Conjuração Mineira


Há muito tempo atrás, quando os animais falavam… bem… quando o Brasil ainda era colônia de Portugal, houve uma tentativa de revolta contida pelo governo.

Esta revolta, no meu tempo de escola, chamava-se Inconfidência Mineira, e teve um “mártir” que ficou conhecido na História como Tiradentes. Eu via a figura deste moço e via nele um novo Jesus Cristo: barbudo, de camisolão branco, sofrido, condenado à morte porque queria algo que era bom, mas quem mandava na época não achava bom! E ainda por cima teve até um “Judas” para trai-lo. Coitadinho, morria de pena dele, que lutou tanto para que meu lindo país fosse independente, livre! Mas nesta época eu tinha uns 11 anos!

A Liberdade guiando o Povo (1830), de Eugène Delacroix, símbolo da Revolução Francesa.

A Liberdade guiando o Povo (1830), de Eugène Delacroix, quadro alusivo à Revolução Francesa.

O tempo passou e aprendi algumas coisinhas novas sobre o assunto, e descobri que a História, através do tempo, sempre é contada conforme os interesses de cada um. Mas nem por isto deixa de ser a mesma História. Vou contar agora a minha versão da Inconfidência Mineira, lógico que segundo meus interesses, não serei hipócrita em dizer que sou um ser imparcial. Isto não existe.

Lá pelo século XVIII diversos pensadores formulavam novas idéias de como o mundo deveria ser. E o mundo de certa forma acabou por colocar em prática algumas dessas idéias. Assim teve início a Guerra da Independência no que viria a ser os Estados Unidos da América, que durou de 1775 a 1783. Pouco tempo depois teve início a Revolução Francesa, em 1789, que segundo alguns historiadores foi inspirada na Revolução Americana (um desenvolvimento da Guerra de Independência dos E.U.A.). A Revolução Francesa é o grande marco que dá início à chamada Idade Contemporânea (na qual nos encontramos), acabando com o Antigo Regime, ou seja, o que restava do Feudalismo, a autoridade absoluta da Igreja e da Monarquia.

Retrato de Jean-Jacques Rousseau (1753), de Maurice Quentin de La Tour, um dos iluministas.

Retrato de Jean-Jacques Rousseau (1753), de Maurice Quentin de La Tour, um dos iluministas ilustres.

Estes momentos marcantes da História foram inspirados por idéias de um movimento intelectual conhecido como Iluminismo. Com certeza você já ouviu falar de alguns dos iluministas ilustres (ainda que tenha sido apenas no nome de uma rua): Montesquieu, Voltaire, Benjamin Franklin, Jean-Jacques Rousseau, etc. O Iluminismo foi um nome dado a diversas correntes intelectuais, religiosas ou filosóficas. Era uma forma diferente de encarar a realidade humana da que existia até então. Quer dizer, segundo todas as correntes iluministas o homem é responsável por seu destino, de torná-lo melhor ou pior, independente da intervenção divina ou da permissão dos homens. Isto para nós, hoje em dia, é uma idéia meio que comum. Todo mundo já ouviu falar disso. Mas na época era uma grande novidade, difícil de aceitar por muitos. Na realidade de então o destino de uma pessoa era determinado pela vontade de Deus e pelas ordens dos Reis. E o povo apenas obedecia, porque era assim que Deus queria. Não sejamos radicais mas em linhas gerais era por aí.

Nesta época as colônias na América já estavam bem consolidadas. Já não havia a necessidade de conquistar os territórios como nos séculos anteriores, já existia uma classe estabelecida nas colônias, formada principalmente por proprietários rurais e comerciantes nas cidades. Era a burguesia nascente no Novo Mundo. Enquanto a burguesia da América se estabelecia, adquiria poder econômico e ficava no desejo de ter também poder político, na Europa a coisa ia de mal a pior. Eram guerras e mais guerras envolvendo diversos países europeus, seja na Europa ou em seus territórios espalhados pelos demais continentes. Enquanto o poder político ganhava novos limites geográficos com as guerras, os intelectuais produziam freneticamente. Eram feitas novas descobertas científicas, eram elaboradas novas teorias político-econômicas, enfim, o mundo estava em ebulição.

