Um galo cantou depois de morto


Galo de Barcelos (José M. S. Ferreira)

Galo de Barcelos (José M. S. Ferreira)

Aqui em Portugal há um símbolo da cultura portuguesa que nasceu de uma lenda relacionada ao Caminho de Santiago. É o famoso Galo de Barcelos. Esta cidade, Barcelos, está localizada no distrito de Braga, bem próximo da fronteira com a Galícia (Espanha).

Mas vamos à lenda.

Segundo a versão portuguesa, um galego parou em Barcelos a caminho de Santiago de Compostela para pagar uma promessa, feita a Santiago (São Tiago) quando um irmão seu encontrava-se gravemente doente.

Neste ponto a lenda diverge e ganha variantes. Numa o galego por não gastar muito e andar sempre com uma grande bolsa é acusado de roubo pelo dono da estalagem onde estava hospedado. Noutra versão uma moça que trabalhava na estalagem apaixona-se pelo galego, mas como ele não corresponde, ela coloca um vaso (ou uma valiosa peça de prata) em sua bolsa e depois denuncia-o por roubo. Em outra mais, havia um crime por resolver em Barcelos e, como não encontravam o culpado, quando aparece o galego, acabam por porem-lhe a culpa do crime não resolvido.

Depois a lenda torna-se uma só novamente. O galego, forasteiro, desconhecido de todos portanto, não tem quem o defenda. É considerado culpado e condenado a morrer enforcado.

Mas é concedido ao condenado um último desejo. Ele pede para falar com o juiz que o condenou. É levado à presença do juiz, que encontrava-se em um banquete com amigos. Volta a afirmar ser inocente, e ninguém acredita nele. No desespero, reparando no que estava sendo servido ao jantar (um galo assado), diz então a famosa frase (que repete-se quase igual em todas as versões):

É tão certo que estou inocente como é certo este galo cantar quando me enforquem.

Riram-se do infeliz, mas evitaram comer o galo.

Na hora do enforcamento, segundo todas as versões da lenda, o galo assado levanta-se e canta!

Então o juiz corre e impede que o galego seja enforcado. O detalhe é que (segundo algumas versões), por alguma razão misteriosa o homem ja balançava na forca, mas o nó não apertava-lhe o pescoço milagrosamente, impedindo que fosse estrangulado.

O galego libertado e absolvido pelo galo assado cantor, segue seu caminho até Santiago de Compostela para pagar a promessa. Teria voltado a Barcelos anos depois, e erguido um monumento (o Cruzeiro do Senhor do Galo) em honra da Virgem e do Santo Apóstolo. Este Cruzeiro, hoje, encontra-se no Museu Arqueológico de Barcelos.

Só há um detalhe que não compreendo nesta lenda. O que um galego faz em Portugal a caminho da Galícia? Vivia em Portugal? Sim, isto me é mais incompreensível do que o galo assado cantar.

Outra coisa interessante nesta história é marcar de alguma forma a existência de um Caminho português de Santiago que só fui descobrir que existia após alguns anos vivendo em Portugal. Achava antes, que só existia o que vai da fronteira com a França até Santiago de Compostela. Mas quando vivi na Espanha, no ano Xacobeo (ou Ano Santo Compostelano), que foi em 2004, falaram de várias rotas por toda Espanha, de caminhos menos famosos do que o feito pelo escritor Paulo Coelho. Santa ignorância a minha. Ah, ano que vem (2010), novamente, será ano Xacobeo.

Mas na Espanha há também uma história de galo que canta depois de morto para salvar um peregrino à caminho de Santiago de Compostela. Aliás, galo e galinha!

Galo e galinha na Catedral de Santo Domingo de la Calzada

Galo e galinha na Catedral de Santo Domingo de la Calzada (EFE)

Na versão espanhola, a cidade onde o milagre ocorre chama-se Santo Domingo de la Calzada, e fica na província de La Rioja (comunidade autónoma de La Rioja). Apenas para localizar, La Rioja fica ao norte, próximo do País Vasco, digamos que, quase que, a meio caminho entre a fronteira da França e Santiago de Compostela. A cidade de Santo Domingo de la Calzada era um ponto de passagem de peregrinos, e foram nela erguidas construções para melhorar o acesso e a hospedagem dos peregrinos a caminho de Santiago.

Vamos à lenda espanhola.

Nesta versão, uma família alemã (pai, mãe e o filho) está a caminho de Santiago e pára em Santo Domingo de la Calzada. No local em que se hospedam, uma jovem, filha do dono da casa, apaixona-se por Hugonell, um jovem de 18 anos. Hugonell, porém, não corresponde à moça. A jovem (como em uma das versões portuguesas) coloca uma taça de prata nos pertences do rapaz e acusa-o de roubo. Rapidamente ele é preso e condenado à forca. Neste ponto a história coincide com a versão portuguesa. Um forasteiro, acusado de roubo, sem ninguém para defende-lo. O rapaz é enforcado (na versão espanhola dá-se de fato o enforcamento).

Aqui a história ganha duas versões. Numa, os pais do jovem, apesar da tristeza, seguem para Compostela, sendo que na volta passam pelo local. E na outra, deteem-se e rezam para o Apóstolo, pois mais nada havia a fazer.

As versões se convergem novamente, quando os pais chegam próximo ao corpo do filho enforcado. A mãe em prantos, aproxima-se do corpo do filho, quando ouve sua voz, dizendo que continuava vivo porque o Apóstolo e a Virgem o seguravam.

Os pais correm ao juiz para dizer que o filho continua vivo, e este não acredita. O juiz estava quase a comer, e afirma que o jovem estava tão vivo quanto o galo e a galinha que estava prestes a comer até ser importunado. Naquele momento, galo e galinha, voltam à vida e saem voando e cacarejando alegremente.

O juiz corre ao local onde estava o jovem, ordenando que fosse devolvido à família e que o galo e a galinha fossem levados à igreja como prova do milagre.

Dizem que, até os dias de hoje, é mantido um galo e uma galinha, vivos, na catedral de Santo Domingo de la Calzada, para recordar este milagre. E há um dito popular que diz:

En Santo Domingo de la Calzada, cantó la gallina después de asada.

Mais do que uma lenda portuguesa ou espanhola, esta é uma lenda ibérica, ligada ao Caminho de Santiago de Compostela. E seja o galego ou o alemão, o infeliz acusado injustamente, o certo mesmo é que um galo cantou depois de morto.

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