Caboclo d’Água


Rio São Francisco

Rio São Francisco

O Caboclo d’Água, também chamado de Negro d’Água e Bicho d’Água, é um ser mítico originário do imaginário dos moradores ribeirinhos do Rio São Francisco, sendo considerado defensor do rio, assombrando pescadores e navegantes mais atrevidos que passam pelo Velho Chico. É provável que sua origem seja algum grande jacaré ou sucuri, animais estes que devorariam os ribeirinhos de alguma localidade próxima ao rio.

Existem outros seres fantásticos, que devido a sua descrição e histórias relacionadas, podem muito bem ser o mesmo ser, ou ao menos ter uma origem comum, como o Minhocão, o Boiuna, a Cobra-Grande, etc.

Mas, considerando todo o imaginário criado em torno da figura mítica, seria o Caboclo d’Água responsável por afundar embarcações que não estivessem devidamente protegidas contra ele. Esta seria uma das razões para os barcos que navegavam pelo São Fancisco terem sempre à proa uma carranca, figuras masculinas assustadoras que recebiam dos donos dos barcos nomes femininos.

Uma outra maneira de acalmar o Caboclo d’Agua era lançar fumo de corda às águas do rio, ou cravar facas no fundo das canoas por se acreditar que o aço afugentaria seres sobrenaturais, incluindo o Caboclo d’Água. Também seria muito útil para espantá-lo pintar uma estrela embaixo do barco.

Representação de um Cíclope da mitologia grega.

Representação de um Cíclope da mitologia grega.

Dizem os nativos que este ser é gigantesco e musculoso (alguns dizem que é baixo), com pele bronzeada e muito grossa, tão grossa que as balas das armas não a penetrariam. Possuiria um único e grande olho na testa. Seria muito ágil ao se locomover, vivendo sempre próximo às margens do rio ou no rio. Dizem que quando sai do rio é para vingar-se ou fazer algum favor. Alguns acreditam que tem poderes para estar em vários lugares ao mesmo tempo. Uns dizem mesmo que ele moraria no lugar mais profundo do rio, em uma caverna cheia de ouro.

Esta parte da descrição que afirma que o Caboclo d’Água teria um único olho na testa, nos lembra sobre o mito grego dos Cíclopes, sendo que alguns eram considerados seres sem leis ou regras morais, que alimentavam-se inclusive de carne humana, e habitavam cavernas.

Se não gostasse de um pescador o Caboclo d’Água afugentaria os peixes para que o pescador nada conseguisse pescar. Mas se o pescador lhe fizesse um agradozinho ajudaria na pesca, tornando-a muito farta.

Poderia aparecer na forma de outros animais, como afirma o relato de um pescador. Este pescador teria visto um animal boiando no rio, quando aproximou-se percebeu que era um cavalo. Enquanto procurava a marca para avisar ao dono sobre a morte do animal, o cavalo teria afundado repentinamente e o barco começado a mexer-se. Ao olhar para o outro lado, viu o Caboclo d’Água segurando o barco para virá-lo. O pescador teria então atirado fumo às águas e o Caboclo d’Água mergulhado às cambalhotas para pegar o fumo, esquecendo do pescador.

Fique agora com a história de Guarapiru e seu encontro com o Caboclo d’Água, encontrada no site Velho Chico.

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CABOCLO-D’ÁGUA

Guarapiru, chefe de uma tribo de índios das margens do Rio São Francisco, gostava de visitar a cidade dos brancos. Divertia-se tanto lá, que decidiu mudar-se em definitivo. Apesar da oposição de sua família, Guarapiru quebrou seu arco e flechas, jogou-os longe e partiu, levando apenas a rede onde dormia.

Caminhando junto ao rio, seguiu para a cidade. A noite chegou e, como estava cansado resolveu dormir ali mesmo e entrar na cidade de manhã, pois também não era muito seguro a um índio aparecer numa cidade à noite. Procurou uma árvore onde pudesse colocar a rede, deitou-se e adormeceu, sonhando com a cidade, tão diferente do lugar que deixara.

