Lenda do Wara’ná (Guaraná)


Normalmente, ao buscar lendas dos povos indígenas, seja na internet ou em livros, o que encontramos é uma versão “branqueada” da lenda para agradar a brancos, respeitando seus valores, crenças e tradições. Já o lado do indígena só é preservado o exotismo da história ou lenda e ficamos sem saber como pensavam e como eram. Neste caso consegui achar uma versão da Lenda do Guaraná contada por um legítimo “dono da história”.

Yaguarê Yamã, cujo nome branco é Ozias Glória de Oliveira, tem vários livros editados, todos relacionados às histórias dos Saterê-Mawé e dos Maraguás, povos aos quais pertence, já que o pai era Saterê-Mawé e a mãe Maraguá. Em um de seus livros, Puratig: o Remo Sagrado, nos conta a Lenda do Guaraná, e outras mais.

Aqui do outro lado do oceano, busquei muito mas não consegui encontrar nenhum livro dele (voltados para o público infanto-juvenil). É pena. Então tive que me contentar em ler por aí algum pedaço das muitas histórias que ele tem para contar.

Deixo aqui, para quem quiser ler, a História do Guaraná, como achei no site da Editora Peirópolis, que por sua vez republicou depoimento dado por Yaguarê Yamã para o Museu da Pessoa.

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Vou contar, então, uma de nossas histórias: a lenda do guaraná, que é um fruto nativo da minha terra e que os saterê-mawé consomem muito, até para rituais. Bom, o guaraná é uma palavra, em sateré chama-se waraná e em maraguá chama-se guaraná. Guaraná é uma palavra maraguá que significa “parecido gente”, pela lembrança do olho dele. Dizem os antigos que os animais falavam como gente, como pessoas, e não existia gente ainda, não eram criadas as pessoas, existiam apenas três irmãos, só que não eram gente, eram semi-humanos, parecido com gente.

No início eram dois homens e uma mulher, o nome do primeiro é Yakumã, o outro é Ukumã’wató, e a menina, a moça, se chamava Anhyã-muasawê. Era uma moça muito bonita, linda, e todos os animais gostariam de namorar com ela, mas só que não era permitido por que os dois irmãos eram muito ciumentos e ninguém podia chegar perto dela para conversar. Num dia, numa conversa entre os animais, a cobra disse assim:

“Olha, pessoal, eu vou conquistar Anhyã-muasawê e vou casar com ela!”

Aí todo mundo achou um absurdo, porque era impossível, os dois irmãos estavam todo o tempo lá, eram muito ciumentos e não deixavam ela sair para longe.

Mas lá um dia a Anhyã-muasawê foi passear pela floresta e, nesse momento, a cobrinha que sabia onde ela ia andar ficou lá bem pertinho esperando ela passar, e antes de ela passar, a cobrinha ficou bem no meio do caminho, se pôs bem no meio do caminho. Quando a Anhyã-muasawê passou por cima dela, aí ela rapidamente tocou no calcanhar de Anhyã-muasawê e a partir desse momento ela ficou grávida. Naquele tempo não precisava, só esse gesto fazia a gravidez. Aí ela ficou grávida e apareceu grávida na casa dela, e os irmãos dela, que não gostaram nem um pouco, quiseram saber quem era o pai e descobriram que o pai era a cobra. Ficaram muito zangados, foram para a casa da cobra, despedaçaram a cobra, voltaram lá para a moça e mandaram ela tirar o bebê, ela não quis tirar de jeito nenhum, então eles mandaram ela ir embora e ela foi embora, expulsaram ela do paraíso, nós chamamos de Nusokén.

E ela teve o nenê. Era um menino e ela deu o nome de Kahu’ê, e esse menino cresceu ouvindo as histórias da mãe dele. Soube que lá no paraíso tinha a mais bela árvore e a mais gostosa fruta, e ele queria comer: se chamava castanheira, que dava castanha. A mãe proibiu por causa dos irmãos bravos que ela tinha. Ele ainda entrou uma vez, mas foi denunciado pelos vigias. Da segunda vez, quando o menino bem alegremente ia descendo, os guardas, mais que depressa, passaram a cordinha no pescoço do menino e o menino morreu.

No grito que ele deu, a mãe dele ouviu lá longe e saiu correndo atrás, correu, correu e, quando chegou, viu o menino morto no chão com o pescoço cortado e ela não pode mais fazer nada. Ela olhou e muito triste ela disse assim:

“Meu filho, os tios de você acharam que iam parar com a tua existência assim que te matassem, mas eles estão muito enganados, porque a partir da tua morte é que vai acontecer o grande bem para toda a humanidade!”, aí ela foi, lavou o corpo da criança todinho com ervas medicinais – ela era uma pajé – lavou bem lavado e disse o seguinte:

guarana “De agora em diante, meu filho, tu vai ser o Tuxaua (líder) dos sateré-mawé, ou seja, tu vai ser o melhor de todos, de tudo que existe na natureza”.

E falando isso, dizendo essas profecias, ela pegou o olho esquerdo do menino e foi plantar. Só que no lugar onde ela plantou era uma região de terra barrenta, e ela esperou nascer. Nasceu uma árvore, um arbusto. Ela esperou aquela planta crescer e, quando a planta cresceu, ela deu fruto, mas quando ela foi provar o fruto, ele era ruim. Aí ela deu o nome de Guaraná-Hôp, que significa guaraná falso, o falso guaraná. Ela voltou para lá e dessa vez tirou o olho direito do menino, plantou em terra preta e esperou crescer. Quando cresceu, deu um fruto bonito, com os olhos do menino. Ela provou do fruto e disse:

“Esse é o guaraná verdadeiro, Waraná Sése. Esse guaraná vai dar e ser tudo de melhor que existe em toda floresta.”

Foi assim dada a origem do guaraná.

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Gostou da história do guaraná? Quer mais? Veja os livros de Yaguarê Yamã:

Murugawa: Mitos, Contos e Fábulas do Povo Maraguá

O Caçador de Histórias = Sehay Ka´at Haría

Puratig: o Remo Sagrado

Sehaypóri – O livro sagrado do povo Saterê-Mawé

Urutópiag: a Religião dos Pajés e dos Espíritos da Selva

Obs: Se alguém aí do Brasil quiser me dar algum deles de presente, tô aceitando.

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Uma opinião sobre “Lenda do Wara’ná (Guaraná)

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