Enquanto o século XVIII estava recheado de guerras e rebeliões, diversos grupos de intelectuais ou de pessoas com pretensões a intelectuais, reuniam-se para beber da sabedoria iluminista que estava na moda. Faziam reuniões, criavam grupos de debates, sociedades – algumas secretas – nas quais estudavam e pensavam em formas de colocar em prática o que se aprendia com os iluministas. Os jovens que iam para as universidades na época eram os grandes entusiastas deste novo mundo imaginado pelos iluministas, acompanhados de intelectuais e religiosos.

Washington atravessando o Rio Delaware (1851), de Emanuel Leutze, quandro alusivo à Guerra da Independência dos E.U.A..

Washington atravessando o Rio Delaware (1851), de Emanuel Leutze, quandro alusivo à Guerra da Independência dos E.U.A..

No Brasil tivemos vários momentos marcantes durante o século XVIII. Foram revoltas devido aos impostos cobrados sobre produtos monopolizados pela Coroa. Foram movimentos nativistas que deixavam claro que os brasileiros de então não queriam um controle tão absoluto da Coroa Portuguesa nos negócios que tinham no Brasil. Foram movimentos emancipacionistas inspirados nas idéias iluministas que queriam a independência do Brasil, devido à exploração que consideravam excessiva e era traduzida em impostos e monopólios de bens essenciais. Entre os movimentos emancipacionistas temos as Conjurações: a Mineira em 1789 (também conhecida como Inconfidência Mineira), a Carioca em 1794 e a Baiana em 1798 (também conhecida como Revolta dos Alfaiates). Além destes movimentos no século XVIII, seguiram-se outros no século XIX. Mas nos concentremos nestes do século XVIII.

A Conjuração Mineira, ou Inconfidência Mineira, foi o primeiro movimento significativo em um momento cheio de revoltas na mais rica colônia portuguesa. Os E.U.A. estavam se consolidando enquanto um Estado Nacional independente, tornando-se uma República Federativa. Apesar de naquela época as notícias não correrem com a velocidade de hoje, elas sempre chegavam. E pelas Minas Gerais, chegaram novidades sobre as idéias iluministas, graças a uma elite formada por intelectuais e religiosos que propagavam as novidades, muitos dos quais foram á Europa cursar alguma universidade. Entre os vários membros do movimento estavam escritores, religiosos, proprietários rurais, donos de minas, militares, e dentre todos eles, um rapaz de nome Joaquim José da Silva Xavier, um alferes que ficou conhecido na História como Tiradentes.

Leitura da sentença dos inconfidentes (1911), de Leopoldino Faria.

Leitura da sentença dos inconfidentes (1911), de Leopoldino Faria.

Este movimento não tinha como intuito libertar dos domínios portugueses tudo o que hoje conhecemos como Brasil: primeiro porque o Brasil era um pouco menor naquela época do que é hoje, e segundo porque não havia uma identidade nacional de um grande Brasil diversificado e vasto como de certa forma temos hoje. Os participantes do movimento sonhavam com uma República, como tornou-se os E.U.A., e como após a Revolução Francesa, os revolucionários sonhavam que seria a França. Os inconfidentes discutiram tudo, das leis à bandeira, e marcaram data para o início da revolução. Mas um dos participantes foi levado por uma oferta tentadora a trair o movimento. Em troca do perdão de suas dívidas, casa, título, entregou os companheiros, que acabaram presos e julgados pelo crime de inconfidência (falta de fidelidade ao rei). Foram todos condenados, a princípio 12 deles foram condenados à morte. Mas graças a D. Maria I, rainha portuguesa nesta época, todas as penas de morte, menos a de Tiradentes (único réu confesso) foram comutadas para degredo.