Horas depois, já ao romper do dia, foi acordado por uma voz forte que cantava uma estranha canção. Ficou curioso, levantou-se e foi ver quem estava cantando. Viu um gigante, de pé sobre uma enorme pedra no meio do rio, os braços estirados na direção do sol nascente. Prestando mais atenção, o moço percebeu, sob a água, uma enorme gruta de ouro. Era a casa do gigante. Conhecendo a mania dos brancos pelo ouro, Guarapiru pensou:

“Vou guardar bem o lugar. Mais tarde, quando eu fizer amizade com os brancos, organizarei uma expedição e voltarei aqui. Conseguirei uma boa quantidade de ouro e, em troca, serei um chefe entre eles”.

Depois de sair dali, com todo o cuidado para não ser visto pelo gigante, retirou a rede e seguiu para a cidade. Como o índio era muito simpático, não tardou a conseguir vários amigos entre os brancos. O que mais lhe valeu, porém, foi sua habilidade na caça e na guerra. Participou de diversas batalhas e lutou com tanto conhecimento e valentia, que logo foi nomeado oficial dos exércitos reais. Se um de seus irmãos o visse agora, não poderiam reconhecer no oficial bem fardado, cheio de pose e orgulho, o humilde Guarapiru.

Concluiu que era chegada a hora de buscar o ouro do gigante e se tornar chefe dos brancos. Já tinha um plano em mente. Tratou, portanto, de organizar uma expedição. Tão logo revelou que sabia onde encontrar ouro em grande quantidade, apareceram tantos interessados em acompanha-lo que ele pôde escolher, à vontade, os que achou mais indicados. Estava em plenos preparativos, quando foi procurado por uma velha índia sua conhecida e que também vivia na cidade.

– Ouça o que vou dizer, meu filho, pediu ela. É um aviso e um conselho. Não vá em busca daquele ouro.

Ele achou graça:

– Por que? Não vá dizer que existe algum feitiço!

– Não brinque com isso, prosseguiu a índia. A esta hora, o Caboclo-d’Água já sabe de sua intenção. Se você se aproximar muito de lá, não escapará à morte.

Desta vez, ele riu até não agüentar mais.

– Que é isso? Então, não sabe quem sou? Não têm conta os combates que participei. Não sei quantos foram os inimigos que tombaram sob meus golpes, primeiro de tacape, depois de espada. Jamais recuei diante do perigo!

– Sei que você é valente, disse a índia. Valente contra as feras e contra homens. Mas nunca enfrentou o sobrenatural. Não há quem possa com o Caboclo-d’Água. Ouça o meu conselho: desista dessa idéia.

Guarapiru agradeceu e se despediu com um sorriso de superioridade. Na tarde do mesmo dia, a expedição partiu rumo à gruta do gigante, onde chegou ao cair da noite. Acamparam à beira do rio e ficaram esperando o amanhecer. Amanheceu um dia festivo: sol brilhante no céu muito límpido, aves cantando, flores se abrindo. Os homens começaram a se preparar. Nisto, alguém estranhou a ausência do chefe da expedição. Os homens se espalharam pelo lugar, gritando o nome do chefe. Nada.

Depois de muita procura, resolveram fazer uma última tentativa, no fundo do rio. Alguns homens mergulharam e encontraram o corpo de Guarapiru sob umas pedras, quase enterrado no lodo do rio. O Caboclo-d’Água apanhara Guarapiru e o arrastara para as profundezas das águas…

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Fontes:

O Caboclo D’Água: conto de Antônio Carlos Affonso dos Santos, publicado em Recanto das Letras.

Rota Brasil Oeste – Galeria de Imagens do Rio São Francisco

Velho Chico – Caboclo d’Água

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9 comentários sobre “Caboclo d’Água

  1. Olá, obrigada pela lenda, e parabens por darem continuidade nas lendas brasileiras, assim nossas crianças iram contar a lenda as crianças delas e assim por diante.

  2. O único Caboclo D’água verdadeiro vive no Rio São Francisco, próximo de sua nascente na Serra da Canastra em Minas Gerais, conforme pode ser constatado através da leitura de “UM CERTO SER – CAMINHAR DE PESCADOR” publicado pela Editora Scorteccci em 2.009, de Giovanni de Paulo.
    Literatura infanto-juvenil.

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