Darwin Awards e Charles Darwin


Modéstia à parte me acho uma pessoa inteligente (normal), bem informada (mais ou menos), culta (em certa medida), com uma considerável cultura geral (acima da média, mas também não é assim aquela maravilha), etc. Gosto de falar e preocupar-me com assuntos sérios, mas também gosto da burrice ou, digamos de outra forma, daqueles momentos em que o cérebro acidentalmente (ou por falta de uso) deixa de ter uma função prática em nossas vidas e passa a ser um mero enfeite (ou recheio) que carregamos acima do pescoço. Dizendo de outra forma ainda, gosto de rir da estupidez humana. Como gosto de ver a desgraça alheia, já que não erro… quer dizer, normalmente não erro… ou melhor, às vezes não erro… melhor não pensar nisto. Voltando, como gosto de ver a desgraça alheia como todo ser humano normal mas moralmente condenável, andei passeando pelo Youtube e descobri alguns vídeos muito interessantes (no sentido irônico). É uma série de vídeos intitulados Darwin Awards. Estes vídeos mostram mortes, ou quase mortes, ou momentos críticos, protagonizados por seres humanos que, por momentos, demonstraram uma grande estupidez. Como não sei inglês (os dois anos de curso não foram suficientes para ter um domínio do idioma que eu possa dizer que sei), procurei saber o que significava aquilo de Darwin Awards. E descobri.

Darwin Awards é uma premiação irônica à estupidez humana – ou sua capacidade autodestrutiva -, premiando exemplos que provam que Darwin teria razão quando elaborou a teoria da Seleção Natural. Ou seja, os premiados (normalmente póstumos) com a forma estúpida como morreram ou esterilizaram-se teriam ajudado a melhorar a raça humana ao eliminar seus genes da face da terra.

Esta premiação, segundo alguns, existe desde os anos 80, enquanto outros afirmam que é desde os anos 90 do século XX. No site oficial dos prêmios, onde há todos os casos premiados desde 1995 e relatos de cada história, há casos divididos em diferentes categorias: os Darwin Awards propriamente ditos (campeões dos prêmios, com história comprovada de morte ou auto-esterilização), as Menções Honrosas (casos comprovados de situações bizarras mas que não levaram à morte ou auto-esterilização, ao menos imediata em alguns casos) e as Lendas Urbanas (histórias que carecem de comprovação mas são muito populares). Além dessas há também casos antigos, anteriores ao início da premiação, e até mesmo de séculos anteriores.

O grande vencedor do ano de 2008 é meu conterrâneo, um brasileiro destemido, que acabou protagonizando uma morte bizarra que, mesmo passados vários meses, ainda gera muitas piadas (nacionais e internacionais). O nome dele é Adelir de Carli, também conhecido como Padre Voador, padre católico da cidade de Paranaguá, estado do Paraná (Brasil). Vejam só como tudo começou neste vídeo anterior à aventura.

Que fique claro que ele não agiu sozinho. Teve muita ajuda para fazê-lo, e muita gente tentando chamá-lo à razão.

E por fim, deu nisto. A viagem de balões iniciada em Paranaguá, Paraná, acabou no IML de Macaé, Rio de Janeiro.

“Tripulantes do rebocador Anna Gabriela, da Companhia Brasileira de Offshore, a serviço da Petrobras, encontraram restos mortais a 100 quilômetros da costa de Maricá, no Rio de Janeiro, e desconfiaram que seriam do padre Adelir Antônio de Carli, que desapareceu no dia 20 de abril em Santa Catarina, após decolar preso a balões de festa do litoral paranaense, informou a assessoria de imprensa da estatal.” (JC OnLine)

Não se pode negar que foi uma tragédia (e meus sinceros respeitos à família e aos fiéis). Mas seguindo o raciocínio dos Prêmios Darwin (e pelos vídeos vistos anteriormente), de certa forma, é incontestável o merecimento da premiação ao padre Adelir. Como consta no site, no caso de padres o prêmio é duplicado, já que por fazerem o voto de castidade, acabam por voluntariamente eliminarem seus genes do banco genético sem precisarem morrer ou serem castrados.

