Santillana del Mar – o “pueblo” mais belo da Espanha


Trecho da estrada próximo a Santillana.

Trecho da estrada próximo a Santillana.

Já imaginou perder-se por entre altas montanhas recortadas por vales verdes como esmeraldas, e de repente, encontrar-se à beira de uma estrada normal, com uma entrada para um povoado que parece perdido no tempo? Já imaginou seguir por esta entrada e descobrir-se cercado por velhas casas que parecem congeladas através dos séculos, só à sua espera para retornarem à vida, com flores nas varandas, separadas por pequenas ruas calçadas de antigas pedras, por onde já caminharam tantas pessoas de outros tempos? Isto não é impossível. Vivi esta pequena fantasia ao visitar Santillana del Mar, o pueblo das três mentiras. É que dizem que Santillana nem é Santa, nem llana (plana) e nem tem mar. Mas isto é um pouco questionável!

Rua de Santillana, ao fundo a Colegiata.

Rua de Santillana, ao fundo a Colegiata.

Sair da estrada asfaltada, descendo de um ônibus, e caminhando do asfalto para as velhas pedras do calçamento, seguir adiante e ver-me entrar por uma rua que fazia as vezes de túnel do tempo, foi uma sensação única que não me esqueço jamais. E quando as casas começaram a aparecer, de um lado e outro da ruazinha, feitas de pedras que mostravam em sua cor e desgaste quantos séculos se passaram… que mágico! Mais mágico ainda foi caminhar lentamente, apreciando os muitos anos que aquelas casas carregavam e, quando me dei conta, cheguei ao fim da vilinha, atravessando um pequeno rio, na calle del Río. Mas este fim foi grandioso, pois terminava em uma magnífica construção de cerca de 900 anos. A Colegiata Romanica de Santillana del Mar, um mosteiro construído para abrigar os restos mortais de Santa Juliana, conclui a visão do passado em pleno presente nesta bela vila cantábrica. Tirando meus delírios fantasiosos de filha da terra que nunca nela havia pisado, vamos à parte histórica. Ah, e não é Santa mas tem santa.

A Santillana que podemos ver ainda hoje encravada em um belo vale cantábrico, tem um início mesclado entre lenda e História. Dizem, mas não há certeza, que um mosteiro foi fundado por volta do século IX, por monges que escolheram este lugar para guardar os restos mortais de Santa Juliana. O próprio nome Santillana deriva do nome da santa, que em latim era Sancta Illana, depois Sant Iuliana, e com o tempo, virou Santillana.

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Túmulo onde se encontram os restos mortais de Santa Juliana.

Santa Juliana, ao que parece, foi martirizada na Ásia Menor, onde hoje é a Turquia, na época das perseguições aos cristãos feitas pelo imperador Diocleciano, em fins do século III. Os monges, que guardavam os restos de Santa Juliana, eram peregrinos, e acabaram por desembarcar na costa cantábrica, próximo da localidade hoje chamada de Santillana del Mar. Teriam construído uma Capela e um Mosteiro, onde os restos mortais de Santa Juliana poderiam ser venerados.

Já a versão histórica da fundação da localidade, atribui suas origens a uma corrente de repovoamento cristão da região, impulsionada pelos sucessores do rei Afonso I de Astúrias. A consolidação do poder cristão na região deu-se pelo século X, quando esta zona era conhecida como Astúrias de Santillana – nome pelo qual boa parte da atual Cantábria era denominada nesta época. No reinado de Fernando I de Castilha, o abade deste mosteiro ganhou importantes privilégios, no ano de 1045, tornando-o senhor da vila e suas possessões, ou seja, um homem rico, visto que a vila era passagem para os peregrinos que seguiam para Santiago de Compostela, e por aí passavam para venerar Santa Juliana.

Caminhando lentamente, deparei-me com este monumento do românico.

Caminhando lentamente, deparei-me com este monumento do românico: a Colegiata de Santa Juliana.

O templo primitivo foi substituído pelo que conhecemos hoje. Anexos foram construídos posteriormente, sendo que as partes mais antigas da construção que pode ser vista ainda hoje, datam do século XII. No início o mosteiro pertencia à ordem beneditina, mas no século XI, o mosteiro transformou-se em abadia, passando à tutela de uma comunidade de cônegos da ordem de santo Agostinho. No século XII, com o apoio da nobreza, a abadia tornou-se a mais importante da Cantábria medieval.

