A flor da gruta


hada-aguaHá na Mitologia da Cantábria, Espanha, um ser conhecido como Anjana, nome derivado de Jana que era usado na Idade Média para designar as feiticeiras. Mas na verdade, nada têm de feiticeira uma Anjana. São seres bondosos que protegem as pessoas honradas, aos apaixonados e aos que se perdem nos bosques ou caminhos. São belas mulheres, com longos e finos cabelos, enfeitados com flores e laços de seda. Vestem-se delicadamente, com túnicas de seda branca. Usam sandálias e carregam um cajado com poderes mágicos, com o qual amansam as feras do campo com um simples toque. Também é com este cajado que realizam suas magias e curas milagrosas. Ninguém sabe ao certo a origem das Anjanas, mas dizem alguns que seriam espíritos das árvores que se encarregam de cuidar dos bosques. Alimentam-se de mel, morangos, caldas adocicadas e outros frutos que o bosque lhes proporcionam. Vivem em grutas secretas que dizem ter o piso forrado de ouro e prata, nas quais ficam guardadas riquezas que acumulam para as pessoas necessitadas.

Passam o dia andando pelas trilhas dos bosques, sentando-se para descansarem nas margens das fontes. Os riachos parecem ganhar vida com a passagem das Anjanas. Nas fontes, conversam com as águas, que parecem emergir mais alegres e cristalinas. Também ajudam aos viajantes perdidos, aos pastores, aos animais feridos e às árvores atormentadas pelo vento ou quebradas pelo Ojáncano. Durante a noite passeiam pelos povoados, deixando presentes nas portas das casas daqueles que o fizeram por merecer, graças a suas boas ações. Dizem que as Anjanas reunem-se no início da primavera nos altos pastos dos montes para dançar até o amanhecer, de mãos dadas ao redor de um monte de rosas que, mais tarde, espalham pelos caminhos. Quem encontra uma destas rosas de pétalas vermelhas, verdes e amarelas será feliz até o fim da vida.

Existem diversas lendas, e contos, sobre as Anjanas – e muitas pessoas, até os dias de hoje, juram que viram uma Anjana. Eu vi uma Anjana, rindo-se e dançando pelo campo, enquanto seguia até Altamira, lá na Cantábria. Estava divertindo-se com alegria de criança entre as pequenas flores brancas que cobriam as margens do caminho. Que bela visão eu tive! Fiz-lhe um pedido e ela me atendeu! Ela nunca nega um pedido quando feito com sincera bondade! ;)

Aqui deixamos uma destas muitas lendas, onde um dos personagens principais é uma bela Anjana.

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A FLOR DA GRUTA

Monte Ucieda, Cantábria

Monte Ucieda, Cantábria

Próximo ao desfiladeiro de Santa Lucía, na Cantábria, vivia um rapaz que trabalhava como lenhador chamado Antonio. Ele estava apaixonado por Rosaura, bela jovem de sua aldeia com a qual casaria em breve. Antonio teve que subir ao cume do monte Ucieda para cortar algumas árvores, saindo de casa ao amanhecer, mas chegou ao alto do monte já tarde. Começou a dar machadadas no tronco de uma árvore, porém ouviu uns lamurios que pareciam sair da própria árvore, deixando-o pálido de medo. Horrorizado, parou com o que fazia. Quando recomeçou, voltou a ouvir que ela queixava-se como se fosse uma pessoa. Já ia começar a correr desesperado, quando ouviu uma voz que saía da árvore e dizia:

“Eu sou uma donzela encantada. Dar-te-ei incontáveis riquezas, se for ao remanso do rio e golpear a água com uma vara, até que saia a Anjana. Ela dir-te-á o que deves fazer para desencantar-me.”

O moço correu até o povoado para contar a sua namorada o que havia acontecido. Rosaura aconselhou-o que deveria desencantar a donzela, pois assim poderiam viver ricos e felizes. O lenhador dirigiu-se até o remanso do rio no desfiladeiro de Santa Lucía, e com uma vara golpeou as águas. As águas abriram-se no mesmo instante, emergindo delas uma belíssima Anjana de grande e sonhadores olhos azuis. O rapaz, perturbado diante de tanta beleza, contou-lhe o que havia acontecido no monte, e a Anjana, que estava sentada sobre as águas, depois de escutá-lo, respondeu:

Entra na gruta do Monte Ucieda, busque uma flor muito brilhante e traga-a para mim. Eu lhe direi o que deves fazer com ela para desencantar a donzela.”

soplao

Caverna El Soplao, a cerca de 25 km de Ucieda, Cantábria.