Voltando aos Darwin Awards, foi feito um filme, em 2006, inspirado nos prêmios. Em tom de comédia (negra), relatam algumas histórias que podem ser encontradas no site. No elenco figuram Winona Ryder, Joseph Fiennes entre outros, e foi dirigido por Finn Taylor. Fica aqui o link do site do filme para quem não viu ou nunca ouviu falar.

Charles Darwin

Charles Darwin

Mas quem é este Darwin afinal? Neste ano de 2009, faz 200 anos que nasceu Charles Darwin, o naturalista britânico responsável pela elaboração da teoria da evolução das espécies e seleção natural, também conhecida como Darwinismo. Dizendo de forma bem simples, ele foi o primeiro a afirmar a possibilidade de o homem ser originário de um macaco, e não de Adão e Eva, mediante a intervenção divina, como se afirmava até então.

Darwin levou praticamente uma vida para formular suas teorias, com todo o cuidado, pois sabia que seriam rejeitadas se não fossem muito bem fundamentadas. Depois de décadas de estudos, acabou por publicar em 1859 “A Origem das Espécies” (título original On the Origin of Species by Means of Natural Selection), em espanhol El Origen de las Especies. Este livro de 150 anos de existência é considerado um dos mais importantes na história da Biologia. Este ano é possível a qualquer mortal consultar toda a obra de Charles Darwin, o que até então era privilégio dos eruditos. Foi disponibilizada toda sua obra no site The Complete Work of Charles Darwin Online, em inglês. Além dos manuscritos dos livros, anotações e ilustrações, há uma biografia sobre o naturalista acompanhada de fotos.

Voltando à origem das espécies e à seleção natural, resumindo, Darwin afirma que o crescimento populacional tem relação com o potencial reprodutivo das espécies que, por sua vez, está regulado às condições ambientais (disponibilidade de alimento, predadores potenciais, doenças e locais de reprodução). Os organismos de uma mesma espécie podem manifestar diferentes respostas a uma determinada condição, o que pode levar a uma situação favorável ou não a toda sua existência. Isto é, a capacidade de adaptação de um organismo ao meio em que vive determina sua sobrevivência ou extinção. Conforme estes organismos se adaptam a novas condições, incorporam estas adaptações, e elas são transmitidas a seus descendentes (transferência hereditária). Ao longo das gerações, inúmeros indivíduos extinguem-se sem originar descendência, pois os que sobrevivem são os mais bem adaptados ao meio e aos demais indivíduos de sua própria espécie, tendo estes últimos maior capacidade de perpetuarem-se. As características dos mais bem adaptados, portanto, permanecem nas gerações seguintes e continuam sendo aprimoradas nas gerações posteriores.

Estas idéias apresentadas por Darwin foram muitas vezes utilizadas para justificar medidas políticas totalitaristas e racistas, apesar de o próprio Darwin nunca ter tido qualquer ligação a nenhum movimento político, nem defendido suas próprias idéias aplicadas a ideologia alguma. Mesmo antes de Darwin já se falava na superioridade de algumas sociedades em relação a outras, sendo que suas idéias serviram como uma espécie de fundamentação científica para estas teorias. Independente de usos pouco adequados, a meu ver, da teoria de Darwin sobre a evolução das espécies e da seleção natural, o certo é que sua teoria influencia a ciência em diversos ramos até os dias de hoje. Tanto na Antropologia como na Matemática, áreas tão diferentes, a teoria darwinista é empregada e testada, sendo utilizada por vezes para provar ou fundamentar outras teorias derivadas.

No mundo atual, não creio que se possa dizer que a sobrevivência da espécie humana esteja condicionada somente a fatores naturais, mas sim que o homem a controla, na medida em que cria mecanismos de controle de natalidade, adaptabilidade a diferentes meios hostis, e tecnologias que melhoram a qualidade de vida e sua longevidade. Mas então voltamos aos prêmios Darwin, e lembramos que muitos dos seres bizarros que levaram os prêmios ou menções honrosas – e nos fazem rir com a sua desgraça – parece que de certa forma acreditavam neste controle total do homem sobre si mesmo e suas criações. Na verdade creio que o maior feito destes prêmios e de Darwin é lembrar-nos que não somos seres tão superiores assim, que somos mortais e nem sempre deveríamos ser cegamente crentes em nossas crenças, incluindo a que temos em nossa superioridade. Afinal, não passamos de macacos com menos pêlos.

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