Tiradentes acabou sendo o único enforcado e esquartejado (era a prática da época), sendo parte de seu corpo enterrado posteriormente – como indigente – e outras partes (cabeça, pernas e braços) foram salgadas para não apodrecerem. A cabeça ficou exposta em Vila Rica (atual Ouro Preto), em frente à sede do governo. Não era uma forma de crueldade (apesar de ser), era a prática da época para dar exemplo e evitar réplicas de uma nova inconfidência. Aliás, a cabeça só durou um dia exposta ao público, acabou por ser roubada e até hoje ninguém faz idéia de onde possa ter parado. A casa de Tiradentes foi destruída, e o solo salgado para que mais nada nascesse naquela terra. Seus descendentes foram declarados infames (acabaram por mudar de nome).

Tiradentes era o mais pobre de todos, o único que confessou o crime de inconfidência, por isto o único que não teve a pena comutada para degredo. Por sua condição social é improvável que fosse o líder do movimento, mas após a proclamação da república no Brasil, em 1889, transformou-se em mártir e símbolo da luta pela liberdade.

Visão mais atual de como seria Tiradentes.

Visão mais atual de como seria Tiradentes.

A grande maioria das imagens de Tiradentes mostram-no com longos cabelos e barba grande, vestido em um camisolão branco (como eu já disse, um novo Jesus Cristo). Mas como militar ele não podia ter barba. Além disso, na prisão a cabeça e a barba eram constantemente raspados, para evitar piolhos ou pulgas – as cadeias não eram muito higiênicas. E quando uma pessoa era enforcada precisava estar com a cabeça raspada, para não acontecer nenhum incidente que evitasse ou atrasasse o rápido e perfeito enforcamento.

Como já disse, esta não foi a única conjuração, a única revolta no século XVIII no Brasil, mas foi a única em que uma pessoa foi condenada à morte por confessar o crime de inconfidência. E devido ao fato de no dia 21 de abril de 1792, este rapaz apelidado de Tiradentes, ter sido enforcado, como único réu confesso do crime de inconfidência, hoje temos um feriado no Brasil. Alto lá, ele lutava por um Brasil independente, livre, republicano. Exatos 30 anos e alguns meses depois de sua morte, D. Pedro I proclama a independência, mas só quase 100 anos após a sua morte é que nos tornamos uma República.

Mas ele não foi um herói, pois heróis não existem (só nos filmes). Foi um indivíduo de um momento histórico global, de transformações radicais, que mudaram todo o mundo, ao longo dos séculos XVIII, XIX e princípios do XX. Além das revoltas no Brasil, em outros países da América também aconteceram revoltas nos países sob domínio espanhol, francês e inglês – fora a independência dos E.U.A.. Estes movimentos foram praticamente todos contidos no século XVIII. Mas no século XIX, pouco a pouco, cada um dos países que hoje são vizinhos do Brasil ou ao menos ficam no mesmo continente, foram tornando-se independentes, e o Brasil acabou independente de Portugal – com uma ajudinha de um português. E assim o mundo foi saindo da chamada Idade Moderna e ingressando na Idade Contemporânea, tornando-se o que conhecemos hoje – e que continua em constante transformação.

Mas esta é a minha visão das coisas. Quem quiser que continue cultuando o herói, ou mártir, como queira.

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5 opiniões sobre “Conjuração Mineira

  1. Loca.. isso nao foi um artigo, foi uma verdadeira aula de História!!! Se na minha época de escola eu tivesse uma professora como vc, com certeza teria me interessado mais pela matéria! Excelente artigo! Adorei mesmo!
    E pra mim, o Tiradentes tb sempre foi aquela figura parecida como o Cristo indo pra cruz! A diferença entre os dois era a coroa de espinhos e a corda no pescoço.
    Beijos grandes pra vc

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