Freixo de Espada à Cinta


Freixo

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Uma vez, há anos atrás, quando ainda vivia em Salamanca (Espanha), atravessando a fronteira com meu companheiro (português, diga-se de passagem), fui parar em uma localidade portuguesa com um nome super curioso: Freixo de Espada à Cinta.

Era um dia de tempo ruim, garoava, estava um pouco frio, e eu ali perdida entre montes espanhóis e portugueses. A estrada não era das melhores, apesar da paisagem ser simpática. Nem eu nem meu companheiro sabíamos muito bem onde chegaríamos. Acabamos por chegar à fronteira por uma rota pouco habitual. A que costumávamos fazer era rumo a Vilar Formoso, pertencente ao concelho de Almeida no Distrito da Guarda. Entramos em Portugal pelo distrito da Guarda, mas no extremo norte, no concelho de Almeida ainda. Seguindo de carro um pouco mais ao norte, chegamos ao concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Mais um pouco ao norte ainda, acabamos por chegar ao Distrito de Bragança, e a esta localidade de nome curioso.

Por quase todo o caminho, avistava Espanha do outro lado do rio, e mal via Portugal, pois a estrada que seguíamos não favorecia a paisagem portuguesa, mas via-se sempre o rio lá embaixo. Duro foi descobrir que rio era aquele. Eu tinha certeza que era o Douro, porém era o Águeda. Teimei e muito que era o Douro. Mas era o Águeda. Só me convenci disto, ao ler em Almeida uma placa com o nome do rio.

Enfim, depois da localização geográfica e descrição de parte da rota percorrida, chegamos a Freixo de Espada à Cinta. Eu não me conformava que uma cidade (na verdade uma vila, pois cidade em Portugal não é o mesmo que cidade no Brasil) tivesse um nome tão… estranho. Não vi direito a cidade (vila), não apenas pela garoa que caía, mas também porque estava concentrada no bendito nome do lugar. Freixo de Espada à Cinta. Dei risada do nome, fiz piada:

Mas vocês portugueses põem cada nome nos lugares…

Naturalmente não levei em consideração nomes tupiniquins como Ibitipoca, Caraguatatuba, Pindamonhangaba entre outros, pois, por mais estranhos que sejam, estes nomes para mim são normais. O “anormal” era Freixo de Espada à Cinta.

Uma vilinha tranqüila aparentemente, com o que resta de um castelo provavelmente do século XII ou anterior, e onde pela primeira vez vi uma azeitona no pé. Aliás, mais do que a vila e seus encantos, a grande descoberta para mim foi a azeitona no pé. Não me esqueço até hoje do muro de pedra, numa esquina bem fechada, por onde caía o galho da oliveira, carregado de pretas azeitonas que me convidavam para provar uma azeitona diretamente do pé. Meu companheiro não permitiu que eu fizesse tal coisa, o que me deixou um pouco triste. Mas algum tempo depois, ao provar uma azeitona tirada do pé, descobri não ser uma experiência muito agradável.

. Aliás, mais do que a vila e seus encantos, a grande descoberta para mim foi a azeitona no pé. Não me esqueço até hoje do muro de pedra por onde caía o galho da oliveira, carregado de pretas azeitonas que me convidavam para provar uma azeitona no pé. Meu companheiro não deixou que eu fizesse tal coisa, o que me deixou um pouco triste. Mas algum tempo depois, ao provar uma azeitona tirada do pé, descobri não ser uma experiência muito agradável.

Por muito tempo não me conformei que um lugar tivesse este nome tão pitoresco, e minha implicância fez-me procurar a razão pela qual esta vila assim se chamava. Após descobrir a origem do nome do lugar, não nego que até comecei a simpatizar com ele. Afinal, quando entendemos algo, aceitamos melhor.

