A cortiça


Sobreiro (Quercus suber) no Algarve, Portugal (Hannes Grobe)

Sobreiro (Quercus suber) no Algarve, Portugal. (Hannes Grobe)

Sabe a rolha da garrafa de vinho? É feita de cortiça, a casca de uma árvore chamada Sobreiro (Quercus suber). Ao menos ainda há garrafas de vinho fechadas com rolhas de cortiça, apesar da expansão do uso de rolhas feitas de outros materiais sintéticos, como o plástico.

O Sobreiro, da mesma família do carvalho, é uma árvore nativa principalmente do sul da Península Ibérica. Pode chegar aos 20 metros de altura. Um sobreiro demora cerca de 40 anos para ser economicamente viável na extração da cortiça. A cortiça só pode começar a ser retirada do Sobreiro quando o tronco da árvore atinge uns 70 cm de diâmetro. Entre cada retirada há um período de 8 a 10 anos em que espera-se o crescimento de nova casca. Nas árvores é marcado o ano em que se poderá novamente retirar a cortiça.

Desde tempos imemoriais, é cultivada para a retirada da casca, utilizada tradicionalmente para a fabricação de rolhas. Há referências do uso da cortiça, há 5 mil anos, como vedante e bóias. Mas outros usos foram e continuam sendo dados à cortiça, como na construção civil, onde é utilizada como isolante térmico ou sonoro, e revestimento de pisos e paredes. Outras aplicações são em solas de sapatos, mobiliários, entre outros fins industriais, como na indústria automobilística e aeroespacial. Mas há inúmeros outros usos para a cortiça, material 100% reciclável. Na moda a cortiça também é utilizada, na fabricação de acessórios, malas e bijuterias. Isto pode ser visto aqui , aqui e aqui – neste último também pode-se ter um histórico da cortiça mais detalhado.

Extração da Cortiça (Siobhan Mitchell)

Extração da Cortiça (Siobhan Mitchell)

Foi através de uma lâmina de cortiça, que pela primeira vez na História, foi observada uma estrutura que passou a ser chamada de célula. O inglês Robert Hooke (1635 – 1703), experimentando um microscópio recém desenvolvido, observa vários materiais, entre eles a cortiça. Ao observá-la vê que é composta de pequenas cavidades às quais dá o nome de células (pequenas celas). Esta experiência está descrita em um livro de 1664, chamado Micrografia. O que parece que não sabia Hooke, é que na verdade a cortiça é nada mais nada menos do que casca de árvore morta, tecido vegetal morto, e que aquelas cavidades eram células mortas.

Os sobreiros servem principalmente para a produção da cortiça, mas também como complemento da alimentação do gado, graças às folhas que caem ou são cortadas. A criação de gado nos montados de sobreiro é uma outra atividade econômica tradicional desenvolvida nestes terrenos. A madeira não tem utilidade na carpintaria ou marcenaria por ser muito dura, porém dá uma excelente lenha por ter um alto poder de combustão.

A exploração da cortiça além de permitir a continuidade de uma atividade econômica tradicional, ajuda na manutenção dos montados, evitando a desertificação dos terrenos. Com isto acaba por também preservar várias espécies de animais e plantas ameaçados de extinção, além de evitar os fogos florestais. Pelo fato de o Sobreiro ser uma árvore que se adapta a solos que não permitem muitas outras atividades econômicas viáveis, não tem importância apenas pela cortiça, mas por todo um sistema e modo de vida que ajuda a preservar.

Portugal é o maior exportador de cortiça, rondando em torno de 1 bilhão de euros, o montante arrecadado com esta atividade. Portugal e Espanha são responsáveis por 75% da cortiça produzida no mundo. Existem cerca de 600 empresas em Portugal na exploração da cortiça, e pouco mais de 200 na Espanha. Mais informações sobre o setor podem ser obtidas no site da APCOR (Associação Portuguesa de Cortiça) ou no da FALCOR (Fundación Andaluza del Alcornoque y el Corcho).

Rolhas de cortiça

Rolhas de cortiça

Há todo um controle para a extração e industrialização da cortiça. Isto é, na verdade, essencial na produção das rolhas das garrafas de vinho, pois para quem bebe vinho tinto há algumas décadas, é sabido que alguns tem um gosto não muito agradável, de mofo mesmo. Porém, estudos recentes, afirmam que não é culpa da rolha o gosto a mofo, mas de colheitas (de uva) contaminadas. Todos os cuidados na extração e produção da cortiça não impediram que houvesse uma crise no setor corticeiro, levando a uma perda considerável no mercado para rolhas feitas de produtos sintéticos, não apenas por supostamente alterarem o sabor final do produto mas porque as rolhas de plástico tendem a ser mais baratas, a princípio, já que depois acabam por ter um custo ambiental muito alto.

Devido à retração do mercado, uma empresa portuguesa, líder na produção de cortiça – Corticeira Amorim – lançou uma campanha em 2008 para… salvar o Miguel! Sim, salve o Miguel! Foi este o nome dado ao Sobreiro nesta campanha publicitária que tem como garoto propaganda Rob Schneider. A propaganda em si não retrata um Portugal real, é mais uma mistura de México hollywoodiano com África do Norte hollywoodiana, fora que a trilha sonora não reproduz os sons deste país. No caso desta campanha fala-se apenas do uso da cortiça nas rolhas de vinho (o produto no qual mais é empregada a cortiça). Mas fica aqui para quem quiser conferir, afinal tem lá a sua graça.

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