Terra Vermelha


Amanhã é o dia que os brancos resolveram que seria comemorado o dia do Índio. Mas como não há nada a comemorar em relação a isto, deixo passar batido, sem fazer comemorações ou coisas do gênero. Índio (se é que este nome é adequado) não precisa de dia, precisa ser considerado gente. Sim, pois eu descendo de gente, dos dois lados, dos que praticaram o genocídio e dos que sobreviveram ao genocídio, sou a mistura das raças e culturas. Não sou nem índia nem branca, talvez cabocla, mameluca, crioula, mas definitivamente, sou gente que descendo de gente. E por mais “branquinho(a)” que você seja, sabe-se lá se não teria alguma avó indígena? Cuidado! Não diga não com tanta segurança!

Mais apropriado do que fazer apologia a um dia inútil, acho que seja apropriado dar visibilidade aos que são pouco vistos. Sobre espanhóis e portugueses já há muitos a falar deles – assim como muitos já falaram e continuarão falando. Mas o que é que você, que está lendo estas linhas mal escritas, sabe sobre os meus parentes que são chamados popularmente de índios? Nada? Algo pouco claro e de qualidade duvidosa? Bem, quem sou eu para julgar…

Façamos o seguinte, vejamos um filme. Ao menos ando querendo ver este filme! Por esta razão, hoje vou falar de um filme que não vi e gostaria de ver.

Ambrósio Vilhalva, inspiração para o filme (foto de Claudio Santamaria).

Ambrósio Vilhalva, inspiração para o filme (foto de Claudio Santamaria).

O filme tem como título original Birdwatchers, mas em português é Terra Vermelha. Foi lançado em 2008, e até agora não chegou por aqui onde vivo desterrada. É uma co-produção ítalo-brasileira, dirigido por Marco Bechis, nascido no Chile e criado na Itália. Foi escrito pelo produtor e roteirista Luiz Bolognesi, inspirado na história real do cacique guarani-caiowá Ambrósio Vilhalva. Vilhalva liderou uma campanha para a retomada das terras ancestrais, no que hoje é uma fazenda de soja.

O ponto chave do filme são os suicídios de jovens guarani-caiowá. Foram em torno de 500 suicídios nos últimos 20 anos. Estes suicídios, segundo estudiosos, devem-se à perda da cultura original, a perda de referenciais. Os jovens ficam perdidos entre um mundo e outro e acabam por cometerem suicídio.

Tudo se passa no estado brasileiro do Mato Grosso do Sul, nos dias atuais. No filme, a trama começa a desenrolar após o suicídio de duas meninas. Neste ponto, a comunidade desperta para a necessidade de fazer algo para manter-se enquanto um povo com identidade própria, quase perdida pela interferência dos não índios. A perda gradual da cultura deve-se ao conflito na disputa de terras entre fazendeiros e indígenas. Para os guarani-caiowás as terras representam um patrimônio espiritual, e todos os males pelos quais passam terravermelhadeve-se à perda destas terras, deste espaço. Um grupo de guaranis-caiowá acampa em uma fazenda produtiva de soja, de onde o proprietário tenta expulsá-los com ameaças, jagunços e veneno (jogado de um avião).

Neste desenrolar, um jovem caiowá, Osvaldo, apaixona-se pela filha do fazendeiro, acentuando mais ainda o conflito entre indígenas e não indígenas. Mas o ponto central é a questão das terras indígenas, dos referenciais, do espaço onde viver uma cultura que corre o risco de perder-se definitivamente. Mais uma!

O filme conta com indígenas nos papéis principais, além de conhecidos atores não índios como Leonardo Medeiros (o fazendeiro), Matheus Nachtergaele (dono de uma venda), Claudio Santamaria (jagunço), Fabiane Pereira da Silva (filha do fazendeiro) e a italiana Chiara Caselli (mulher do fazendeiro). Entre os atores-indígenas presentes no filme está o próprio inspirador da obra: Ambrósio Vilhalva, que faz um dos personagens centrais da trama (ele mesmo). Também participaram Abrisio da Silva Pedro, Eliane Juca da Silva, Inéia Arce Gonçalves, Alicelia Batista Cabreira, Ademilson Concianza Verga, Nelson Concianza e Poli Fernandez Souza.

O silêncio constante dos indígenas em todo o filme tem uma lógica. Lembram daquele ditado que diz que o silêncio vale mais do que mil palavras? O diretor explorou-o, e o silêncio indígena diz muito, o silêncio acompanhado do olhar, da postura, da expressão que revela o que as palavras não dizem.

Fique com o trailer do filme que ainda não vi mas quero ver. Aproveite e aprenda um pouco sobre os indígenas que você desconhece, se for o caso.

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Fontes:

32ª Mostra Internacional de Cinema

CapitalNews

Cinema Terra

Cinema Uol

Revista Época

PS: não esqueçam de me enviar um dvd de presente para que eu possa ver.

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