Lenda do Cão da Morte


Vista do casario de Casteligo, nas Terras Altas galegas.

Vista do casario de Casteligo, nas Terras Altas galegas.

As chamadas Terras Altas da Galícia, Espanha, espalham-se ao redor das Montanhas de Manzaneda, na província de Orense, bem junto à fronteira de Portugal. Aqui pode-se encontrar (em espanhol) os nomes dos pueblos que pertencem a esta área denominada de Terras Altas, assim como um mapa que dá uma localização aproximada. A ocupação da região é antiga, mas as primeira referências a esta área são dos tempos do Império Romano. Os habitantes locais de então se auto-denominavam Tiburos. Eram terras ricas em ouro que foi explorado pelos romanos, que inclusive, desviaram o curso de um rio – fazendo um túnel através de uma montanha – para explorar o ouro que continha estas terras. O próprio nome da província, Orense em espanhol e Ourense em galego, é uma referência a esta presença do ouro nestas terras, significando Dourado, e originário da palavra Auriense (cidade do ouro).

Mas sempre foi uma região pouco povoada, por esta razão, existem poucas referências sobre ela ao longo da História. Orense durante a Idade Média pertenceu ao Conde de Monforte e à Igreja, e a riqueza do patrimônio histórico do município de Manzaneda revela uma beleza singular. A área que hoje ocupa o município de Manzaneda sempre foi voltada à atividade pastoril, agricultura (vinho e castanhas) assim como no inverno é uma área que atrai praticantes de esportes de inverno, ficando nas proximidades a única estação de esqui da Galícia.

Destas terras, vem a lenda do Cão da Morte. Mesmo em pleno século XX os cães foram utilizados como arma de guerra, e anteriormente tiveram uma utilização mais vasta. Raças como os Mastins, Galgos e Alanos espanhóis foram utilizados na conquista da América em práticas que foram repetidas no Novo Mundo mas aprendidas no Velho Mundo. A arma de guerra ou de contenção foi transportada para lendas, como a que contamos a seguir. É uma lenda trágica, de sede de vingança, que mostra um jovem que busca pagar na mesma moeda uma perda sofrida.

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LENDA DO CÃO DA MORTE

alanoespanhol

Alano Espanhol, animal que teve utilizações pouco nobres ao longo da História.

Nas Terras Altas da Galícia, havia um conde que mantinha seus patrícios temerosos, com um cão treinado para matar. Era um cão daqueles que são chamados de Cães de Guerra ou Cães da Morte, usados em guerras para combates. Este cão era chamado de Demo (demônio em galego). Era um grande animal, mas não tanto como os que guardavam e protegiam os rebanhos dos povoados contra os lobos. Mas este cão foi treinado para matar pessoas na guerra. Dizia-se que ele matou muitos inimigos nas batalhas, mas agora o Conde utilizava-o para amedrontar e submeter seus vassalos.

Um dia, apareceu o Conde em um dos povoados das Terras Altas, e convocou seus habitantes no ponto de reunião do Concelho. Ameaçou-os, exigindo que pagassem mais impostos, mas como os moradores negaram-se, mandou preparar o cão. As pessoas fugiram em pânico e esconderam-se em suas casas. O Conde escolheu uma casa e ordenou a seus soldados que arrombassem a porta, soltando o cão para que entrasse. O feroz animal matou a todos que encontrou dentro da casa, inclusive as crianças. Aterrorizados com tamanha brutalidade, todos os demais apressaram-se em cumprir os desejos do infame Conde.

Entre os mortos estava uma bela jovem, prometida em casamento a um primo que vivia no mesmo lugarejo. Este rapaz estava tão desolado que recolheu todos os cães que guardavam os rebanhos, por serem os maiores. Mas o que fez foi por impulso, não pensou muito no que iria fazer e nem nas conseqüências. Treinou os cães como bem entendeu para que se defendessem uns aos outros e matassem a Demo. Foi em vão, Demo matou a todos. Os moradores locais voltaram-se contra o jovem porque deixou todos os rebanhos sem cães que os defendessem dos lobos.

O Conde ao saber do ocorrido mandou prendê-lo, mas o jovem conseguiu fugir a tempo por Verin até terras de Portugal, onde inclusive esteve lutando contra os mouros. Durante este tempo, aprendeu com um judeu as artes para adestrar os cães usados na guerra, e com este saber regressou às Terras Altas com sede de vingança. Não avisou a ninguém de sua chegada, exceto sua mãe. Graças a sua mãe encontrou uma cadela grande no cio, e com ela foi até a fortaleza do Conde.

Em uma noite escura, o rapaz preparou uma emboscada, amarrando a cadela no cio de forma a que o vento levasse o odor até onde estava Demo. Quando Demo sentiu o odor da cadela no cio, ficou enlouquecido. O criado do Conde que cuidava do cão, tirou-o de seu canil, e saiu com ele para ver o que lhe causava tanta perturbação. Quando chegou próximo à cadela percebeu o que estava acontecendo e soltou-o. Demo foi de encontro à cadela e, neste momento, o rapaz aproveitou-se e matou o criado que conduzira Demo até ali. Demo estava entretido, atendendo ao chamado da Natureza, e o rapaz preparou-se. Já tinha previamente lavado-se minuciosamente, e untou o corpo com um óleo que dera-lhe o judeu para disfarçar seu próprio odor. Vestiu-se com as surradas roupas do criado assassinado, assim o cão não o reconheceria nem pela vista e principalmente pelo olfato. Antes que Demo terminasse com a cadela, atou-o novamente.

Armadura para cachorro do século XVII, Instituo Ricardo Brennand.

Armadura para cachorro do século XVII, Instituto Ricardo Brennand.

Voltou o rapaz com Demo para o canil. Colocou-lhe a armadura de couro com placas de ferro, que se coloca aos cães de guerra antes de entrarem em combate, que também servia de proteção contra as flechas e espadas inimigas. Esperou até que todos na fortaleza adormecessem e, depois de passar pelos guardas sem problemas, foi até a torre onde o Conde e sua família dormiam. Quando encontrou-se na torre atiçou e soltou a Demo. Imediatamente ouviu-se os gritos de pavor do Conde pedindo ajuda a seus guardas. Mas o rapaz havia trancado a sólida porta por dentro, para que ninguém pudesse entrar. Todos os membros da família do Conde morreram, inclusive um dos filhos que se jogou de uma janela para não ser devorado pela fera. Enquanto o cão completava sua incrível e cruel chacina, o rapaz ateava fogo à torre. Quando enfim os soldados do Conde conseguiram arrombar a sólida porta e entrar nos aposentos, o cão de novo atiçado pelo rapaz atacou-os também, e o rapaz aproveitou a confusão para escapulir em meio ao banho de sangue gerado pela fera, até que conseguiram matar a Demo.

Sob a luz do incêndio da torre conseguiu o rapaz escapar, e a partir de uma montanha próxima pos-se a dar brados de vitória aos quatro ventos.

Tradução livre da lenda El Perro de la Muerte, encontrada em Coba Leyendas.


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9 opiniões sobre “Lenda do Cão da Morte

  1. eu só estava prourando pela imagem, mas o que seria da imagem sem a historia?? fiquei muito surpreso ao ler a lenda, é uma lenda e tanto, muito bom!!

  2. Augusto, a imagem não é minha, foi encontrada na internet. Se você passa o mouse sobre as imagens, aparece o link para o site original de onde foi copiada. É a eles que vc deve pedir autorização, não a mim. Obrigada pela visita.

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