Páscoas e seus símbolos


Ressurreição de Cristo, de Rafael Sanzio (c. 1500).

Ressurreição de Cristo, de Rafael Sanzio (c. 1500).

A primeira Páscoa que existiu foi uma celebração criada pelos judeus, para comemorar o fim da escravidão judaica e a passagem para a liberdade. Isto é relatado nos livros sagrados do judaísmo e das religiões cristãs, que no cristão é conhecido como Êxodo. Êxodo é nada mais nada menos que saída, e o livro relata a vida de Moisés, que liderou o povo judeu para fora do Egito, governado então por Ramsés II. Ainda que você não seja cristão ou judeu, já deve ter ouvido falar da abertura das águas do Mar Vermelho para a passagem do povo de Deus, que depois fecha-se e engole as tropas egípcias que os perseguiam, ou já ouviu falar das sete pragas do Egito, sendo a última a morte do primogênito. Também já deve ter ouvido falar sobre os 10 mandamentos da Lei de Deus, resultado de um contato entre Moisés e Deus no monte Sinai, que teria dado a Moisés as leis que deveriam reger o povo de Deus a partir de então. A Páscoa Judaica ocorre 163 dias antes do início do ano judaico, que difere do calendário que usamos. Este ano, coincidiu de as duas Páscoas serem celebradas ao mesmo tempo.

Kearat ha Pessach, com os alimentos símbolos da Páscoa Judaica.

Kearat ha Pessach, com os alimentos símbolos da Páscoa Judaica.

A Páscoa judaica é chamada de Pessach, e significa Passagem. Aliás, considerando a ressurreição de Jesus Cristo como uma passagem da morte para a vida, mais uma vez, há uma passagem a ser comemorada, a Páscoa Cristã. Assim como a Páscoa Cristã, a Judaica também tem seus símbolos, como o pão ázimo (pão sem fermento) que é consumido em toda a Semana Pascal, o Hagada shel Pessach, livro que narra a saída do Egito (o Êxodo dos cristãos), a Leil hasseder que é a noite da celebração pascal, e o Kearat ha Pessach que é um prato comemorativo que contém alimentos simbólicos. Estes alimentos recordam a passagem da escravidão para a liberdade: o osso simboliza o sacrifício; o ovo é a oferenda da festa, simbolizando também o luto; raiz forte são para lembrar os tempos da escravidão; um purê de maçãs, tâmaras e passas raladas, representando a argamassa com a qual trabalhavam enquanto escravos; e um legume ou vegetal (salsão, cebola, rabanete, batata cozida) que simboliza as lágrimas derramadas na época da escravidão.

Quanto à Páscoa Cristã, não vou me estender em narrar os acontecimentos que levaram à morte e ressurreição de Cristo, porque ainda que você não seja cristão, já deve estar cansado de ver toda Semana Santa, filmes e séries que relatam os acontecimentos que levaram a este momento significativo que deu origem à Páscoa Cristã. Para evitar uma overdose do mesmo assunto, vamos adiante.

As origens da Páscoa Cristã remontam à uma recordação dos últimos dias de vida de Cristo, feitos por seus seguidores. Com o passar do tempo, por volta de 325, no Concílio de Nicea, na época do imperador romano Constantino, acaba-se por fixar uma data para a celebração desta Páscoa. A data da Páscoa foi fixada como sendo no primeiro domingo após a primeira lua cheia, após o equinócio da Primavera no Hemisfério Norte. Por esta razão a Páscoa pode variar entre março e abril. Mas é baseado em calendários eclesiásticos, que nem sempre correspondem ao ciclo lunar real.

Ovos com pinturas tradicionais ucranianas.

Ovos com pinturas tradicionais ucranianas.

A Páscoa, apesar de, por muita gente hoje em dia só ser lembrada pelos ovos de Páscoa, tem vários símbolos que a acompanham, entre eles os tais ovos de Páscoa. Os ovos foram adotados como símbolos pascais nos princípios do Cristianismo, por representar uma nova vida. Hoje recebemos ou damos de presente ovos de Páscoa, já não com este simbolismo. Mas ainda existem culturas que mantêm a tradição de entregar este presente como símbolo de uma nova vida – ovos de galinha cozidos e coloridos, que são entregues diretamente ou escondidos para serem encontrados. Esta tradição dos ovos serem presenteados não é criação cristã. No Oriente Médio ainda na Antigüidade, eram pintados e dados de presente. Na China, há mais de 2000 anos já existia a tradição de dar ovos de pata pintados com cores bem vivas. Mas a tradição na Europa, cultura da qual em grande parte, deriva a nossa cultura tupiniquim, a tradição já existia antes do cristianismo, nas religiões pagãs, que adoravam por esta época, as deusas da fertilidade. Os ovos coloridos eram um símbolo de fertilidade. Em inglês Páscoa diz-se Easter, que deriva do nome de uma destas deusas da fertilidade: Eostre. Ovos de chocolate só passaram a existir na Inglaterra do século XIX, espalhando-se para todo o planeta nos anos seguintes, sendo hoje o ovo pascal mais presenteado.

