Azulejos Portugueses – séculos XV e XVI.


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Painel do século XVI, com passagem bíblica, na Quinta da Bacalhôa, Azeitão (Setúbal).

O uso do azulejo em Portugal ganhou uma dimensão única, sendo utilizado desde a pavimentação até o revestimento externo de edifícios. Mas ele não se limita a um tipo de revestimento utilizado na arquitetura. Mais do que isto, tem uma conotação artística, nas formas e usos que ganhou com o passar do tempo, seja em Portugal ou nos países por onde Portugal esteve. Ele faz parte da História deste país e dos países que influenciou culturalmente.

Podem ser meros enfeites em um cantinho de uma casa ou seu total revestimento. Mas seja uma mera decoração ou mais que isto, revela um longo percurso da azulejaria no contato entre culturas e gostos estéticos. Andando por Portugal, em qualquer lugar pode-se encontrar a presença deste “ilustre português”; em um pequeno painel onde consta o nome de uma rua, em um mural com alguma cena histórica ou alegórica, no revestimento de alguma igreja secular, nos edifícios espalhados pelas cidades, ou – no caso de Lisboa – nas estações do metrô, cada qual com suas características próprias de uma época ou estilo.

Capela de São Roque, Lisboa

Azulejos com motivos bico de diamante, de 1596, na Capela de São Roque, Lisboa.

Azulejo é uma simples peça, geralmente quadrada, de barro cozido, esmaltado ou vitrificado de um dos lados. Podem ser de uma só cor ou multicoloridos. A palavra tem origem árabe e significa pequena pedra polida. Há uma versão, que desconheço se seria verdadeira ou não, que afirma que azulejo viria da junção da palavra azul e longe em espanhol (lejos), devido à cor predominante dos azulejos clássicos portugueses, significando assim azul distante (azul lejos). Esta versão pode não ser verdadeira mas é bem poética.

O revestimento cerâmico conhecido como azulejo, é utilizado desde a antiguidade, podendo ser encontrados no Egito Antigo ou Mesopotâmia. Espalhou-se pelo mundo graças à expansão do Islã, chegando a todo o norte da África e sul da Europa. Na Península Ibérica chega por volta do século XIV. No entanto, desde o século XIII, usavam-se pavimentações geométricas formadas por mosaicos vitrificados, como no Mosteiro de Alcobaça e no Castelo de Leiria. Mas a qualidade e uso extenso só se nota a partir do século XV com os produtos importados da Espanha, oriundos da azulejaria mudéjar. É também com esta azulejaria que a peça de cerâmica ganha o formato que conhecemos, um quadrado que em conjunto formam uma padronagem. Mas a partir do século XV os azulejos não se limitam a servir de pavimentação, mas recobrem paredes inteiras ou partes delas formando uma composição com os demais elementos arquitetônicos. Esta característica da utilização do azulejo em Portugal é repetidamente chamada de horror ao vazio – muito compreensível esta afirmação.

Piso na técnica do alicatado do século XV (?), na capela do Palácio da Vila, Sintra (PT).

Piso na técnica do alicatado do século XV (?), na capela do Palácio da Vila, Sintra.

O primeiro produto da azulejaria propriamente dita em solos ibéricos foi o chamado de azulejo mudéjar (ou hispano mourisco), sendo o utilizado pelas primeiras fábricas de cerâmica azulejar em Sevilha, Valência, Málaga e Talavera de la Reina. Este tipo de técnica já é resultado da mistura cultural entre os mundos árabe e ibérico. Caracteriza-se por uma decoração geométrica e vegetalista. A técnica de fabrico difere bem do que se faz nos dias de hoje. Eram produzidas grandes placas de barro cobertas de vidrado colorido uniforme. Depois de cozidos eram cortados em fragmentos de tamanhos e formas variáveis, e recombinados em desenhos decorativos geométricos ou lembrando plantas e folhagens (vegetalista), com a união de pedaços de diferentes cores.

Esta técnica de fabrico era chamada alicatado, visto que o alicate era um instrumento de trabalho indispensável. Levava muito tempo para que o trabalho fosse concluído, além de ser necessário que um artífice acompanhasse a encomenda até o local onde seria utilizada. Isto gerava um problema na hora de importar este material, razão pela qual são raros os azulejos deste período em Portugal, pois nesta época não existia produção própria. Exemplos de azulejos deste período em Portugal encontram-se no Palácio da Vila em Sintra (Palácio Nacional de Sintra).

Esfera Armilar de D. Manuel I.

Esfera Armilar de D. Manuel I.

