Azulejos Portugueses – século XVII (Parte 01)


Há uns dois meses demos uma idéia geral da azulejaria portuguesa nos séculos XV e XVI (veja post aqui). Hoje falaremos do século XVII, quando a produção portuguesa de azulejos consolida-se e ganha características próprias, para atender as necessidades locais.

É no século XVII que aparecem os Azulejos de Repetição, utilizados na técnica do alicatado ou com padrões que repetidos formavam um desenho mais amplo do que o presente em uma única peça.

Igreja de Santa Maria de Marvila, em Santarém. Exemplo de azulejos de padrão com utilização da técnica do alicatado (faixa central).

Igreja de Santa Maria de Marvila, em Santarém. Exemplo de azulejos de padrão com utilização da técnica do alicatado (faixa central), formando um enxaquetado, datado de princípios do século XVII.

A técnica do alicatado é uma herança dos tempos da azulejaria árabe, onde as peças cerâmicas monocromáticas eram posteriormente cortadas e reagrupadas com outras peças de cores diferentes para formar um desenho. Como este trabalho era feito com um alicate, a técnica ficou conhecida por este nome. Os azulejos do século XVII, ao menos até cerca de 1630, eram muito empregados com a utilização do alicatado. Além do desenho formado pela junção as peças cortadas, havia uma espécie de barra delimitando o trabalho, que servia não apenas como acabamento mas como elemento de integração entre o azulejo e a construção como um todo. As cores predominantes nestes azulejos eram o azul e branco, e o verde e branco. Em alguns exemplos ainda existentes desta utilização do azulejo pode-se notar que além da aplicação com a técnica do alicatado, existiu o uso desta técnica associada com azulejos de padrão.

Exemplo de tapete de azulejos, com padrão parras e uma barra em todo o contorno, do século XVII (Museu Nacional do Azulejo).

Exemplo de tapete de azulejos, com padrão parras e uma barra em todo o contorno, do século XVII (Museu Nacional do Azulejo).

Os azulejos de padrão são aqueles que se usam até os dias de hoje, com um desenho específico em uma peça, que junta às outras formam um desenho maior, ou um novo desenho com o conjunto dos motivos repetidos. Em comparação com o colorido dos azulejos do século anterior e os de origem árabe, são bem menos coloridos, e os desenhos mais simples. Este tipo de azulejo não precisava ser cortado e encaixado para formar o desenho como os empregados com o alicatado. Era necessário apenas dispo-los um ao lado do outro para formar o desenho planejado, o que diminuia os custos de sua colocação. Por esta razão popularizaram-se, tornando acessível a um maior número de pessoas o uso do revestimento de azulejos. Também os Azulejos de Padrão eram acompanhados de barras, ou cercaduras, para delimitar o trabalho azulejado e integrá-lo à construção, sendo os motivos predominantemente vegetalistas e geométricos, pintados de azul e amarelo sobre fundo branco.

É muito característico deste princípio de século XVII o uso do enxaquetado, uma composição com os azulejos formando desenhos geométricos, seja com a técnica do alicatado ou com azulejos de Padrão. Um exemplo de enxaquetado pode ser encontrado na Igreja de Santa Maria de Marvila, em Santarém, com conjuntos de azulejos de 1617 e da década de 1630. Outro exemplo de decoração elaborada com estes azulejos são os chamados tapetes. Formavam padrões multicoloridos e com formas variadas em sua composição, lembrando os desenhos tradicionais de tapetes, sempre com barras, para delimitar o trabalho e integrá-lo ao conjunto da construção onde era empregado.

Capela de São Sebastião, Ericeira, erguida no século XVII, com tapetes de azulejos inclusive no teto.

Capela de São Sebastião, Ericeira, erguida no século XVII, com tapetes de azulejos inclusive no teto.

A inspiração para a criação dos desenhos destas peças cerâmicas teve diversas fontes. Os primeiros Azulejos de Padrão portugueses tiveram em seus desenhos decoração maneirista, com influência italiana e flamenga (região da atual Bélgica). Os desenhos destes azulejos eram recriações dos motivos utilizados em pavimentos do Renascimento, com formas de cruz alternando com outras formas geométricas justapostas e delineadas, com barras, ou frisos, delimitando o padrão, barra esta que em conjunto formava um motivo à parte, originando uma malha solta em arabescos, mas integrada tanto com a composição formada pelos azulejos em conjunto, como com a construção onde eram empregados. Eram compostos a princípio por módulos de 4 azulejos, o que posteriormente expandiu-se para números imensos, chegando a conjuntos de centenas de peças.

Um exemplo destes azulejos são os Ponta de Diamante, simulando prismas e dando um efeito de relevo ao desenho formado, através da pintura. Quer dizer, ao olhar para o conjunto temos a impressão que há um relevo, mas na verdade é apenas uma ilusão de ótica devido à forma como foram pintados, com uma espécie de “sombra” num ângulo de 45º. Além destes, também existiam os óvulos, dardos, ondas, palmetas, pirâmides e cartelas. O Ponta de Diamante era conhecido na Espanha como Padrón de los Clavos, ou Padrón del Arzobispo, pois, a princípio, foi fabricado para satisfazer uma encomenda feita por um arcebispo de Toledo, no século XVI. Havia também as parras, ou folhagens, motivos muito utlizados neste período. Na verdade apenas o nome popular é Parras, pois as folhas quase nunca eram de parreiras, também este motivo sendo de origem italiana.

Painel figurativo, com motivo religioso, datado entre 1630 e 1650, da Igreja da Assunção da Atalaia, Vila Nova da Barquinha, Santarém.

Painel figurativo, com motivo religioso, datado entre 1630 e 1650, da Igreja da Assunção da Atalaia, Vila Nova da Barquinha, Santarém.

Outra característica da azulejaria do século XVII foi a utilização de gravuras para criar ou recriar paisagens, passagens bíblicas ou mitológicas. Não são apenas um revestimento decorativo, também são uma forma de expressar gostos de uma época. Além dos gostos artísticos expressados nos azulejos, temos como encontrar em painéis deste século, um pouco de como pensavam seus criadores e os compradores. A moral, a literatura, os gostos artísticos definem as características dos azulejos, principalmente nos painéis.

Os pintores de azulejos, com o grande aumento da procura do produto para revestimentos, acabaram por buscar inspiração em pintores e ilustradores europeus, transportando para o azulejo imagens que faziam parte do imaginário da época, sendo transferidas para a peça as imagens, com uma ampliação em sua escala. Há que se levar em conta que, muitas das imagens originais eram feitas por artistas com uma formação específica. Já os azulejistas não tinham uma formação ligada às artes, fazendo assim uma interpretação livre de muitos dos desenhos reproduzidos. Por vezes uma gravura ganhava novas conotações ou várias leituras, sendo uma mesma cena utilizada para compor diversas outras. Quer dizer, em um painel com uma imagem bucólica pode-se encontrar detalhes de uma ilustração, um personagem de outra e um fundo paisagístico de outra mais, por exemplo, não sendo somente uma mera reprodução da ilustração, mas sim uma recriação.

____________________________________________________________________________________________

Para saber mais:

A Arte do Azulejo em Portugal

Fábrica Cerâmica Viúva Lamego

Museu Nacional do Azulejo

O Azulejo em Portugal

O Azulejo em Portugal ao longo dos séculos

About these ads

2 opiniões sobre “Azulejos Portugueses – século XVII (Parte 01)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s