII o Mosteiro de Arouca passou a ser posse da Coroa, tendo D. Sancho I, segundo rei de Portugal, deixado em testamento o mosteiro para sua filha, D. Mafalda.

Beata Mafalda de Portugal

Beata Mafalda de Portugal

D. Mafalda como era comum em outros tempos, teve sua participação passiva na política, sendo casada com um menino em 1215, que acabara de ser coroado rei de Castilha. D. Mafalda, neta de Afonso Henriques e irmã do terceiro rei de Portugal, D. Afonso II, nasceu em 1190 e foi privilegiada com uma educação esmerada. Com a morte de seu pai em 1211, o reino de Portugal foi deixado para sua viúva e mãe de Mafalda, D. Dulce de Barcelona. Mas devido à guerra com os muçulmanos, era importante a Portugal que estreitasse laços com o reino de Castilha. Por esta razão, o Ministro Nunes de Lara, que efetivamente exercia o poder em Portugal, arranja-lhe o casamento com o recém coroado rei Henrique I de Castilha, de apenas 14 anos. Coincidentemente o Ministro Nunes de Lara era tutor de Henrique I nesta época. O papa Inocêncio III acabou por anular o casamento antes mesmo dele ser consumado, graças à intervenção da irmã mais velha de Henrique I, que apelou ao papa pedindo o divórcio dos recém-casados devido à consangüinidade (os dois eram primos).

O resultado é que Mafalda volta a Portugal como dele saiu, virgem e sem coroa. Rumou, então, para o Mosteiro de Arouca, sua herança deixada em testamento pelo pai, onde morou a maior parte de sua vida. Ingressou na comunidade religiosa de Arouca entre 1217 e 1220, tornando-se monja cisterciense da Ordem de São Bernardo, saindo do convento apenas para peregrinações até a Catedral do Porto. Viveu de forma humilde usando sua riqueza para obras de caridade, reconstrução de povoados, construção de hospitais e casas religiosas. Dona Mafalda levou o Mosteiro a atingir seu apogeu, devido aos benefícios materiais que atraiu com sua presença. O Mosteiro, nesta época já só para mulheres, acabou por tornar-se um centro importante para a economia do vale de Arouca.

Igreja Matriz de Rio Tinto

Igreja Matriz de Rio Tinto

Em 1255, D. Mafalda recebeu um agradecimento, escrito pelas mãos do próprio papa Alexandre IV, devido a suas obras de caridade. Morreu no dia 2 de maio de 1256. Dizem que foi neste momento, o de sua morte, que se deu uma disputa resolvida de forma peculiar. Segundo reza a lenda, D. Mafalda não teria morrido dentro do Mosteiro, mas em uma localidade próxima chamada Rio Tinto, numa cobrança de foros e rendas. Os habitantes locais queriam, então que ela fosse enterrada nas terras desta localidade, mas em Arouca discordavam porque foi no Mosteiro de Arouca que ela passou quase toda sua vida. Discórdia instalada, alguém, não se sabe quem, teve a brilhante idéia de fazer a seguinte sugestão:

“Que colocassem o caixão, no qual se encontrava o corpo de D. Mafalda, sobre a mula na qual costumava viajar. Para onde a mula fosse seria o local do sepultamento.”

Imaginemos por um momento a situação. A pobre mula estava carregada com um caixão com um corpo dentro. Arouca ficava longe ainda, então, o mais óbvio é que a mula não chegasse a lugar algum, e empacasse ali em Rio Tinto mesmo. Porém, não foi isto que aconteceu. A mulinha de D. Mafalda carregou seu corpo no caixão até o altar de São Pedro, dentro do Mosteiro de Arouca, onde caiu esgotada e morreu também.

Mosteiro de Arouca

Mosteiro de Arouca

Há quem diga que não foi bem assim… mas fiquemos aqui com a versão da lenda.

Assim, além da fama de Rainha sem coroa, também ganhou a fama de Santa, graças ao esforço de sua mula e, claro, a sua vida dedicada à caridade. E além de Rainha Mafalda, também passou a ser conhecida como Rainha Santa.

A Igreja Católica até hoje, no entanto, não a reconheceu como santa. Mas em 1793, o Papa Pio VI confirmou-lhe o culto com o título de beata. Seu túmulo foi aberto mais de uma vez, tendo seu corpo sido encontrado em perfeito estado de conservação. Continua sepultada no Mosteiro, em uma urna de ébano, cristal, prata e bronze, tendo um altar para si dedicado.

Com a morte de D. Mafalda em 1256 o Mosteiro continuou um lugar de prestígio, ainda mais com o culto à santa popular. D. Mafalda, ou a Rainha Santa, ou Beata Mafalda de Portugal, não deixou apenas um legado material ao Mosteiro e a Arouca, mas também um legado intimamente ligado à fé católica em sua tradição mais popular.

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