Em quatro pernadas chegou à entrada da gruta, conhecida de todos os aldeões. Todos sabiam de sua grande profundidade, que chega até Bárcena Mayor. Antonio penetrou decidido, buscando a flor brilhante. Na medida em que se distanciava da entrada, aumentava a escuridão, chegando ao ponto de ver-se envolvido pelas trevas e desorientado. Sem saber para onde ir, tateando, seguiu caminhando em busca da flor que não aparecia. Até que sentiu-se rendido pelo cansaço e deixou-se cair ao solo, sem ver a mais pequena luz.

Perdida a esperança de encontrar a flor, decidiu sair e voltou sobre seus próprios passos. Mas encontrou o caminho bifurcado e não sabia qual rumo seguir. Entrou em um deles sem encontrar a saída. Logo deu-se conta de que estava perdido em um complicado labirinto. Enlouquecido, quis gritar e pedir ajuda, mas só lhe respondia o eco de sua voz lastimosa. Novamente buscou com desespero pela flor que, talvez, lhe ajudasse a encontrar a saída. Mas nada brilhava a sua volta. Notou que suas barbas e cabelos cresceram e suas roupas estavam desfeitas. Teve que tirar seus velhos calçados e caminhar descalço, até ferir os pés. Contudo, não sentia nem fome nem sede, e continuava buscando a entrada ou saída da fatídica gruta. Vencido pelo sono dormiu, e sonhou que sua namorada havia se casado com um moço de Ruente que a desejava fazia tempo. Ao acordar sentiu ciúmes e um desejo mais ardente de sair daqueles caminhos subterrâneos, mas sem conseguir. A barba e os cabelos continuavam crescendo e passavam já dos joelhos. Suas forças estavam esgotadas, mas ele continuava buscando a flor.

Finalmente, quando seus cabelos já alcançavam o chão, encontrou-a. Com ela na mão, achou imediatamente a saída. Dirigiu-se à casa de seus pais e chamou, mas quem lhe atendeu era um desconhecido, que ao ouvi-lo dizer que era sua casa pensou que Antonio estava louco, expulsando-o e fechando bem a porta. Foi então à casa de sua namorada e abriu-lhe a porta uma velhinha. Ele achando que fosse sua sogra disse:

“Quero ver a Rosaura, minha noiva. Diga que venha.”

Ucieda de Arriba, Cantábria.

Vista de Ucieda, pueblo pertencente ao município de Ruente, Cantábria.

Mas aquela velhinha era Rosaura que, achando que Antonio não passava de um bêbado, despachou-o de forma pouco educada. Antonio começou a achar que estava enlouquecendo e começou a correr pelas ruas da aldeia, mas caiu no meio de uma ruela. Viu-lhe cair uma velhinha que correu ajudá-lo. Levou-o para casa e deixou-o dormir em seu palheiro. No dia seguinte, foi tratar de Antonio o filho da anciã, cortou-lhe os cabelos e arranjou-lhe umas roupas.

Já mais aliviado, Antonio voltou ao remanso do rio, golpeando as águas até que a Anjana saísse. Entregou-lhe a flor brilhante e disse-lhe a Anjana

“Justo castigo recebeste pelo dano que fizeste àquela moça a quem desonraste.”

E desapareceu a Anjana. Então, lembrou-se com muito pesar que, antes de Rosaura tivera uma namorada chamada Mercedes, a quem havia abandonado depois de desonrá-la. Compreendeu que a Anjana havia lhe castigado evitando, com seu engano, seu casamento com Rosaura. Encheu-se de remorsos, voltou à aldeia e perguntou à velhinha que lhe havia acolhido onde vivia Mercedes, que quando jovem era muito bela. Aquela velhinha era Mercedes! Ele revelou-lhe que era Antonio, e a anciã, cheia de emoção, começou a gritar:

“Carpio, meu filho, vem abraçar seu pai.”

Os três se abraçaram e viveram contentes, protegidos pela Anjana, que o havia castigado a permanecer cinqüenta anos na gruta, apesar de que para ele parecera apenas um mês.

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Fontes:

García de Diego, Vicente – Antología de Leyendas de la Literatura Universal – Editora Labor, Barcelona, 1953.

Llano, Manuel – Mitos y Leyendas de Cantabria – Librería Estudio, Santander, 2001.

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