Há várias versões para a origem do nome. Uma delas seria que um homem chamado Feijão (possivelmente galego), primo de São Rosendo, teria fundado a vila. Como costumava usar um freixo e uma espada em seu escudo de armas acabou por tornar-se este o nome do lugar. Feijão teria morrido por volta de 977, curiosamente, São Rosendo também.

Outra versão mais põe São Rosendo na história. No caso, um outro primo de São Rosendo, de nome incerto, estaria sendo perseguido por um grupo de aventureiros. Como já estava quase sem escapatória, escondeu-se entre os ramos de um freixo, no qual teria pendurado sua espada. Os tais aventureiros, ao avistarem o freixo com a espada à cinta, entraram em pânico com esta visão e fugiram. Penso que a idéia de combater com um freixo deve ter sido terrível para eles. Depois de se salvar dos inimigos com a ajuda do freixo, este primo de São Rosendo teria dado início a esta povoação.

Outra versão mais, fala de um capitão godo, de nome Espadacinto (em algumas versões Espadacinta), que cansado da batalha, ali chegou e pendurou sua espada no freixo, deitando-se em sua sombra para descansar. Após este descanso revigorante teria dado ao freixo seu próprio nome. Um pouco narcisista esta versão. Pena não ter encontrado qualquer informação sobre o tal Espadacinto.

Mas há outra mais! Há outra versão ainda, que trata da renomeação da atual vila de Freixo de Espada à Cinta como sendo obra de um sonho de D. Dinis. D. Dinis (1261 a 1325) foi o sexto rei de Portugal. Além dos filhos legítimos, teve vários filhos ilegítimos, aos quais distribuiu altos cargos. Este fato levou D. Afonso IV, então ainda infante, a entrar em atrito com o pai. D. Dinis viu-se obrigado a incursionar pelo norte de Portugal impodo a ordem em seu reino, abalada pela rebeldia (ou discordância) do filho. Em uma destas viagens para reposição da ordem, viu-se D. Dinis diante de um belo freixo à beira de um caminho, com uma sombra majestosa na qual não resistiu e deitou-se para descansar, colocando sua espada no tronco da árvore, e sendo deixado só por seus companheiros que se afastaram para montar acampamento.

D. Dinis adormeceu e começou a sonhar. A seu lado apareceu uma figura de um velho de longas barbas brancas com sua espada à cinta. D. Dinis começa a conversar com este fantasma que lhe explica ser o espírito do velho freixo no qual o rei descansava à sombra. Segundo este mesmo espírito do sonho, cada vez que um rei português pendurasse sua espada no tronco do freixo, o espírito seria libertado e poderia reviver por alguns momentos. Mas este espírito do velho freixo um dia tinha sido também um rei, mas rei visigodo, que havia se recostado à sombra do mesmo freixo para descansar. Este velho e temido rei fora surpreendido pelos inimigos e morto. Começaram então a conversar, o velho rei visigodo e o rei português. No entanto, em meio à conversa D. Dinis acorda sem terminar de ouvir os sábios conselhos que o velho lhe dava. Nunca mais voltaria a ver o velho rei, porém ao acordar apercebeu-se do quanto ele e o freixo se pareciam. D. Dinis teria contado este sonho aos amigos mais chegados, e estes a outros, e os outros a outros mais. De tal forma a história se espalhou, que com o passar do tempo, a localidade acabou por ser chamada de Freixo de Espada à Cinta.

A localidade já era habitada muito antes da passagem de D. Dinis, no entanto, teria ganho o nome atual após o sonho do rei. Antes, era chamada apenas de Freixo, e provavelmente originou-se à volta do castelo do qual ainda resta a torre. Agora, tenho vontade de voltar a Freixo de Espada à Cinta, não para rir de seu nome, mas para buscar, próximo à igreja matriz (bela igreja diga-se de passagem), algum resquício do velho freixo, pois dizem que é próximo a igreja que ele existiu, o freixo do velho rei visigodo, frondoso, rodeado de banquinhos de pedra.

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