Em 1209, no reinado de Afonso VIII de Castilha, a vila de Santillana tornou-se a capital das Astúrias de Santillana. Na mesma época o mosteiro entra em decadência, mas é então que a vila passa por um desenvolvimento urbano, ao redor da Plaza Mayor, conhecida atualmente como Ramón Pelayo, e a Torre del Merino.

Vista do alto, tem-se uma idéia melhor da monumentalidade desta construção.

Vista do alto, tem-se uma idéia melhor da monumentalidade desta construção.

Em 1445, o rei Juan II de Castilha deu o senhorio da vila ao primeiro Marquês de Santillana e seus sucessores. Iñigo Lopez de Mendoza, o primeiro marquês, era pai de um dos maiores escritores em língua castelhana, Garci Lasso de la Vega (mais conhecido como Garcilaso de la Vega). Em 1475, os reis católicos concedem o título à família do Marquês de Santillana, de Duques do Infantado, continuando eles com a posse de Santillana.

A vila que conhecemos em um simples passeio é justamente o testemunho deste período de desenvolvimento urbano finalizado pelo século XVIII. No século XIX, era uma vila quase fantasma, mas como fica próximo a Comillas, local de veraneio da família real na época, era passagem obrigatória para visitantes tanto da nobreza madrilenha como catalã.

Bisão pintado, mas na Neo-Cueva, cópia perfeita da velha Cova de Altamira que encontra-se fechada ao público.

Bisão pintado, mas na Neo-Cueva, cópia perfeita da velha Cova de Altamira que encontra-se fechada ao público.

Santillana vira tema literário, sendo citada por autores como Benito Pérez de Galdós. Torna-se ainda no século XIX Monumento Histórico-Artístico Nacional, em 1889. Poucos anos antes, um morador local descobre, melhor seria dizer redescobre, uma caverna com desenhos que por muito tempo tiveram sua autenticidade contestada. Um caçador, ao tentar soltar um cachorro que ficou preso em umas pedras, ao perseguir uma presa, descobre a entrada de uma caverna, em 1868. No princípio, ninguém deu crédito, pois a região é rica em cavernas, sendo que esta era apenas mais uma. Marcelino Sanz de Sautuola acompanhado de sua filha de 9 anos, em 1879, visita a localidade. Ele era um erudito em paleontologia, e tinha como objetivo apenas encontrar alguns restos de esqueletos e peças feitas por homens primitivos. No final das contas, acabou por descobrir a Capela Sixtina da Pré-História, um nome que é dado à Cova de Altamira. Por muitos anos sua descoberta foi contestada, já que naquela época não se acreditava que o homem pré-histórico fosse capaz de fazer desenhos tão realísticos. Somente anos depois, com a descoberta de uma caverna com desenhos de igual qualidade na França, é que a descoberta de Sautuola foi reconhecida.

Praia de Santa Justa, a única do município de Santillana del Mar, na localidade de Ubiarco.

Praia de Santa Justa, a única do município de Santillana del Mar, na localidade de Ubiarco.

Como disse no começo, dizem que Santillana é o pueblo das três mentiras. Nem é Santa, nem llana (plana) e nem tem mar. Na verdade, santa pode até não ser, mas há lá o sepulcro que guarda os restos da Santa Juliana, ao menos teoricamente. Plana, de fato, não se pode dizer que seja, digamos que é ondulada, devido a seu relevo montanhoso. Já o mar, bem, ele não está muito distante… mas… não se vê o mar da vila. Para chegar até a única praia do município de Santillana del Mar, é preciso descer uma estradinha quase vertical que leva a uma pequena e aconchegante praia, a praia de Santa Justa, que fica em um pueblo chamado Ubiarco, pertencente ao município de Santillana, a 5 km da vila histórica. Nesta única praia do município podemos encontrar uma capela provavelmente do século XVI, construída encravada na falha de uma rocha, mesmo à direita da praia. Mas o mar está lá, a 5 quilômetros mas está!

Somando o patrimônio arquitetônico da vila de Santillana, com as preciosas pinturas rupestres de Altamira, que fica a 2 km da vila, temos um recanto cheio de encanto (rimei propositadamente), encravado em um dos muitos vales cor de esmeralda da bela Cantábria. E parafraseando Benito Pérez Galdós:

Ninguém poderá dizer: Vi Santillana de passagem. Para vê-la é preciso visitá-la.

Panorâmica da Plaza Mayor de Santillana.

Panorâmica da Plaza Mayor de Santillana.

E quem a conhece sabe perfeitamente o que isto quer dizer.

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Este é um post de um conjunto que farei sobre Santillana. Digamos que acabam de ficar com uma pequena introdução sobre o Pueblo más bello de España.

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