Terra e Liberdade


tierraylibertadMais um filme que fala da Guerra Civil Espanhola, mas ao contrário dos outros dos últimos dois sábados, neste filme a guerra não é apenas um pano de fundo. É o filme em si. Terra e Liberdade (título original, Land and Freedom), é baseado em um livro de George Orwell chamado Lutando na Espanha (Homenagem à Catalunha, em Portugal), cuja primeira edição saiu em 1938.

George Orwell é mais conhecido por livros como 1984 ou A Revolução dos Bichos (O Triunfo dos Porcos, em Portugal). Orwell participou na Guerra Civil Espanhola, lutando ao lado dos republicanos. Visto que sua orientação política era marxista, porém anti-stalinista, juntou-se à POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista), partido de orientação trotskista, na luta contra Franco e as forças conservadoras. Ferido na guerra voltou para a Inglaterra, escrevendo suas experiências e publicando-as no livro acima citado.

Nos anos de 1995, Ken Loach dirige o filme que é uma adaptação do livro de Orwell, feita por Jim Allen. Orwell do livro virou David Carr, um desempregado londrino membro do Partido Comunista da Grã-Bretanha. David deixa a cidade de Liverpool e ruma a Espanha, justamente para participar da guerra lutando ao lado dos republicanos. O filme segue a mesma forma de encarar a guerra de Orwell, já que Ken Loach também é um marxista trotskista.

Chorando os mortos, recolhendo os corpos.

Chorando os mortos, recolhendo os corpos.

Este filme então, não é recomendado para quem não crê nas “crenças marxistas” já que é nítido, e muito, a tendência de ver a guerra através da ótica marxista. Mas caso você seja “seguidor destas crenças” é um filme essencial. Aos que não se importam qual a crença do diretor (e de Orwell) é um filme imperdível. É um filme para ver e aprender um pouco mais sobre a Guerra Civil Espanhola, que acabou a 70 anos atrás, mas até hoje, de uma forma ou de outra, marca a realidade espanhola e mundial. A Guerra Civil Espanhola foi a primeira manifestação da dualidade que perdurou por quase todo o século XX, deixando o mundo dividido em dois eixos ideológicos.

O enredo do filme mostra a história de David Carr (Ian Hart) vista através das descobertas feitas por sua neta. Ela encontra cartas, jornais, documentos e um punhado de terra em seu quarto, após sua morte. E toda a história de Carr vai sendo reconstruída através da leitura destes escritos descobertos pela neta (Suzanne Maddock), e assim, há uma reconstrução de parte da História da Guerra Civil.

O fuzilamento do padre.

O fuzilamento do padre.

Há momentos marcantes no filme, que mostram situações que explicam (ou rotulam) as causas da derrota dos republicanos na guerra. Situações que mostram o quanto o lado republicano estava dividido e mal organizado, frente à disciplina militar do exército franquista, e ao apoio recebido por Franco dos alemães e italianos. Acrescentado a isto, havia uma quase total neutralidade dos governos dos demais países em envolverem-se no conflito, sendo a pouca e inútil ajuda recebida por parte do governo republicano espanhol, oriunda da antiga URSS (em troca de 510 toneladas do ouro do Banco de España).

Outro fato a destacar é que, além da Guerra Civil propriamente dita, ao mesmo tempo, começou uma Revolução Social, com grupos de esquerda apropriando-se e coletivizando propriedades e terras nas áreas que dominavam. Há a questão levantada no próprio filme por um dos personagens que, primeiro era preciso ganhar a guerra, depois construir uma nova ordem. Mas não foi isto que aconteceu, assustando ao mundo atitudes radicais para a ordem vigente e isolando os republicanos, cada vez mais enfraquecidos por divisões internas e pelo poderio bélico dos franquistas e seus aliados.

As recordações da guerra descobertas pela neta de David Carr.

As recordações da guerra descobertas pela neta de David Carr.

Ao longo do filme vemos como Carr vai narrando em suas cartas todas as situações que vive na guerra, com os conflitos e desorganização dos companheiros, com as constantes derrotas dos milicianos e divisões entre republicanos, com o vislumbre da derrota iminente.

O filme de Ken Loach, rodado em 1994, é uma co-produção entre Espanha, Itália, Reino Unido e Alemanha. Ganhou o prêmio de melhor atriz revelação no Goya (espécie de oscar espanhol), melhor filme do European Film Awards, melhor filme do Jurado Ecumênico de Cannes, entre outros mais e algumas indicações. No elenco também estão Rosana Pastor (a atriz premiada no Goya), Icíar Bollaín, Tom Gilroy, Marc Martínez, Fréderic Pierrot, entre outros mais, além de moradores locais do povoado onde ocorreram as filmagens.

Fique com o trailer, em espanhol, deste filme que é um dos melhores na reconstrução histórica sobre a Guerra Civil Espanhola, pela ótica de um dos vários grupos que lutaram por uma nova Espanha.

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Curiosidade:

Além de nome deste filme, Terra e Liberdade:

– foi o nome de um jornal anarquista russo criado em 1888, um jornal da Federação Anarquista Ibérica, e outro mais fundado por exilados anarquistas espanhóis, no México.

– era o lema do Partido Liberal Mexicano, de Emiliano Zapata e da Revolução Mexicana.

– era o título de uma música criada para ser o Hino Nacional Mexicano.

– foi o nome de um grupo de milicanos anarquistas que lutaram na Guera Civil Espanhola.

– é o título de um documentário de Maurice Bulbulian, de 1978, sobre a Revolução Mexicana.

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