Também no Palácio da Vila podemos encontrar azulejos na técnica corda seca, como os que representam a Esfera Armilar de D. Manuel I que revestem o Pátio das Carrancas. Estes pequenos painéis de cerâmica foram utilizados não apenas por D. Manuel mas por toda a nobreza e alto clero para afirmar publicamente seu prestígio, tornando-se algo recorrente ao longo dos 500 anos de história do azulejo em Portugal. O rei D. Manuel I fez uma importação de 10146 azulejos mudéjares, em 1508, para a decoração do Palácio de Sintra, onde podem ser encontrados não apenas exemplos dos alicatados e corda seca já citados, como dos de aresta, esgrafitados ou relevados.

Quanto à técnica da corda seca, os azulejos eram coloridos utilizando-se de sulcos na peça que depois eram preenchidos com as cores desejadas, ou seja, eram azulejos em baixo-relevo. Esta pintura era feita com substâncias que impediam que a pigmentação se alterasse durante a aplicação e cozedura, visto que isto era algo recorrente na técnica anterior, pois as substâncias utilizadas para a coloração das peças eram hidrossolúveis. A outra técnica era a aresta que é o contrário da corda seca. Ao invés de sulcos, levantavam-se arestas (muretas) na peça com moldes de madeira ou metal, no barro ainda macio. Desta técnica surge a variação relevada (em alto relevo).

Exemplo de azulejo na técnica de aresta relevada do século XVI, Palácio da Vila, Sintra (PT).

Azulejo na técnica de aresta em relevo do século XVI, Palácio da Vila, Sintra.

Durante o século XV e até metade do século XVI, Portugal importou azulejos da Espanha, tanto de Sevilha como já foi dito como de Valência. É no século XVI que começam a ser produzidos em Portugal em grande escala e com variedade de técnicas. Até então era o exótico que vinha de fora. Além das encomendas feitas em Sevilha ou Valência, também vinham azulejos de Flandres, mas na metade do século XVI ceramistas flamengos fixam-se em Lisboa, dando início à produção portuguesa. É nesta época que o azulejo português ganhará personalidade própria. Com a fixação dos ceramistas em Lisboa, o azulejo torna-se mais acessível. Mas o grande problema continua sendo sua colocação, lenta e dispendiosa, que impede o acesso da azulejaria a qualquer pessoa.

Azulejo em técnica de aresta, Palácio da Pena em Sintra.

Azulejo em técnica de aresta, Palácio da Pena, Sintra.

Na década de 60 do século XVI houve o contato com nova técnica de fabrico, vinda da Itália, o que permitiu uma ampliação nas possibilidades de uso e acabamento final das peças cerâmicas. A novidade era a técnica de fabrico chamada Majólica. Graças à utilização de um esmalte branco e de pigmentos metálicos, tornou-se possível pintar o lado vitrificado do azulejo. No entanto, não era possível retocar a pintura realizada, pois os pigmentos eram rapidamente absorvidos. Os motivos destes azulejos também eram diferentes dos azulejos mudéjares. A estética nestes era renascentista, evoluindo posteriormente para o maneirismo. Exemplo de destaque deste tipo de azulejo é a Capela de São Roque, que fica na Igreja de São Roque, em Lisboa, datados de 1584. Outro exemplo é a Quinta da Bacalhôa em Azeitão, no distrito de Setúbal, cujos azulejos são datados de 1565.

Com a entrada deste novo produto e a rejeição da Igreja Católica de tudo o que recordasse a arte mourisca, os azulejos mudéjares caem em desuso e com eles as técnicas da corda-seca e aresta. A majólica em Portugal tem o predomínio de representações figurativas, como painéis e medalhões alegóricos, de cunho religioso, mitológico, guerreiro ou satírico. Já os ceramistas de Flandres tinham um estilo mais gráfico e menos preciso que o renascentista italiano. São criados neste período elementos arquitetônicos que criam ilusões espaciais, e uma gama variada de elementos decorativos como os anjinhos, grinaldas, medalhões, etc.

No final do século XVI Portugal passa a integrar os domínios dos reis espanhóis, com o início da União Ibérica, em 1580. Este período de controle espanhol impede o acesso a tapeçarias, vitrais ou mármores, que acabam por serem substituídos pela azulejaria, que recobre do piso até as abóbadas de igrejas e palácios. É então que os azulejos ganham novas dimensões que não se limitam à repetição de um padrão em pequenas áreas. Tornam-se parte integrante da decoração de modo extensivo, porém ainda limitado, originando um pré-início da monumentalidade do uso que ganhará em Portugal no século seguinte, este pequeno quadrado de barro cozido.

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Para saber mais:

A Arte do Azulejo em Portugal

Fábrica Cerâmica Viúva Lamego

Museu Nacional do Azulejo

O Azulejo em Portugal

O Azulejo em Portugal ao longo dos séculos

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2 opiniões sobre “Azulejos Portugueses – séculos XV e XVI.

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