Coelho: símbolo pascal.

Coelho: símbolo pascal.

Mas temos também o Coelho! Quando era criança me perguntava por que era um coelho e não uma galinha, já que são elas que botam ovos – ainda que não sejam de chocolate. Pois aqui está a explicação. Na verdade não era o Coelho o símbolo pascal, e sim uma lebre (um animal semelhante, porém distinto). A lebre era considerada um animal sagrado e também representava fertilidade nas culturas pré-cristãs. A idéia do coelho de Páscoa só surge pelo século XVIII, graças a imigrantes alemães que foram para os E.U.A..

No Brasil, temos a tradição de na Páscoa comer a Colomba Pascal. Colomba é nada mais nada menos que pomba em italiano. Aprendemos esta palavra com os milhões de italianos que imigraram ao longo dos séculos XIX e XX para o Brasil. Mas a pomba em si tem seu simbolismo. Não se esqueçam, cristãos, do Espírito Santo. Ele mesmo! Como ele é representado? Por uma pomba branca. Entenderam porque a Colomba tem a forma de uma pomba?

Além disso, os cristãos mais tradicionais, durante o período conhecido como Quaresma, que começa na Quarta-Feira de Cinzas, ficam sem consumir carne vermelha. No Domingo de Páscoa, esta “proibição” acaba, podendo-se comer carne vermelha o quanto se deseje. Por esta razão, o almoço da Páscoa, é uma reunião familiar regada e recheada de uma mesa farta, coroada por algum prato de carne vermelha, que varia de país para país.

Prendendo-nos aos símbolos pascais da Igreja Católica, também podemos lembrar da Cruz, que representa o meio pelo qual o filho de Deus foi sacrificado, como um cordeiro em oferenda, para salvar a humanidade de seus próprios pecados. Sacrifício esse que culmina com sua Ressurreição. Eu falei cordeiro em oferenda, porque o cordeiro também é outro símbolo da Páscoa. É o próprio Cristo, o cordeiro de Deus, sacrificado para salvar todo o rebanho de Deus. Além disso, o pão e vinho também são símbolos pascais, pois não apenas na Missa em si, mas a todo o momento, representa o corpo e sangue de Cristo sacrificado, ritual realizado pela primeira vez, na Última Ceia, que é lembrada na noite da Quinta-Feira Santa.

Temos também o Círio. Para quem nunca foi a uma missa ou nunca prestou atenção, é uma vela em tamanho grande que é acesa no Sábado de Aleluia, representando a Cristo como a luz dos povos. Nesta vela estão gravadas duas letras gregas, Alfa e Ômega, a primeira e última do alfabeto grego. Estas duas letras gravadas representam uma mensagem simples: Deus como o princípio e o fim. O Sábado de Aleluia é o sábado do abandono, em que o rebanho de Deus encontra-se sem Deus, mas esperando por ele e sua ressurreição. É o sábado da espera. Neste sábado, a missa é uma renovação da fé cristã, onde os presentes à missa renovam os votos feitos no batismo. Todas as luzes da Igreja são apagadas, e é acesa uma fogueira. A partir desta fogueira é aceso o Círio, e a partir do Círio são acesas todas as velas dos presentes. Todos estes fiéis, que souberam esperar pela salvação, são presenteados com a ressurreição de Cristo no Domingo de Páscoa, ressurreição esta que representa a salvação da humanidade.

A Páscoa é o dia final de todo um período festivo religioso que começa na Quarta-Feira de Cinzas, passando pela Quaresma, chegando à Semana-Santa, ao Sábado de Aleluia, e culminando no Domingo de Páscoa.

Se você é judeu ou cristão, Feliz Páscoa! Se não, mas gosta dos ovos de Páscoa assim mesmo, cuidado, chocolate em excesso faz mal! E Feliz Páscoa também!

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