A lenda do Ipupiara


Estátua de Ipupiara no Parque Hipupiara em São Vicente.

Estátua de Ipupiara, no Parque Hipupiara, na cidade de São Vicente, São Paulo.

Em 1564, nos conta Pero de Magalhães Gândavo, matou-se na Capitania de São Vicente (atual estado de São Paulo, Brasil) um ser sobrenatural.

Diz Gândavo:

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Foi algo tão novo, e pouco corriqueiro aos olhos humanos, a visão daquele feroz e espantoso monstro marinho, que nesta Província mataram no ano de 1564. Ainda que haja relatos sobre ele pelo mundo afora, não deixarei de contar aqui novamente, relatando na íntegra tudo o que aconteceu. A maior parte das imagens – ou quase todas – que fizeram mostrando o horrendo aspecto do monstro, não mostram como ele realmente era. Conta-se como se deu sua morte de diferentes maneiras, sendo a verdade apenas uma, a qual é a seguinte:

“Na Capitania de São Vicente, tarde da noite, quando todos começavam a adormecer, saiu para um passeio noturno uma índia, escrava de um capitão. Quando a índia lançou os olhos a uma várzea junto ao mar, viu nela andando este monstro. Movia-se de um ponto a outro, com passos e trejeitos incomuns, e dando gritos horríveis de quando em quando.

Espantada e quase fora de si, a índia foi até o filho do capitão, cujo nome era Baltasar Ferreira. Disse-lhe o que havia visto, acreditando ser alguma visão diabólica. Mas o filho do capitão, como era hábito dos brancos – que desconfiavam do que os índios lhes diziam -, não deu crédito às palavras da escrava índia. Ainda deitado em sua cama, mandou-a sair novamente para que olhasse novamente a criatura e visse que não era o que ela pensava. A índia obedece sua ordem. Saiu e voltou mais assustada, dizendo e repetindo outra vez que andava por ali uma coisa tão feia que só podia ser o demônio.

Então, Baltasar levantou-se rapidamente, pegando em uma espada que tinha próximo da cama. Vestindo apenas a roupa com a qual dormia, saiu porta afora, certo de que talvez fosse apenas alguma onça ou outro animal da terra, certo de que a índia tinha se equivocado.

Olhando para o lugar que a índia lhe apontava, viu pouco nítido o vulto do monstro ao longo da praia, mas sem ter certeza do que realmente era, pois estava muito escuro. O animal que avistava era muito diferente dos que conhecia. Aproximando-se para vê-lo melhor foi visto pelo monstro que levantou a cabeça e, assim que o viu, começou a caminhar em direção ao mar do qual viera. Foi quando Baltasar percebeu que era um animal marinho.

Antes que o monstro conseguisse voltar ao mar, Baltasar colocou-se diante dele. O monstro vendo que ele bloqueava seu caminho levantou-se, ficando de pé como um homem, apoiado nas barbatanas de seu rabo. Baltasar acerta-lhe com a espada na barriga e desvia-se rapidamente, escapando de ficar por debaixo do monstro, que caía no lugar onde encontrava-se o rapaz. Escapou de ser esmagado, mas não do grande jorro de sangue que saiu da ferida e acertou-lhe no rosto, quase cegando-o. O monstro, ferido e gritando, arrastou-se com a boca aberta, pronto a cravar unhas e dentes em seu atacante. Baltasar dá-lhe outro golpe profundo na cabeça, ficando o monstro já muito débil. Tenta novamente chegar ao mar.

Ipupiara sendo morto por Baltazar Ferreira, em ilustração do livro História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo.

Ipupiara sendo morto por Baltasar Ferreira, em ilustração do livro História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gândavo.

É então que aparecem alguns escravos alarmados pelos gritos da índia, que estava a ver tudo. Aproximando-se do monstro o encontraram já quase morto, levando-o à povoação onde, no dia seguinte, ficou exposto aos olhos de toda a gente da terra.

Baltasar mostrou-se um bravo homem neste combate – era considerado por todos da terra como um rapaz muito esforçado. Saiu muito perturbado e desorientado desta batalha, sem alento com a visão deste animal medonho. Quando o pai perguntou-lhe o que aconteceu, não soube responder. Ficou assustado, sem falar coisa alguma por muito tempo.”

O retrato deste monstro é o que se vê na imagem. Tinha uns 15 palmos de comprimento, cheio de pelos pelo corpo, e no focinho algo como cerdas grandes formando um bigode.

Os índios locais chamam-lhe, em sua língua, Ipupiára, que quer dizer demônio d’água. Já foram vistos outros como este nestas partes, mas muito raramente. Também devem existir muitos outros monstros diferentes que se escondem no abismo deste imenso e espantoso mar, não menos estranhos e admiráveis. Tudo é possível. Pois os segredos da natureza não foram todos revelados, por mais que se possa negar e achar impossíveis certas coisas das quais nunca se ouviu falar.

– Adaptação livre do original “Do monstro marinho que se matou na Capitania de Sam Vicente, anno 1564”, do livro História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gândavo (1575).

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leaomarinhoGândavo não nos conta, mas dizem que a escrava índia, chamada Irecê, saiu furtivamente à noite para encontrar-se com seu amado Andirá – que acabou devorado pelo terrível monstro.

Outros cronistas, como Fernão Cardim ou Jean de Léry, relatam histórias contadas pelos nativos sobre encontros com o Ipupiara, ou outros seres marinhos identificados posteriormente com ele.

Ao que parece o valoroso Baltasar Ferreira, combateu bravamente com um leão-marinho, vindo da Patagônia, extremo sul do continente americano, seguindo as correntes de água fria em busca de alimento. Este fato é bem comum, sendo que não apenas leões-marinhos mas outros animais fazem este percurso e acabam pelo litoral paulista. Confira a reportagem Pingüins e lobo-marinho da Patagônia são achados em Santos.

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4 opiniões sobre “A lenda do Ipupiara

  1. muito bom…
    Eu estava por aí fuçando em alguns sites alguma coisa concreta sobre a lenda do Ipupiara para o meu trabalho de sociais.
    parabéns!!
    valeu pelas informações *–*

    bjos.

  2. Esse site me ajudou muito, eu estava fazendo meu trabalho sobre o folclore, e tinha que pesquisar sobre o Ipupiara, e fui nesse site, ou seja, que me ajudou demais! bjoss!

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